ORIGEM E REPERCUSSÕES DO SENTIMENTO DE CULPA



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Transcrição:

TRABALHO PARA APRESENTAÇÃO EM MESA REDONDA DE Nº80 IV CONGRESSO INTERNACIONAL DE PSICOPATOLOGIA FUNDAMENTAL E X CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOPATOLOGIA FUNDAMENTAL 2010 CURITIBA - PARANÁ AUTOR: ANTONIO FYSKATORIS ORIGEM E REPERCUSSÕES DO SENTIMENTO DE CULPA A partir do estudo da obra de Sigmund Freud (1856-1939), em especial os textos: O Mal-Estar na Civilização (1930 [1929]); Notas Sobre Um Caso de Neurose Obsessiva (1909); e; O Ego e o Id (1923) as idéias sobre o sentimento de culpa, para mim, foram gradativamente se evidenciando e adquirindo significativa relevância. Refletir a respeito da idéia do sentimento de culpa é algo complexo. Nesse sentido, inicio com a minha compreensão de como esse sentimento é gerado. Inicialmente, no desenvolvimento do psiquismo, vivenciamos um sistema de normas civilizatórias propostas pelo mundo externo, que nos propicia de alguma forma conforto e segurança. Normas essas que contém o que é significativo para o mundo externo em suas cobranças e solicitações. Essa circunstância pode promover dificuldade de diferenciação entre o eu e o mundo externo e, embora seja até certo ponto cômodo, podemos limitar a busca pela satisfação de nossos desejos. Para a realização de muitos desejos, iremos nos deparar com a condição de romper com as normas vigentes até então e assumir a responsabilidade por isso, o que instaura insegurança. No entanto, a necessidade de estabelecer nossa identidade faz com que seja inevitável esse movimento de ruptura, o que pode promover uma sensação de desamparo, rejeição, sentimento de culpa e, em alguns casos, necessidade de punição. O sentimento de culpa é o sinalizador de algo que relacionamos a um mau passo e, diante disso, podemos insistir de forma, muitas vezes, inconsciente em circunstâncias que irão nos julgar para, assim, conseguirmos compreender o valor de nossos atos e desejos errados, até então inconsciente. Como podemos contemplar, esse processo de reconhecimento sempre solicita um outro do mundo externo para avalizar nosso comportamento, uma vez que é o outro quem transmite o referencial civilizatório. Isso ocorre porque o objetivo maior é ir ao encontro 1

das expectativas do outro. Quando percebemos que não as correspondemos, aparece o medo de se sentir inadequado a uma determinada situação e, assim, fora de um contexto que se receamos perder, impossibilitando-nos de prosseguir com a satisfação de nossos desejos. Todo este sentimento descrito promove muito sofrimento e a forma como o indivíduo irá reagir é imprevisível. Pode desencadear um sofrimento físico, ou mesmo doenças que não tão raro se manifestam por causa de medos, agressividade e sentimentos de culpa, como por exemplo: alguns tipos de gastrites, alergias e quadros de neuroses, como a neurose obsessiva. Penso o sentimento de culpa e a agressividade como mantenedor um do outro. Ou seja: um desejo que não tem permissão para se satisfazer promove uma tensão (agressividade) pela condição de não realização; conseqüentemente, promove o sentimento de culpa por ter o desejo e pela agressividade em relação ao outro que não permite a satisfação do desejo; desencadeia um ritmo: desejo / não satisfação do desejo / agressividade / sentimento de culpa. Isso impossibilita, cada vez mais, a conscientização e satisfação do desejo, dinâmica bem nítida no relato de Freud em Notas Sobre Um Caso de Neurose Obsessiva (1909). Esse processo cria um círculo vicioso que pode permanecer sem nunca ser percebido, a não ser pelas conseqüências que acarretarão em nosso cotidiano. Por exemplo, não conseguimos alcançar metas, como se não tivéssemos permissão para isso. Na realidade, a permissão interna não existe mesmo, porque a necessidade de punição por ter um desejo inoportuno é maior do que a permissão para a satisfação. Em algumas circunstâncias específicas, como nas relações familiares, esse ciclo apresenta peculiaridades. No âmbito familiar, as normas podem ser mais rígidas, pois é um ambiente de maior cobrança, uma vez que a relação com o outro transcorre de forma mais íntima como um todo, envolvendo a assimilação de quem se é e de quem se pode ser a partir da aceitação ou rejeição do referencial familiar. Inicialmente, penso esse ambiente como sendo uma das maiores fontes de normas e repressões posteriormente, a própria cultura na esfera das relações sociais o que promove a insatisfação dos desejos e, na seqüência, a exacerbação da agressividade, o sentimento de culpa, a necessidade de punição 2

