ANAIS ELETRÔNICOS ISSN 235709765

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Transcrição:

A LINGUAGEM DO FANDOM: ESTUDO SOBRE A FORMAÇÃO DE PALAVRAS NOS FANDOMS E SUA IMPLICAÇÃO PARA O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA (LP) Déborah Alves MIRANDA (UFCG) 1 Orientadora: Márcia Candeia RODRIGUES (UAL/ UFCG) 2 RESUMO Na era digital e com o uso das redes sociais é cada vez mais comum os jovens utilizarem a internet a fim de compartilharem com outros suas preferências e gostos. Na internet é recorrente o uso da palavra Fandom (do inglês: Fan Kingdom) para denominar um grupo de fãs de famosos ou produções televisivas, cinematógráficas e etc. Dentro dessa comunidade, é comum o uso de palavras de língua inglesa, que são transportadas para a língua portuguesa por um processo conhecido nos estudos morfológicos como estrangeirismo ou empréstimo (MONTEIRO, 2002 ). A fim de verificar como se dá a formação de palavras nos fandoms, temos como principal objetivo analisar como esses estrangeirismos e empréstimos se adequam à estrutura da palavra em língua portuguesa atentando para a derivação sufixal e a derivação flexional, e, como objetivo especifico, observar quais as implicações da linguagem dos fandoms para o ensino de língua portuguesa. Nosso corpus é constituído de palavras que são recorrentes nos fandoms tais como substantivos, adjetivos e verbos, que foram retiradas de três blogs, nos quais os jovens elencam as palavras mais recorrentes e explicam seu significado no contexto em que são usadas. Para alcançar os objetivos estabelecidos, fundamentaremos nossa pesquisa em estudos anteriormente realizados por Assis (2007), Petter (2004), Rocha (2003), Laroca (2011), dentre outros. Nossos resultados iniciais apontam que os estrangeirismos e empréstimos sofrem alterações na língua portuguesa em nível morfológico, semântico e fonológico e que isso faz com que o ensino de língua portuguesa (LP) absorva discussões plurais sobre a própria dinamicidade do fenômeno línguístico. Palavras-Chave: Flexão. Estrangeirismos. Empréstimos linguísticos. Formação de palavras. 1 Aluna do curso de graduação em Letras (Língua Portuguesa e Língua Francesa) da Universidade Federal de Campina Grande. email: deborah.alves79@gmail.com 2 Professora adjunta da Unidade Acadêmica de Letras da. email: marciac_rodrigues@hotmail.com Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino 1

INTRODUÇÃO...a língua é, por excelência, meio de comunicação, com muitas funções, com níveis, registros variados, mas sempre, acima de tudo, meio pelo qual o homem expressa o que deseja, e o faz sem consciência de complexidades, compartimentações ou polemicas conceituais - Zanotto (2006) A criação-renovação de palavras na língua nos indica uma realidade: a língua é viva e está em constante mutação. A língua é um espaço heterogêneo e dinâmico onde diariamente os falantes fazem suas escolhas mesmo que não estejam conscientes das complexidades, compartimentações ou polêmicas conceituais, como nos diz Zanotto (2006). Atualmente, os estudos linguísticos contemporâneos apontam para as diversas mutações que a língua tem sofrido e dentre essas mutações está a formação de novas palavras. O repertório de palavras de uma língua é vasto, basta abrir um dicionário e veremos milhares de palavras e seus verbetes. Porém, a língua vai além do que está consolidado em dicionários e em livros de língua portuguesa. O caráter dinâmico da língua, um bem histórico e socialmente construído, permite que o falante crie palavras de acordo com suas necessidades pessoais que são de ordem social, cultural e psicológica (LAROCA, 1994). Hoje, com os avanços tecnológicos e com números cada dia maiores de usuários de internet é de se imaginar que palavras sejam criadas. Com a criação de novos espaços de interação, nas redes sociais, que são facilmente definidos como meio de interação em tempo real e instantâneo, o falante enxerga a necessidade de abreviar palavras, a fim de acompanhar tamanha rapidez nas interações virtuais. Sendo assim, você se tornou vc, porque se tornou prq e assim por diante. Porém, ao passo que se caminha para uma economia linguística, caminhamos também para a criação de novas palavras que embora não estejam dicionarizadas são utilizadas por determinados grupos na internet. Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino 2

