UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL Faculdade de Veterinária Departamento de Patologia Clínica Veterinária Disciplina de Bioquímica e Hematologia Clínica (VET03121) http://www.ufrgs.br/favet/bioquimica Relatório de Caso Clínico IDENTIFICAÇÃO Caso: 2008/2/08 Procedência: Setor de Suínos - UFRGS N o da ficha original: D167/168 Espécie: suína Raça: Linhagem TOPIGS Idade: 10 meses Sexo: fêmea Peso: 2,150 kg Alunos: Laura Espíndola Argenti e Paola Piuco Ano/semestre: 2008/2 Residentes/Plantonistas: Médico(a) Veterinário(a) responsável: Tiago José Mores ANAMNESE No dia 02 de setembro de 2008, na granja experimental do Setor de Suínos da UFRGS foi observada uma leitoa apática, pálida, aparentando ter frio por não sair do escamoteador (caixa de conforto térmico para leitões, com temperatura interior de 38 C, em média) e isolada dos demais. Essa leitegada havia nascido na madrugada do dia 22 de agosto, sem atendimento ao parto; como manejo habitual da granja, aos três dias de idade, os leitões receberam 2 ml de ferro dextrano intramuscular, com exceção dessa leitoa. EXAME CLÍNICO Apatia; Mucosas hipocoradas; Cerdas ásperas; Leve taquipnéia quando estimulada; Tamanho reduzido quando comparada aos demais leitões; Temperatura inferior à média para a idade: 37,4º C (39º C). EXAMES COMPLEMENTARES URINÁLISE Método de coleta: micção natural Obs.: com estimulação Exame físico cor consistência odor aspecto densidade específica (1,010-1,030) Amarelo claro Fluida Discretamente 1,018 turva Exame químico ph (5,5-8,5) corpos cetônicos glicose pigmentos biliares proteína hemoglobina sangue nitritos 5,0 n.d. + - + n.d. - n.d. Sedimento urinário (n o médio de elementos por campo de 400 x) Células epiteliais: 2-3 / 0-1 Tipo: Escamosas / de transição Hemácias: menos de 5 Cilindros: 3+ Tipo: Granulosos Leucócitos: 5-20 Outros: Tipo: Bacteriúria: leve n.d.: não determinado BIOQUÍMICA SANGÜÍNEA Tipo de amostra: soro Anticoagulante: Hemólise da amostra: leve Proteínas totais: 70,0 g/l(79-89) Glicose: 228 mg/dl (85-150) ALP: U/L (0-395) Albumina: 28,7 g/l (19-39) Colesterol total: mg/dl (36-54) AST: U/L (0-84) Globulinas: 41,3 g/l (53-64) Uréia: mg/dl (21,4-64,2) CPK: U/L (0-22,5) BT: mg/dl (0-0,3) Creatinina: 0,5 mg/dl (1,0-2,7) BHB: 0,032mmol/L ( ) BL: mg/dl (0-0,3) Cálcio: 13,8 mg/dl (7,1-11,6) : ( ) BC: mg/dl (0-0,3) Fósforo: 15,2 mg/dl (5,3-9,6) : ( ) BT: bilirrubina total BL: bilirrubina livre (indireta) BC: bilirrubina conjugada (direta)
Caso clínico 2008/2/08 página 2 HEMOGRAMA Leucócitos Eritrócitos Quantidade: 9.100/μL (10.000-22.000) Quantidade: 2,76 milhões/μl (5-8) Tipo Quantidade/μL % Hematócrito: 15,0 % (32-50) Mielócitos 0 (0) 0 (0) Hemoglobina: 4,1 g/dl (10-16) Metamielócitos 0 (0) 0 (0) VCM (Vol. Corpuscular Médio): 54 fl (50-68) Bastonados 0 (0-800) 0 (0-4) CHCM (Conc. Hb Corp. Média): 27,3 % (30-34) Segmentados 3.731 (3.000-15.000) 41 (28-47) Morfologia: Basófilos 0 (0) 0 (0-2) Policromasia de eritrócitos (3+) Eosinófilos 91 (0-800) 1 (0-11) Anisocitose (3+) Monócitos 910 (0-1.000) 10 (0-10) Hipocromasia Poiquilocitose Linfócitos 4.368 (2.000-12.000) 48 (39-62) Plaquetas Plasmócitos (0) (0) Quantidade: /μl (400.000-720.000) Morfologia: Observações: Amostra com fibrina e agregação plaquetária TRATAMENTO E EVOLUÇÃO OU DADOS DE NECRÓPSIA Aos 10 dias, o animal recebeu 2 ml de ferro dextrano via intramuscular; após tratado, observou-se resposta positiva; a leitoa passou a alimentar-se normalmente, interagir com a leitegada, as mucosas tornaram-se coradas e recuperou o vigor; apesar da melhora, o retardo no crescimento não poderá ser revertido devido à deficiência nutricional apresentada nos primeiros dias de vida. NECRÓPSIA (e histopatologia) Patologista responsável: DISCUSSÃO ALTERAÇÕES NO HEMOGRAMA: Eritrócitos: 2,76 x 10 6 µl (5-8) os valores da eritrocitometria apresentaram-se diminuídos devido a uma anemia não regenerativa causada por uma deficiência nutricional de ferro. A eritropoiese é ineficaz por uma desordem da síntese do grupo heme que necessita de um núcleo de ferro em seu interior. Além da diminuição quantitativa, é característico da anemia ferropriva a apresentação de eritrócitos microcíticos, ou seja, de tamanho reduzido. Nesse caso, não foi observada a microcitose em si, mas sim uma tendência comprovada pelo VCM - Volume Corpuscular Médio - (54,35 