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Transcrição:

211 Perspectiva do Guaporé - vista da rua Nestor Pestana

212 Fachadas O edifício Guaporé, por não possuir recuos laterais, possui duas faces passíveis de tratamento arquitetônico; a frontal, orientada a oeste e voltada para a rua Nestor Pestana, e a posterior, orientada a leste e voltada para os fundos do terreno. A fachada principal possui cinco momentos distintos, que são um reflexo das conformações das plantas, adotadas para os diferentes usos do edifício.no térreo, a face que compreende as portas de acesso às lojas, garagens e portaria, está recuada 1,70m do alinhamento; como os dois andares superiores de sobrelojas faceiam o alinhamento, criou-se um passeio coberto no térreo junto às vitrines das lojas, protegendo-as de intempéries. Lojas do térreo e embasamento do Guaporé Foto: O segundo momento a ser destacado na fachada é o corpo de cobogós de concreto que, permeado por aberturas quadradas, possui 33,00m de comprimento por 11,20m de altura, correspondendo aos dois andares de sobrelojas. Este pano de cobogós, que marca o embasamento do edifício, se sobressai na paisagem da rua

213 Nestor Pestana, tornando-se um elemento marcante, cuja imponência condiz com o uso institucional das sobrelojas, ocupadas pelo CREA-SP. Além disso, o embasamento confere uma forte identidade visual ao Guaporé e marca a transição vertical dos pavimentos de uso público para os de uso privado. Este elemento possui claras ressonâncias de obras cariocas como o Parque Guinle de Lúcio Costa e do Residencial Pedregulho, de Affonso Eduardo Reidy. Estas soluções também aparecem em outros edifícios de Heep em São Paulo, como no Ouro Preto, da avenida São Luiz e no Buriti, da rua Maria Antonia. Parque Guinle - Lucio Costa - Rio de Janeiro - 1948-54 Foto: Nelson Kon; Fonte: http://www2.nelsonkon.com.br - acesso em dez. 2009 O terceiro momento da fachada corresponde ao 1º pavimento de apartamentos, situado logo acima do embasamento do edifício; isto fez com que os apartamentos deste pavimento pudessem ter grandes terraços, que ocupam o recuo que há entre a torre e o alinhamento. Desta forma, os apartamentos do 1º pavimento não contam com os terraços de 1,50m de largura, presentes nas demais unidades superiores, acarretando num desenho de fachada diferente, somente para este andar. As perspectivas da página seguinte ilustram as situações descritas. Res. Pedregulho - Affonso Eduardo Reidy - Rio de Janeiro - 1947-1950 Fonte: http://www.educatorium.com acesso em dez. 2009 Edifício Buriti - Adolf Franz Heep - 1956 Foto: Edifício Ouro Preto - Adolf Franz Heep - 1954 Foto:

214

215 Fachada do edifício Guaporé atualmente. Foto: O quarto, e predominante, momento da fachada é o que corresponde aos apartamentos do 2º ao 8º andares; aqui Heep adota mais uma vez a idéia da grelha que abriga os terraços, mesma solução já utilizada em outros edifícios estudados anteriormente, como o Icaraí e o Araraúnas, além de outros como o Marajó (Rua Santo Amaro) e o Jequitibá, em Santos. Ao analisar estes edifícios, nota-se que todos eles possuem orientação oeste ou leste, o que reforça o indício de que os terraços, na obra de Heep, funcionam como uma espécie de brise, que protege os caixilhos de salas e quartos da exposição direta ao sol. No caso do Guaporé, orientado a oeste e leste, além da adoção desta grelha de terraços como proteção solar, Heep também cria um brise feito com os mesmos cobogós de concreto presentes no embasamento do edifício, que, além de impedirem a penetração excessiva dos raios solares, conferem unidade à fachada do edifício. Os mesmos cobogós ainda compõe os guarda-corpos dos terraços. O desenho abaixo mostra como é feita a organização da fachada do 2º ao 8º pavimentos, destacando-se a grelha que abriga os terraços, composta pelos cobogós que funcionam como brises e guarda-corpos. Hoje, o fechamento dos terraços com caixilhos de diferentes modelos, fez com que a fachada perdesse a sua unidade visual e a contenção dos intensos raios solares presentes na face oeste.

