ANÁLISE COMPARATIVA: CASAS BERTOLINI E PORTO DO SOL Implantação e Partido Formal CASA BERTOLINI CASA PORTO DO SOL Local: Bento Gonçalves-RS Local: Porto Alegre- RS Ano: 2008 Ano: 2010 Escritório MAPA Escritório MAPA Autoras: Ana Elísia da Costa e Thaís Gerhardt A casa Bertolini está localizada na cidade de Bento Gonçalves, região serrana do Rio Grande do Sul, em uma área que originalmente fazia parte de um sítio rural. O lote no qual ela se insere é amplo (960m²) e possui uma topografia plana com um leve declive no limite norte. A residência se configura em um prisma compacto isolado no lote e busca em seu arranjo linear e em seu leve descolamento do solo uma melhor integração do edifício com a paisagem exuberante do exterior. Já a casa Porto do Sol (2010) está situada em um condomínio residencial da região sul da cidade de Porto Alegre. O condomínio em que se insere possui lotes de pequenas dimensões, resultando, normativamente, em edificações entre divisas. Para tornar a relação com os limites exteriores menos impactante e poder usufruir de um melhor panorama, este projeto modifica a topografia. O terreno é rebaixado na parte frontal e sobre ele se eleva um volume, gerando uma passagem coberta para a residência e abrigo para os veículos. O volume social e de acesso é posicionado ao fundo do terreno e o bloco de serviços se torna o conector entre os dois volumes principais. No resultado desta composição percebe-se um pátio interno central, que garante melhores visuais do interior para exterior. Nas duas situações, percebe-se que as formas se moldam ao lote ou o modificam, buscando usufruir melhor a paisagem. (Figura 1). (a) (b) Figura 1: (a)casa Bertolini (2006); (b) Casa Porto do Sol (2010). Grupo MAPA
O tratamento dos volumes evidencia o caráter compacto dos mesmos, sobre os quais são operadas pequenas subtrações. Na Bertolini, a subtração evidencia a casca envoltória do prisma, sendo definidos um eixo de passagem transversal ao prisma, onde ocorre o acesso da casa; como também uma pequena varanda na fachada posterior, para onde se abrem todos os ambientes. O tratamento do prisma original em concreto armado contrasta com a alvenaria em branco das paredes resultantes das operações de subtração. Este contraste é enfatizado pelo arranjo das aberturas, predominando no concreto o cheio e, nas superfícies brancas, o jogo ritmado de vazios, ou janelas. Merece destaque as aberturas circulares que iluminam o corredor da suíte casal e que rasgam a cobertura da varanda de acesso da casa, configurando zenitais. (Figura 2) Figura 2: Esquema de subtração da Casa Bertolini (2006).Grupo MAPA Fonte: GERHARDT, Thaís, 2014. Na casa Porto do Sol, a passagem sob o volume frontal, bem como vazio do pátio central, enfatizam a percepção de um volume compacto, de onde foram retiradas algumas porções. Diferente da Casa Bertolini, aqui não é explorado o contraste cromático entre o volume original e as paredes resultantes da operação de subtração. O tratamento cromático em cinza confere unidade ao conjunto, estando explícito no concreto aparente das paredes ou peças estruturais e nas gelosias feitas com chapas furadas, que protegem as grandes aberturas do perímetro do pátio e das fachada frontal e posterior. (Figura 3) Figura 3: Esquema de subtração da Casa Porto do Sol (2010).Grupo MAPA Fonte: GERHARDT, Thaís, 2014. As proporções dos volumes são regidas por uma modulação. No caso da Bertolini uma grelha de oito módulos transversais configura a planta e regra a composição de cheios e vazios das fachadas. Na Porto do Sol, uma grelha transversal no lote
rege a estrutura da edificação, enquanto outros três módulos longitudinais organizam os elementos de composição internos (Figura 4) (a) (b) Configuração funcional Figura 4: (a)casa Bertolini (2006); (b) Casa Porto do Sol (2010). Grupo MAPA Ambas as casas têm seus programas organizados em dois níveis, sendo o inferior destinado a garagem. Na Bertolini, a garagem e adega se concentram em um semi-subsolo. No térreo elevado, o setor íntimo é disposto na porção oeste do volume, concentrando o setor social na parte central. Uma circulação sugerida e periférica faz a ligação entre os setores. Os elementos de composição irregulares, como serviços e banheiros, são aceitos no interior do edifício, liberando os demais ambientes e circulações periféricas para as melhores visuais. A varanda de acesso e a varanda dos quartos configuram um ambiente em L, que faz a transição entre interior e exterior. Na Porto do Sol, diferentemente da Bertolini, o acesso se dá junto ao abrigo dos veículos e um pátio central faz a transição deste abrigo para a residência. O setor social é, portanto, inserido na porção posterior da casa e o setor íntimo na parte frontal. O arranjo destas duas alas se configura como plantas-livre, que exploram as visuais tanto do pátio interno, quanto dos recuos frontal ou posterior. Em contraposição, os elementos irregulares de composição cozinha, escada, banheiros - se concentram linearmente na ala lateral que conecta os setores social e íntimo. Nas três alas resultantes social, serviço-conectora, íntima -, a circulação é sugerida ou espacializada na sua periferia, mantendo uma relação visual com o pátio central. (Figura 5)
