Síndroma de apneia do sono

Documentos relacionados
Síndrome Overlap: diagnóstico e tratamento. Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS)

Síndromas Coronários rios Agudos: Factores de Bom e Mau Prognóstico na Diabetes Mellitus

Serviço de Cardiologia, Hospital do Espírito Santo de Évora. Serviço de Cardiologia, Hospital Distrital de Santarém

Inquérito epidemiológico *

Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC)

CURSO DE RONCO E APNEIA DO SONO. Ficha de diagnóstico e anamnese.

Anexo 2 Caderno de recolha de dados 1 DESENHO DO ESTUDO

Atuação Fonoaudiológica em pacientes com Síndrome da Apnéia Obstrutiva do Sono

14/6/2012. Monitorização portátil das variáveis respiratórias SAOS. Elevada prevalência Aumento de mortalidade

SAOS. Fisiopatologia da SAOS 23/04/2013. Investigação e tratamento de SAOS nos pacientes com pneumopatias crônicas

Coração Outono/Inverno

Diferenciais sociodemográficos na prevalência de complicações decorrentes do diabetes mellitus entre idosos brasileiros

Click to edit Master title style

COMISSÃO COORDENADORA DO TRATAMENTO DAS DOENÇAS LISOSSOMAIS DE SOBRECARGA

Descrição do Exame Polissonográfico

Correção dos Aneurismas da Aorta Torácica e Toracoabdominal - Técnica de Canulação Central

EXAME MÉDICO DE CONDUTORES OU CANDIDATOS A CONDUTORES DE VEÍCULOS A MOTOR (artigo 26.º n.º1 do RHLC)

Inquérito epidemiológico *

Curso Avançado em Gestão Pré-Hospitalar e Intra-Hospitalar Precoce do Enfarte Agudo de Miocárdio com Supradesnivelamento do Segmento ST

Desafios clínicos cardiológicos: Um doente com hipoxémia

INCIDÊNCIA DA SÍNDROME APNÉIA OBSTRUTIVA DO SONO EM IDOSOS HIPERTENSOS DA CIDADE DE JACAREZINHO

Adesão a um Programa de Reabilitação Cardíaca: quais os benefícios e impacto no prognóstico?

SÍNDROME HIPEROSMOLAR HIPERGLICÉMICA E CETOACIDOSE DIABÉTICA "

EXAME MÉDICO DE CONDUTORES OU CANDIDATOS A CONDUTORES DE VEÍCULOS A MOTOR (artigo 26.º n.º1 do RHLC)

CATETERISMO CARDÍACO. O Acompanhamento da Pessoa. Isilda Cardoso José Fernandes Susana Oliveira

Tratamento da mulher com SCA em Portugal: mais uma justificação para o programa Bem me Quero

Qual o Fluxograma da Dor Torácica na Urgência? Pedro Magno

IMPLICAÇÕES DA CLASSE DE ÍNDICE DE MASSA CORPORAL E OBESIDADE ABDOMINAL NO RISCO E GRAVIDADE DA HIPERTENSÃO ARTERIAL EM PORTUGAL

O que é a obesidade? Nas doenças associadas destacam-se a diabetes tipo II e as doenças cardiovasculares.

LogBook Medicina Interna

EXAME MÉDICO DE CONDUTORES OU CANDIDATOS A CONDUTORES DE VEÍCULOS A MOTOR. (artigo 26.º n.º 1 do Regulamento da Habilitação Legal para Conduzir)

SAOS Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono

AVALIAÇÃO INVASIVA, REPERFUSÃO e REVASCULARIZAÇÃO

Caso Clínico 1. C.M., 36 anos, masculino, IMC: 59,5 kg/m 2 Ex-tabagista. Portador de HAS, DM e dislipidemia Dor torácica típica: ECG na urgência IAM

Descrição do Exame Polissonográfico

12º RELATÓRIO DO OBSERVATÓRIO NACIONAL DAS DOENÇAS RESPIRATÓRIAS RESUMO DOS DADOS

Síndrome Coronariana Aguda

Saúde do Homem. Medidas de prevenção que devem fazer parte da rotina.