216 O quinto e último momento a ser analisado na fachada são os recuos sucessivos do 9º e 10º andares, que caracterizam um coroamento, mais compulsório que intencional. Afim de tentar manter a unidade com as demais partes da fachada, Heep utiliza os mesmos guardacorpos de cobogós presentes nos andares inferiores, porém, nestes andares não foi possível que se colocassem os brises, já que a legislação impedia que esses terraços fossem cobertos, deixando os caixilhos das salas e quartos diretamente expostos ao sol. Hoje, o fechamento dos terraços do 9º e 10º andares está presente em quase todas as unidades, conferindo um aspecto negativo ao edifício, já que os materiais utilizados são de baixa qualidade e variam muito, eliminando a unidade original. A fachada do bloco posterior é, do 1º ao 10º andares, uniforme, seguindo as mesmas características presentes do 2º ao 8º pavimentos no bloco frontal. Fachada do edifício Guaporé atualmente. Foto: Situação Atual O edifício Guaporé se encontra hoje num estado satisfatório de conservação em suas áreas sociais, porém a fachada necessita de reparos. Como ocorre na grande maioria dos edifícios da cidade, os terraços vem sendo fechados com caixilhos variados, empobrecendo a volumetria e a unidade da fachada.

217 planta do pav. térreo 1 - portaria 2 - elevador de acesso às sobrelojas 3 - hall de elevadores sociais 4 - banheiros 5 - lojas 6 - grelhas de ventilação dos subsolos

218 planta dos subsolos 1º e 2º 1 - molas dos elevadores 2 - medidores 3 - vazio de ventilação 4 - banheiros

219 1 2 3 1 4 5 planta do 1º pav. esc. 1:250 1 kitchenette - 44 m² kitchenette - 35 m² apto. 1 dorm. - 71 m² apto. 1 dorm. - 62 m² apto. 2 dorm. - 105 m² 3 - sala-living 4 - terraço 2 3 - sala-living 4 - terraço 3 1 - hall de entrada 2 - cozinha 3 - banheiro 4 - sala de jantar 5 - sala de estar 6 - dormitório 7 - terraço descoberto 4 3 - sala de jantar 4 - sala de estar 5 - dormitório 6 - terraço descoberto 5 3 - sala de jantar 4 - sala de estar 5 - dorm. solteiro 6 - dorm. casal 7 - dorm. empregada 8 - banho empregada 9 - serviço

220 1 2 1 planta do pav. tipo 2º ao 8º esc. 1:250 3 1 2 3 kitchenette - 44 m² 3 - sala-living 4 - terraço kitchenette - 35 m² 3 - sala-living 4 - terraço apto. 1 dorm. - 62 m² 3 - sala de jantar 4 - sala de estar 5 - dormitório 6 - terraço

221 1 2 3 planta do 9º pav. esc. 1:250 4 1 2 3 kitchenette - 44 m² 3 - sala-living 4 - terraço kitchenette - 35 m² 3 - sala-living 4 - terraço apto. 1 dorm. - 66 m² apto. 1 dorm. - 52 m² 3 - sala de jantar 4 - sala de estar 5 - dormitório 6 - terraço descoberto 4 3 - sala de jantar 4 - sala de estar 5 - dormitório 6 - terraço descoberto

222 1 2 3 4 planta do 10º pav. esc. 1:250 1 2 3 kitchenette - 44 m² 3 - sala-living 4 - terraço kitchenette - 35 m² 3 - sala-living 4 - terraço apto. 1 dorm. - 70 m² apto. 1 dorm. - 62 m² 3 - sala de jantar 4 - sala de estar 5 - dormitório 6 - terraço descoberto 4 1 - hall de entrada 2 - cozinha 3 - banheiro 4 - sala de estar 5 - dormitório 6 - terraço descoberto

223 corte AA

224 fachada r. nestor pestana

225 detalhe de fachada - térreo Lojas, acesso social e acesso às garagens cobertos por projeção das sobrejojas, conferindo um passeio protegido de intempéries detalhe de fachada - embasamento Cobogós em concreto, permeados por aberturas quadradas, marcam o embasamento do Guaporé, com ressonâncias de Lúcio Costa e Affonso Eduardo Reidy. detalhe de fachada - 2º ao 8º pavs. Uso dos mesmos cobogós do embasamento, conferindo unidade à fachada. Brises e guarda-corpos compondo as unidades da grelha que abriga os terraços

