1. Conceito EMBARGOS DECLARATÓRIOS - EDCL. Os embargos de declaração ou embargos declaratórios, doravante denominados EDcl., visam aperfeiçoar as decisões judiciais, propiciando uma tutela jurisdicional clara e completa. 1 Está previsto no artigo 535 do CPC e consiste em recurso que tem a finalidade de integrar a decisão judicial em caso de 2 : (a) Omissão quando o juiz não enfrenta todas as questões e/ou pedidos formulados pelas partes. (b) Obscuridade falta de clareza na decisão ou (c) Contradição quando a quebra da ordem lógica da decisão ou quando encerra duas ou mais proposições inconciliáveis. 3 Devolve ao órgão julgador a decisão para sane os vícios apontados pelo embargante. Visa-se obter um provimento jurisdicional íntegro, devolvendo-se ao órgão prolator da decisão a possibilidade de retificar a mesma. 2. Evolução legislativa do recurso De 1973 a 1994 discutia a doutrina se os embargos eram ou não recurso. Atualmente, está pacificada a natureza recursal dos EDcl., mas com as seguintes peculiaridades: (a) Eles não geram duplo grau de jurisdição, uma vez que a decisão é submetida para reexame pelo próprio órgão prolator da decisão. O duplo grau, pressupõe que haja dois órgãos; o a quo e o ad quem. (b) Geram duplo exame, (c) Geram efeito regressivo: que consiste na devolução da matéria para o próprio órgão que a proferiu. Quando os embargos são opostos, eles não podem ter como objetivo afastar o julgamento. O erro material não precisa ser objeto de embargos de declaração, pode ser alegado a qualquer tempo, pois não transita em julgado, conforme determina o art. 463 do CPC: 1 MARINONI-MITIDIERO. CPC Comentado, p. 548. 2 Art. 535. Cabem embargos de declaração quando: I - houver, na sentença ou no acórdão, obscuridade ou contradição; II - for omitido ponto sobre o qual devia pronunciar-se o juiz ou tribunal. 3 MARINONI-MITIDIERO. CPC Comentado, p. 548. 1
Art. 463. Publicada a sentença, o juiz só poderá alterá-la: (Redação dada pela Lei nº 11.232, de 2005) I - para Ihe corrigir, de ofício ou a requerimento da parte, inexatidões materiais, ou Ihe retificar erros de cálculo; II - por meio de embargos de declaração. Ressalte-se que de 1974 até 1994, o CPC falava do cabimento dos embargos para estas 3 hipóteses mais, a hipótese de dúvida. A dúvida, no entanto, foi retirada, porque a omissão, contradição ou obscuridade é defeito da sentença, enquanto a dúvida é estado de espírito de quem leu a decisão. No entanto, em 1995 foi editada a lei dos juizados especiais; a lei 9099, em seu art. 48, determina que os embargos também podem ser utilizados para afastar dúvida. 4 Alguns doutrinadores criticam a dúvida como causa de pedir nos EDcl, uma vez que a dúvida não é fundamento de embargos. 3. Decisões impugnáveis por EDcl. Os embargos cabem contra os atos decisórios: (i) Decisão, (ii) Sentença e (iii) Acórdão O CPC salienta o cabimento apenas em vícios na sentença e no acórdão, mas não fala em decisão. A questão que se coloca então é saber se cabem embargos de declaração contra decisão. Há duas correntes sobre a questão. (a) A primeira sustenta que não cabem embargos contra decisão em face de interpretação literal do art. 535; esta corrente é minoritária e tende a desaparecer, por ser insustentável. (b) A segunda corrente sustenta que depende. Se o problema é omissão, cabem embargos sim; no entanto, sendo contradição ou obscuridade, não cabe. Isto, porque quando o art. 535, I fala em sentença e acórdão, o faz falando apenas sobre obscuridade ou contradição e, o inciso II, ao falar de omissão, não fala expressamente em sentença ou acórdão. 4 Art. 48. Caberão embargos de declaração quando, na sentença ou acórdão, houver obscuridade, contradição, omissão ou dúvida. Parágrafo único. Os erros materiais podem ser corrigidos de ofício. 2