(a) (b) LEGENDA: setor social setor íntimo setor serviço varanda/pátio elementos irregulares circulação interna Assim, entre as duas casas, percebe-se a intenção de concentrar ou internalizar os elementos irregulares de composição, tornando mais livre o arranjo de quartos e salas, que potencialmente dilatam suas dimensões para o exterior. Espacialidade Figura 5: (a)casa Bertolini (2006); (b) Casa Porto do Sol (2010). Grupo MAPA Acessando à casa Bertolini, tem-se se um espaço de transição do exterior para o interior a varanda, cuja iluminação zenital desenha sombras variadas no piso e paredes. Dali, se ingressa no pequeno hall, que promove uma significativa compressão espacial o espaço é pequeno e iluminado indiretamente pela sala, que se insinua na frente (Figura 5). Transposto este hall, a experiência espacial promove uma dilatação espacial: o deslocamento se dá num espaço de generosas dimensões, com três ambientes integrados e com aberturas laterais que se apoiam entre os planos horizontais. Os planos contínuos envidraçados que se abrem para a varanda a norte, o jogo de luz e sombra das janelas verticais a sul e a cozinha no eixo de simetria do ambiente definem distintos pontos focais de interesse e, consequentemente, uma tensão visual multidirecional. (Figura 6) Figura 6: Casa Bertolini (2006). Grupo MAPA
O ingresso no corredor íntimo e a passagem pelo pequeno hall que se abre para o banheiro promovem uma nova compressão espacial, que prepara o usuário para o ingresso no universo mais privado da casa. As dimensões do quarto e suas aberturas de modestas dimensões para o exterior proporcionam um nova dilatação espacial, mas que é menos intensa do que aquela vivenciada na passagem pelo social. Desenha-se um quarto que busca se conectar com o exterior, mas que é ainda um território do indivíduo. (Figura 7) Figura 7: Casa Bertolini (2006). Grupo MAPA Assim, do ingresso ao quarto, a experiência espacial na casa Bertolini define um ritmo alternado entre compressão e dilatação espacial - compressão (hall), dilatação (estar), compressão (corredor) e dilatação (quarto). Este ritmo define o caráter da casa e revela sua qualidade espacial. No percurso de acesso da casa Porto do Sol, o ritmo alternado entre compressão e dilatação espacial também é explorado: do espaço coberto e em penumbra sob a ala íntima, ao espaço aberto e saturado de luz do pátio central. O ingresso na sala, assim como na Bertollini, revela um espaço de amplas dimensões e com vários pontos focais de interesse: as grandes aberturas que revelam os pátios, os efeitos de luz e sombra das placas furadas que protegem as aberturas, a cozinha no eixo de simetria do espaço. (Figura 8) Figura 8: Casa Porto do Sol(2010). Grupo MAPA
O deslocamento até os quartos releva uma compressão espacial progressiva, seguida de uma dilatação: (1) nos corredores, apesar das mudança de dimensões, a abertura visual para o pátio ainda indica a passagem por um espaço de transição; (2) no ingresso do hall íntimo, que dá acesso ao closet, o espaço se comprime; (3) para depois novamente se dilatar, com as grandes dimensões dos quartos e suas aberturas. (Figura 9) Portanto, há uma convergência na experiência espacial das duas casas, no que se refere a promover um efeito rítmico entre contração e dilatação espacial no deslocamento de vai do acesso aos quartos. Apenas o percurso entre a sala e os quartos define uma espacialidade mais fechada na Bertolini e mais aberta na Porto do Sol. Considerações Finais Figura 9: Casa Porto do Sol(2010). Grupo MAPA Mesmo em terrenos com dimensões e naturezas distintas, bem como com a adoção de soluções tipológicas diferentes entre si, observa-se que casas, de modo convergente, buscam promover a fruição visual do espaço exterior, seja ele natural, seja ele tratado como um panorama artificial dentro do próprio terreno. Além desta característica, outras podem ser apontadas como pontos de convergência nestes dois trabalhos do grupo Mapa: 1) tratamento compacto do volume, que sofre pequenas operações de subtração; 2) concentração ou a internalização dos elementos irregulares de composição, favorecendo a consolidação de plantas fluidas nos setores social e íntimo; 3) consolidação de circulações periféricas nas alas; 4) definição do estar com múltiplos pontos focais de interesse, estabelecendo uma tensão multidirecional. Nestes estares, são convergentes: a) a geometria do espaço, em que vários ambientes se integram linearmente; b) a cozinha simetricamente disposta no eixo transversal do ambiente; c) a disposição de planos longitudinais translúcidos, que dilatam o espaço para o exterior e/ou que exploram efeitos de luz e sombra; 5) no percurso que vai do acesso aos quartos, promoção do contraste rítmico de contração e dilatação espacial.