Contratos em espécie Comodato (art. 579 a 585 do CC/02) 1. Conceito: é o empréstimo gratuito de bem infungível, móvel ou imóvel, no qual o comodante transfere a posse direta ao comodatário por prazo determinado. A característica do contrato de comodato é a infungibilidade do bem. Em que pese todo o bem fungível ser móvel, nem todo o bem móvel é fungível. A propriedade segue nas mãos do comodante. Comodato Ad pompam vel ostentationem: é uma hipótese excepcional de comodato, pois este é o empréstimo de bem fungível que se torna infungível, por disposição das partes. Exemplos: enfeites, ornamentações que se tornam infungíveis pelo trabalho empregado. Res perit domino: a coisa perece para o dono. Essa regra é aplicada na hipótese de perecimento da coisa, objeto de comodato, sem culpa do comodatário, que seria o devedor da coisa no término do contrato. Exemplo: Pedro emprestou o automóvel para Maria. Ela, ao transitar pela cidade, foi roubada. Nesse caso, em razão da comodatária não ter culpa pelo roubo, ela não deverá nada a Pedro. 2. Natureza jurídica: é um contrato unilateral, pois gera obrigações para apenas um das partes (doutrina majoritária). Há uma parte pequena da doutrina que entende que o comodato gera obrigações para ambas as partes, chamando-o de comodato imperfeito, pois o comodante teria a obrigação de não poder exigir a entrega do bem antes do prazo acordado. Ainda, é um contrato gratuito, típico (normatizado no CC/02), real (somente se aperfeiçoa com a entrega da coisa). 3. Obrigações do comodatário: se as obrigações descritas no contrato de comodato e na lei não forem obedecidas, ter-se-á a extinção contratual pelo seu inadimplemento, cabendo perdas e danos. a. Conservar a coisa como se fosse sua: isso mostra que o comodato é um contrato de confiança. A análise da culpa do comodatário, na hipótese deste não ter conservado de maneira ideal, é feita pela ótica em concreto (individual, ou seja, como ela se comporta com as coisas dela). O comodatário é responsável pelos danos causados à coisa, mediante sua culpa. b. Pagar as despesas de conservação do bem: as despesas de conservação são do comodatário. Exemplo: luz, água, condomínio, IPTU. Vide art. 584 do CC/02: O comodatário não poderá jamais recobrar do comodante as despesas feitas com o uso e gozo da coisa emprestada. c. Se a coisa corre riscos de deterioração, o comodatário deve salvá-la antes de seus próprios objetos, sob pena de ser responsabilizado, inclusive na hipótese de caso fortuito e força maior. d. O uso da coisa deve ser feito de acordo com os termos do contrato, sob pena de inadimplemento contratual. e. O comodatário deve restituir a coisa, findo o prazo ajustado, sob pena de pagar o aluguel arbitrado pelo comodante (art. 582 do CC/02). Esse valor do aluguel não precisa ter correlação com o de mercado, pois tem caráter de sanção pelo descumprimento do acordo (Enunciado n. 180 do CJF). Entretanto, esse montante não pode ultrapassar o dobro do valor de mercado (entendimento jurisprudencial recente). Terminado o prazo, o comodatário não restitui o bem, a ação judicial cabível é : I. Bem imóvel: reintegração de posse; II. Bem móvel: busca e apreensão.
