Maria Regina Rocha Ramos



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Transcrição:

CONSIDERAÇÕES ACERCA DA SEMI- IMPUTABILIDADE E DA INIMPUTABILIDADE PENAIS RESULTANTES DE TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO ASSOCIADOS AO USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS Maria Regina Rocha Ramos Sumário: 1 - Introdução; 2 - Breve comentário sobre os conceitos atuais de imputabilidade, semi-imputabilidade, inimputabilidade e responsabilidade penais; 3 - Resumida descrição dos conceitos atuais de transtornos mentais e de comportamento associados ao uso de substâncias psicoativas, de acordo com a CID 10; 4 - Como os transtornos mentais e de comportamento associados ao uso de substâncias psicoativas interferem com a semi-imputabilidade e a inimputabilidade penais? 5 - Conclusão. 1 - Introdução Os transtornos mentais e de comportamento associados ao uso de substâncias psicoativas legais ou ilegais são um dos maiores problemas de saúde pública da humanidade e têm significativa participação no incremento da criminalidade, não somente pela questão do tráfico de drogas, mas também pelas alterações mentais e de comportamento que o uso dessas substâncias provoca, com os concomitantes de prejuízo nas capacidades de entendimento e autodeterminação dos usuários, abusadores e dependentes, que, assim, se tornam propensos a exceder os limites da lei. Outrossim, atos ilícitos cometidos pelo contingente de usuários, abusadores e dependentes de substâncias psicoativas legais e ilegais acarretam uma dificuldade adicional na avaliação da imputabilidade e da responsabilidade penais desses indivíduos, criando a necessidade de avaliações técnicas especializadas dos mesmos e tornando imprescindível a colaboração entre psiquiatras e operadores do Direito. 1

Este trabalho tem o objetivo de estudar os fundamentos nos quais se baseia tal colaboração, bem como as possibilidades de torná-la o mais profícua possível, com o conseqüente aperfeiçoamento da aplicação da lei. Para tal, esta tarefa foi dividida nos seguintes tópicos: - Breve comentário sobre os conceitos atuais de imputabilidade, semiimputabilidade, inimputabilidade e responsabilidade penais. - Resumida descrição dos conceitos atuais de transtornos mentais e de comportamento associados ao uso de substâncias psicoativas, de acordo com a CID 10. - Como os transtornos mentais e de comportamento associados ao uso de substâncias psicoativas interferem com a semi-imputabilidade e inimputabilidade penais? - Conclusão 2 - Breve Comentário Sobre os Conceitos Atuais de Imputabilidade, Semi- Imputabilidade, Inimputabilidade e Responsabilidade Penais A imputabilidade é a capacidade de culpabilidade, e quem é desprovido de tal capacidade não pode ser culpado por seus atos e omissões. Por sua vez, a responsabilidade - que não deve ser confundida com a imputabilidade - é o princípio segundo o qual a pessoa dotada de imputabilidade deve responder por suas ações. Então, o imputável pode ser culpado, enquanto o inimputável não pode ser culpado e, portanto, responsabilizado e penalizado, sendo considerado, não obstante, socialmente perigoso e, em consonância, merecedor de uma medida de segurança, ao passo que o semi-imputável é, ao mesmo tempo, culpável e socialmente perigoso, e, então, sujeito, a critério do Juízo, a uma pena ou a uma medida de segurança, uma vez que a segunda pode substituir a primeira. 2

O Código Penal do Brasil adotou o critério biopsicológico no que tange à imputabilidade. Tal critério vem a ser a junção dos dois outros critérios: biológico e psicológico. Enfim, há três critérios que fixam o pressuposto da responsabilidade penal. O biológico, também chamado de etiológico, considera que a responsabilidade estará sempre pelo menos diminuída caso o indivíduo tenha prejuízo na saúde mental, não importando o nexo causal, qual seja a existência de relação entre o delito cometido e o transtorno mental e de comportamento apresentado. Dessa maneira, pelo critério biológico, o crime não precisa ser mais uma expressão sintomática, entre outras, do adoecimento mental, bastando que o indivíduo possua um transtorno da saúde mental. Por outro lado, o critério psicológico não indaga se o infrator tem um transtorno mental e de comportamento, apenas quer saber se, no momento do ato ilícito, ele se encontrava com diminuição das capacidades de entendimento e autodeterminação. Portanto, pelo critério psicológico, mesmo uma pessoa com saúde mental íntegra, caso submetida a uma forte provocação que diminuísse o seu autocontrole e ensejasse o cometimento de um delito, poderia ter a imputabilidade plena obstaculizada. Finalmente, o critério biopsicológico exige que haja nexo causal entre o transtorno mental e de comportamento diagnosticado e o crime perpetrado. Daí o artigo 26 do Código Penal do Brasil registrar que a responsabilidade somente diminui ou é excluída se, no momento da ação ou omissão, e em razão do prejuízo na saúde mental, o indivíduo tinha diminuídas ou abolidas as capacidades de entendimento e autodeterminação. Aliás, vale ressaltar neste ponto, e já à guisa de introdução ao próximo tópico, que a classificação das disfunções elencadas pelo Código Penal do Brasil difere daquela disponibilizada pela Classificação Internacional das Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde (OMS), atualmente em sua 10ª edição. O nosso Código Penal cita quatro categorias: doença mental, perturbação da saúde mental, desenvolvimento mental retardado e desenvolvimento mental incompleto, sendo que a última categoria sequer pode ser considerada um transtorno da saúde mental, mas simplesmente uma dificuldade de entendimento das regras sociais, o que pode propiciar uma ação delituosa. Todavia, há que se admitir que, embora não seja um transtorno mental e de comportamento, é indubitável que o desenvolvimento mental incompleto interfere na capacidade de imputação de um determinado indivíduo. Por sua vez, a CID 10 reúne uma imensidade de transtornos, entre eles os mentais e comportamentais. Como então equiparar as duas classificações? Para isso, devemos englobar os transtornos da saúde mental em cinco tipos: retardos mentais, demências, psicoses, neuroses e transtornos de 3

