Ernâni Lopes e o Mar Discurso proferido pelo Presidente da Academia de Marinha Almirante Nuno Vieira Matias na Sessão de Homenagem ao Prof. Doutor Hernâni Lopes realizada na Universidade Católica Portuguesa no passado dia 16 de Junho Tive o privilégio de conhecer o Prof. Doutor Ernâni Lopes por causa do mar. Depois, ao longo do tempo, o nosso relacionamento estreitou-se e transformou-se numa amizade de marinheiros e de portugueses. De facto, esses dois traços fortes do carácter de Ernâni Lopes a veneração pelo mar e o amor a Portugal conduziram a que nos encontrássemos e que com ele colaborasse no esforço de divulgação das potencialidades multifacetadas do mar para Portugal. Foi uma actividade muito gratificante nos seus objectivos, mas igualmente muito enriquecedora pela expressão intensa do portuguesismo e do sentido do mar que brotava, jorrava, continuamente do Prof. Ernâni Lopes. Por isso muito o admirei. Ao seu exemplo de cidadão pleno de virtudes nacionais fiquei a dever o gosto que constituía observar a sua intensa vontade de acreditar naquilo que a racionalidade madura lhe oferecia. Poucos meses antes de nos deixar, disse numa entrevista: Todos os Portugueses têm amor a Portugal, porém nem todos se expressam correctamente. Em contraponto, o Professor Ernâni Lopes foi um português de um imenso amor a Portugal e que o sabia expressar de uma forma vibrante, convicta e apaixonada. Era uma expressão que ultrapassava a mera oralidade, para se traduzir sobretudo em acções determinadas, de verdadeira cruzada em favor da terra onde nasceu. 1
Uma das linhas dessas acções orientou-se para o Mar ou, como preferia dizer, para o Oceano, e foi precisamente por isso que muito com ele privei. A sua qualidade de membro fundador da Associação de Oficiais da Reserva Naval (AORN) e seu único presidente da Assembleia-geral deu-nos a possibilidade de directamente colaborarmos nos últimos 15 anos. De facto, apesar de a sua ligação à Marinha ter começado muito antes, só por meio dessa Associação nos encontramos. Na verdade, em 1964, o então licenciado Ernâni Lopes ingressou na Escola Naval para o início de prestação do serviço militar obrigatório, que duraria até 1967. Logo nesse primeiro contacto com a Marinha se notaram as suas qualidades intelectuais e de carácter. A forma como se aplicou, quer nas actividades académicas, quer nas essencialmente militares, evidenciou-o entre o numeroso conjunto de cadetes de várias classes e de formações diversas. Ficaria classificado em primeiro lugar e ser-lhe-ia atribuído o prémio Reserva Naval. As fotografias do Juramento de Bandeira e da entrega daquele prémio na Escola Naval estavam sempre em grande evidência na sala de reuniões da sua empresa, a SAER. Essa passagem pela Escola Naval marcá-lo-ia intensamente, assim como a viagem de instrução a bordo de uma fragata que o levou até mares africanos. Por isso, não se cansava de reafirmar a mensagem que, tempos antes, havia sido transmitida aos cadetes da Reserva Naval pelo Comandante da Escola Naval, Almirante Sarmento Rodrigues: Os que para cá vieram, sairão da Marinha mais homens, mais portugueses, e terão decerto uma melhor compreensão do valor da Marinha e da sua gente. E nas futuras missões que o destino lhes reservar, hão-de, com certeza ser-lhes muito úteis os ensinamentos colhidos e saberão por sua vez ajudar a reivindicar para a Marinha o lugar que lhe deve pertencer, dentro do conjunto das actividades nacionais. Terminada a formação na Escola Naval, serviu na área administrativa e financeira da Inspecção das Construções Navais, organismo encarregado de projectar, adquirir e manter as unidades navais da Marinha. Foi talvez o período em que maior volume de navios foi obtido para a Marinha nos últimos séculos, o que certamente permitiu ao nosso homenageado aperceber-se do funcionamento dos sectores da construção e reparação naval, no país e no estrangeiro. De facto, entre 1964 e 1967, foram encomendados 4 submarinos e 4 fragatas a França, foram construídos, nos nossos estaleiros, 3 fragatas americanas, dezenas de patrulhas e lanchas de desembarque, começadas a 2
Hernâni Lopes e o Mar projectar 10 corvetas pelos nossos engenheiros, as João Coutinho e Baptista de Andrade, que haveriam de ser copiadas para Espanha e Marrocos, etc. Foi, de facto, um período de rara intensidade de trabalho e de demonstração da capacidade nacional em projecto e em construção de navios, muito invejada em países europeus. Outros tempos. Ao logo do nosso conhecimento, percebi que o Ernâni Lopes, era um homem de convicções fortes, alicerçadas num processo de raciocínio metódico, laborioso e inteligente, desprezando sempre entusiasmos ligeiros. Por isso, rejubilei quando, há cerca de sete anos, vi que, aos por si identificados quatro domínios de maior potencial estratégico da economia portuguesa turismo, ambiente, serviços de valor acrescentado e cidades adicionou um quinto: a economia do mar. Isso significava que tinha estudado o tema e que, racionalmente, o considerava, de facto, como um domínio de grande valor prospectivo para a economia nacional, apesar