Manutenção de Florestas e Manejo Integrado de Pragas MANEJO INTEGRADO DE PRAGAS EM FLORESTAS DE EUCALIPTO Carlos Frederico Wilcken FCA/UNESP - Campus de Botucatu 1. INTRODUÇÃO Com o aumento expressivo da área plantada com espécies florestais no Brasil, principalmente, eucalipto e Pinus, tem-se constatado aumento na ocorrência de pragas nativas e exóticas. O melhor caminho para resolver esse problema é o manejo integrado de pragas. O manejo integrado de Pragas (MIP) é uma filosofia baseada no uso de técnicas para manipulação do agroecossistema, visando manter os insetos na condição de não-praga, de forma econômica e harmoniosa com o meio ambiente (CROCOMO, 1990). Dessa forma, não é necessária a erradicação da praga no campo, o que é quase impossível, mas apenas manter a praga em níveis baixos, possibilitando a convivência com o inseto no campo. O MIP é baseado em três premissas: 1) Avaliação do ecossistema, envolvendo monitoramento de pragas e inimigos naturais, 2) Tomada de decisão (controle ou não-controle) e 3) Escolha do método de controle, buscando, se possível à integração entre eles. Os principais benefícios do MIP são a manutenção da produtividade da cultura florestal e a redução no uso de inseticidas químicos, pela utilização apenas nas áreas com infestação da praga com possibilidade de uso de métodos alternativos ou pela integração entre os métodos, satisfazendo uma questão-chave no processo de certificação florestal. Além disso, se reduz o risco das pragas se tornarem resistentes aos inseticidas e de desequilíbrio ambiental, pois a população de inimigos naturais é preservada no campo. Tudo isso leva, conseqüentemente, a redução de custos no processo de produção. No caso de florestas plantadas de eucalipto há poucos casos de MIP florestal, basicamente por falta de mais pesquisas básicas, principalmente quanto à determinação do nível de dano econômico e 189
3º Encontro Brasileiro de Silvicultura de controle. Uma das dificuldades é a altura das árvores, que dificulta a avaliação da infestação. A outra é a grande extensão de áreas plantadas, o que dificulta o monitoramento. 2. MIP DAS PRINCIPAIS PRAGAS DE EUCALIPTO 2.1. Manejo de Formigas Cortadeiras As formigas cortadeiras, que compreende as saúvas (Atta spp.) e quenquéns (Acromyrmex spp.), são o principal grupo de pragas florestais no Brasil (DELLA LUCIA, 1993). O controle de formigas cortadeiras é feito anualmente em área total das plantações florestais, com uso de inseticidas químico, principalmente com iscas formicidas (FORTI et al., 1987). Como o uso de formicidas é intensivo, o custo de controle, considerando o produto e a aplicação, é considerável. Além disso, há possíveis riscos ambientais pelo uso excessivo desses produtos. Pesquisadores e empresas florestais brasileiras vem estudando formas de uso racional de formicidas em plantações de eucalipto há mais de 20 anos, baseando-se na filosofia do MIP. O manejo de formigas cortadeiras envolve um sistema de amostragem, que pode ser em faixas ou transectos, com contagem e medição dos ninhos das formigas cortadeiras e avaliação de danos. Após isso, os dados são analisados, baseados em estudos prévios de distribuição espacial dos ninhos no campo e de quantificação das desfolhas, e é feita a recomendação (controle ou não-controle) e a forma desse controle (escolha do tipo de formicida, quantidade estimada e forma de aplicação). Posteriormente é feita a avaliação da aplicação, ou seja, o controle de qualidade do processo. Os sistemas de monitoramento e manejo de formigas cortadeiras são desenvolvidos nas próprias empresas florestais ou por empresas prestadoras de serviços específicos para esse fim. Em 2013, 81 % das empresas florestais brasileiras adotaram monitoramento e manejo de saúvas e quenquéns em suas áreas (Wilcken, não publicado). 190
Manutenção de Florestas e Manejo Integrado de Pragas O manejo de formigas cortadeiras tem possibilitado otimização na operação de controle e redução de custos, na ordem de 20 a 30 % nos primeiros anos de implantação do sistema. Isto é devido à aplicação de formicidas apenas nas áreas necessárias e tem-se controle da quantidade a ser usada, evitando-se desperdício. 2.2. Manejo de cupins em eucalipto Outro programa é o monitoramento de cupins em plantios de eucalipto. Os cupins são um tipo de praga de difícil previsão de ocorrência, pois são subterrâneos, ou seja, não visíveis ao produtor ou operador. Seus danos são a destruição do sistema radicular ou o anelamento do caule das mudas novas. A maioria das empresas florestais faz controle preventivo, com tratamento de mudas por imersão em calda inseticida. O programa de monitoramento de cupins, apesar de ser considerado como MIP, pois ainda não há tomada de decisão baseado no grau de infestação, atinge os principais objetivos do manejo de pragas. O monitoramento de cupins avalia a presença ou ausência de cupins-praga numa área através de instalação de iscas de papelão no solo, na densidade de uma isca/ha. Após 30 dias essas iscas são avaliadas e é feita a recomendação baseada apenas na presença da praga. Mesmo assim, a redução do uso de inseticidas químicos é expressiva, sendo em média acima de 60 %, variando de aproximadamente 50 até 100 %, em algumas regiões da Bahia. Portanto, esse programa tem demonstrado que os cupins são pragas pontuais com possibilidade de determinar precisamente os focos de infestação para controle. 2.3. Manejo de lagartas desfolhadoras As lagartas desfolhadoras do eucalipto são um grupo importante, que causa danos em aproximadamente 50.000 ha/ano no Brasil (IPEF, não publicado). Apesar de existirem 10 espécies de lagartas desfolhadoras no Brasil, a lagarta parda do eucalipto Thyrinteina arnobia (Lepidoptera: Geometridae) é a principal espécie, com a maioria das ocorrências no campo. 191
