RÉPLICA A JORGE J. E. GRACIA 1

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Transcrição:

TRADUÇÃO DOI: 10.5216/PHI.V17I2.18751 RÉPLICA A JORGE J. E. GRACIA 1 Autor: Peter F. Strawson Tradutor: Itamar Luís Gelain(Centro Universitário Católica de Santa Catarina) 2,3 itamarluis@gmail.com Em seu sutil e interessante trabalho, o professor Gracia refuta com grande cortesia meu direito a considerar Individuals como um trabalho de metafísica. Pelo contrário, ele disse, este corresponde a um gênero diferente, ao qual dá o atraente título de meta-metafísica. Suas motivações são as seguintes. O objetivo da metafísica, como tradicionalmente e corretamente se entende, é descrever e elucidar os traços estruturais ou fundamentais mais gerais da realidade, daquilo que existe; no entanto, o objetivo que eu coloquei para o que chamo metafísica descritiva é elucidar os traços estruturais ou fundamentais mais gerais de nosso esquema conceitual (humano), isto é, do nosso pensamento acerca da realidade. Trata-se, diz o professor Gracia, de duas empresas diferentes: a segunda é, na 1 Reply to Jorge J. E. Gracia. In: CAORSI, Carlos E. (Ed.). Ensayos sobre Strawson. Montevidéu: Universidad de la República/Faculdad de Humanidades y Ciencias de la Educación, 1992, pp.112-117. 2 Itamar Luís Gelain é Doutorando e Professor do Centro Universitário Católica de Santa Catarina, Joinville, Santa Catarina, Brasil. 3 Revisão de Jaimir Conte, Professor do Departamento de Filosofia da UFSC. E-mail: conte@cfh.ufsc.br. PHILÓSOPHOS, GOIÂNIA, V.17, N. 2, P. 255-262, JUL./DEZ. 2012 255

Peter F. Strawson, Itamar Luis Gelain tradução melhor das hipóteses, uma variante de ordem superior da primeira, de onde surge seu título de meta-metafísica. Continua dizendo, de forma persuasiva e correta, que os grandes filósofos do passado, incluindo os que eu menciono, eram de fato metafísicos tradicionais e não, ou pelo menos não primordialmente, meta-metafísicos de nenhum tipo. Por exemplo, alguns daqueles a quem chamo de metafísicos revisionistas [revisionary 4 ] poderiam de fato ter defendido que aqueles eram sistemas novos ou pouco conhecidos de pensar acerca do mundo ou da realidade, o fizeram não meramente por fazê-lo ou porque pensavam que seus esquemas tinham um elegante atrativo, senão porque seus esquemas de fato refletiam a natureza da realidade tal como ela é. E isto também é válido, continua ele, em relação a quem ornamentei com a classificação de descritivos. Não é verdade que um deles, a saber, Aristóteles, especificamente disse que sua investigação metafísica não dizia respeito, como as ciências especiais, a este ou àquele aspecto da realidade, senão à realidade em geral, ao ser enquanto tal? (Embora não o tenha feito, o professor Gracia poderia ter representado Kant como um caso especial ou misto, alguém que por um lado, descreveu o esquema conceitual com cujos termos nos vemos restringidos a pensar acerca da realidade (empírica) e, por outro, ofereceu uma explicação profundamente metafísica de como e por que nos vemos assim restringidos.) Minha resposta é a seguinte. Existe uma diferença entre a pergunta: quais são os traços mais gerais da realidade e 4 Traduzimos revisionary metaphysics por metafísica revisionista e não por metafísica revisionária como fez Jorge J. E. Gracia. Optamos pela primeira por ser mais utilizada. No entanto, encontramos também a expressão revisionary metaphysics traduzida por metafísica prescritiva. (N. do T.) 256 PHILÓSOPHOS, GOIÂNIA, V.17, N. 2, P. 255-262, JUL./DEZ. 2012