Sendo assim, neste trabalho, propomo-nos a discutir a criação de palavras em grupos na internet denominados fandom, do inglês Fan Kingdom, onde fãs de determinado artista, personagem, produção televisiva ou cinematográfica se juntam a fim de apoiarem seus ídolos. Uma das redes sociais que comportam esses grupos é o twitter, grande parte das interações dos fandoms acontece nessa rede social ou nas redes de publicação de fanfics (do inglês: fanfictions), que são redes que comportam publicações de histórias criadas de fãs para fãs sobre seu ídolo. Na morfologia, o grande uso de palavras advindas do inglês que são transportadas para a língua portuguesa por um processo conhecido nos estudos morfológicos como estrangeirismo ou empréstimo (MONTEIRO, 2002 ) e, também, para o uso de palavras criadas pelos processos de composição e derivação. A fim de guiar nossa pesquisa, estabelecemos como objetivo principal analisar como esses estrangeirismos e empréstimos se adequam à estrutura da palavra em língua portuguesa atentando também para as palavras criadas por composição e derivação, e, como objetivo especifico, observar quais as implicações da linguagem dos fandoms para o ensino de língua portuguesa. Para alcançar os objetivos estabelecidos, fundamentaremos nossa pesquisa em estudos anteriormente realizados por Assis (2007), Rocha (2003), Laroca (2011), dentre outros. 1. ESTUDOS MORFOLÓGICOS: FORMAÇÃO DE PALAVRAS EM LP Os estudos de formação de palavras foram alavancados com a teoria gerativista, visto que reconhece, segundo Rocha (2003, p. 30), que a competência do falante deve ser o parâmetro para o estudo das relações lexicais quando se passa a pensar por esse víeis estamos reconhecendo a devida importância da linguagem humana, que deixa de ser um mero instrumento de comunicação, para se confundir com a essência do próprio homem. A morfologia é a área que estuda os processos de formação de palavras, Laroca (2011, p.13) define a morfologia como sendo aquela que trata da estrutura interna Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino 3

das palavras, dos seus constituintes, significativos mínimos ou morfemas. Portanto, a morfologia é a responsável pelo estudo de formação de palavras que, em língua portuguesa (doravante, LP), podem ser formadas pela combinação de morfemas (radicais e afixos) (ZANOTTO, 2006), que contribuem para que o acervo de palavras da língua seja expandido. Segundo Laroca (1994) os processos de formação de palavras mais produtivos em LP são a derivação e a composição. A derivação pode ser definida como o acréscimo de afixos a um radical e a composição como palavras que podem juntar-se e formar uma nova palavra. Além disso, segundo a autora, é possível a formação de palavras por meio de empréstimos e estrangeirismos. A seguir, discutiremos algumas 3 das possibilidades abarcadas pela língua de consolidação de novas palavras. 1.1 COMPOSIÇÃO Segundo Bechara (2005, p. 351) composição é a junção de dois elementos identificáveis pelo falante numa unidade nova de significado único e constante. É um processo autônomo de formação de palavras em que duas bases existentes na língua permitem ao falante criar uma nova palavra (ROCHA, 2003). O processo de formação de palavras por composição pode ser subdividido em composição por justaposição e composição por aglutinação. 1.1.1. Justaposição e aglutinação Basicamente, o processo de formação de palavras por justaposição é caracterizado pela junção de duas bases sem alterações de ordem fonética e morfológica. São exemplos (popularmente conhecidos) de composição por justaposição: guarda-chuva, sofá-cama, mestre-sala, beija-flor etc. As palavras são 3 Existem outros tipos de processos de formação de palavras em língua portuguesa, porém, por motivos de delimitação do tema escolhido, nos deteremos a discutir apenas os processos sobre os quais esse trabalho se propõe a analisar. Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino 4