personalidade, sempre levando em consideração as mudanças de nomenclatura, que de alguma maneira mudam terminologias, sem, contudo, alterar os fundamentos conceituais. Por exemplo, a antiga psicose maníacodepressiva hoje é denominada transtorno afetivo bipolar, mas é importante frisar que tanto a psicose maníaco-depressiva quanto o transtorno afetivo bipolar são psicoses. O mesmo raciocínio pode ser feito relativamente à antiga neurose obsessivo-compulsiva, hoje denominada transtorno obsessivocompulsivo, pois ambos os termos referem-se não a quadros psicóticos, demenciais, de retardamento mental ou de transtorno de personalidade, mas a quadros neuróticos. Reunidos os transtornos mentais e comportamentais da CID 10 nessas cinco categorias citadas, podemos fazer a seguinte equiparação: à doença mental correspondem as demências e as psicoses; ao desenvolvimento mental retardado corresponde o retardo mental; e à perturbação da saúde mental correspondem as neuroses e os transtornos de personalidade. Mas é preciso lembrar: equiparar não que dizer tornar idêntico, e, em assim sendo, alguma adaptação para situações atípicas, poucos comuns, poderá se fazer necessária. Encerrado este breve comentário, passemos para o próximo tópico. 3 - Resumida Descrição dos Conceitos Atuais de Transtornos Mentais e de Comportamento Associados ao Uso de Substâncias Psicoativas, de Acordo Com a CID 10 A atual Classificação Internacional das Doenças (CID), 10ª edição, é de 1993, tendo sido a sua aplicação gradativamente realizada no mundo, estando atualmente em pleno uso. No que se refere aos transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de substâncias psicoativas, são mencionadas as seguintes substâncias: - álcool - opióides 4

- canabinóides - sedativos ou hipnóticos - cocaína - outros estimulantes, incluindo a cafeína - alucinógenos - tabaco - solventes voláteis Em muitos casos, há o consumo simultâneo de várias dessas substâncias ou de substâncias não listadas, o que leva a um 10º item, além dos mencionados acima, que vem a ser: - múltiplas drogas e outras substâncias psicoativas Cada uma dessas substâncias, bem como o uso conjunto das mesmas, pode levar a diferentes quadros clínicos, quais sejam: - intoxicação aguda - uso nocivo 5

- síndrome de dependência - estado de abstinência - estado de abstinência com delirium - transtorno psicótico - síndrome amnéstica - transtorno psicótico residual e de início tardio - outros transtornos mentais e de comportamento - transtorno mental e de comportamento não especificado Por seu turno, cada um dos quadros clínicos acima referidos, exceto o uso nocivo e a síndrome amnéstica, tem apresentações peculiares que geram diferenciações dentro da mesma categoria. Vejamos: - intoxicação aguda pode ser a) não complicada b) com trauma ou outra lesão corporal c) com outras complicações médicas 6

d) com delirium e) com distorções perceptuais f) com coma g) com convulsões h) intoxicação patológica - síndrome de dependência pode estar: a) atualmente abstinente b) atualmente abstinente, porém em ambiente protegido c) atualmente em regime de manutenção ou substituição clinicamente supervisionado (dependência controlada) d) atualmente abstinente, porém recebendo tratamento com drogas aversivas ou bloqueio e) atualmente usando a substância (dependência ativa) f) uso contínuo g) uso episódico (dipsomania) 7

- estado de abstinência pode ser: a) sem complicações b) com convulsões - estado de abstinência com delirium pode ser: a) sem convulsões b) com convulsões - transtorno psicótico pode ser: a) esquizofreniforme b) predominantemente delirante c) predominantemente alucinatório d) predominantemente polimórfico e) predominantemente sintomas depressivos f) predominantemente sintomas maníacos g) misto 8