TRADUÇÃO RÉPLICA A JORGE J. E. GRACIA como se relacionam estruturalmente? E a pergunta: quais são os conceitos ou tipos de conceitos mais gerais em cujos termos concebemos ou pensamos a realidade e como se encontram estruturalmente relacionados? A primeira é a pergunta que busca responder a metafísica tradicional. A segunda é a pergunta a que se referem meus metafísicos descritivos. Mas a diferença não é tão significativa como parece. Suponhamos que se admita que haja certos conceitos e tipos de conceitos de alta generalidade e relações estruturais entre eles que impregnam profundamente o que pensamos e o que dizemos acerca da realidade. Que haja, em outras palavras, um esquema conceitual comum. Então seria bastante inconcebível que esta estrutura conceitual tivesse o uso universal que tem, a menos que nós, de fato, assumamos ou tomemos como certo que a mesma reflete a verdadeira natureza da realidade. Portanto, a pergunta qual é a estrutura geral de nosso pensamento acerca da realidade? e a pergunta qual consideramos ser a estrutura geral da realidade? são, de fato, uma mesma pergunta. E isto tem uma resposta óbvia que é a seguinte. Seu metafísico descritivo pode oferecer uma descrição e elucidação adequada de nossas crenças ou pressupostos comuns acerca da natureza da realidade (nossa ontologia ordinária de trabalho, se vocês quiserem). Mas o verdadeiro metafísico se preocupa em saber se estas crenças ou pressupostos são verdadeiros, se a realidade é, de fato, como nós a consideramos normalmente. E a existência do que você chama metafísicos revisionistas mostra que alguns deles estão dispostos a refutar nossa ontologia ordinária de trabalho por não ser verdadeira enquanto realidade última, à realidade tal como ela é. Pense em Berkeley ou Leibniz (ou in- PHILÓSOPHOS, GOIÂNIA, V.17, N. 2, P. 255-262, JUL./DEZ. 2012 257

Peter F. Strawson, Itamar Luis Gelain tradução clusive em Kant)! Porém a resposta a esta contestação é quase igualmente óbvia. Salvo que nos concebamos como radicalmente enganados e equivocados, há ao menos um pressuposto inicial muito forte favorável à correção básica da ontologia ordinária de trabalho (com a qual estamos de todo modo naturalmente comprometidos), ou seja, favorável à adequação geral de nosso esquema conceitual ordinário como representação fiel da estrutura geral da realidade. E qualquer desafio que se coloque a este pressuposto deve ter um ponto de origem. Deve começar a partir de algum ponto dentro de nosso equipamento de ideias ou conceitos já existentes, por exemplo, de algumas considerações abstratas da existência e a identidade ou a unidade e a pluralidade ou talvez de considerações acerca da natureza do conhecimento ou da experiência ou da consciência. Mas não podemos esperar avaliar tais considerações a menos que tenhamos de antemão uma imagem clara da forma em que os conceitos que formam o ponto de partida do desafio trabalham de fato em relação com o resto de nosso equipamento conceitual. (E podemos acrescentar que, quando de fato levamos a cabo uma investigação clara deste equipamento conceitual, de imediato vemos que os desafios radicais distorcem o panorama e nos levam a uma incoerência conceitual ou a uma fantasia que é apenas inteligível.) Se tenho razão em tudo isto, é fácil deduzir que a única forma segura de cumprir a tarefa metafísica tradicional é precisamente a forma que eu recomendo com o título de metafísica descritiva, e creio ter direito a aplicar a mim mesmo (embora não dentro da filosofia do próprio Hume) a máxima de Hume de que devemos cultivar a verdadeira metafísica com algum cuidado a fim de destruir a falsa e 258 PHILÓSOPHOS, GOIÂNIA, V.17, N. 2, P. 255-262, JUL./DEZ. 2012

TRADUÇÃO RÉPLICA A JORGE J. E. GRACIA adulterada. Desta forma defendo o nome de metafísica ao trabalho de Individuals. Naturalmente se pode argumentar que eu não tenho razão em tudo isto, mas para provar deve-se comprovar. *** Referir-me-ei agora a questão da individualização dos particulares, que o professor Gracia coloca como exemplo de uma interrogação verdadeiramente metafísica que minha meta-metafísica deixa sem resolver. Minha resposta é a seguinte. Cada indivíduo físico pertence a uma classe (as substâncias secundárias de Aristóteles) e o único traço essencial de cada um destes indivíduos reside em ser membro desta classe. Assim, pois, a única verdade essencial acerca de Sócrates, ou de qualquer outro homem, é que ele é um homem (um ser humano). Isto é válido para ele ou para qualquer outro homem, enquanto existente. Enquanto existente, ele, ou qualquer outro homem, poderá ter uma história cujos detalhes não são essenciais (são acidentais) se bem que todos, dado que é um homem, devem ser coerentes com sua humanidade. Todos os conceitos de uma classe (de tipo-substância) de coisas físicas, tal como o conceito de ser humano, são conceitos de coisas que ocupam espaço com traços característicos, móveis ou estáticos, com certa duração no tempo, capazes de mudanças características e que exibem alguma variação de caráter de um membro a outro do mesmo tipo ou classe. Cada um destes conceitos de um tipo impõe limitações sobre o campo de possíveis variações que qualquer membro individual desta classe pode PHILÓSOPHOS, GOIÂNIA, V.17, N. 2, P. 255-262, JUL./DEZ. 2012 259