de ser, como costumava afirmar o que está no ponto de partida mais baixo. Contudo, também sempre acrescentava como o fez, provavelmente na sua última entrevista (publicação Cx de Nov/Dez 2010), que O mar é o único domínio com carácter identitário O mar não é só para tirar, extrair valor, é um elemento que nos define, que nos dá identidade. E acrescentou ainda: Para Portugal a vocação Atlântica é o resultado do carácter identitário do mar. Em termos históricos, a vocação atlântica está no Atlântico Médio (polígono: Portugal Continental, Madeira, Açores, Brasil, Angola, S. Tomé e Príncipe, Guiné e Cabo Verde): um espaço enorme que fala português. A vocação atlântica nasce aqui A nossa vocação atlântica, do ponto de vista geopolítico, é onde vamos clarificar o futuro de Portugal se o não fizermos, Portugal não tem papel. Foi a partir dessa visão abrangente sobre a importância do mar para Portugal que estruturou a ideia de um cluster da economia do mar, de que se vinha a falar no seio da AORN, fazia algum tempo. E foi nessa linha que, em 10 de Março de 2004, apresentou em conferência muito ansiada, no Palácio da Bolsa, no Porto, a logificaçao do Hypercluster da economia do mar. Esta acção, veio a demonstrar-se, foi decisiva para o lançamento do processo de Hypercluster. Começou por ser como que a faina de largada do navio da AORN, com o Ernâni ao leme (é assim que o tratamos na AORN), para uma rota que iria passar por outras sete cidades do Continente e uma nos Açores, deixando em 3
cada uma delas o saber de distintos conferencistas. Constituiu este peregrinar uma actividade de cidadania voluntária em que, seguindo o lema da AORN, servimos sem esperar recompensa. Foram tratados temas diversos, como construção e reparação naval, pesca, aquacultura e transformação do pescado, recursos da margem profunda, portos e transporte marítimo, turismo e recreio náuticos, investigação científica do mar, segurança e defesa, etc. Esta navegação teve continuidade na empresa SaeR, gerida pelo Prof. Ernâni Lopes, onde foi, sob a sua orientação, desenvolvido um estudo longo e profundo, com a participação de dezenas de especialistas, que conduziu à publicação da notável obra O Hypercluster da Economia do Mar. Foram anos de labor até este nascimento da menina dos seus olhos, mas valeu a pena. O estudo veio preencher um vazio enorme no domínio do mar e constitui uma verdadeira carta de marear, com os rumos a seguir para o desenvolvimento de cada um dos sectores da economia do mar. Felizmente que a sociedade civil, através da Associação Comercial de Lisboa o está a procurar pôr em prática, com a adesão, para já, de cerca de 80 empresas. As sociedades civil e política honrarão a memória do Ernâni Lopes, marinheiro e português, se implantarem na prática as valiosas medidas ali preconizadas, recuperando a economia do mar Estes breves traços da vocação e actividade de Marinheiro do nosso saudoso Amigo apenas visam complementar a sua talvez mais conhecida actividade de distinto professor universitário, de brilhante economista, de político providencial, de diplomata notável e, sobretudo, de cidadão verdadeiramente exemplar, sempre apaixonado pelo seu País e pela sua Família. O seu amor a Portugal e aos seus valores impressionava-me muito. Mas, sobretudo, pela visão que emanava desse forte sentimento. Por isso, quando em 2007, fui, por solicitação de um grupo de bons portugueses incumbido de organizar o 14º Encontro Nacional de Combatentes sob o lema Homenagear os heróis do passado com o olhar no futuro convidei o nosso saudoso Amigo para proferir a alocução aos milhares de combatentes e suas famílias que, no 10 de Junho, se juntaram no monumento aos nossos mortos, em Belém. Proferiu uma comunicação notável, densamente rica de conceitos, em que quis honrar o passado, lembrar os feitos, preservar a memória, mas 4
Hernâni Lopes e o Mar com a ideia, a perspectiva de longo prazo, fazendo sempre a ligação entre passado e futuro. Constituiu um apelo constante para encontrarmos os factos portadores de futuro e percorrermos vias de projecção afastando do nosso percurso colectivo a carga negativa da descrença e desânimo que vamos detectando na vida corrente actual (10.JUN.2007). Os Combatentes por Portugal, emocionados, ouviram-no terminar com o apelo: Nós só seremos nós quando formos além de nós. A vontade férrea, a inteligência, o saber e o amor a Portugal do Prof. Ernâni Lopes contribuíram, de forma determinante, para levantar, de novo, o nome do Mar Português, ou do Oceano Português, como mais gostava. Cabenos, aos que o apreciámos, dar continuidade ao seu esforço e trabalhar determinadamente numa afirmação de vontade colectiva por Portugal e pelo seu Oceano. Será a melhor forma de homenagearmos o Marinheiro que foi o Ernâni, repetindo agora o que já escrevi na Revista de Marinha. O seu corpo fez a última navegação até ao Cemitério de S. Martinho do Porto, no passado dia 3 de Dezembro. A sua Alma chegara antes ao Cais da Eternidade, onde certamente foi recebida com as honras só devidas aos Eleitos. Nuno Vieira Matias Almirante (R) 5