Procuradoria Geral da República Nº 7398 RJMB / asr RECURSO EXTRAORDINÁRIO Nº 668.963 / SP RELATOR : Ministro CELSO DE MELLO RECORRENTE: Fernando Villas Boas RECORRIDO : Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Hospital Albert Einstein RECURSO EXTRAORDINÁRIO. RESPONSABILIDADE CIVIL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS DECORRENTES DA REALIZAÇÃO DE EXAME MÉDICO NÃO SOLICITADO. DIREITO À INTIMIDADE. OFENSA REFLEXA. AUSÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL. NÃO CONHECIMENTO. 1. A solução da controvérsia no âmbito do STJ deu-se sob o enfoque da responsabilidade civil, sendo essencial a análise prévia de normas infraconstitucionais para o deslinde do caso. 2. Caso superado tal óbice, cumpre ressaltar inexistir repercussão geral na causa, pois a impugnação discute a possível ocorrência de violação à intimidade do recorrente, não havendo questão relevante do ponto de vista econômico, político, social ou jurídico que ultrapasse os interesses subjetivos da demanda, conforme exigido pelo art. 543-A, 1º, do CPC. 3. Parecer pelo não conhecimento do recurso extraordinário. Trata-se de recurso extraordinário interposto com base no artigo 102, III, alínea a da Constituição Federal, contra acórdão proferido pelo Superior Tribunal de Justiça, assim ementado: RECURSO ESPECIAL AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS DECORRENTES DA REALIZAÇÃO DE EXAME DE HIV NÃO SOLICITADO, POR MEIO DO QUAL O Procuradoria Geral da República SAF Sul Quadra 4 Lote 3 CEP 70.050-900 Brasília/DF
PACIENTE OBTEVE A INFORMAÇÃO DE SER SOROPOSITIVO VIOLAÇÃO AO DIREITO À INTIMIDADE NÃO OCORRÊNCIA INFORMAÇÃO CORRETA E SIGILOSA SOBRE SEU ESTADO DE SAÚDE FATO QUE PROPORCIONA AO PACIENTE A PROTEÇÃO A UM DIREITO MAIOR, SOB O ENFOQUE INDIVIDUAL E PÚBLICO RECURSO ESPECIAL IMPROVIDO. I - O direito à intimidade, não é absoluto, aliás, como todo e qualquer direito individual. Na verdade, é de se admitir, excepcionalmente, a tangibilidade ao direito à intimidade, em hipóteses em que esta se revele necessária à preservação de um direito maior, seja sob o prisma individual, seja sob o enfoque do interesse público. Tal exame, é certo, não prescinde, em hipótese alguma, da adoção do princípio da dignidade da pessoa humana, como princípio basilar e norteador do Estado Democrático de Direito, e da razoabilidade, como critério axiológico; II - Sob o prisma individual, o direito de o indivíduo não saber que é portador do vírus HIV (caso se entenda que este seja um direito seu, decorrente da sua intimidade), sucumbe, é suplantado por um direito maior, qual seja, o direito à vida, o direito à vida com mais saúde, o direito à vida mais longeva e saudável; III - Mesmo que o indivíduo não tenha interesse ou não queira ter conhecimento sobre a enfermidade que lhe acomete (seja qual for a razão), a informação correta e sigilosa sobre seu estado de saúde dada pelo Hospital ou Laboratório, ainda que de forma involuntária, tal como ocorrera na hipótese dos autos, não tem o condão de afrontar sua intimidade, na medida em que lhe proporciona a proteção a um direito maior; IV - Não se afigura permitido, tão-pouco razoável que o indivíduo, com o desiderato inequívoco de resguardar sua saúde, após recorrer ao seu médico, que lhe determinou a realização de uma série de exames, vir à juízo aduzir justamente que tinha o direito de não saber que é portador de determinada doença, ainda que o conhecimento desta tenha se dado de forma involuntária. Tal proceder aproxima-se, em muito, da defesa em juízo da própria torpeza, não merecendo, por isso, guarida do Poder Judiciário; V - No caso dos autos, o exame efetuado pelo Hospital não contém equívoco, o que permite concluir que o abalo psíquico suportado pelo ora recorrente não decorre da conduta do Hospital, mas sim do fato de o recorrente ser portador do vírus HIV, no que o Hospital-recorrido, é certo, não possui qualquer responsabilidade; VI - Sob o enfoque do interesse público, assinala-se que a opção de o paciente se submeter ou não a um tratamento de combate ao vírus HIV, que, ressalte-se, somente se tornou possível e, certamente, mais eficaz graças ao conhecimento da doença, dado por ato involuntário do Hospital, é de seu exclusivo arbítrio. 2