formadas por aglutinação quando a partir da junção de duas bases criamos uma nova palavra, porém há alterações fonéticas e morfológicas nas bases que a formaram. São exemplos de composição por aglutinação: boquiaberta (boca+aberta); embora (em+boa+hora); aguardente (água+ardente) etc. Monteiro (2002) afirma que uma estrutura em que há a pluralização dos elementos compostos são consideradas locuções ou grupos sintáticos e Zanotto (2006) considera os processos de composição como sendo de natureza sintático-semântica. Segundo Monteiro (op.cit. P. 187), do ponto de vista morfológico, a junção de duas bases é composição quando há: Componentes aglutinados (planalto, aguardente) Adjetivo +adjetivo (luso-brasileiro, verde-claro) Componente invariável +substantivo (ave-maria, vice-rei) Adverbio + adjetivo (sempre- viva) Verbo+ substantivo (guarda-roupa, para-raio) Bases não autônomas (filósofo, uxoricídio) A classificação dos elementos compostos depende dos critérios com que os analisamos (MONTEIRO, op.cit). 1. 2. DERIVAÇÃO O processo de formação de palavras por derivação é classificado como a junção de afixos, que podem ser prefixos ou sufixos, a uma base. A derivação é dividida em derivação prefixal e sufixal. 1.2.1. Derivação sufixal A sufixação consiste no acréscimo de um sufixo à base de uma palavra a transformando em outra palavra. Rocha (op.cit) discorre sobre as condições de produtividade dos sufixos e afirma que não é possível aplicar os sufixos a qualquer Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino 5

base (substantivo). É necessário delimitar o tipo de substantivo e não só classificar a base em uma categoria léxica. O autor classifica os sufixos em: sufixos concorrentes, sufixos categoriais, sufixos produtivos e improdutivos e sufixos homófonos. Os sufixos concorrentes não possuem a mesma fonética, porém seu sentido e função são semelhantes, sua base e produto pertencem à mesma categoria lexical. Na sufixação concorrente a partir de substantivos e verbos podemos formar substantivos-agentivos, a partir de verbos formam-se substantivos abstratos, e, de substantivos adjetivos. Os sufixos categorias, de acordo com a base, poderão mudar a categoria lexical da palavra, esses sufixos podem ser classificados como significativos e não significativos. Os sufixos produtivos e improdutivos recebem essa denominação por questões de comodidade linguística, pois a língua permite a criação de novas palavras. (ROCHA, 2003) Segundo Rocha (op.cit), sufixos homófonos são aqueles que apresentam a mesma sequência fonética, mas sentidos e funções diferentes. O autor continua a discussão mostrando que mesmo que do ponto de vista estrutural da palavra seja possível acrescentar a ela um sufixo, do ponto de vista das condições de produção isso não é possível. As condições de produção determinam o porquê da não existência de produtos reais na língua, mesmo que esses produtos sejam realizáveis do ponto de vista estrutural da língua. 1.2.2. Derivação prefixal A prefixação consiste no acréscimo de um prefixo a uma base, seja ela uma base presa, livre ou basóide (ROCHA,2003). Monteiro (2002) destaca que existe uma problemática em relação à derivação prefixal, visto que algumas gramáticas classificam as palavras criadas por prefixação como derivação e outras como composição. Através de uma pesquisa bibliográfica realizada pelo autor chega-se a conclusão de que a tendência predominante é a de que a prefixação se encaixa na derivação. Rocha (2003) aponta outra polemica envolvendo os prefixos, que é a de Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino 6

