Termos acessórios: adjunto adnominal



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Transcrição:

Termos acessórios: adjunto adnominal Começamos este capítulo com a discussão acerca do que é um termo acessório, sua definição e papel na hierarquia oracional. Com base nessa reflexão, destacamos o adjunto adnominal, como um dos termos acessórios mais recorrentes no uso lingüístico. A seguir, apresentamos suas formas de manifestação e os papéis semânticos que pode articular no SN. Função acessória e hierarquia oracional Os termos acessórios são entendidos como aqueles que se juntam a um nome ou a um verbo para precisar-lhes o significado (CUNHA; CINTRA, 1985, p. 145). Mesmo considerados como portadores de informações relevantes, esses termos são tomados como alternativos e dispensáveis, como acréscimos de forma e de sentido que são feitos aos termos essenciais (sujeito e predicado) e aos termos integrantes (complementos verbais e nominais) para melhor especificar essas funções sintáticas mais básicas e fundamentais. Segundo Rocha Lima (1987, p. 224), os termos acessórios podem figurar na oração ; são entendidos, portanto, como sintagmas opcionais na organização da frase portuguesa. Na mesma linha de interpretação, Luft (1987, p. 42) considera esses termos não rigorosamente necessários à compreensão básica do enunciado já que têm a (sub)função de determinar, qualificar e modificar outros termos. Na condição de constituintes de (sub)função, ou função menor e mais subordinada, os termos acessórios são chamados genericamente de adjuntos, por estarem junto a nomes ou verbos, atuando na referida precisão do significado desses termos maiores. Do mesmo modo que há complementos para nomes e verbos, há adjuntos de nomes e verbos. A função adjuntiva é considerada a mais periférica e marginal das que temos visto até aqui, e os termos acessórios, muitas vezes, representam sintagmas subordinados a outros sintagmas que, por sua vez, encontram-se também subordinados a outros. Assim, do ponto de vista hierárquico, os temos acessórios são subordinados aos integrantes e estes, aos essenciais, estabelecendo-se a seguinte escala:

74 Língua Portuguesa IV TERMOS ESSENCIAIS (sujeito e predicado) TERMOS INTEGRANTES (complementos nominal e verbal) TERMOS ACESSÓRIOS (adjuntos adnominal e adverbial) Para ilustrar o comentário e a escala apresentados, tomemos as duas orações a seguir: (1) José comprou livros. (2) Meu primo José comprou dois livros de história. Do ponto de vista de sua constituição básica, (1) e (2) são correspondentes: há um sujeito em posição inicial, cujo núcleo é José, seguido do predicado verbal em torno do núcleo comprou, integrado pelo complemento verbal, a partir do nome livros. Assim, o que distingue (1) e (2) é justamente a adjunção de termos, na segunda oração, que precisam e ampliam o conteúdo do núcleo do sujeito José e do núcleo do objeto direto livros. Esquematicamente, teríamos a seguinte distribuição: Sujeito Predicado (Verbo + Complemento) (1) José comprou livros (2) Meu primo José comprou dois livros de história Os três termos destacados em (2), meu primo, dois e de história, são classificados, assim, como acessórios. Por estarem precisando o sentido de dois nomes José e livros, núcleos respectivamente do sujeito e do objeto direto, são chamados adjuntos adnominais. Adjunto adnominal, na verdade, não é um bom rótulo, na medida em que a preposição latina ad, que indica aproximação, quando usada no nome adjunto, já tem sentido de proximidade ou contigüidade. Assim, adjunto adnonimal é um sintagma redundante, com a dupla ocorrência de ad, a expressão adjunto nominal seria mais adequada. Porém, na NGB o que prevalece é a construção redundante citada e que, pelo uso generalizado no ensino de língua portuguesa e nos compêndios gramaticais, foi consagrada na referência a essa função sintática. Ainda de acordo com a NGB, há três tipos de termos acessórios: adjunto adnominal, adjunto adverbial e aposto. Dos três, trataremos como efetivos termos acessórios os dois primeiros; o terceiro, aposto, pela especificidade funcional que lhe é característica, será abordado em capítulo específico. Formas de expressão Definido como o termo de valor adjetivo que serve para especificar ou delimitar o significado de um substantivo, qualquer que seja a função deste (CUNHA; CINTRA, 1985, p. 145), o adjunto adnominal tem distintas formas de expressão em língua portuguesa. Vejamos as mais freqüentes e comuns, de acordo com os mesmos autores:

Termos acessórios: adjunto adnominal 75 a) Adjetivo: é muito comum o adjunto adnominal ser articulado com base em adjetivo, que atua como termo determinante, ou dependente, no SN em que se encontra; como elemento de qualificação do substantivo, o adjetivo subordina-se ao núcleo do SN, apontando uma marca ou característica do nome, como em: (3) José comprou livros novos. (4) José comprou interessantes livros. Nas orações (3) e (4), os SNs livros novos e interessantes livros, que funcionam como objeto direto, são formados por adjunto adnominal expresso por adjetivo. Em (3), temos a ordem padrão, ou canônica, em que o adjetivo é usado no SN após o núcleo, especificando-o; em (4), encontramos uma ordenação mais inusitada, com a antecipação do adjetivo ao substantivo. Assim, os complementos verbais aqui tratados organizam-se conforme a seguinte disposição, demonstrando a possibilidade de o adjunto ocorrer como pré (4) ou pós-determinante (3), de acordo com Bechara (1999): SN objeto direto livros novos núcleo interessantes livros núcleo adjunto adnominal adjunto adnominal b) Locução ou sintagma adjetivo: nesse tipo de expressão, o adjunto adnominal, sob a forma de um SPrep, subordina-se ao substantivo, equivalendo a um adjetivo, localizando-se após o núcleo nominal, em posição pós-determinante: (5) José comprou livros de história. (6) José comprou livros sem qualquer gravura. Em (5) e (6), as orações são ampliadas pela adjunção dos Spreps destacados ao núcleo do objeto direto livros, numa estratégia que concorre para a precisão do significado desse núcleo. Embora se trate da articulação de informações relevantes, do ponto de vista estritamente estrutural, pelo caráter acessório de que se revestem, esses adjuntos adnominais não participam da organização básica das referidas orações, que se resume na seqüência sujeito + verbo + complemento. c) Artigo: essa classe morfológica funciona de modo regular como adjunto adnominal, em posição pré-determinante, principalmente em sua versão definida, contribuindo para significação do substantivo que a sucede no SN: (7) José comprou uns livros. (8) O José comprou livros. O adjunto adnominal uns, em (7), nos informa sobre a indefinição acerca dos objetos comprados: não importa ou interessa quantos e quais os livros adquiridos por José. Na oração (8), o adjunto adnominal participa do SN sujeito o José, num tipo de referência considerado forma de expressão mais coloquial ou íntima, pois um nome próprio, como José, já é tomado como termo definido, de certa, dispensando o artigo definido. d) Pronome adjetivo: várias subclasses pronominais, em função adjetiva, acompanhadas por substantivo, podem atuar como adjunto adnominal:

76 Língua Portuguesa IV (9) José comprou esses livros. (10) José comprou vários livros. Nas orações anteriores, atuam como adjunto adnominal do SN objeto direto o demonstrativo esses, em (9), e o indefinido vários, em (10), em sua posição comum pré-determinante. O valor adjetivo desses pronomes lhes é atribuído por conta de sua integração ao SN objeto direto, como determinantes do núcleo substantivo livros. e) Numeral: como elemento que designa número, sua seqüenciação ou parcela, o numeral é costumeiramente usado como adjunto adnominal, em posição pré-determinante, trazendo informes numéricos a respeito do substantivo que acompanha e a que está subordinado: (11) José comprou cinco livros. (12) José leu metade do livro. Em (11) e (12), o numeral cardinal cinco e o fracionário metade atuam como adjunto adnominal do objeto direto, subordinados ao substantivo livro(s). É comum ainda a combinação de adjuntos adnominais de distinta classe morfológica na referência ao mesmo núcleo substantivo. Retomemos a oração (2): (2) Meu primo José comprou dois livros de História. O SN sujeito meu primo José é formado por dois adjuntos adnominais de categoria diversa o pronome possessivo meu e o adjetivo primo 1. O SN objeto direto, do mesmo modo, é constituído por adjuntos adnominais da classe dos numerais (dois) e do grupo das locuções adjetivas (de história). Na combinação de adjuntos adnominais pode ocorrer a coordenação desses termos, que se subordinam ao núcleo do SN por eles integrados: (13) Meu primo e amigo José comprou livros de História e de Matemática. Em (13), podemos falar que ocorrem dois adjuntos adnominais compostos ; um no SN sujeito, primo e amigo, e outro no SN objeto direto, de História e de Matemática. Trata-se de um tipo de termo acessório formado por dois núcleos de valor adjetivo, que qualificam os nomes José, no sujeito, e livros, no predicado. Papéis semânticos De acordo com Luft (1987, p. 42-43), são dois os sentidos básicos articulados pelo adjunto adnominal em orações da língua portuguesa, conforme sua constituição morfológica: a) Determinativo: papel cumprido basicamente pelos adjuntos adnominais formados por pronome adjetivo e numeral, como nas orações aqui revistas: (9) José comprou esses livros. (10) José comprou vários livros. 1 O nome primo, em português, pode funcionar como substantivo, como em Ele viu o primo ou O primo chegou, e também como adjetivo, como em Ele é primo da minha amiga ou na oração (2) Meu primo José comprou dois livros de História, em que, devido à presença do nome próprio José, mais definido, opta-se por considerar este o núcleo do SN, enquanto primo se interpreta como adjunto adnominal.

Termos acessórios: adjunto adnominal 77 (11) José comprou cinco livros. (12) José leu metade do livro. Na função determinativa, o adjunto adnominal concorre para a precisão do sentido do núcleo substantivo a que se subordina. Assim, os pronomes, em (9) e (10), e os numerais, em (11) e (12), ajudam a recortar o significado do nome livro(s), fornecendo informações sobre seu grau de determinação, (in) definição e aspectos quantitativos, respectivamente. b) Restritivo/qualificativo: função cumprida pelo adjunto adnominal constituído por adjetivo e locução adjetiva, tal como: (3) José comprou livros novos. (4) José comprou interessantes livros. (5) José comprou livros de História. (6) José comprou livros sem qualquer gravura. Nas orações de (3) a (6), os adjuntos adnominais destacados restringem e qualificam o nome livros, a que estão subordinados no SN objeto direto. Formados por adjetivo em (3) e (4) e por locução adjetiva em (5) e (6), esses adjuntos modificam de certa forma o sentido de livros, fornecendo-lhe atributos que, embora não essenciais e necessários à estruturação oracional, trazem informações relevantes para a precisão do sentido articulado. Texto complementar Complementos e adjuntos (AZEREDO, 1995, p. 77-78) Opor complementos a adjuntos é uma prática corrente nas descrições gramaticais das línguas indo-européias 2. A despeito das muitas dificuldades teóricas e metodológicas que cercam essa distinção, ela é sustentada basicamente pelo pressuposto de que, na estruturação da oração, certos constituintes complementos são necessários, isto é, exigidos pelos termos regentes (que sem eles ficariam incompletos ), enquanto outros adjuntos são acessórios, isto é, acrescentados facultativamente às construções. A oposição desses conceitos mediante os termos complemento e adjunto não é, todavia, prática muito antiga. Complementos é como se identificam, no sistema francês de análise, as mesmas funções que, no sistema inglês, se designam como adjuntos, conforme se depreende do paralelo feito por Ernesto Carneiro Ribeiro nos Serões gramaticais (RIBEIRO, 1955, 2 Família ou conjunto de línguas antigas semelhantes, de proveniência européia, como o latim, o grego e o albanês, entre outras, que tiveram a mesma origem.

