TÍTULO: PREVALÊNCIA DE ANSIEDADE PATOLÓGICA EM PORTADORES DE BRUXISMO DE SONO NA REGIÃO DE COARI-AM



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Transcrição:

TÍTULO: PREVALÊNCIA DE ANSIEDADE PATOLÓGICA EM PORTADORES DE BRUXISMO DE SONO NA REGIÃO DE COARI-AM CATEGORIA: CONCLUÍDO ÁREA: CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E SAÚDE SUBÁREA: MEDICINA INSTITUIÇÃO: UNIVERSIDADE DE RIO VERDE AUTOR(ES): NATHALIA MARQUES SANTOS, MARIANNE FERREIRA MELO, SARAH ISABELA MAGALHAES COSTA ORIENTADOR(ES): ALINE MACIEL MONTEIRO, CLAUDIO HERBERT NINA E SILVA

1 1. RESUMO: O objetivo do presente estudo foi verificar a prevalência de sintomas de ansiedade patológica em moradores de comunidades ribeirinhas da região de Coari- AM portadores de bruxismo do sono. Participaram do estudo 87 indivíduos portadores de bruxismo do sono identificados durante a triagem para atendimento médico-odontológico no decorrer de ação cívico-social da Marinha do Brasil na região de Coari-AM. Os participantes responderam ao Inventário de Ansiedade de Beck (BAI). Utilizou-se o teste não-paramétrico de Mann-Whitney para análise estatística. Os resultados evidenciaram uma relação estatisticamente significativa entre a ansiedade geral e o bruxismo do sono (p=0.011366). 2. INTRODUÇÃO Entre as atividades parafuncionais do sistema estomatognático, o bruxismo do sono é considerado uma das disfunções mais prejudiciais na medicina do sono, pois se constitui em um fator de risco para a desordem temporomandibular e para a dor miofacial (AMERICAN ACADEMY OF SLEEP MEDICINE, 2005; MANFREDINI et al., 2005). Apesar de ser um transtorno do sono frequente, os estudos epidemiológicos de prevalência do bruxismo do sono na população geral são considerados imprecisos (MACEDO, 2008). No entanto, estudos estrangeiros (MAYER; HEINZER; LAVIGNE, 2015) e brasileiros (PIRES, 2007; MACEDO, 2008) têm descrito índices semelhantes de prevalência do bruxismo do sono na população adulta em geral variando de 3% a 12%. Como não há estudos que tenham investigado a prevalência da ansiedade em moradores de comunidades ribeirinhas da região de Coari-AM que apresentam bruxismo do sono, justifica-se a realização do presente estudo em virtude da obtenção de dados epidemiológicos que podem ser úteis para a implementação de políticas públicas de saúde voltadas para essas comunidades ribeirinhas da Amazônia. Portanto, o presente estudo objetivou verificar a prevalência de ansiedade patológica em bruxômanos das comunidades ribeirinhas da região de Coari-AM por meio da aplicação do Inventário de Ansiedade de Beck (BAI) durante a realização de ações cívico-sociais (ACISO) promovidas pela Marinha do Brasil naquela região.

2 3. OBJETIVO O objetivo do presente estudo foi verificar a prevalência de sintomas de ansiedade patológica em moradores de comunidades ribeirinhas da região de Coari- AM portadores de bruxismo do sono. 4. METODOLOGIA A presente pesquisa foi um estudo de observacional e transversal realizado no decorrer da ação cívico-social (ACISO) desenvolvida pela Marinha do Brasil nas comunidades ribeirinhas da região de Coari-AM. Durante a triagem para atendimento na ACISO, os pacientes que apresentaram diagnósticos prévios de bruxismo do sono (categorias DeCS: C07.793.099.500; C10.886.659.637; F03.870.664.637), realizados por médicos e/ou cirugiões-dentistas da rede pública de saúde da região, foram convidados a participar da pesquisa. Dos 91 pacientes portadores de bruxismo do sono identificados na triagem, 87 concordaram em participar da pesquisa. Após a leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, os participantes responderam à versão validada em português do Inventário de Ansiedade de Beck/BAI (CUNHA, 2011). O BAI é composto de uma lista de 21 itens, com escala de quatro alternativas de respostas que refletem níveis crescentes de ansiedade (BECK et al., 1988; CUNHA, 2011). A prevalência é uma medida epidemiológica que mensura a proporção de indivíduos de uma população que apresentam uma determinada patologia em um momento específico (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2012). Dessa forma, a prevalência informa a persistência da ocorrência de uma doença em uma dada população (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1989, 2006; CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2012). Para calcular a prevalência de sintomas de ansiedade patológica no grupo de pacientes que apresentavam diagnóstico prévio de bruxismo do sono, o número de pacientes que apresentaram escores indicativos de ansiedade patológica no BAI foi dividido pelo número total de pacientes investigado (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1989). Os dados foram analisados pelo programa Statistica for Windows 10.0. O teste não-paramétrico utilizado foi o de Mann-Whitney, com nível de significância p<0,05.