fl) próximo ao limiar inferior (50 fl). Hemoglobina: 4,1 g/dl (10-16) é uma proteína constituída por 96% de globinas e 4% de grupo heme, o qual é formado por ferro e grupamentos porfirínicos. Portanto, a falta de ferro determina uma síntese deficiente de hemoglobina. Esse fato resulta na hipocromia dos eritrócitos, uma vez que a hemoglobina é responsável pela coloração vermelha dessas células. De acordo com Anderson et al. (1999), o Conselho Nacional de Pesquisa dos Estados Unidos (1979) criou um sistema de classificação no qual os leitões podem ser categorizados de acordo com a extensão da anemia pela sua concentração de hemoglobina. Leitões com níveis de hemoglobina > 10 g/dl foram classificados como normais; 9 g/dl é o nível mínimo para uma performance ótima; 8 g/dl indica o limiar para anemia; 7 g/dl é o nível no qual a anemia já retarda a taxa de crescimento; 6 g/dl é considerada uma anemia severa e 4 g/dl representando altos índices de mortalidade. Hematócrito: 15% (32-50) reflete a percentagem de eritrócitos relacionados ao volume de sangue total, que nesse caso estão diminuídos. CHCM: 27,3% (30-34) Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média ou Índice de Cor. Reflete o tipo de anemia quanto à concentração de hemoglobina média no eritrócito, que está reduzida. Caracteriza, portanto, anemia hipocrômica. Anisocitose: 3+ (1-3) é a diferença de tamanho dos eritrócitos. Reflete a resposta regenerativa do organismo com o aparecimento de reticulócitos. Poiquilocitose: alteração da forma do eritrócito. Demonstra uma resposta regenerativa do organismo à anemia. Policromasia: 3+ (1-3) alteração na coloração dos eritrócitos, com células mais e menos coradas. Deve-se ao aparecimento de reticulócitos, na tentativa de regeneração medular da anemia. Leucócitos totais: 9.100/µL (10.000-22.000) Essa leucopenia deve-se ao comprometimento sistêmico causado pela anemia. Além dessa causa, ainda pode-se observar queda no número total
Caso clínico 2008/2/08 página 3 de leucócitos por µl de sangue quando há choque anafilático, infecções e doenças caquetizantes. ALTERAÇÕES NOS EXAMES BIOQUÍMICOS: Cálcio: 13,85 mg/dl (7,1-11,6) e Fósforo: 15,2 mg/dl (5,3-9,6) a cinética desses dois minerais é muito semelhante. O leite é rico em cálcio e fósforo com relação de aproximadamente 1:1, sendo o segundo mais abundante. Os valores acima do limiar podem ser explicados pela lipemia no soro, já que o animal não estava em jejum e o leite é fonte desses minerais. Além disso, deve-se levar em conta que a lipemia pode mascarar os resultados bioquímicos e que o animal possui apenas 10 dias, e seu epitélio é imaturo e ainda está sofrendo alterações. Glicose: 228 mg/dl (85-150) a glicose aumentada no soro pode ser explicada pelo estresse crônico causado no organismo pela deficiência nutricional e pelo resto da leitegada que, na tentativa de interagir e reanimar o animal, acabavam estressando-o ainda mais (nesses casos, na espécie suína, é comum que ocorra canibalismo). Além disso, o leitão é um animal facilmente estressável, sendo o momento da colheita de sangue e urina propício para a liberação de cortisol na corrente sangüínea, ativando do eixo do estresse, o que ocasiona um quadro hiperglicêmico. Proteínas totais: 70 g/l (79-89) a queda nos índices de proteínas totais é diretamente relacionado ao estado nutricional deficiente do animal. Globulinas: 41,3 g/l (53-64) fazem parte das principais proteínas plasmáticas assim como as albuminas e o fibrinogênio. Seus baixos valores também são diretamente relacionados com o estado nutricional deficiente do animal. Creatinina: 0,50 mg/dl (1,0-2,7) os valores baixos de creatinina podem ser explicados pela baixa ingestão de proteínas pelo animal, uma vez que ainda era lactente. BHB: 0,032 mmol/l não existem dados referenciais para BHB em leitões. Sendo assim, o valor encontrado serve como uma referência para demais estudos adicionais. ALTERAÇÕES NA URINÁLISE: Aspecto: discretamente turvo deve-se à presença de células escamosas e de transição, além de cilindros granulosos, eritrócitos, leucócitos e leve bacteriúria. ph: 5,0 (5,5-8,5) como a leitoa ingeria apenas leite, apresentou o ph urinário ácido. Esse fato é observado em neonatos de qualquer espécie. Glicose: 100 mg/dl provavelmente, tem relação com a ausência de jejum e a hiperglicemia do estresse antes