que algumas gramáticas trazem uma lista de prefixos latinos e gregos e que essa lista não faz parte do estudo sincrônico da língua assim como esses manuais propõem. O autor ressalta que seria mais coerente do ponto de vista sincrônico, separar os vocábulos em grupos distintos, levando em consideração se são produtivos ou improdutivos, concorrentes ou não e assim por diante. O autor afirma que, na verdade, a lista de prefixos latinos e gregos apresentada pela gramática tradicional está apresentando prefixos concorrentes. O autor complementa dizendo que os prefixos concorrentes só podem ser considerados como tais se as bases pertencerem à mesma categoria lexical. O autor apresenta alguns prefixos apresentados sob a categoria de prefixos gregos e latinos em uma gramática tradicional. Dentre eles destacamos a titulo de exemplo os seguintes: Privação, negação: a-(na-)/ des- : acefálo, anarquia, ateu/ desprazer, desunião etc Negação, sentido contrário: des-/ in- (i-): desleal, desnecessário/ infiel, ilegal. Ainda sobre os prefixos concorrentes o autor destaca que um prefixo será considerado concorrente quando esses elementos ocuparem o mesmo lugar em determinada estrutura da língua. Segundo o autor, na verdade, o que é concorrente é a regra e não os prefixos. Quando formamos substantivos a partir de verbos, os sufixos mento e ção se tornam concorrentes: sucatear- sucateamento/ argumentarargumentação. Rocha (2003) discute ainda sobre os prefixos denominados por ele de homófonos, que podem ser definidos como os prefixos que possuem a mesma identidade fonológica, mas significados diferentes. O autor apresenta as possibilidades de prefixos homófonos e seus significados, dentre eles citamos o re- um dos prefixos produtivos da língua portuguesa: Re 1 - ideia de repetição (reler, rever, reinventar, refazer, reabrir etc) Re 2 - ideia de movimento para trás (regredir, recuar, recolher, regressar, retrair etc) Re 3 - sentido de movimento contrário (reagir, revidar, retorquir etc) Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino 7

Percebemos que o prefixo Re- pode ter três significados diferentes, dessa forma, vemos que mesmo que os prefixos sejam homofónos eles têm significados diferentes. Dessa forma, vemos que os prefixos podem ser combinados com bases livres, que funcionam como uma palavra na língua. Bases presas, que segue o mesmo raciocínio dos sufixos, no caso acrescentando um prefixo a base presa e por basóides que é especifico de uma determinada formação, são bases vazias e só existe em função de um determinado prefixo. 2. OUTRO PROCESSO DE FORMAÇAO DE PALAVRAS EM LP: O CASO DOS EMPRÉSTIMOS OU ESTRANGEIRISMOS. Outro processo de formação de palavras em LP são os estrangeirismos e ou empréstimos. Assis (2007) aponta a diferença entre o empréstimo e o estrangeirismo quando afirma que o empréstimo já está adaptado a língua, enquanto o estrangeirismo não. Assim, uma língua pode adotar palavras de outras línguas por meio de empréstimos linguísticos que por vezes se adaptam ao sistema de regras da outra língua (RODRIGUES, 1992). Segundo Monteiro (op.cit, p. 197) Os empréstimos léxicos ocorrem pela assimilação de traços culturais entre os povos e apresentam uma certa variedade de tipos e graus. Produzem-se de forma direta pelo contato das línguas, ou de forma indireta, através dos meios de comunicação, principalmente o rádio e a televisão. (MONTEIRO, 2002, P. 197) O autor cita os meios de comunicação como um dos ambientes em que os estrangeirismos se consolidam. Hoje, com o avanço dos meios de comunicação a internet tem se tornado um dos ambientes mais propícios ao uso de estrangeirismos. A ideia de mundo conectado que a internet promove também a conexão entre as línguas facilitando a entrada e a consolidação de estrangeirismos na língua. Os estrangeirismos quando são consolidados por um grupo de falantes da língua é Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino 8