3 5. DESENVOLVIMENTO O bruxismo do sono é um transtorno de movimento relacionado ao sono (AMERICAN ACADEMY OF SLEEP MEDICINE, 2005). Esse transtorno de movimento relacionado ao sono é uma atividade parafuncional do aparelho mastigatório que se caracteriza pelos movimentos de ranger os dentes durante o sono, além do apertamento e desgaste dentário, caracterizado pelos ruídos e desconforto nos músculos mastigatórios (FISMER et al., 2008; GONÇALVES; TOLEDO; OTERO, 2010; MAYER; HEINZER; LAVIGNE, 2015). As atividades parafuncionais do sistema estomatognático são aquelas que envolvem o acionamento neuromuscular anormal, repetitivo, intenso, inconsciente e sem objetivo funcional aparente dos grupos musculares e articulações desse sistema (AMERICAN ACADEMY OF SLEEP MEDICINE, 2005; ALVES-REZENDE et al., 2009). Os pacientes portadores de bruxismo do sono costumam sentir dor, contratura muscular e/ou cefaléia logo após despertarem. Isso ocorre devido ao fato de a atividade parafuncional ocorrer com mais intensidade e freqüência durante o período do sono (MANFREDINI et al., 2004; AMERICAN ACADEMY OF SLEEP MEDICINE, 2005; MANFREDINI et al., 2005; MACEDO, 2008). A etiologia do bruxismo ainda não foi totalmente esclarecida, mas acredita-se que esse distúrbio seja causado pela interação de fatores morfológicos, patofisiológicos e psicológicos (MACEDO, 2007; MACEDO, 2008; CARVALHO et al., 2008; MAYER; HEINZER; LAVIGNE, 2015). Os fatores morfológicos estão relacionados com a estrutura óssea da região facial e, no passado, foram considerados como a causa principal do bruxismo (AMERICAN ACADEMY OF SLEEP MEDICINE, 2005). No entanto, atualmente, os fatores morfológicos são considerados apenas predisponentes ao bruxismo (MANFREDINI et al., 2005; FISMER et al., 2008). Os fatores patofisiológicos estão relacionados com distúrbios do sono e são desencadeados por alterações químicas cerebrais, provocadas pelo uso de medicamentos, drogas, fumo, álcool e, também, fatores genéticos (MACEDO, 2007; CARVALHO et al., 2008; ALVES-REZENDE et al., 2009). Os fatores psicológicos (personalidade, medo, agressividade, frustração, dor e ansiedade) podem desencadear um aumento da tensão muscular no sistema estomatognático (CARVALHO et al., 2008; FISMER et al., 2008; MAYER; HEINZER;