EXAME MÉDICO DE CONDUTORES OU CANDIDATOS A CONDUTORES DE VEÍCULOS A MOTOR. (artigo 26.º n.º 1 do Regulamento da Habilitação Legal para Conduzir)

APNEIA DO SONO E PATOLOGIA CARDÍACA

Introdução. (António Fiarresga, João Abecassis, Pedro Silva Cunha, Sílvio Leal)

A IMPORTÂNCIA DO TRATAMENTO MULTIDISCIPLINAR NA SÍNDROME DA APNÉIA OBSTRUTIVA DO SONO

Prova de Título de Especialista em Fisioterapia Respiratória

Marcos Sekine Enoch Meira João Pimenta

Boletim Informativo INFLUENZA

PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DO PACIENTE IDOSO INTERNADO EM UMA UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA DE UM HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DE JOÃO PESSOA

Implementação das Vias Verdes Coronária e de AVC na Região Norte. Dr. Alcindo Maciel Barbosa 30 Setembro 2008

I Seminário Nacional Financiamento Hospitalar. Os equívocos do modelo de financiamento

João Paulo dos Reis Neto

ENFERMAGEM DOENÇAS CRONICAS NÃO TRANMISSIVEIS. Doença Cardiovascular Parte 1. Profª. Tatiane da Silva Campos

AVALIAÇÃO DOS DOENTES COM SUSPEITA CLÍNICA DE TEP COM RECURSO A ANGIO-TC Estudo retrospectivo

Barriguinha Para que te quero?

RESUMO SEPSE PARA SOCESP INTRODUÇÃO

TÍTULO: PERFIL DE PACIENTES COM DOENÇA ARTERIAL CORONARIANA EM UM HOSPITAL DE ENSINO NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO

Dra. Veralice Meireles Sales de Bruin

Medidas de freqüência

CASOS CLÍNICOS. Dia de Apresentação - 17 DE JANEIRO H00 A IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL. Marta Matias Costa 1 ; Ana Manuela Rocha 1

ASSOCIAÇÃO ENTRE PRESSÃO ARTERIAL E CAPACIDADE FUNCIONAL DE IDOSOS DE UM CENTRO DE ESPECIALIDADES MÉDICAS DE BELO HORIZONTE-MG

SISTEMA CARDIOVASCULAR

Protocolo: - - Admissão anterior nesta UCIP durante este internamento hospitalar: Não Sim <48 h >= 48 h

Factores associados ao insucesso do controlo hemostático na 2ª endoscopia terapêutica por hemorragia digestiva secundária a úlcera péptica

Despacho nº 5739/2015, de 29 de maio Lista de indicadores para monitorização da qualidade

CPAP, Auto CPAP e BPAP Cuidando de você todas as noites

Doença Coronária Para além da angiografia

Serviço de Cardiologia do Hospital de Braga

AVALIAÇÃO DA QUALIDADE EM CARDIOLOGIA DE INTERVENÇÃO: A IMPORTÂNCIA DO AJUSTAMENTO PELO RISCO NA ANÁLISE DE RESULTADOS

Transcrição:

Síndroma de apneia do sono - mais uma peça no puzzle do cluster de fatores de risco cardiovascular Cátia Costa, Joana Rodrigues, Nuno Cabanelas, Filipa Valente, Margarida Leal, Isabel Monteiro Serviço de Cardiologia - Hospital de Santarém

INTRODUÇÃO A síndrome de apneia do sono é uma entidade clínica muito prevalente, subdiagnosticada, com morbilidade e mortalidade significativas. Caracteriza-se pela presença de sinais e sintomas sugestivos de sonolência diurna excessiva, associados a pelo menos 5 episódios de apneia/hipopneia por hora de sono (em estudo polissonográfico). Apresenta diversas complicações, nomeadamente de natureza cardiovascular, sendo um fator de risco para síndrome coronária aguda. ESTUDO PROSPETIVO OBJETIVOS - Avaliar: A prevalência de critérios polissonográficos de apneia do sono na fase aguda de SCA; A presença de fatores de risco individuais, sinais e sintomas sugestivos de apneia do sono; As características do evento coronário; A gasimetria do doente, após realização de estudo do sono.

DESENHO DO ESTUDO REALIZADO: Selecionados doentes internados por SCA, após estabilização clínica do doente (com pelo menos 48h de internamento) Questionário aos doentes seleccionados; Estudo polissonográfico (tipo 3) durante internamento; Gasimetria, na manhã após estudo do sono; Análise estatística dos dados efetuada pelo SPSS. Testes de normalidade; segundo o seu resultado aplicação de testes paramétricos (Teste T-Student) ou não paramétricos (Teste de Mann-Whitney); Teste Qui-quadrado para variáveis dicotómicas EXCLUÍDOS INCLUÍDOS Ambos os géneros, idade 85 anos; Com critérios de SCA (com pelo menos 48h de evolução); Internados de Fevereiro a Outubro de 2013; Sem diagnóstico prévio de SAHOS; Pertencentes à área de residência do Hospital de Santarém. Instabilidade hemodinâmica Necessidade de oxigenoterapia e/ou ventilação; Insuficiência cardíaca (excluídos classes Killip II a IV); Infecção respiratória, antecedentes de DPOC e/ou asma; Estados confusionais ou antecedentes de AVC ou outras doenças neurológicas; Utilização de medicação sedativa ou hipnótica (exceptuando a já realizada previamente pelo doente em ambulatório); Óbito durante internamento.