- transtorno psicótico de início tardio pode ser: a) flashbacks b) transtorno de personalidade e de comportamento c) transtorno afetivo residual d) demência e) outro comprometimento cognitivo persistente f) transtorno psicótico de início tardio Ora, o exame das categorias diagnósticas acima remete-nos ao seguinte raciocínio: uma mesma substância pode dar origem aos mais diversos quadros clínicos; sendo assim, muito além da substância em si, o que é de suma importância para os psiquiatras e os operadores do Direito é o quadro clínico apresentado pelo sujeito, pois cada quadro clínico pode redundar em diferentes comprometimentos das capacidades de entendimento e de autodeterminação. Um estado de abstinência sem complicação por certo afeta diferentemente tais capacidades se comparado com um transtorno demencial. Além disso, é bastante comum a existência de comorbidade, ou seja, um mesmo indivíduo estar acometido por dois ou mais transtornos. Por exemplo, um dependente de álcool usando a substância, ou seja, não abstinente, pode ter também um quadro clínico de transtorno afetivo bipolar ou um dependente de múltiplas substâncias usando as substâncias, ou seja, não abstinente, pode igualmente ter um transtorno de personalidade anti-social. Enfim, mais do que nunca vale realçar a imprescindibilidade do estudo percuciente de cada caso a fim de se chegar a uma correta conclusão acerca das capacidades de entendimento e de autodeterminação e, portanto, da imputabilidade. 9

No próximo tópico, vamos nos deter em como os quadros clínicos provocados pelo uso de substâncias psicoativas podem influenciar a semi-imputabilidade e a inimputabilidade penais. 4 - Como os transtornos mentais e de comportamento associados ao uso de substâncias psicoativas interferem com a semi-imputabilidade e a inimputabilidade penais? As suficientes capacidades de entendimento e autodeterminação permitem que possamos, respectivamente, avaliar corretamente a situação na qual no encontramos e nos posicionarmos diante dela sem ferir os estatutos legais, o que depende que estejamos com a consciência lúcida, atentos, orientados no tempo, no espaço e quanto a si, com perfeito juízo da realidade, ou seja, sem atividade delirante, com a sensopercepção íntegra, ou seja, sem alucinações auditivas, por exemplo, bem como com o humor eutímico, ou seja, nem deprimido, nem maníaco, nem por demais ansioso, com a volição adequada, ou seja, não à mercê de nossos impulsos, que tenhamos inteligência pelo menos mediana, memória sem déficit e estejamos aptos para entender as linguagens que propiciam a devida comunicação, ou seja, sem afasia, por exemplo. Tais funções mentais são avaliadas no exame psiquiátrico, que deve consistir igualmente de detalhada anamnese com e sobre o indivíduo questionado pela Justiça e, se possível, com pessoas que possam contar sobre o mencionado indivíduo. Se necessário, exames complementares podem ser solicitados, por exemplo, uma ressonância magnética do crânio em casos de síndrome demencial. No caso de um exame psiquiátrico-forense, além dos procedimentos já citados, é mandatório que os autos do processo sejam lidos atentamente e seus achados sejam cotejados com aqueles do exame clínico, pois assim podemos acessar sobre a existência de nexo causal. Em suma, o exame psiquiátrico-forense assemelha-se à montagem de um quebra-cabeça, onde juntaremos as partes com o intuito de formar um todo coerente, explicativo e conclusivo. Como foi visto no tópico anterior, o uso de substâncias psicoativas pode originar diversos quadros clínicos, que podem variar de uma intoxicação sem complicação até a uma síndrome demencial. Repetindo, não é a substância utilizada o mais importante, e sim o quadro clínico resultante do uso da mesma. Sendo assim, seria de maior pertinência científica psiquiátrico-forense se houvesse apenas o chamado Incidente de Insanidade Mental e não este e mais o Incidente de Dependência Toxicológica, pois não se trata apenas de saber-se se há dependência, pois como vimos a dependência pura e simples é apenas 10

uma das situações clínicas derivadas do uso de substâncias psicoativas, mas sim de verificarmos se há sanidade mental ou insanidade mental e neste último caso de qual tipo. Sempre estando alerta às limitações inerentes às generalizações, podemos afirmar que os quadros que envolvem psicose e demência abolem tanto a capacidade de entendimento quanto a de determinação e acarretam inimputabilidade, enquanto os quadros de dependência que não cursam com psicose e tampouco com demência e, ao mesmo tempo, permitem a atividade criminosa, não estando, num exemplo extremo, o sujeito em coma alcoólico, trazem como conseqüência apenas uma diminuição das capacidades de entendimento e autodeterminação. 5 - Conclusão A colaboração entre os psiquiatras e os operadores do Direito é fundamental para o adequado desfecho de ações penais que envolvam réus que apresentem transtornos mentais e de comportamento associados ao uso de substâncias psicoativas. E para isso faz-se necessário alargar o campo de visão e não nos resumirmos a constatar se há dependência ou não, mas averiguar qual o tipo de quadro clínico gerado pelo uso da substância e, por fim, como tal quadro interferiu nas capacidades de entendimento e autodeterminação e, portanto, na imputabilidade. Revista Jurídica 362 - Dezembro/2007 - Doutrina Penal 11