Apocalipse, capítulo 10 1 Assim como aconteceu no evento dos selos, há um interlúdio entre a sexta e a sétima trombeta, que esclarece o papel dos santos. Esse interlúdio toma os capítulos 10 e 11, mas, como nosso estudo se divide em capítulos, veremos primeiro os acontecimentos concernentes ao capítulo 10. Nesse interlúdio, de forma inédita, João é convidado a participar da narrativa e é a única passagem que tem uma perspectiva presente, e não futura. O anjo anuncia que já não haverá demora na volta de Jesus, por isso a igreja pode se alegrar, mas antes virão tempos difíceis com muita perseguição e martírio. Versículo 1: E vi outro anjo forte que descia do céu, vestido de uma nuvem; por cima da sua cabeça estava o arco-íris; o seu rosto era como o sol, e os seus pés como colunas de fogo, João vê outro anjo forte, porque, no capítulo 5, já havia visto um. Este não é um anjo qualquer, antes um mensageiro especial, pois vem vestido de uma nuvem, alusão à glória de Deus; tem o arco-íris sobre sua cabeça, que simboliza a misericórdia divina; seu rosto brilha como o sol, descrição que remete à majestade de Deus; e seus pés são como colunas de fogo, que inspiram firmeza, semelhantemente aos pés de latão do Cristo. Versículo 2: e tinha na mão um livrinho aberto. Pôs o seu pé direito sobre o mar, e o esquerdo sobre a terra, Há diversos estudiosos que consideram que este livrinho aberto na mão do anjo é o mesmo rolo do qual foram retirados os sete selos, o que o faz ser descrito agora como totalmente aberto. Muitos outros consideram tratar-se de 1 Este estudo não é autoral. Consiste, em sua quase totalidade, na compilação de ideias dos autores citados nas referências, ao final do capítulo.
rolos completamente diversos, e outros ainda entendem haver muitas semelhanças entre os dois, mas não identidade absoluta. Para estes, esse pequeno rolo é parte do rolo inicial e fala especificamente do lugar da igreja nesses acontecimentos que anuncia. Ao descrever o anjo tendo o pé direito sobre o mar e o esquerdo sobre a terra, João enfatiza o domínio exercido por Deus sobre o mundo criado por ele e a importância da mensagem do livrinho para todos. Versículo 3: e clamou com grande voz, assim como ruge o leão; e quando clamou, os sete trovões fizeram soar as suas vozes. Esse clamor em alta voz é algo recorrente no livro de Apocalipse (1.10; 5.2,12; 6.10; 7.2,10; 8.13; 10.3; 11.12,15; 12.10 etc.) e sempre traz revelações importantes. Este clamor, no entanto, parece revestido de importância ainda maior, pois o texto bíblico diz que ruge como leão e se faz acompanhar das vozes de trovões. A voz de Deus é comparada à do leão em Oseias 11.10 e em Amós 3.8, o que nos conduz à figura do anjo forte como um arauto especial de Deus. Em diversas passagens bíblicas, os trovões são expressão da majestade de Deus, de seu juízo ou prenúncio de libertação. O salmo 29 é um exemplo disso e se assemelha à narrativa de João. As vozes dos sete trovões provavelmente trazem um pouco de cada uma dessas realidades. Versículo 4: Quando os sete trovões acabaram de soar eu já ia escrever, mas ouvi uma voz do céu, que dizia: Sela o que os sete trovões falaram, e não o escrevas. João, ao ouvir a voz dos trovões, apressou-se em anotar a mensagem, mas uma voz do céu o impediu, dizendo que seu conteúdo deveria ser selado; João estava impedido de escrever o que ouviu.