78 Língua Portuguesa IV p. 553-61). Na Gramática filosófica, de Soares Barbosa, usa-se tão-só o termo complemento, para rotular quatro espécies de constituintes 3 : complemento objetivo, complemento terminativo, complemento restritivo e complemento circunstancial. A oposição obrigatório versus facultativo separa, no entanto, os dois primeiros dos dois últimos: Os dois complementos, objetivo e terminativo, de que acabamos de falar, são os únicos regidos e determinados pelas regras regentes, e como tais os únicos também necessários e indispensáveis para completar a significação das mesmas, a qual sem eles ficaria por completar e suspensa. Os dois seguintes, porém, que são os complementos restritivo e circunstancial, não são determinados nem regidos por parte alguma da oração, mas adicionados a elas por quem fala ou escreve, para lhes modificar e mudar a significação, já restringindo-a, já explicando-a e ampliando-a. Não são, portanto, essenciais e necessários à integridade gramatical da oração, ainda que sejam para a sua verdade e boa inteligência. (BARBOSA, 1875, p. 280). Pouco a pouco se foi estabelecendo a distinção terminológica, que Eduardo Pereira Carneiro, mesmo sem a adotar, registra numa observação apensa ao item 391 da sua Gramática expositiva: O termo adjunto é de moderna importação, porém vai-se generalizando o seu uso; vem do particípio irregular do verbo adjungir = jungir a. Traz a idéia de palavra que se prende a outra, como os adjetivos e advérbios, para lhes modificar o sentido. É mais geralmente aplicado às funções atributivas e adverbiais. Complemento ou regime são expressões mais antigas, e aplicam-se mais comumente ao objeto e às expressões ligadas por preposição. (PEREIRA, 1942, p. 217). 3 Os quatro tipos de constituintes rotulados por Barbosa permitem, para entendermos do que o autor está falando, fazer a seguinte relação: complemento objetivo = objeto direto e objeto indireto; complemento terminativo = complemento nominal; complemento restritivo = adjunto adnominal; complemento circunstancial = adjunto adverbial). Estudos lingüísticos 1. Leia o poema a seguir, de Cassiano Ricardo, e responda as questões propostas: Rua torta Lua morta Tua porta Serenata sintética (CANDIDO, Antonio; CASTELLO, J. Aderaldo. Presença da Literatura Brasileira o modernismo. 8. ed. São Paulo: DIFEL, 1981, p. 129)

Termos acessórios: adjunto adnominal 79 a) As três estrofes são formadas, cada qual, por um SN; indique o núcleo desses SNs e o adjunto adnominal, ou determinante, de cada um deles: b) Em qual dos três SNs o adjunto adnominal é pré-determinante? c) Justifique o atributo sintética no título do poema com base nas estrofes referidas: 2. Observe a primeira estrofe do poema de Carlos Drummond de Andrade: Infância Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre as mangueiras lia a história de Robinson Crusoé Comprida história que não acaba mais. Carlos Drummond de Andrade a) Qual a função sintática dos termos destacados nos três primeiros versos? b) Como os referidos termos concorrem para a articulação do sentido dessa estrofe?

80 Língua Portuguesa IV 3. Releia o seguinte trecho, destacado do texto complementar deste capítulo: A despeito das muitas dificuldades teóricas e metodológicas que cercam essa distinção, ela é sustentada basicamente pelo pressuposto de que, na estruturação da oração, certos constituintes complementos são necessários, isto é, exigidos pelos termos regentes (que sem eles ficariam incompletos ), enquanto outros adjuntos são acessórios, isto é, acrescentados facultativamente às construções. Com base na declaração acima, classifique os SPreps destacados nas orações abaixo em complemento nominal ou adjunto adnominal: a) O ser humano tem necessidade de água. ( ) b) Deixamos duas jarras de água em cima da mesa. ( ) c) O filho dele não compareceu à aula. ( ) d) Não tive notícias dele. ( )