Se o comodato é feito sem prazo, presume-se que este é o necessário ao uso concedido. Em caso de motivo urgente por necessidade imprevista, não se aplicam as regras do comodato, sobre devolução da coisa. Art. 585 estabelece que em havendo mais de um comodatário, estes serão solidários entre si. Atenção, pois, em regra, a solidariedade não se presume. Mútuo (art. 586 a 592 do CC/02): 1. Conceito: é o empréstimo de bem fungível, em que o mutuante transfere ao mutuário a propriedade de um bem móvel fungível e o mutuário se obriga a restituir, findo o contrato, um bem no mesmo gênero, quantidade e qualidade. O elemento que diferencia o mútuo do comodato é a consumação do bem, devolvendo outro equivalente. Ainda o comodato transfere posse, enquanto o mútuo transfere a propriedade. 2. Natureza jurídica: o mútuo é um contrato unilateral (gera obrigação apenas para o mutuário), gratuito (o empréstimo de dinheiro é uma hipótese excepcional, chamado mútuo feneratício, pois admite onerosidade cobrança de juros compensatórios, limitados pela lei de Usura, vide súmula 596 do STF) e real (somente se aperfeiçoa com a entrega da coisa). O art. 591 do CC permite o chamado ANATOCISMO (capitalização de juros cobrança de juros sobre juros) no mútuo feneratício. Somente poderá ser feito anualmente. O mútuo é um contrato de empréstimo, que o bem emprestado deve ser devolvido no prazo avençado. Se não for convencionado tal prazo, conforme o CC/02, eles se extinguirá nos seguintes casos: I. Na próxima colheita, se for de produtos agrícolas; II. Com a semeadura, se for de consumo; III. Em no mínimo 30 dias, se for de dinheiro; IV. No espaço de tempo que declarar o mutuante, se for de qualquer coisa fungível. Mútuo feito a pessoa menor: deve ser autorizado pelos representantes legais, sob pena de não poder ser exigido do mutuário e fiadores, salvo nas seguintes hipóteses: a. Se a pessoa, de cuja autorização necessitava o mutuário para contrair o empréstimo ou ratificar posteriormente. b. Se o menor, estando ausente o representante legal, se viu obrigado a contrair o empréstimo para seus alimentos habituais. c. Se o menor tiver bens ganhos com o seu trabalho. Mas, em tal caso, a execução não poderá ultrapassar a força desses bens. d. Se o empréstimo reverteu em benefício do menor. e. Se o menor obteve o empréstimo maliciosamente;
Mandato (art. 653 a 692 do CC) 1. Conceito: é o contrato pelo qual o mandatário (é quem recebe os poderes outorgados pelo mandante) recebe do mandante poderes para, em seu nome, praticar atos ou administrar interesses. 2. Características do mandato: o mandato exige a manifestação de duas vontades (a outorga de poderes por parte do mandante e a aceitação por parte do mandatário). A aceitação também pode ocorrer de forma tácita (sem assinatura do mandatário), esta hipótese ocorre quando o mandatário começa a executar o objeto do contrato de mandato. O mandato pode ser verbal ou escrito. A forma mais comum é o escrito. Lembrando que o mandato verbal dependerá de prova, a qual é feita por testemunha. Se a prova for exclusivamente testemunhal, vale a pena ressaltar o art. 227 do CC/07, que diz q esse tipo de prova somente poderá ser produzida nos negócios que não ultrapassem dez salários mínimos. Ainda, o mandato é um contrato bilateral, pois gera obrigações para o mandante e para o mandatário. O mandato pode ser um contrato gratuito ou oneroso. Assim, deverá haver a previsão indicativa de onerosidade. Entretanto, apresenta-se a exceção de presunção de onerosidade, se o ofício do mandatário se assemelhar ao objeto do mandato. Exemplo: procuração outorgada ao advogado. Outrossim, o mandato é um contrato comutativo e intuito persona (há uma relação de confiança entre as partes). Portanto, é um contrato de confiança e, sendo assim, caberá resilição tanto no comodato, no mútuo, como no mandato. Essa regra do intuito persona é excetuada com a possibilidade de substabelecimento. A procuração é o instrumento do mandato. Excesso de mandato: ocorre quando o mandatário vai além dos poderes que lhe forem atribuídos. No caso do excesso do mandato, o ato só vincula o mandante, se for ratificado. Quanto à forma de constituição do mandato, esta é livre, pois a forma pública só é exigida quando a lei determinar. A outorga do mandato está sujeita a forma exigida por lei para o ato a ser praticado. Exemplos: I. No caso da outorga de uma procuração para a representação na assinatura de uma escritura pública de compra e venda de um imóvel, este instrumento deverá ser necessariamente público, pois se está dando poderes ao mandatário atuar de maneira pública. II. O art. 819 do CC/02 proíbe a fiança verbal. Dessa forma, deverá ser feito por escrito o mandato para o ato a ser praticado. O reconhecimento de firma no instrumento particular de mandato será essencial para ele produzir efeitos perante terceiros. O STJ já decidiu que o mandato ad judicia (outorgado para advogado) deve ter reconhecimento de firma para o exercício de poderes especiais. O instrumento particular de mandato deve conter: A indicação do lugar em que foi passado; A qualificação do outorgante e do outorgado; A data e o objetivo da outorga, com a designação e a extensão dos poderes conferidos. Substabelecimento: pode ser feito por instrumento particular, mesmo que a procuração seja pública (art. 655 do CC/02). As partes são: I. Substabelecente; II. Substabelecido. O mandatário pode substabelecer o mandato, salvo se houver cláusula proibitiva de substabelecimento. O mandatário fica responsável pelos atos da pessoa escolhida, se esta agir com culpa. Quando o mandato autoriza o substabelecimento só serão imputáveis ao mandatário responsabilidade sobre os atos da pessoa escolhida, se agiu com culpa na escolha (culpa in eligendo) ou culpa nas instruções dadas. Há dois tipos de substabelecimentos: I. Substabelecimento com reserva de poderes: ocorre quando o mandatário passa para alguém os poderes que possui, porém os mantém. II. Substabelecimento sem reserva de poderes: ocorre quando o mandatário é substituído definitivamente no mandato.