226 6.10 Edifícios Lugano e Locarno 1958-62 Foto: acervo pessoal de Aizik Helcer endereço e localização Av. Higienópolis 324, 360 - Higienópolis av. angélica av. higienópolis r. itacolomi r. marim francisco construção Construtora Auxiliar S.A. (Engº resp. Elias e Aizik Helcer) terreno Retangular - 3484,37 m² unidades Térreo: 1 ap. zelador de 51m², 2 ap. de 170m², 1 ap. de 141m² 1º ao 12º pav.: 2 ap. de 181m², 2 ap. de 188m² 13º pav.: 2 ap. de 155m², 2 ap. de 175m² Total: 56 un. x 2 torres = 112 unidades publicações Acrópole 287, 1962, p. 347 a 349 coef. de aproveitamento 7.2 - Área total = 25.224m² taxa de ocupação 46 % conservação Ótima Perspectiva original dos Edifícios Lugano e Locarno desenhada por Franz Heep. Fonte: Acervo pessoal de Aizik Helcer. descaracterização Baixa

227 Os edifícios Lugano e Locarno são mais um exemplo da intensa verticalização que mudou o conceito de morar das classes mais abastadas; os palacetes davam lugar aos edifícios verticais no bairro de Higienópolis nos anos 1950, como já estudado no caso do edifício Lausanne (p.113). A foto ao lado, tirada em 1959 durante a construção dos edifícios Lugano e Locarno, retrata precisamente o contexto da época; a verticalização intensa avançando sobre os palacetes. Rua Augusta nos anos 1960 Fonte: http://centrosp.prefeitura.sp.gov.br/projetos/augusta.php Av. Higienópolis - Construção dos edifícios Lugano e Locarno em 1959 Foto: Acervo pessoal de Aizik Helcer O projeto dos edifícios Lugano e Locarno foi o último da parceria entre Franz Heep e a Construtora Auxiliar, da família Helcer, que já havia produzido anteriormente o edifício Miri 51, o Lucerna (p.160) e o Lausanne. Porém, no Lugano e Locarno, pela primeira vez Heep assinou um projeto de edifício vertical desde a sua chegada ao Brasil, já que conseguira finalmente um número de CREA. Vista da rua Itacolomi em 1959 - ao fundo o terreno já com a placa da obra. Foto: Acervo pessoal de Aizik Helcer Carimbo do projeto de prefeitura com a assinatura de Adolf Franz Heep. Foto: Acervo pessoal de Aizik Helcer (51) - O edifício Miri situa-se na praça Júlio Prestes, bem próximo à estação de mesmo nome. Algumas imagens e informações básicas sobre este edifício podem ser vistas na tabela da página 250

228 Terreno, implantação, volumetria e entorno bloco B torre locarno bloco A rua interna de pedestres e jardins bloco B torre lugano bloco A O terreno de geometria retangular onde situamse os edifícios Lugano e Lucarno, possui 50,00m de frente que acompanham o alinhamento com a avenida Higienópolis, por 70,45m de fundo, totalizando 3484,37m² de área; o perfil natural do lote possui uma declividade de aproximadamente 2,00m no sentido longitudinal, da avenida Higienópolis para os fundos. A implantação é configurada por dois blocos laminares, idênticos e espelhados, dispostos longitudinalmente ao terreno e separados por um espaço vazio de 18,00m, que pode ser entendido como uma rua interna; o eixo longitudinal de simetria do terreno praticamente coincide com o eixo da calha da rua Itacolomi 52. Desta forma, pode-se dizer que a rua interna criada pela disposição dos blocos, é uma continuidade da rua Itacolomi para dentro do lote, de modo a criar uma interessante relação do público com o privado, perdida nos dias de hoje graças à colocação de grades, que impedem que a cidade permeie o lote, além de barrar visual e fisicamente a continuidade da Itacolomi para o interior do terreno. av. higienópolis r. itacolomi Deve-se considerar que a definição do partido arquitetônico, que gerou a implantação descrita, atribuiu uma inserção urbana mais rica aos edifícios, porém, a orientação solar das lâminas, resultante deste partido, trouxe uma situação a qual um bloco sombreia o outro durante os períodos da manhã e da tarde, como mostra o esquema abaixo; nestes períodos do dia, a rua interna presente no espaço entre os blocos, recebe muito pouca luz solar. Na maioria dos edifícios de Heep estudados, a orientação solar sempre teve um papel fundamental nas decisões projetuais, porém, neste caso, os atributos urbanos do lote se impuseram sobre a insolação na definição do partido arquitetônico. O N L O N L S manhã S tarde (52) - A rua Itacolomi, situada no bairro de Higienópolis, está disposta perpendicularmente à avenida Higienópolis.