e o remorso idéia presente na obra de Freud que são fontes desta reflexão. Diante disso, vou me deter nessa situação específica da manifestação do sentimento de culpa. Penso as figuras parentais (pai, mãe, em alguns casos, tios e avós) como sendo as maiores referências para a construção de nossa identidade. A partir das relações com estas figuras, uma gama de informações são transmitidas e reconhecemos como devemos ou não nos comportar no mundo. Dessa forma, quando nossas ações não são aceitas pelas figuras parentais, começamos a nos sentir inadequados e rejeitados, com medo de perder o amor e proteção por parte delas. Sendo assim, por temer não corresponder ao que o outro espera de nós e, dessa maneira, nos sentirmos desamparados, optamos por reprimir nossas ações que significam a satisfação de desejos sem nem avaliarmos se seriam ou não oportunas. Porém, esse desejo de ser quem se é continua a pulsar, gerando, como já mencionei, uma agressividade, um sentimento de culpa e uma necessidade de punição. Nesse caso, pode se desenvolver a culpa por desejar ser outra coisa que não aquilo que nossas figuras parentais esperam de nós e, principalmente, culpa por sentir necessidade de agredir nossos entes queridos que se colocam na condição de opositores de nossos desejos. Como em nossa cultura não há permissão para agressividade ama a seu próximo como a ti mesmo, muito menos permissão para sentir raiva de nossos entes queridos, a solução é camuflar e reprimir o verdadeiro eu por medo de não ser aceito, aprovado e amado e, como tentativa de se libertar desse sentimento de culpa. Freqüentemente, deparo-me com essa situação em meu cotidiano, entre alguns pacientes, amigos e até mesmo pessoas que cruzam o meu caminho. São indivíduos que abdicam de seus desejos, pois se percebem obrigados a um determinado reconhecimento, respeito e gratidão por todos os esforços que os pais fizeram por eles. Assim sendo, buscar a satisfação de seus próprios desejos pode representar ser ingrato e, como esse é um comportamento reprovado em nossa cultura, esses indivíduos vão se boicotar, inconscientemente, corresponderão às expectativas dos outros sem nunca conseguir o que realmente desejam na vida. E, dessa forma, também evitarão a culpa de ter um desejo diferente do que é esperado deles. Muitas vezes, esses indivíduos demonstram dificuldade em estabelecer e alcançar metas e, assim, progredir. Outras vezes, apresentam dificuldades em se relacionar afetivamente com pessoas fora desse ciclo familiar. Afinal, equivocadamente, também é 3

passada a mensagem de que amar é um sentimento de mão única e que satisfaz a um só lado da relação. A partir dessas idéias, compreendo a solidão de algumas pessoas, ou, porque outras vivem presas em relacionamentos insalubres: tanto por não compreenderem o sentimento de amor como por terem a necessidade de continuar se punindo em função de uma culpa, muitas vezes, impossível de ser trabalhada e compreendida. Caminhando para o encerramento de minha reflexão, penso que o sentimento de culpa pode retratar quais são os nossos verdadeiros desejos, e a compreensão desse sentimento pode contribuir ou dar continuidade a um desenvolvimento saudável do ego e, assim, configurar a possibilidade de se ser mais feliz. Percebo-o como uma possibilidade de orientação para o trabalho psicoterápico. Ele pode servir como um norteador para onde e quando se deve ir. Para tanto, faz-se necessário estar atento a ele e respeitar sua orientação. Ele pode incentivar ou estagnar, dependerá de como se compreende sua orientação. Penso o sentimento de culpa como algo que pode instigar a dualidade entre o sentimento de querer e a autorização de poder. Quando essa dualidade é compreendida e aceita, o resultado pode ser outro. Talvez não sejamos rejeitados por ir ao encontro daquilo que pensamos nos realizar. Talvez sejamos aceitos e verdadeiramente amados, pois nos amarão por aquilo que realmente somos e não pelo que os outros desejam. E, estando mais próximos de um estado de felicidade, talvez estejamos mais próximos do verdadeiro sentido da vida, conforme Freud comenta no capítulo dois do Mal-Estar na Civilização (1929[1930]): (...)a que se refere àquilo que os próprios homens, por seu comportamento, mostram ser o propósito e a intenção de suas vidas. O que pedem eles da vida e o que desejam nela realizar? A resposta mal pode provocar dúvidas. Esforçam-se para obter felicidade; querem ser felizes e assim permanecer. (2006b, p. 84) Porém, o mais importante, é compreender que, mesmo que nossa felicidade não propicie a aceitação dos outros, aqueles que nos reprimiram, essa felicidade nos pertence, por direito e liberdade. Contudo, muitas são as compensações por fazermos parte de uma cultura civilizada, acima de tudo, a vida é mais segura numa sociedade civilizada. Porém, esta sensação de 4

segurança impõe uma gama de restrições às tendências humanas inatas. O resultado disso, a princípio, é uma conduta mais moral, se compararmos as outras culturas mais primitivas. No entanto, a agressividade recalcada pela civilização volta para o ego sob a forma de uma severa consciência moral, que vivenciamos como um sentimento de culpa. Este sentimento é, portanto, parte da natureza e experiência humanas. Esse é parte do processo que S. Freud atribuiu à estrutura mental a que chamou Superego. Ele é o guardião necessário da moralidade, mantenedor da ordem. E é também o preço que pagamos pela civilização. Segundo Freud, o sentimento de culpa é: (...)o mais importante problema no desenvolvimento da civilização [...] o preço que pagamos por nosso avanço na civilização é a perda de felicidade pela intensificação do sentimento de culpa (2006b, p. 137) BIBLIOGRAFIA FREUD, S. (1909). Notas sobre um caso de neurose obsessiva O homem dos ratos. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1980. v. X, p. 157-238.. (1923). O ego e o id. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 2006a. v. XIX, p. 15-77.. (1930[1929]). O mal-estar na civilização. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 2006b. v. XXI, p. 67-148. 5