O rolo com os sete selos foi aberto, o que estava oculto ao mundo foi revelado, mas as vozes dos trovões devem permanecer desconhecidas. A ordem vem do céu, provavelmente do trono de Deus ou do Cristo. Daniel 12.4 relata a ordem de Deus para que selasse o livro até o fim dos tempos. Talvez as vozes dos trovões só sejam conhecidas posteriormente, todavia o mais importante é perceber que a ordenança vem do trono de Deus, o que evidencia mais uma vez a soberania divina. Ainda que não conheçamos todos os fatos, podemos crer que Deus mantém tudo sob seu controle semelhantemente ao que ocorre com João. Versículo 5: O anjo que vi em pé sobre o mar e sobre a terra levantou a mão direita ao céu, Já vimos que a mão direita é símbolo de autoridade, e o anjo, que levanta sua destra, prepara-se para um ato de grande importância. Versículo 6: e jurou por aquele que vive pelos séculos dos séculos, o qual criou o céu e o que nele há, e a terra e o que nela há, e o mar e o que nele há, que não haveria mais demora, No Antigo Testamento, era comum jurar apoiado na máxima tão certo como o Senhor vive (Nm 14.21; Jz 8.19; 1 Sm 20.3), expressão que, assim como o juramento do anjo, exalta a eternidade de Deus, e isso exatamente no momento em que o fim de todas as coisas é anunciado. O mundo terá um fim, mas Deus é eterno. Deus criou tudo o que há um dos temas centrais de Apocalipse, exerce domínio sobre sua criação e só ele pode colocar termo ao mundo. A divisão tríplice do mundo (céu, terra e mar) revela que nada lhe escapa e tudo lhe pertence. Ao destacar a eternidade e a onipotência de Deus, o anjo anuncia que o tempo do fim chegou. Não haverá mais demora. As profecias reunidas por toda a Escritura terão seu cumprimento. Na narrativa de Daniel 12.5-10, ressoa a
pergunta sobre quanto tempo haverá até o fim, ao que Deus diz que não se saberá até o tempo do fim. Os mártires (Ap 6.10) perguntam até quando e Deus lhes pede que esperem mais um pouco. Agora, no entanto, a resposta é dada e o fim anunciado. Versículo 7: mas que nos dias da voz do sétimo anjo, quando este estivesse para tocar a trombeta, se cumpriria o mistério de Deus, como anunciou aos seus servos, os profetas. O final será marcado pelo toque da sétima trombeta. O que foi profetizado no Antigo e no Novo Testamento, o mistério de Deus anunciado aos seus servos, os profetas, finalmente se cumprirá. Como registrou Amós 3.7: O Senhor, o soberano, não faz coisa alguma sem revelar o seu plano aos seus servos, os profetas. O desvendamento do mistério de Deus é a concretização do plano de salvação, iniciado antes da fundação do mundo e agora, finalmente, concretizado em sua plenitude. O reino de Deus, marcado inicialmente pela vinda de Cristo, se completará com sua volta e tudo que ela significa para crentes e incrédulos: o julgamento do grande trono branco e a descida do novo céu e da nova terra. Versículo 8: A voz que eu do céu tinha ouvido tornou a falar comigo, e disse: Vai, e toma o livro que está aberto na mão do anjo que se acha em pé sobre o mar e sobre a terra. Depois do juramento do anjo, a narrativa volta ao tema do pequeno rolo de manuscrito. João ouve novamente uma voz que vem do céu, a mesma que antes o impedira de escrever as vozes dos trovões. A ordenança agora é para que ele pegue o livro da mão do anjo.
Versículo 9: E fui ter com o anjo e lhe pedi que me desse o livrinho. Disse-me ele: Toma-o, e come-o; ele fará amargo o teu ventre, mas na tua boca será doce como mel. Ao se dirigir ao anjo para pegar o livrinho, João recebe dele a ordem para comer o livro, explicando-lhe que o rolo lhe será amargo no ventre, mas doce na boca. Ezequiel 2.8-3.3 traz narrativa bem semelhante. Mas tu, ó filho do homem, ouve o que te digo; não sejas rebelde como a casa rebelde; abre a tua boca, e come o que eu te dou. E quando olhei, eis que tua mão se estendia para mim, e eis que nela estava um rolo de livro. E abriu-o diante de mim; e o rolo estava escrito por dentro e por fora; e nele se achavam escritas lamentações, e suspiros e ais. Depois me disse: Filho do homem, come o que achares; come este rolo, e vai, fala à casa de Israel. Então abri a minha boca, e ele me deu a comer o rolo. E disse-me: Filho do homem, dá de comer ao teu ventre, e enche as tuas entranhas deste