3º Encontro Brasileiro de Silvicultura Algumas empresas florestais adotam um sistema de monitoramento baseado no uso conjunto de duas formas de amostragem: avaliação de excrementos das lagartas e uso de armadilhas luminosas, que avalia a população de adultos. Após a detecção do foco, é feita a instalação de panos ou de bandejas plásticas ou de papelão entre as árvores. Duas vezes por semana os excrementos são recolhidos dos coletores, e seu peso é determinado por meio de frascos dosadores. O resultado das pesagens é avaliado graficamente para se determinar progressão da infestação. A redução do peso dos excrementos é o indicativo que as lagartas completaram seu ciclo biológico. Após 15 dias, são instaladas armadilhas luminosas na área para determinação da população de mariposas. O nível de controle é quando as coletas ultrapassam 100 indivíduos, em média, por armadilha. Nesse caso, se aguarda de 15 a 20 dias para aguardar a oviposição e eclosão das lagartas, para a aplicação de inseticidas. Para o controle é recomendado o uso de inseticida biológico à base de Bacillus thuringiensis. Após a aplicação do bioinseticida é possível a avaliação da eficiência do controle realizado, pelo mesmo método, para comprovação da redução da população de lagartas e de mariposas. 2.4. Manejo da mosca do viveiro Outro exemplo é o MIP da mosca do viveiro, em viveiros de eucalipto. A mosca do viveiro tem ocorrido desde 1990 em muitos dos modernos viveiros de eucalipto. A larva da mosca causa danos ao sistema radicular de mudas obtidas por estaquia, favorecendo o ataque de fungos de solo e resultando na mortalidade das plantas (BERTI FILHO & WILCKEN, 1993). A mosca do viveiro tem causado prejuízos em viveiros e casas de vegetação onde se realiza a multiplicação vegetativa de plantas do gênero Eucalyptus (TORRES, 1995).As perdas podem passar de 90 % de estacas não-enraizadas, em viveiros com alta infestação. O controle sempre foi baseado em aplicação de inseticidas químicos, com aplicações semanais, com resultados insatisfatórios ou extremamente caros e impactantes. O programa de MIP para a mosca do viveiro teve que ser iniciado com estudos básicos, como a identificação das espécies, A espécie que 192
Manutenção de Florestas e Manejo Integrado de Pragas predomina na região Sul da Bahia é Scythropochroa sp.. Com o estudo da biologia do inseto, para o conhecimento da duração e fases do ciclo de vida, se determinou a melhor fase para o controle. Em seguida, foi desenvolvido o sistema de monitoramento da praga, para avaliar com precisão as infestações nas casas-de-vegetação (CV) e também determinar o nível de controle da praga. Nesse caso, a amostragem foi baseada na contagem de adultos capturados em armadilhas adesivas amarelas, distribuídas nas CVs. O nível de dano adotado foi igual ou maior que 15 adultos/armadilha. Depois foram avaliadas as opções de controle, desde controle cultural até seleção de inseticidas químicos de baixa toxicidade. Como resultado final, recomenda-se a escolha criteriosa da fonte de matéria orgânica do substrato para as mudas, pois o substrato é a mais provável fonte das infestações, eliminação adequada do resto de substrato e quando necessário, a aplicação do inseticida biológico à base de Bacillus thuringiensis var. israelensis, específico no controle de moscas e mosquitos. Novamente, teve-se redução de custos e praticamente a eliminação da necessidade de uso de inseticidas químicos, reduzindo impactos ambientais no viveiro e risco de contaminação dos funcionários envolvidos. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS Esses resultados demonstram que é possível realizar o manejo integrado das pragas do eucalipto, apesar das dificuldades por seu uma cultura florestal, com redução significativa no uso de produtos químicos e atendendo as exigências dos sistemas de certificações florestais, sem comprometer a produtividade das plantações florestais de eucalipto. BIBLIOGRAFIA: BERTI FILHO, E.; WILCKEN, C.F. Um novo inseto associado aos viveiros florestais: Sciara spp. (Diptera: Sciaridae). Revista de Agricultura, Piracicaba, v. 68, n. 3, 1993. 193
3º Encontro Brasileiro de Silvicultura CROCOMO, W.B. (Org.) Manejo Integrado de Pragas. Ed. UNESP / CETESB, São Paulo. 1990. 358 p. DELLA LUCIA, T.M.C. (ed.) 1993. As formigas cortadeiras. Viçosa. 262 p. FORTI, L.C.; CROCOMO, W.B.; GUASSU, C.M.O. 1987. Bioecologia e controle de formigas cortadeiras de folhas em florestas implantadas. Botucatu, FEPAF. Boletim Técnico, 4., 39 p. TORRES, J. B., et al. 1995. Sobre o ciclo biológico de Bradysia coprophila (Lintner) (Diptera: Sciaridae) em estacas de Eucalyptus grandis, p.540. In: Congresso Brasileiro de Entomologia, Anais, 15, Caxambú, SEB. 194