facilmente adequado ao sistema de regras da língua que os adota, tanto em nível morfológico quanto fonético e sintático. 3. CORPUS E ANÁLISE A seguir, apresentaremos o corpus e a análise: 3.1. CORPUS Nosso corpus é constituído de palavras que foram retiradas de três blogs 4 onde foram postados dicionários do fandom a fim de ajudar àqueles que não conhecem a linguagem do fandom a se familiarizarem com as palavras que são utilizadas. Dentre essas palavras, encontram-se principalmente palavras de língua inglesa (estrangeirismos) e palavras de língua portuguesa que foram formadas pelo processo de composição por aglutinação. A seguir elencamos as palavras escolhidas para análise e seus respectivos significados que constam nos dicionários do fandom: Palavras selecionadas: Shippar (verbo): eu shippo, tu shippas, eles shippam, nós shippamos, vós shippais, eles shippam. Verbo utilizado para indicar a ação de torcer por um casal e defender isso até o fim. Canon (substantivo): quando um casal é o mesmo que o autor formou na história original (ex: Bella e Edward em Crépusculo 5 ) Fanon (substantivo): um casal que os fãs imaginam que deveriam estar juntos (ex : Bella e Jacob em Crépusculo) 4 Os links dos blogs encontram-se em nossas referencias. 5 Saga cinematográfica composta por cinco filmes baseados nos livros de Stephenie Meyer, que levam o mesmo nome. O enredo mistura elementos do mundo real com o mundo irreal onde vampiros e humanos convivem no mesmo mundo. Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino 9

Posers (adjetivo): pessoa que finge ser algo que ela não é ou fingi saber de algo que ela não conhece Crush ( substantivo): paixão por algum personagem irreal (seja de livro, série, novela etc) Casais da ficção: Ronny+Hermione (Harry Potter 6 ): Romione Damon + Helena (The Vampire Diaries 7 ) : Delena Edward Cullen+ Bella Swan (Saga Crepúsculo) : Beward Nomes de fandoms: Mel Fronckowiak- Melzetes Fifth Harmony- Harmonizes Luan Santanna- Luanetes Demi Lovato- Lovatics. 3.2. ANÁLISE A palavra shippar é considerada pelos integrantes do fandom como um verbo, segundo nossas pesquisas a palavra shippar vem da palavra relationship (relacionamento) do inglês. Percebemos essa palavra, por ser considerada um verbo se adequa ao sistema de conjugação de verbos com vogal temática e no português. A essência do significado da palavra da qual provem é mantida. Os substantivos fanon e canon são considerados substantivos. Canon é uma palavra inglesa que significa cânone em português. Fanon é uma palavra que deriva da palavra Canon, pelo que observamos em nossas pesquisas, a fim de indicar o desejo do fã de acontecer de outra forma, e, portanto, o C de Canon é trocado por F de fã. 6 Série de sete livros que foi adaptada para o cinema em oito filmes (visto que o sétimo livro foi adaptado em dois filmes parte 1 e parte 2). O enredo conta a história do jovem bruxo Harry Potter e sua vida na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. 7 The Vampire Diaries (Diário de um vampiro, em português) é uma série televisiva adaptada dos livros de Lisa James Smith, que levam o mesmo nome da série. O enredo é centrado na história de Helena e dos vampiros Damon e Stefan que vivem em uma cidade chamada Mistyc Falls. Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino 10

Posers é uma palavra considerada adjetivo. Não se sabe ao certo se é advinda do inglês ou se é uma criação baseada na palavra pose do português, tendo em vista seu significado que indica alguém que aparenta ser o que ela não é. Já crush é considerado um substantivo e é de fato advindo do inglês e em português o gênero desse substantivo é marcado por um determinante: a crush/ o crush. Os nomes de casais no fandom é uma das partes mais produtivas em se tratando de criação de palavras. Praticamente, todo casal da ficção (e às vezes casais de famosos) recebem o nome de casal que se trata da composição dos nomes próprios do casal em apenas um por um processo conhecido nos estudos morfológicos como composição por aglutinação. É o que acontece nos exemplos que selecionamos: Ronny+Hermione (Harry Poter): Romione Damon + Helena (The Vampire Diaries) : Delena Edward Cullen+ Bella Swan (Saga Crepúsculo) : Beward Geralmente, a primeira sílaba de um dos nomes próprios se junta a(s) ultima(s) silaba(s) do outro nome próprio e assim nasce o nome do casal, o que para os fãs representa um ship. Muitos nomes de casais são criados na internet, frequentemente para cada aparição casais de personagens de séries, novelas, filmes ou de casais de famosos é criado um ship. Os fandoms possuem um nome. Geralmente, os nomes dos fandoms são escolhidos pelo próprio famoso, como é o caso do fandom da Rihanna que se chama Navy e do fandom da Tainá Müller que se chama Gatalhada. Por outras vezes, o fandom cria seu próprio nome baseado no nome do seu ídolo esse é o caso dos exemplos que apresentamos a seguir: Mel Fronckowiak- Melzetes Fifth Harmony- Harmonizes Demi Lovato- Lovatics. Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino 11