PREVALÊNCIA DA APNEIA DO SONO - 83.8% (N=31) Género Masculino 28 (75.7%) Feminino 9 (24.3%) Idade (anos) 62.35 ± 14.23 (20-85) IMC (Kg/m 2 ) 28.54 ± 4.65 (19.1-38) Micrognatismo 2 (5.4%) Score de Mallampati 1 6 (16.2%) 2 19 (51.4%) 3 5 (13.5%) 4 7 (18.9%) Largura do pescoço (cm) 40.41 ± 4.08 (33-50) Perímetro abdominal (cm) 104.23 ± 11.62 (84.5-136) Tipo de síndroma coronária aguda Angina instável 10 (27.0%) EAM sem supradesnivelamento ST 17 (45.9%) EAM com supradesnivelamento ST 10 (27.0%) Período de ocorrência do SCA Score de Epworth 7.35 ± 3.12 (2-17) Sinais e sintomas Cefaleias matinais 6 (16.2%) Sensação de cansaço mesmo após várias horas sono Entre as 0-8h manhã 6 (16.2%) Entre as 8h manhã e as 0h 31 (83.8%) 13 (35.1%) Irritabilidade fácil 22 (59.5%) Alterações da memória 18 (48.6%) Dificuldade de concentração 11 (29.7%) Sensação de tristeza frequente 14 (37.8%) Apneias detetadas por outros 5 (13.5%) Roncopatia 31 (83.8%)

Sinais e sintomas Avaliação física IAH < 5/h (n=6) IAH > 5/h (n=31) Valor p Género masculino 3 (50%) 25 (80.6%) 0.109 Idade 48.83 ± 17.97 64.97 ± 12.06 0.009 Indice massa corporal (Kg/m 2 ) 24.67 ± 1.99 29.29 ± 4.66 0.024 Micrognatismo 0 (0%) 2 (6.5%) 0.522 Score de Mallampati III/IV 1 (16.7%) 11 (35.5%) 0.367 Perímetro cervical (cm) 36.67 ± 3.28 41.13 ± 3.85 0.012 Perímetro abdominal (cm) 95.75 ± 7.97 105.87 ± 11.59 0.049 Cefaleias matinais 1 (16.7%) 5 (16.1%) 0.974 Sensação de cansaço mesmo após várias horas sono 2 (33.3%) 11 (35.5%) 0.920 Irritabilidade fácil 2 (33.3%) 20 (64.5%) 0.154 Alterações da memória 2 (33.3%) 16 (51.6%) 0.412 Dificuldade de concentração 2 (33.3%) 9 (29.0%) 0.833 Sensação de tristeza frequente 0 (0%) 14 (45.2%) 0.043 Apneias detetadas por outros 0 (0%) 5 (16.1%) 0.290 Roncopatia 4 (66.7%) 27 (87.1%) 0.214 Nos doentes com índice de dessaturação grave: Ind < 30/h (n=25) Ind > 30/h (n=12) Valor p Irritabilidade fácil 12 (48%) 10 (83.3%) 0.043

Comorbilidades IAH < 15/h (n=19) IAH > 15/h (n=18) Valor p Diabetes mellitus 3 (15.8%) 10 (55.6%) 0.014 Nº de vasos com doença significativa 1.37 ± 0.68 2.06 ± 0.80 0.012 Período de ocorrência do SCA Indice dessaturação < 15/h (n=14) Indice dessaturação >15/h (n=23) Valor p Entre as 0-8h manhã 0 (0%) 6 (26.1%) 0.043 Gasimetria IAH < 5/h (n=6) IAH > 5/h (n=31) Valor p ph 7.43 ± 0.02 7.43 ± 0.03 0.297 po2 89.57 ± 24.59 77.68 ± 12.78 0.085 pco2 36.57 ± 3.74 37.75 ± 4.10 0.518 HCO3 25.00 ± 0.96 24.94 ± 1.25 0.887 Saturação O2 97.4 ± 1.86 96.2 ± 2.28 0.303

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS/ CONCLUSÕES Elevada prevalência de síndroma de apneia do sono - importância da avaliar fatores de risco para a doença. Correlação entre critérios polissonográficos de doença com o IMC, perímetro cervical e perímetro abdominal. Sintomas com pouca correlação com critérios polissonográficos de gravidade da doença Alerta para problema da difícil valorização dos sintomas pelos próprios doentes sobretudo daqueles que são mais específicos Score de Epworth» método falível de avaliação de sonolência dos doentes; difícil aplicar em algumas populações A gravidade da síndroma da apneia do sono parece correlacionar-se com a presença de diabetes bem como com uma maior gravidade da doença coronária. O índice de dessaturação moderado a grave correlaciona-se com a ocorrência de SCA no período noturno. Embora o índice de dessaturação não seja considerado um elemento para classificação de gravidade da doença é um elemento importante na avaliação da mesma