(c) Por fim, a terceira corrente diz que cabem embargos de declaração em todos os casos de decisão (omissão, contradição e obscuridade). É a posição que é mais consentânea com o direito constitucional ao recurso, direito à integridade das decisões judiciais, que devem ser livres de vícios, contradições ou omissões. 5 Nelson Nery Jr. e Rosa Nery salientam que embora se refira apenas à sentença e acórdão, os vícios apontados na norma comentada não podem subsistir na decisão interlocutória, que deve ser corrigida por meio de EDcl.. 6 Deveras, o STJ 7 já pacificou o assunto, salientando que cabe EDcl. em qualquer espécie de decisão judicial: (a) (b) (c) (d) Decisões interlocutórias; Sentenças; Acórdãos; Decisões monocráticas de relator. Ensinam Marinoni e Mitidiero que os embargos declaratórios constituem poderoso instrumento de colaboração no processo, permitindo um juízo plural, aberto e ponderado a partir de um diálogo que visa a um efetivo aperfeiçoamento da tutela jurisdicional. 8 Caso haja dúvidas, a solução é interpor embargos de declaração com pedido de fungibilidade para agravo retido em primeira instância (no prazo de EDcl. e não do agravo retido, que é de 10 dias) ou, para agravo regimental, no caso do Tribunal. 4. Efeitos Os embargos declaratórios tempestivos interrompem o prazo do recurso seguinte para todas as partes e não apenas para quem embargou, nos termos do art. 538 9. Nos Juizados Especiais, os embargos suspendem o prazo para o recurso seguinte de todas as partes e não apenas para a parte que embargou, nos termos do art. 50. 10 5 NERY JR., Nelson. NERY, Rosa Maria. CPC Comentado, 9ª ed. p. 786. No mesmo sentido: BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Comentários ao CPC. 15ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2010, n. 140 e 298. 6 NERY JR., Nelson. NERY, Rosa Maria. CPC Comentado, 9ª ed. p. 786. 7 STJ 1ª T. REsp n. 762.384/SP Rel. Min. Teori Zavascki j. 06.12.2005. 8 MARINONI-MITIDIERO. CPC Comentado, p. 548. 9 Art. 538. Os embargos de declaração interrompem o prazo para a interposição de outros recursos, por qualquer das partes. (Redação dada pela Lei nº 8.950, de 13.12.1994). 10 Lei 9.099/95, art. 50. Quando interpostos contra sentença, os embargos de declaração suspenderão o prazo para recurso. 3
5. Efeitos Modificativos ou infringentes De forma excepcional, é cabível efeito modificativo ou infringente aos EDcl. 11 Ex.: promove-se uma ação patrimonial de indenização, Ariclenes diz que Basualdo deve 100 mil reais. Basualdo diz que não deve porque prescreveu e, mesmo que se entendesse que não houve prescrição, o fato é que não houve o ato ilícito alegado e, por fim, alega que a verba é excessiva. Na sentença o juiz diz que houve ato ilícito, bem como que o valor não é excessivo, mas não toca na questão da prescrição. Em face disto o réu opõe EDcl. dizendo que deixou de analisar a prescrição. Com isto o juiz analisa a questão da prescrição e modifica o julgado, acolhendo a alegação e julgando improcedente a ação. Portanto, em casos de omissão e contradição pode haver EDcl. com efeitos modificativos. O que não se pode é, por intermédio dos EDcl., querer corrigir o julgamento. Nelson Nery Jr. e Rosa Nery salientam que esta via excepcional é cabível para: (a) Corrigir erro material manifesto; (b) Suprir omissão; (c) Acabar com contradição; Enfatizam que a modificação da decisão pode ser apenas a conseqüência do provimento dos EDcl., mas não seu pedido principal, pois isso caracterizaria pedido de reconsideração, finalidade estranha aos EDcl.. 12 Ressalte-se que os embargos de declaração não exigem contrarrazões. Isto, se dá porque, em tese, eles não podem gerar modificação da decisão. Mas, admitindo-se que o juiz perceba que em face dos