PERFIL DO CONSUMIDOR COM E SEM DÍVIDAS NO BRASIL 1. PESQUISA Pesquisa inédita realizada pela CNDL e SPC Brasil buscou avaliar o perfil dos brasileiros adimplentes e inadimplentes, sendo consideradoscomo: a) adimplentes: aqueles que pagam regularmente suas compras e dificilmente têm seu nome negativado nos sistemas de proteção ao crédito. b) inadimplentes: aqueles que não pagam regularmente suas compras e,possivelmente, têm seu nome negativado nos sistemas de proteção ao crédito. Para o perfil adimplente, foram ouvidos em todo o país 668 pessoas,de acordo com a distribuição do IBGE por estado da Federação; nenhuma delas possuía conta em atraso há mais de 90 dias. Já para o perfil inadimplente, foram 609 casos, todos eles de pessoas com alguma conta em atraso há mais de 90 dias. A pesquisa dos inadimplentes tem margem de erro de 4,0% a um intervalo de confiança de 95%. A pesquisa dos adimplentes tem margem de erro de 3,8% a um intervalo de confiança de 95%. 2. COMPARAÇÃO DE PERFIL ENTRE ADIMPLENTES E INADIMPLENTES Por gênero, 63% dos adimplentes são do sexo feminino e 37% masculino. Verificando o gênero dos inadimplentes, 52% são mulheres e 48% homens. Não foi objeto da pesquisa analisar porque as mulheres aparecem como mais adimplentes ou inadimplentes do que os homens. No entanto, é fato conhecido que nos últimos 10 anos um número crescente de mulheres tem se tornado chefes de família. Isso pode indicar o aumento progressivo das mulheres na participação do orçamento familiar.
A idade se mostra como um fator de diferenciação entre adimplentes e inadimplentes. Pessoas com mais idade demonstram possuir um perfil maior de adimplência. 28% dos que se afirmaram adimplentes estão na faixa etária de 50 a 64 anos, 27% estão entre 35 e 49 anos e 19% têm 65 anos ou mais. Ao analisar os dados do que se disseram inadimplentes a maioria, 70%, está na faixa de 25 a 49 anos, apenas 12% têm 50 a 64 anos e 2% estão acima dos 65 anos. Analisando Apenas 16% dos adimplentes estão na faixa etária de 25 a 34 anos e 10% estão entre 18 e 24 anos, enquanto 34% dos inadimplentes têm de 25 a 34 anos e 17% dos inadimplentes estão com idade de 18 a 24 anos. Outro fator de diferenciação é estabilidade no emprego. Se por um lado, 55% dos adimplentes estão empregados há mais de 5 anos, por outro, a análise dos inadimplentes mostra que esse número se reduz praticamente à metade, sendo 28% dos inadimplentes empregados há mais de 5 anos. Destaca-se que 22% dos inadimplentes estão empregados de 2 a 5 anos, 18% de 1 a 2 anos e 17% de 6 meses a 1 ano. Esse fator sinaliza que a estabilidade de emprego resulta em estabilidade de renda e, consequentemente, leva a maior segurança financeira. Tal segurança provavelmente permite que as contas se matenham em dia, gerando um cenário pessoal favorável para a adimplência.
O terceiro fator de destaque é a moradia própria. 81% dos adimplentes possuem moradia própria e 12% moram pagando aluguel. Para os inadimplentes, 59% têm posse de sua moradia, enquanto 33% moram em residências alugadas. Os números mostram que, em ambos os grupos, predominam aqueles que possuem moradia própria. No entanto, o percentual de moradores de aluguel é maior nos inadimplentes do que no adimplentes. Pode-se inferir, então, que gastos relacionados com aluguel oneram os gastos, uma vez que parte da renda já está comprometida para esse fim, podendo assim levar a inadimplência.
Alguns fatores relacionados ao comportamento dos pesquisados com relação a suas finanças também puderam ser observados. O primeiro diz respeito ao planejamento financeiro. 59% dos entrevistados adimplentes informaram que costumam realizar algum tipo de planejamento orçamentário e 89% dos adimplentes afirmaram que fazem um planejamento a respeito para ver se o custo cabe no orçamento quando há a intenção de adquirir um bem. Para os inadimplentes, 60% afirmam que NÃO costumam realizar algum tipo de planejamento orçamentário para manter seus compromissos no prazo e 69% afirmaram que, quando têm a intenção de adquirir um bem, verificam se essa compra cabe no orçamento. Esse último ponto apresenta percentual alto. É possível que o inadimplente, por se encontrar nessa situação, não respeite o orçamento feito por ele no ato da compra. Outra possibilidade é que, dentro de seu planejamento, o inadimplente destine parte de sua renda para o consumo e outra parcela para honrar seus compromissos já adquiridos.