Os atos praticados por quem não tem mandato, ou tenha sem poderes suficientes são ineficazes em relação ao mandante, exceto se ele os ratificar, por ratificação expressa, que retroage a data da prática do ato. O mandatário tem o direito de reter o objeto da operação que lhe foi cometida, quanto baste para pagamento de tudo que lhe é devido em consequência do mandato. É uma espécie de compensação autorizada pela própria lei. Nesta seara, há o Enunciado n. 184 do CJF, que determina a possibilidade de se fazer o reembolso de despesas nessa compensação. A pessoa que age sem ter poderes ou contra eles é mero gestor de negócios (art. 861 a 875 do CC/02). O maior de 16 e menor de 18 anos, não emancipado, pode ser mandatário, mas o mandante não terá ação contra ele, senão de conformidade com as regras gerais previstas nos artigos 180 e 181 do CC/02. O poder de transigir (para fazer transação) não importa de firmar compromisso. 3. Espécies de mandato: 3.1. Mandato Singular: é aquele que possui apenas um único procurador; 3.2. Mandato Plural: é aquele que tem mais de um mandatário. Esse mandato plural subdivide-se em várias espécies: a. Mandato Plural Conjunto: é aquele em que os vários mandatários devem agir conjuntamente. b. Mandato Plural Solidário: é aquele em que os vários mandatários podem agir isoladamente, porém, importa o compromisso de solidariedade entre eles. c. Mandato Plural Fracionário: é aquele em que cada mandatário age em um determinado setor, ou seja, os poderes são divididos. d. Mandato Plural Substitutivo: é aquele em que cada mandatário poderá agir na falta do outro, respeitada a ordem de nomeação. 3.3. Mandato Expresso: é aquele que contém poderes expressos; 3.4. Mandato Tácito: é aquele em que a aceitação se dá por atos que a presumem. 3.5. Mandato Verbal: é aquele feito oralmente; 3.6. Mandato Escrito: é feito por instrumento público ou particular; 3.7. Mandato Presumido: é aquele em que o mandatário silencia-se quanto à aceitação, mas o seu objetivo é relacionado com a sua profissão. Exemplo: advogado e despachante. 3.8. Mandato Civil: é aquele feito para praticar atos da vida civil. 3.9. Mandato Mercantil: é aquele feito para a prática de atos empresariais, do comércio; 3.10. Mandato Geral: é aquele que compreende todos os negócios do mandante; 3.11. Mandato Especial: é aquele que se refere a um ou mais negócios específicos; 3.12. Mandato em Termos Gerais: é aquele que confere apenas poderes de administração, que são os poderes comuns do mandato. 3.13. Mandato com Poderes Especiais: é aquele que confere poderes de administração especial. 3.14. Mandato Ad Negotia: é aquele que confere poderes para atuação fora do judiciário. 3.15. Mandato Ad Juditia: é aquele que confere poderes para atuação em juízo. Esse mandato está atrelado às normas vigentes no CPC e, supletivamente, as descritas no CC/02. 3.16. Mandato em Causa Própria: é aquele que autoriza o mandatário a celebrar um contrato com ele mesmo. 4. Extinção do Mandato: a. Revogação do mandante; b. Renúncia do mandatário; c. Morte de uma das partes; d. Interdição de uma das partes; e. Mudança de estado que inabilite o mandante a conferir os poderes ou mandatário a exercê-los. f. Término do prazo ou conclusão do negócio;
5. Normas sobre extinção do mandato: Cláusula de Irrevogabilidade: mandato com essa cláusula pode ser revogado? Se no mandato existir cláusula de irrevogabilidade e o mandante o revogar, ele pagará perdas e danos. Quando essa cláusula for condição de um negócio bilateral ou tiver sido estipulada no exclusivo interesse do mandatário, a revogação do mandato é ineficaz. O mandato em causa própria não se revoga e nem se extingue com a morte de qualquer uma das partes. Neste caso, o mandatário está dispensado de prestar contas ao mandante e pode transferir bens móveis ou imóveis, objeto do mandato. A revogação do mandato notificada somente ao mandatário não se opõe ao terceiro de boa-fé. Se for comunicado ao mandatário a nomeação de outro para o mesmo negócio considera-se revogado o anterior. São válidos negócios praticados com terceiros de boa-fé, se este e o mandatário ignoravam a morte do mandante ou a extinção do mandato. Se falecer o mandatário pendente o negócio, os herdeiros terão a possibilidade de dar continuidade a execução do mesmo, desde que exista urgência.