4 LAVIGNE, 2015). Desse modo, há evidências de que os fatores psicológicos, tais como personalidade, estresse e ansiedade, são fundamentais na etiologia do bruxismo (PEREIRA et al., 2006; GONÇALVES; TOLEDO; OTERO, 2010). Por outro lado, de acordo com os resultados de um estudo de revisão sistemática da literatura conduzido recentemente por Manfredini e Lobbezoo (2009), não há evidências contundentes de que a ansiedade esteja diretamente associada ao bruxismo do sono. A ansiedade é uma reação de defesa do organismo a ameaças reais ou imaginárias (BARLOW, 2009). Essa reação de defesa é mediada pela interação entre os sistemas nervoso e endócrino por meio da chamada resposta fisiológica de estresse, a qual se caracteriza pela ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenais e da conseqüente liberação de cortisol e hiperativação do sistema nervoso autônomo simpático. Em virtude da atuação da resposta fisiológica do estresse, a pessoa pode ter alterações do sistema nervoso autonômico e ter seu coração acelerado no batimento cardíaco, respiração superficial e curta ou transpiração excessiva (BARLOW, 2009). A ansiedade, para alguns indivíduos, pode apresentar-se como uma resposta adaptada na presença de situações de risco, tendo o organismo que se adaptar e reagir, adequadamente, à situação específica (SALLES; LÖHR, 2005; BARLOW, 2009). De acordo com a Classificação Internacional das Doenças, 10ª edição (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 1993), a ansiedade patológica se caracteriza por queixas comuns e contínuas de palpitações, sudorese, tremores, desconforto epigástrico, nervosismo, tensão muscular, sensação de cabeça leve e tonturas, entre outros pressentimentos e preocupações, que levam a um estresse decorrente de um ambiente crônico. Essa sintomatologia gera sofrimento para o indivíduo e prejuízos no meio social e/ou ocupacional significativos (SALLES; LÖHR, 2005; FISMER et al., 2008; BARLOW, 2009). Do ponto de vista cognitivo, a ansiedade é uma formulação que mostra os fatores que mantêm os comportamentos de segurança/evitação e somáticos da ansiedade, ou seja, é uma visão que procura identificar o objeto que leva o indivíduo a apresentar este tipo de sintomas (FALCONE; FIGUEIRA, 2001; BARLOW, 2009). Vários estudos têm evidenciado comorbidade entre a ansiedade e o bruxismo (DUARTE; HÜBNER, 1999; CARVALHO et al., 2008; MANFREDINI et al., 2004;

5 MANFREDINI et al., 2005; FISMER et al., 2008; GONÇALVES; TOLEDO; OTERO, 2010). Por conta dessa constatação, Pereira et al. (2006), sugeriram que o tratamento do bruxismo requer uma abordagem multidisciplinar, envolvendo cuidados odontológicos associados ao controle e manejo do estresse e à redução da ansiedade patológica. Corroborando esse ponto de vista, Manfredini et al. (2005) afirmam que o êxito no tratamento do bruxismo está diretamente relacionado a uma conduta clínica que reconheça plenamente os aspectos emocionais envolvidos no bruxismo. Assim, cabe aos profissionais que realizam o tratamento do bruxismo levantar informações que promovam a adequada percepção da natureza transdisciplinar dessa patologia. De acordo com Pereira et al. (2006), a melhor abordagem terapêutica para o bruxismo é estabelecer uma melhor qualidade de vida, a partir da conjugação do controle/tratamento odontológico com a intervenção psicossocial. Fissmer et al. (2008) realizaram um estudo sobre a relação entre ansiedade e bruxismo em 20 estudantes de Odontologia em Santa Catarina. Os resultados desse estudo evidenciaram uma relação consistente entre a ansiedade e o bruxismo entre os participantes. 6, RESULTADOS A prevalência de sintomas de ansiedade na amostra investigada foi igual a 83,51% (n=76). Verificou-se a existência de associação estatisticamente significativa (p=0.011366) entre ansiedade e bruxismo. Em relação ao nível de ansiedade, verificou-se que 27,63% (n=21) dos participantes obtiveram escores de ansiedade leve, 55,26% (n=42) dos participantes obtiveram escores de ansiedade moderada e 17,10% (n=13) dos participantes obtiveram escores de ansiedade severa. Os presentes resultados que indicaram associação estatisticamente significativa entre a ansiedade e o bruxismo do sono estão plenamente de acordo com a literatura relativa ao bruxismo em geral (DUARTE; HÜBNER, 1999; CARVALHO et al., 2008; MANFREDINI et al., 2004; MANFREDINI et al., 2005; MACEDO, 2007; PEREIRA et al., 2006; PIRES, 2007; FISMER et al., 2008; GONÇALVES; TOLEDO; OTERO, 2010; MAYER; HEINZER; LAVIGNE, 2015). Contudo, os nossos resultados estão em desacordo com os achados de Manfredini e Lobbezoo (2009) segundo os quais não haveria evidência clínica