229 Os dois blocos laminares, idênticos e espelhados, contam com 61,50m de comprimento por 13,00m de largura e 43,45m de altura; a parte inferior do volume, que corresponde ao térreo, conta com 3,60m de altura e possui pilotis na porção frontal da planta, próxima ao alinhamento com a avenida Higienópolis. As demais partes do térreo não possuem pilotis, pois são ocupadas por apartamentos. O corpo principal do volume, que vai do 1º ao 12º pavimento, possui 36,40m de altura e projetase 1,20m em balanço, no sentido transversal da lâmina, sobre o térreo, na face voltada para a rua interna. O 13º pavimento recua-se em relação aos inferiores em 1,15 no sentido longitudinal e em 0,80m no sentido transversal. Os blocos recuam-se 5,75m da divisa frontal do lote, 3,00m das divisas de fundo e laterais; além disso, os dois blocos separam-se em 18,00m, configurando a rua interna de pedestres. Edifícios Lugano e Locarno - Rua interna Foto: O entorno do Lugano e Locarno é composto por edifícios de gabarito semelhante, sem grandes variações, porém, no bairro de Higienópolis, apesar da intensa verticalização, os edifícios são espaçados entre si, e geralmente não possuem empenas cegas, podendo contar com aberturas em todas as faces, o que favorece a insolação e a ventilação; esta situação é oposta ao que ocorre na grande parte dos exemplares estudados no centro da cidade, onde é comum a presença de edifícios sem recuos laterais, de modo que em muitos casos, a ventilação e iluminação de ambientes de estar e repouso acabam se voltando para vazios internos.

230 Térreo e subsolo ap. zel. 51m² 141 m² 141 m² 170 m² 170 m² 170 m² rua interna de pedestres e jardins av. higienópolis Esquema de distribuição do pavimento térreo circulação horizontal - hall social circulação vertical apartamentos térreos 170 m² ap. zel. 51m² No térreo dos edifícios Lugano e Locarno, a rua interna de pedestres situada na porção central do terreno distribui os fluxos para os acessos aos blocos de moradia, cobertos por marquises que conduzem aos halls sociais; estes são compostos por uma escada disposta diagonalmente, que induz o fluxo aos elevadores. A parte frontal das lâminas conta com pilotis que suspendem os volumes principais, e marcam o acesso ao conjunto. O nível dos acessos aos blocos residenciais, encontra-se 0,50m acima do nível da avenida Higienópolis; esta elevação do térreo, somada à declividade natural do terreno, ajudou a minimizar escavações para a execução do subsolo. A diferença de nível é vencida por uma rampa que se situa na porção central da planta e se alinha com a rua interna. Cada lâmina conta com quatro apartamentos térreos, sendo um para o zelador na porção frontal, próximo aos pilotis, e mais três que ocupam o restante da planta térrea. Como já mencionado anteriormente, a rua interna presente entre os blocos pode ser entendida como uma continuidade da rua Itacolomi, e a ausência de grades nos primeiros anos de existência dos edifícios, possibilitava uma continuidade do espaço público para dentro do lote. O térreo conta com canteiros que acompanham a rua interna de pedestres, resultando numa grande área verde passível de tratamento paisagístico. Há um nível de subsolo destinado às garagens que ocupa praticamente toda a projeção do lote, com exceção dos recuos laterais e frontal; sua cota é de 3,25m abaixo do nível térreo. Os veículos o acessam por duas rampas lineares, espelhadas entre si e separadas pela rua interna. As quatro caixas de elevadores e escadas chegam a este nível de garagens, que tem capacidade para aproximadamente 80 vagas, número inferior ao de apartamentos, que é de 112. Circulação Vertical Edifícios Lugano e Locarno em 1959 Fotos: Acervo pessoal de Aizik Helcer Os edifícios Lugano e Locarno possuem dois blocos cada, com uma caixa de circulação vertical interna para cada um deles, totalizando quatro. Os nichos de circulação vertical são compostos cada um por dois elevadores e uma escada semi-circular sem patamar intemediário; apenas na transição do primeiro pavimento para o térreo, a escada muda para uma conformação linear, disposta de modo diagonal.