Luan Santana- Luanetes O fandom Melzetes utilizou o recurso de derivação por sufixação para a criação do nome do fandom. Temos o acréscimo do sufixo ete à base Mel e que por motivos fonéticos foi acrescentado a letra z entre a base e o sufixo. O caso do nome do fandom Luanetes segue o mesmo. O fandom Harmonizes e o fandom Lovatics não foram criados a partir das regras do português brasileiro, e sim do inglês. A pronúncia dessas palavras em inglês é mantida no português, não há alterações fonéticas. Com a análise dessas palavras percebemos que a língua de fato está em constante mutação. Essa dinamicidade da língua provoca implicações para o ensino de língua portuguesa tendo em vista que a escola deve atentar para a dinamicidade da língua e promover o conhecimento desses novos fenômenos e dos quais muitos alunos participam diariamente. Revelar aquilo que é considerado um passatempo como algo que faz parte de um amontoado maior de informações e de conhecimento auxilia o aluno a analisar sua atuação como falante e membro de uma sociedade de forma crítica. CONSIDERAÇÕES FINAIS Observamos que a língua nos dá suporte para a criação de novas palavras por meio da derivação, composição e de outros processos de formação de palavras. Percebemos o quanto os novos meios de interação têm contribuído para as mudanças na língua e com isso percebemos que a renovação do léxico em língua portuguesa é comum, e que essa renovação é feita de acordo com as necessidades do falante como nos diz Laroca (op.cit). Vemos que as implicações da linguagem do fandom para o ensino de língua portuguesa recaem sobre a necessidade de se abarcar as novas e constantes mudanças da língua em sala de aula. Mostrar para o aluno que a língua é um bem socialmente construído, do qual ele faz parte e atua como agente de Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino 12

mudanças e inovações move o aluno a olhar com olhos de curiosidade para a estrutura da língua e para suas possibilidades de realização. Por fim, verificamos que os espaços virtuais se mostram como um ambiente propício à criação de novas palavras. Porém, ressaltamos que os estudos no âmbito da linguagem não têm contemplado o que acontece no ambiente virtual e isso nos mostra a necessidade de pesquisas nesse âmbito. REFERÊNCIAS ASSIS, A.B.G. Adaptações fonológicas na pronúncia de estrangeirismos do inglês por falantes de Português Brasileiro. Dissertação (Mestrado em Lingüística e Língua Portuguesa) Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras, Campus de Araraquara: 2007. BECHARA, E. Moderna gramática portuguesa. 37ª edição. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2005. Blog Coisas do Tipo: http://coisas-do-tipo.blogspot.com.br/2013/05/qual-seufandom.html Acesso em: 17 de Julho de 2015. Blog Eu Insisto : http://euinsisto.com.br/guia-de-sobrevivencia-nos-fandoms/ Acesso em: 17 de Julho de 2015. Blog Not a Nerd : http://not-anerd.blogspot.com.br/2014/03/dicionario.html Acesso em: 17 de Julho de 2015. LAROCA, M.N.C. Manual de morfologia do português. Juiz de Fora: Pontes, 1994.. Manual de morfologia do português. 5ª edição revisada. Campinas, SP: Pontes, 2011 MONTEIRO, J.L. Morfologia portuguesa. 4ª edição. Campinas: Pontes, 2002. ROCHA, L.C.A. Estruturas morfológicas do português. 2ª reimpressão. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. RODRIGUES, C.M.X. Empréstimos, estrangeirismos e suas medidas. Alfa, São Paulo: 36, p: 99-109, 1992. ZANOTTO, N. Estrutura Mórfica da Língua Portuguesa. 5ª Edição. Rio de Janeiro: EDUCS, 2006. Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino 13