Peter F. Strawson, Itamar Luis Gelain tradução sofrer. Por exemplo, é impossível que um homem siga existindo se se converte em espada ou em continente. Poderíamos de fato dizer que cada um destes tipos de conceitos implica em si mesmo o princípio de identidade ou individuação desta classe. Não se requer nada mais. E o que distingue essencialmente um membro desta classe de substâncias de qualquer outro membro da mesma classe é precisamente a diferença entre sua localização ou percurso espaço temporal e o dos demais. E aqui adoto de forma comprometida, ou adoto uma vez mais, minha adesão a uma teoria substancial e espaço-temporal da individuação e não meramente a uma teoria espaço-temporal da identificação ou do conhecimento. Ao reconhecer que se trata duma teoria autenticamente metafísica (e não meramente meta-metafísica) da individualização dos particulares físicos, o professor Gracia sugere que esta teoria implica certas dificuldades insuperáveis. Em primeiro lugar, sugere que esta teoria não faz nada para demonstrar a impossibilidade da reduplicação massiva. Porém isso não é necessário demonstrar! Talvez haja um mundo em outra parte que seja a imagem exata do mundo de nossa experiência, do mundo no qual o professor Gracia e eu vivemos. Porém, em tal caso o professor Gracia e eu seguimos sendo indivíduos totalmente distintos de nossos dublês, precisamente por que estes estão em outra parte. Isto não constitui nenhum problema para a teoria da individualização espaço-temporal. Creio que a objeção que o professor Gracia atribui maior peso é aquela na qual a localização espaço-temporal atual de qualquer indivíduo ou o percurso espaço-temporal atual que percorre, é algo acidental ou extrínseco à sua identidade. A individualização, disse ele, deve por certo es- 260 PHILÓSOPHOS, GOIÂNIA, V.17, N. 2, P. 255-262, JUL./DEZ. 2012

TRADUÇÃO RÉPLICA A JORGE J. E. GRACIA tar baseada em algo mais fundamental, em algo mais essencial. Obviamente tem razão na primeira destas argumentações. A localização e o percurso atuais são algo totalmente acidental. Porém, a objeção já foi contestada. Como já ficou manifesto, o essencial para cada indivíduo em particular é justamente o fato de ser membro de uma classe substancial à qual pertence. Esta característica é algo que ele não pode perder sem deixar de ser idêntico ao que é, ou seja, sem deixar de ser! Mas esta é uma necessidade bastante geral, comum a todos os membros de qualquer classe. Os indivíduos particulares não têm essência individual. Somente as coisas gerais e universais a têm. Cada universal distinto (propriedade, número ou tipo) tem de fato sua essência individual, encapsulada no significado do termo geral que a significa. Mas, não é este o caso dos indivíduos particulares. O particular é simples e essencialmente da classe que é substância, como qualquer outro membro desta classe. A seguinte dificuldade marcada pelo professor Gracia se refere a particulares puramente mentais ou espirituais mentes ou almas ou pensamentos (entendidos como episódios mentais). Estes particulares não parecem gozar de uma localização espacial própria. E por certo não a têm. Porém, seus possuidores da fato a têm. Seus possuidores são individualizados como já vimos, e as mentes ou pensamentos são individualizados precisamente por serem a mente ou o pensamento desta ou aquele indivíduo espaço-temporal particular. Meu pensamento, ao meio-dia, de que vai chover, é individualizado por ele ser meu. O pensamento similar do professor Gracia às duas horas da tarde, por ser seu. Quanto aos particulares puramente espirituais e não destacados 5 5 Traduzimos undetached por não destacados. Não destacados significa não individualizados, ou seja, Cont. PHILÓSOPHOS, GOIÂNIA, V.17, N. 2, P. 255-262, JUL./DEZ. 2012 261

Peter F. Strawson, Itamar Luis Gelain tradução (por exemplo, os anjos dos medievais), que não são diferenciáveis espacialmente, em relação a eles não há um princípio de individuação (isto é, essa concepção é incoerente), ou devem ser concebidos como infima species, em cujo caso cada um deles terá uma essência individual única exaustiva de sua natureza, de tal modo que não pode existir um princípio geral de individuação para a classe. Em qualquer caso, seu status como particulares fica questionado. Com isto concluo minha resposta ao professor Gracia. Mas, queria expressar uma vez mais meu apreço à cortesia, clareza e habilidade com a que preparou sua refutação. aqueles seres (anjos, seres espirituais) que não podem ser individualizados por não estarem no espaço, uma vez que a individuação para Strawson depende da localização espaço-temporal. (N. do T.) 262 PHILÓSOPHOS, GOIÂNIA, V.17, N. 2, P. 255-262, JUL./DEZ. 2012