Um fator que complementa a informação acima é a busca por informações relacionadas com taxas de juros. 50% dos adimplentes procuram se manter informado sobre as taxas de juros existentes no mercado, enquanto apenas 38% dos inadimplentes buscam esse tipo de informação. É possível perceber que há uma relação do nível de escolaridade com a busca por taxa de juros, independente da inadimplência. Quanto maior o nível de escolaridade, maior a tendência do consumidor buscar informações sobre a taxa de juros, não importando se ela é adimplente ou inadimplente. Um dado que se ressalta é o desinteresse da classse CD pela busca de informações sobre taxas de juros. Mesmo adimplentes, 44% dos integrantes dessas classes nesta situação procuram saber sobre as taxas de juros. Quando avaliados os integrantes das classes CD inadimplentes, esse percentual é de 35%. As informações apresentadas nos dois últimos parágrafos demonstram o risco ao qual o orçamento familiar é exposto quando há falta de planejamento orçamentário e desinteresse pela busca de informações sobre taxas de juros. A não utilização de tais informações pode resultar em dívidas desnecessárias, comprometendo o orçamento pessoal ou familiar no presente e no futuro. Isso apresenta um agravante quando se trata da classe CD, que possui renda mais baixa. Já os adimplentes, ao se planejarem financeiramente e buscarem se informar sobre a taxa de juros, avaliam a situação antes de assumirem um compromisso e, com isso, conseguem manter suas finanças em ordem e seu crédito em situação regular.
O pagamento de pensões a filhos representa outro fator a ser analisado. Apenas 4% dos adimplentes pagam pensão a seus filhos. Quando observamos os inadimplentes, o percentual é 10%. Isso mostra que o percentual de pagadores de pensão é maior nos inadimplentes do que no adimplentes. Assim, os gastos com pensão também podem contribuir de alguma maneira para a inadimplência dos entrevistados.
O último fator a se analisado é o financiamento de automóveis. Enquanto apenas 3% dos adimplentes possuem financiamento de automóveis no momento, independente de estar em dia ou não, 9% dos inadimplentes possuem atrasos para esse tipo de financiamento. Novamente, o percentual é maior para os inadimplentes do que para os adimplentes no que se refere a mais esse quesito. Esse fator tem a forte tendência de estar relacionado com o nível de inadimplência. Ao verificar as intenções de um possível financiamento de automóveis no futuro, 11% dos adimplentes pretendem fazer um financiamento de automóvel nos próximos seis meses, enquanto 17% dos inadimplentes, sim. Isso pode ser reflexo da política governamental de estímulo ao consumo, através da redução do IPI. Tal comportamento do inadimplente compromete ainda mais sua situação econômica por assumir mais um endividamento de longo prazo
CONCLUSÕES A análise mostra que o número de mulheres adimplentes e inadimplentes é maior do que o de homens. Isso é um reflexo do aumento da contribuição da mulher no orçamento familiar, já que vimos um aumento do número de mulheres como chefes de família durante esses últimos 10 anos. Quanto a fatores relacionados com a adimplência, é possível perceber que há uma relação positiva entre faixa etária, estabilidade de emprego, planejamento financeiro e preocupação em saber as taxas de juros do mercado. O estudo mostrou que o percentual de adimplentes é maior com pessoas mais velhas, que estão há mais tempo no emprego, planejam o seu orçamento e se preocupam em saber as taxas de juros. Fatores como ter residência própria, pagamento de pensão e financiamento de carro não têm um impacto tão perceptível na adimplência. Já para a inadimplência, esses últimos fatores podem impactar a condição em que os inadimplentes se encontram. Os percentuais de moradia de aluguel, pagamento de pensão e financiamento de carro podem ter contribuído para que os entrevistados se tornassem inadimplentes. Para os primeiros fatores apresentados no parágrafo anterior, a relação é inversa. Os inadimplentes tendem a ser mais jovens, não estarem há tanto tempo em seus empregos, não adotam um planejamento financeiro e não buscarem informações sobre as taxas de juros do mercado. Um ponto a ser ressaltado é o desinteresse da classe CD em buscar informações sobre taxas de juros existentes no mercado, inclusive para os que estão adimplentes e pertencem a essas classes. Isso pode representar um risco já que a classe CD possui renda mensal com valor baixo e pode comprometer seu orçamento por tal falta de informação.