6 consistente de relação entre ansiedade patológica e o bruxismo do sono. Esse fato poderia ser explicado por eventuais discrepâncias entre as metodologias empregadas em nosso estudo e nos estudos revisados por Manfredini e Lobbezoo (2009). Afinal, alguns dos trabalhos revisados por Manfredini e Lobbezoo (2009) utilizaram o autorrelato como parâmetro para identificação do participante como bruxômano, ao passo que, no presente estudo, os participantes foram selecionados com base em diagnóstico prévio de bruxismo do sono realizado por médico ou cirurgião-dentista. 7. CONSIDERAÇÔES FINAIS Os resultados do presente estudo evidenciaram que a maioria dos participantes identificados como portadores de bruxismo do sono também apresentou escores de ansiedade patológica de acordo com o BAI. Sugerimos a realização de novos estudos que verifiquem quais são os fatores ansiogênicos relacionados à ocorrência de ansiedade patológica em comorbidade com o bruxismo do sono em moradores de comunidades ribeirinhas da região de Coari-AM. 8. FONTES CONSULTADAS ALVES-REZENDE, M.C.R.; SOARES, B.M.S.; SILVA, J.S.; GOIATO, M.C.; TÚRCIO, K.H.L.; ZUIM, P.R.J.; ALVES CLARO, A.P.R. Frequência de hábitos parafuncionais: estudo transversal em acadêmicos de Odontologia. Revista Odontológica de Araçatuba, 30(1), p. 59-62, 2009. AMERICAN ACADEMY OF SLEEP MEDICINE. International classification of sleep disorder: diagnostic and coding manual, revised. 2nd ed. Westchester, 2005. p. 189-192. BARLOW, D.H. Manual clínico dos transtornos psicológicos. Porto Alegre: Artmed, 2009. BECK A. T.; BROWN G.; EPSTEIN N.; STEER R. A. An inventory for measuring clinical anxiety. Journal Consulting and Clinical Psychology, 56 (6), p.893-897, 1988. CARVALHO, S. DA C. A.; CARVALHO, A. L. A.; LUCENA, S. C.; COELHO, J. P. S.; ARAÚJO, T. P. B. Associação entre bruxismo e estresse em policiais militares. Revista Odonto Ciências, 23(2), p.125-129, 2008.

7 CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Principles of epidemiology in public health practice. Atlanta: U.S. Department of Health and Human Services, 2012. CUNHA, J. A. Manual da versão em português das escalas Beck. Tradução e adaptação brasileira. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011. DUARTE, D.; HÜBNER, M. M. C. Ansiedade, bruxismo e aprendizagem: uma análise comparativa em alunos da 7ª série do ensino fundamental. Psicologia: Teoria e Prática, 1(2), p.43-52, 1999. FALCONE, E.; FIGUEIRA, I. Transtorno de ansiedade social. Rangê, B. (Org.). Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais: Um Diálogo Com a Psiquiatria, p.183-216, Porto Alegre: Artmed, 2001. FISSMER, J. F. W.; GARANHANI, R. R.; SAKAE, T M.; TRAEBERT, J. L.; SOAR FILHO, E. J. Relação entre ansiedade e bruxismo em acadêmicos de odontologia. Arquivos Catarinenses de Medicina, 37(1), p.25-29, 2008. GONÇALVES, L.P.V.; TOLEDO, O.A.; OTERO, S.A.M. Relação entre bruxismo, fatores oclusais e hábitos bucais. Dental Press Journal of Orthodontics, 15(2), p. 97-104, 2010. MACEDO, C. R. Placas Oclusais Para Tratamento do Bruxismo do Sono: Revisão Sistemática Cochrane. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de São Paulo Escola Paulista de Medicina, São Paulo, 2007. MACEDO, C. R. Bruxismo do sono. Revista Dental Press de Ortodontia e Ortopedia Facial, 13(2), p.18-22, 2008. MANFREDINI, D.; CIAPPARELLI, A.; DELL OSSO L.; BOSCO, M. Occlusal factors in bruxers. Australian Dental Journal, 49(2), p.84-89, 2004. MANFREDINI, D.; LANDI, N.; FANTONI, F.; SEGÚ, M.; BOSCO, M. Anxiety symptoms in clinically diagnosed bruxers. Journal of Oral Rehabilitation, 32(8), p.584-588, 2005. MANFREDINI, D.; LOBBEZOO, F. Role of psychosocial factors in the etiology of bruxism. Journal of Orofacial Pain, 23(2), p.153-166, 2009. MAYER, P; HEINZER, R.; LAVIGNE, G. Sleep bruxism in respiratory medicine practice. Chest, 49(2), p.01-38, 2015. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação internacional das doenças, 10ª edição. Porto Alegre: Artmed, 1993. PEREIRA, R.P.A.; NEGREIRO, W.A.; SCARPARO, H.C.; PIGOZZO, M. N.; CONSANI, R.L.X.; MESQUITA, M. F. Bruxismo e qualidade de vida. Revista Odonto Ciência, 21(52), p.185-190, 2006.

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