da colheita, excedendo o limiar de filtração renal. Proteína: 30 mg/dl por ser um animal jovem e ter o sistema renal não maturado totalmente, é aceitável que haja presença de proteínas na urina, uma vez que ele ainda absorve grande quantidade de proteínas do leite da mãe. Além disso, não existem referências quanto à quantidade de proteínas na urina de suínos de acordo com a idade. ALTERAÇÕES NO EXAME DO SEDIMENTO: Leucócitos: 5 a 20/campo (400x) devido à imunossupressão os agentes oportunistas facilmente acometem o trato urinário do animal, assim aumentando as chances de desenvolvimento de cistites e outras infecções. Cilindros granulosos: 3+ é formado por muco e outras estruturas, derivado de células epiteliais tubulares renais. É comum em pequena quantidade pela renovação do epitélio. ANEMIA FERROPRIVA: Os leitões nascem quase sem estoques de ferro e, como o leitão cresce muito rapidamente (quatro a cinco vezes o peso ao nascimento nas primeiras três semanas de vida), ele deve reter entre 5 e 10 mg de ferro diariamente. O leite da porca é uma fonte pobre em ferro, fornecendo apenas 1 mg/l. Essa deficiência compromete o desenvolvimento do leitão, já que supre somente de 10 a 20% das necessidades diárias, o que significa que o restante (80-90%) é retirado dos depósitos do organismo. Isso é especialmente verdadeiro para leitões criados em confinamento. Os suínos criados no pasto fuçam o solo e quase sempre podem ingerir ferro suficiente para alcançar suas necessidades. O ferro é essencial para a composição da hemoglobina, mioglobina, citocromos e diversas enzimas. Sua deficiência determina alterações do processo de respiração celular, com conseqüente prejuízo a todo organismo do animal. A mortalidade nesses casos ocorre, principalmente, por complicações secundárias do metabolismo geral, podendo atingir índices de até 60% (OLIVEIRA et al. 2007). Segundo Plonait (1980 apud MORES et al., 1998, p.147), quando não é fornecido ferro suplementado a leitões criados em confinamento e que não têm outra fonte de ferro além do leite da porca, rapidamente desenvolve-se anemia ferropriva, com início da apresentação dos sinais clínicos por volta dos 7 dias de idade.
Caso clínico 2008/2/08 página 4 CONCLUSÕES De acordo com a anamnese, sinais clínicos e resultados bioquímicos obtidos, trata-se de um caso de anemia ferropriva. No entanto, deve-se levar em consideração que a anemia causa um comprometimento sistêmico com conseqüente imunossupressão. Sendo assim, se não tratada, a morte poderá ser causada por infecções oportunistas associadas ao quadro anêmico. Além disso, vale lembrar que os valores de referência citados pelo laboratório são de animais adultos, fato esse que pode gerar uma alteração dos resultados quando na realidade eles poderiam estar normais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDERSON, B. K., EASTER, R. A. A review of iron nutrition in pigs. Department of Animal Sciences. University of Illinois, Urbana, 1999. Disponível em <http:www.livestochtraill.uiuc.edu/poknet/poperdisplay.cfm?contentid=70> Acesso em: 21 nov. 2008. MORES, N.; SOBESTIANSKY, J.; WENTZ, I.; MIKE, A. M. Manejo do leitão desde o nascimento até o abate. In: SOBESTIANSKY, J.; WENTZ; SILVEIRA, P. R. S. da; SESTI, L. A. C. Suinocultura intensiva: produção, manejo e saúde do rebanho. Brasília: Embrapa SPI, Concórdia: Embrapa CNPSa, 1998. cap. 7, p. 135-172. OLIVEIRA, S. J. de. Anemia Ferropriva. In: SOBESTIANSKY, J.; BARCELLOS, D.E.D.S. Doenças dos suínos. Goiânia: Cânone, 2007. cap. 15, p. 599-601. FIGURAS Figura 1. Leitegada ao nascimento. No detalhe, evidenciando que a leitoa do caso clínico apresentava-se normal em relação aos irmãos. Figura 2. Sinais clínicos aos dez dias de vida. Ao lado direito o animal apresentando palidez em relação a um irmão normal à esquerda. A B C Figura 3. Aspecto comparativo entre a leitoa anêmica e os irmãos. Além da palidez, a leitoa ao centro apresenta crescimento retardado em relação aos irmãos. Figura 4. Esfregaço a partir de sangue periférico de suíno, aumentado 1000x. Observa-se anisocitose (A), poiquilocitose (B) e policromasia (C). Coloração com Panótico Rápido.
Caso clínico 2008/2/08 página 5 Figura 5. Leitoa aos sessenta dias de idade, após tratamento. Animal na porção inferior da figura com o crescimento retardado não recuperado em comparação ao irmão.