231 Pavimento tipo e unidades 181m² 181m² 188 m² 188 m² 188 m² 188 m² 181m² 181m² Esquema de distribuição do pavimento tipo do 1º ao 12º andar circulação horizontal circulação vertical unidades Planta das unidades de 181m² Os edifícios Lugano e Locarno apresentam, do 1º ao 12º andar, o mesmo arranjo espacial do pavimento tipo; são quatro apartamentos por andar para cada lâmina, agrupados em dois pares espelhados entre si e separados por uma junta de dilatação; cada par possui um hall comum, onde se acessa o nicho de circulação vertical. O 13º andar possui exatamente a mesma conformação; o recuo escalonado apenas diminui a área das unidades, sem causar mudanças em sua distribuição espacial. Edifícios de conformação laminar que possuem muitas unidades de pequenas dimensões por pavimento, necessitam de longos corredores para que elas sejam acessadas; neste caso, como as unidades são de dimensões generosas, não houve a necessidade da adoção de corredores, e sim um hall que distribui fluxos para apenas duas unidades. O pavimento tipo conta com duas unidades de 181m², situadas em ambas as extremidades da lâmina, e duas de 188m², na porção central. Os arranjos espaciais de ambas são semelhantes. O apartamento de 181m² conta com um acesso de serviço e um social, que se abrem para o hall comum do andar. Ao se adentrar à unidade pelo acesso social, o primeiro ambiente é um hall de entrada de 4,50m², de onde se acessa a cozinha, à direita de quem entra, e as salas de estar e jantar à esquerda. No projeto do edifício Lausanne, Heep concebeu plantas onde era possível acessar os diferentes setores do apartamento de maneira independente, de modo que um hall de entrada distribuia os fluxos para cada setor (social, íntimo e de serviços) sem interferência, ou seja, não era preciso passar por um setor para chegar em outro. Neste caso em análise, esta situação não foi possível, talvez devido à conformação mais laminar do edifício, que obrigou os ambientes a serem distribuídos de modo mais vagonar. Porém, Heep manteve alguns princípios que se notam em plantas de outros edifícios, como por exemplo, o de se concentrar as áreas molhadas numa única porção da planta. As salas de jantar e estar ocupam o mesmo espaço retangular de 44,50m², cujas aberturas voltam-se para a rua interna, com orientação oeste na torre Lugano e leste na torre Locarno. Sob a mesma orientação, situam-se um dormitório de solteiro de 17,50m² e um de casal, com 20m² e closet. Há um terceiro dormitório, de 16,50m², que é o único ambiente de estar ou repouso que não se abre para a rua interna, e sim para a av. Higienópolis, no caso das unidades da extremidade sul, e para os fundos do lote, no caso das unidades da extremidade norte.

232 No corredor íntimo, se acessa à esquerda os dormitórios e à direita os banheiros. Mais uma vez Heep não utiliza o conceito de suíte, colocando o banheiro do casal e o social abertos para o corredor. A cozinha é um espaço retangular de 15m² que pode ser dividida, de modo a se criar uma copa. A área de serviço, que conta com dormitório e banheiro de empregada, é acessada pela cozinha e abre-se para a face leste da lâmina na torre Lugano e a oeste na torre Locarno. A unidade de 188m², ao contrário das de 181m², possui aberturas apenas para as orientações leste e oeste; Heep dispôs os domitórios em sequência, todos voltados para a rua interna, assim como a sala de estar. Na resolução da planta da unidade de 188m², a sala de jantar continua se situando num espaço contíguo à sala de estar, porém, voltada para a face oposta à da rua interna. Esta solução resultou numa situação onde a entrada de serviço do apartamento não acessa a cozinha, e sim, a sala de jantar. Planta das unidades de 188m² Planta das unidades térreas de 141m² O 13º pavimento sofre o recuo obrigatório; a face voltada para a rua interna recua-se 0,80m e a voltada para a av. Higienópolis, 1,15m. Esta situação não causou mudanças na distribuição do pavimento ou no arranjo interno das unidades, que apenas perderam área, passando de 181m² e 188m² para 155m² e 175m². No térreo há quatro apartamentos por lâmina, sendo que um, de 51m², situado próximo ao alinhamento com a avenida Higienópolis, destina-se ao zelador. As duas unidades espelhadas, na porção central da lâmina, contam com 170m² cada e possuem arranjo espacial idêntico ao das unidades dos pavimentos superiores que situam-se na mesma porção da planta. A unidade da extremidade norte na lâmina, é a menor de todo o edifício, com 141m², e possui um arranjo espacial um pouco diferente das demais. A escada em diagonal que liga o térreo ao primeiro pavimento trouxe uma conformação espacial trapezoidal à cozinha. As salas de estar e jantar se situam no mesmo espaço retangular de 33,00m², e se voltam para a rua interna. O dormitório de casal ladeia a sala de jantar e também se abre para a rua interna; o outro dormitório, de solteiro, abre-se para os fundos do lote. Neste caso, ao contrário das demais unidades, há somente um banheiro que atende aos dormitórios, porém, ele pode ser considerado grande, com uma área de 11m²; o fato dele ser o único banheiro fez com que suas funções fossem compartimentadas, afim de possibilitar o uso simultâneo delas, com relativa privacidade.

233 Edifícios Lugano e Locarno em 1959 Fotos: Acervo pessoal de Aizik Helcer