rolo que eu te dou. Então o comi, e era na minha boca doce como o mel. Ezequiel estava sendo enviado à casa de Israel para transmitir a mensagem de Deus. Ao comer o rolo, assimilou essa mensagem e recebeu de Deus a comissão de entregar a profecia ao povo. Semelhantemente, João está sendo comissionado por Deus para o seu ministério profético, escolhido para registrar a mensagem divina aos crentes de seu tempo e às gerações vindouras. Como ele, a igreja é chamada a participar do drama escatológico final. Versículo 10: Tomei o livrinho da mão do anjo, e o comi; e na minha boca era doce como mel; mas depois que o comi, o meu ventre ficou amargo. João obedece e come o livro. Em sua boca, o livro é doce como o mel, pois fala da vitória da igreja sobre as forças do mal que a perseguem e martirizam, mas no ventre lhe é amargo, pois dias difíceis virão antes do fim. O contexto de todo o interlúdio (Ap 10.1-11.13) está fortemente ligado à igreja,
daí essa interpretação prevalecer. A igreja experimentará dores antes de alegrar-se para sempre. A ideia de comer a palavra de Deus não é nova no Antigo Testamento. O Salmo 119.103 declara: Como tuas palavras são doces ao meu paladar! Mais doces do que mel em minha boca. Realidade semelhante vemos em Sl 19.10, Pv 24.13,14 e Jr 15.16. Deus faz João reencenar a experiência vivida por Ezequiel para enfatizar os mesmos resultados: a doçura da obediência e o amargor da rejeição e do sofrimento. Comer o livro fala da interiorização da palavra de Deus e de sua vivência prática. Ezequiel não menciona o aspecto amargo do livro, mas sabe que ele contém lamentações, suspiros e ais. Versículo 11: Então me disseram: Importa que profetizes outra vez a muitos povos, e nações, e línguas, e reis. João não havia sido comissionado formalmente a profetizar antes desse momento, mas a expressão outra vez, com certeza, se justifica pelo fato de que a escrita de João das cartas e do que viria a acontecer tem função profética tanto para os crentes e gentios de seu tempo como para os demais até a consumação do plano divino. Esse recomissionamento, que inclui todos os cristãos, é bastante amplo, pois menciona muitos povos, nações, línguas e reis. A mensagem da igreja possui aspectos positivos, pois é o anúncio das boas-novas, mas também negativos, porque virá o juízo, que é a outra face do evangelho quando rejeitado pelos que o ouvem. A expressão povos, e nações, e línguas, e reis enfatiza o caráter universal do anúncio do evangelho e o papel essencial dos que creem no cumprimento dos fatos que marcarão os últimos tempos. Antes, porém, de anunciar a mensagem, a igreja precisa estar ciente da proximidade do cumprimento dessas profecias. Jesus está às portas, e os cristãos têm de estar preparados para o grande dia do Senhor.
Antes de anunciar a mensagem, no entanto, a igreja precisa estar ciente da proximidade do cumprimento das profecias. Jesus está às portas e precisamos estar prontos para sua volta.... Perguntas para fixação do conteúdo 1) A descrição do anjo forte que João vê no capítulo 10 guarda muitas semelhanças com realidades divinas. Cite duas delas e justifique a similaridade. 2) O anjo proclama um juramento e anuncia o quê? 3) Que ordem é dada a João pela voz que vem do céu sobre as vozes dos trovões? 4) Como sentiu João, no paladar, o livro que comeu e o que esses sabores podem significar? Questões para reflexão João comeu o livrinho. Isso nos fala da assimilação absoluta da palavra de Deus em nossa vida. Que papel tem tido a palavra de Deus em sua vida: central ou periférica? Se não for central, o que você pode fazer hoje para mudar essa realidade? No capítulo 10, como em outras partes do livro de Apocalipse, o Deus criador é exaltado em reconhecimento ao seu poder. Há alguma área da sua vida que o poder de Deus não tem alcançado? Se sim, faça uma oração e a entregue a ele, pois certamente será muito abençoado por isso. Que lições você tiraria do capítulo 10 de Apocalipse?......
............ REFERÊNCIAS DUCK, Daymond R. Guia fácil para entender Apocalipse. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2014. MIRANDA, Neemias Carvalho. Apocalipse comentário versículo por versículo. Curitiba/PR: A. D. Santos Editora, 2013. OSBORNE, Grant R. Apocalipse. São Paulo: Vida Nova, 2014.