Entretanto, o comportamento destinado a omitir-se sobre o conhecimento da doença, que, em última análise, gera condutas igualmente omissivas quanto à prevenção e disseminação do vírus HIV, vai de encontro aos anseios sociais; VII - Num momento em que o Poder Público, por meio de exaustivas campanhas de saúde, incentiva a feitura do exame anti HIV como uma das principais formas de prevenção e controle da disseminação do vírus HIV, tem-se que o comando emanado desta augusta Corte, de repercussão e abrangência nacional, no sentido de que o cidadão teria o direito subjetivo de não saber que é soropositivo, configuraria indevida sobreposição de um direito individual (que, em si não se sustenta, tal como demonstrado) sobre o interesse público, o que, data maxima venia, não se afigura escorreito; VII - Recurso Especial improvido. Os embargos de declaração foram rejeitados. O recorrente noticia que, atendendo prescrição médica, realizou diversos exames, tendo o preposto do hospital recorrido, de forma negligente, realizado exame não solicitado ( anti-hiv, com resultado positivo). Entende que tal situação causou-lhe enorme dano, tanto de ordem material como moral, com manifesta violação de sua intimidade art. 5º, X, da Constituição Federal. O pedido foi julgado improcedente na primeira instância e a apelação foi desprovida. O recurso extraordinário alega existência de repercussão geral e ofensa ao inciso X do art. 5º da CF, defendendo a ocorrência de violação à intimidade. Busca, em síntese, reparação por danos materiais e morais. Não houve contrarrazões. e-stj. Recurso tempestivo. Juízo prévio de admissibilidade às fls. 363/364 Em síntese, são os fatos de interesse. Após analisar atentamente o acórdão recorrido, verifica-se que a solução da controvérsia exige, necessariamente, a análise prévia de normas do 3
Código Civil. O pleito foi decidido sob o enfoque da responsabilidade civil, cuja ratio decidendi consistiu em reconhecer que, embora a responsabilidade civil do Hospital demandado fosse objetiva, não se inferiu da conduta deste ato capaz de causar ao embargante qualquer prejuízo, no caso, de ordem moral, como destacou o STJ ao rejeitar os declaratórios opostos pelo recorrente. Ainda que o tema relacione-se, de modo remoto, com o direito à intimidade, a todos assegurado pela Constituição Federal no inciso X do art. 5º, a ofensa a referido dispositivo, se existente, seria meramente reflexa ou indireta, o que inviabiliza o acesso à via extraordinária. Por oportuno: Ementa: AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. CANCELAMENTO DE VOO. INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS. RESPONSABILIDADE CIVIL. CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. ANÁLISE DA LEGISLAÇÃO INFRACONSTITUCIONAL. OFENSA INDIRETA. REEXAME DO CONJUNTO FÁTICO-PROBATÓRIO. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 279 DO STF. ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO AO ART. 5º, LIV E LV, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. OFENSA REFLEXA. AGRAVO IMPROVIDO. I É inadmissível o recurso extraordinário quando sua análise implica rever a interpretação de norma infraconstitucional que fundamenta a decisão a quo. A afronta à Constituição, se ocorrente, seria indireta. II Inviável em recurso extraordinário o reexame do conjunto fático-probatório constante dos autos. Incidência da Súmula 279 do STF. III Esta Corte firmou orientação no sentido de ser inadmissível, em regra, a interposição de recurso extraordinário para discutir matéria relacionada à ofensa aos princípios constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório, quando a verificação dessa alegação depender de exame prévio de legislação infraconstitucional, por configurar situação de ofensa reflexa ao texto constitucional. Precedentes. IV Agravo regimental improvido. (ARE 635250 AgR, Relator: Min. RICARDO LEWANDOWSKI, Primeira Turma, julgado em 28/06/2011, DJe-155 DIVULG 12-08-2011 PUBLIC 15-08-2011 EMENT VOL-02565-02 PP-00272) EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE INSTRUMENTO. PENHORA. PREQUESTIONAMENTO. AUSÊNCIA. OFENSA REFLEXA. REEXAME DE FATOS E PROVAS DOS AUTOS. IMPOSSIBILIDADE. 4
PRECEDENTES. 1. Não se admite o recurso extraordinário quando os dispositivos constitucionais que nele se alega violados não estão devidamente prequestionados. Incidência das Súmulas nºs 282 e 356/STF. 2. Inadmissível em recurso extraordinário a análise da legislação infraconstitucional e o reexame de fatos e provas dos autos. Incidência das Súmulas nºs 636 e 279/STF. 3. Agravo regimental não provido. (AI 738927 AgR, Relator: Min. DIAS TOFFOLI, Primeira Turma, julgado em 13/03/2012, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-080 DIVULG 24-04-2012 PUBLIC 25-04-2012) Caso superado o óbice acima, cumpre ressaltar inexistir repercussão geral na causa, pois a impugnação discute a possível ocorrência de violação à intimidade do recorrente, não havendo questão relevante do ponto de vista econômico, político, social ou jurídico que ultrapasse os interesses subjetivos da demanda, conforme exigido pelo art. 543-A, 1º, do CPC. Pelas razões acima expostas, opina o Ministério Público Federal pelo não conhecimento do recurso extraordinário. Brasília, 24 de julho de 2012. Rodrigo Janot Monteiro de Barros Subprocurador-Geral da República 5