embargos a decisão será modificada; apesar de não ser necessário é conveniente que o juiz intime o embargado para contrarrazões para resguardar o contraditório. Observação: o STJ só julga RESP quando a matéria federal foi prequestionada. O STF só julga RE quando a questão constitucional já foi enfrentada. Portanto, se é interposto RESP, mesmo que o STJ constate que há questão de ordem pública, se ela não foi prequestionada, o STJ não vai julgar e, o mesmo ocorre com o RE se a matéria não estiver prequestionada. Neste caso, a matéria poderá, no entanto, ser objeto de rescisória. 11 NERY JR., Nelson. NERY, Rosa Maria. CPC Comentado, 9ª ed. p. 786. É muito comum ouvir que os EDcl. não podem ter efeitos infringentes. Na verdade, excepcionalmente, os embargos podem ter efeito modificativo. 12 NERY JR., Nelson. NERY, Rosa Maria. CPC Comentado, 9ª ed. p. 786. 4
6. Embargos protelatórios Como os EDcl. tem como característica interromper o prazo recursal, é possível, e não raro, que a parte oponha embargos declaratórios com o exclusivo intuito de gerar o efeito de interrupção do prazo do recurso seguinte e, com isto ganhar tempo. Em casos tais, prevê o art. 538 sanção para tal conduta: Art. 538. Os embargos de declaração interrompem o prazo para a interposição de outros recursos, por qualquer das partes. Parágrafo único. Quando manifestamente protelatórios os embargos, o juiz ou o tribunal, declarando que o são, condenará o embargante a pagar ao embargado multa não excedente de 1% (um por cento) sobre o valor da causa. Na reiteração de embargos protelatórios, a multa é elevada a até 10% (dez por cento), ficando condicionada a interposição de qualquer outro recurso ao depósito do valor respectivo. A multa é de 1% e, se a parte reiterar a conduta, pode chegar a 10%, com obrigatoriedade de recolhimento prévio para poder recorrer. Os tribunais superiores, acerca dos EDcl. assim posicionaram-se sobre a interpretação dos dispositivos legais reguladores deste recurso: STF Súmula nº 282 - É inadmissível o recurso extraordinário, quando não ventilada, na decisão recorrida, a questão federal suscitada. STF Súmula nº 356 - O ponto omisso da decisão, sobre o qual não foram opostos embargos declaratórios, não pode ser objeto de recurso extraordinário, por faltar o requisito do prequestionamento. Nos termos das referidas súmulas, para obrigar o Tribunal a enfrentar a questão e, com isto, conseguir o prequestionamento, a parte deve embargar suscitando a questão. No entanto, há casos em que o Tribunal não só rejeita os referidos embargos e impõe multa em face da suposta finalidade protelatória. Por esta razão foram editadas as seguintes multas: STJ - Súmula: 98 - Embargos de declaração manifestados com notório propósito de prequestionamento não tem caráter protelatório. STJ - Súmula: 211 - Inadmissível recurso especial quanto à questão que, a despeito da oposição de embargos declaratórios, não foi apreciada pelo Tribunal a quo. Como se vê, se os embargos foram opostos para fim de prequestionamento, eles não terão fins protelatórios. 5
7. Procedimento Os EDcl. são opostos em 5 dias 13 mediante protocolo por petição escrita no juízo ou no tribunal. O recorrente é denominado de embargante e deve apontar a causa de pedir dos EDcl. e independe de preparo. Enfatizam Marinoni e Mitidiero que deve o embargante apontar o ponto da decisão que reputa como obscuro ou contraditório e sendo o caso de omissão, deve indicar qual o fundamento que deveria ter sido considerado pelo tribunal e não o foi. 14 13 Art. 536. Os embargos serão opostos, no prazo de 5 (cinco) dias, em petição dirigida ao juiz ou relator, com indicação do ponto obscuro, contraditório ou omisso, não estando sujeitos a preparo. 14 MARINONI-MITIDIERO. CPC Comentado, p. 549. 6