BuscaLegis.ccj.ufsc.Br



Documentos relacionados
A Guarda Compartilhada

PROJETO DE LEI Nº, DE 2014

PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE A PATERNIDADE GERALMENTE FEITAS POR MÃES

PARECER N.º 256/CITE/2014

Professor Álvaro Villaça Azevedo Titular da Faculdade de Direito da USP

ARPEN - SP ASSOCIAÇÃO DOS REGISTRADORES DE PESSOAS NATURAIS DE SÃO PAULO RECONHECIMENTO DE PATERNIDADE REGINA BEATRIZ TAVARES DA SILVA

PRINCÍPIO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL COMO UM DIREITO FUNDAMENTAL

COMISSÃO DE CONSTITUIÇÃO E JUSTIÇA E DE CIDADANIA. PROJETO DE LEI N o 2.747, DE 2008 (Apensos os Projetos de Lei 2.834/2008 e 3.

A PROTEÇÃO INTEGRAL DAS CRIANÇAS E DOS ADOLESCENTES VÍTIMAS.

Notas técnicas. Introdução

PROJETO DE LEI Nº 100/2013

ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL XVII EXAME DE ORDEM UNIFICADO

Estado do Ceará CÂMARA MUNICIPAL DE MORRINHOS

CARTILHA SOBRE DIREITO À APOSENTADORIA ESPECIAL APÓS A DECISÃO DO STF NO MANDADO DE INJUNÇÃO Nº 880 ORIENTAÇÕES DA ASSESSORIA JURIDICA DA FENASPS

NOVAS PERSPECTIVAS E NOVO OLHAR SOBRE A PRÁTICA DA ADOÇÃO:

Audição da CIP na Comissão de Trabalho e Segurança Social 27 de janeiro de 2016

APOSENTADORIA ESPECIAL

10 LINHAS I. DOS FATOS. A autora teve um relacionamento esporádico. com o réu, no qual nasceu Pedro.

O conflito envolvendo a devolução da comissão de corretagem no estande de vendas da Incorporadora

A PRISÃO PREVENTIVA E AS SUAS HIPÓTESES PREVISTAS NO ART. 313 DO CPP, CONFORME A LEI Nº , DE 2011.

BARDELLA S/A INDÚSTRIAS MECÂNICAS CNPJ/MF Nº / COMPANHIA ABERTA

BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O BINÔMIO ESTADO - FAMÍLIA EM RELAÇÃO À CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA NOS PROGRAMAS TELEVISIVOS

GRUPO III ESPELHO DE CORREÇÃO CRITÉRIO GERAL:

Apresentação. O Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais

CÂMARA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE PROCURADORIA PARECER PRÉVIO

Nº XXXXXXXXXXXXXX COMARCA DE CAXIAS DO SUL A C Ó R D Ã O

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo

Por Uma Questão de Igualdade

O ART. 29, VIII DO CTB E A RESOLUÇÃO 268/2008 DO CONTRAN AUTORIZAM A LIVRE PARADA E ESTACIONAMENTO PARA VEÍCULOS DE TRANSPORTE DE VALORES?

COMISSÃO DE CONSTITUIÇÃO E JUSTIÇA E DE CIDADANIA PROJETO DE LEI Nº 3.405, DE 1997 (apensados os de nºs 2.204/1999, 3.503/2008 e 5.

As crianças adotadas e os atos anti-sociais: uma possibilidade de voltar a confiar na vida em família 1

BOLETIM INFORMATIVO 01/2014 PROCESSO N.º ABRAHÃO SADIGURSKY E OUTROS VS. PETROBRÁS

ADOÇÃO POR CASAIS HOMOSSEXUAIS MARISELMA APARECIDA DOS SANTOS LAPOLA

Aluno(a): / / Cidade Polo: CPF: Curso: ATIVIDADE AVALIATIVA ÉTICA PROFISSIONAL

PODER JUDICIÁRIO JUSTIÇA DO TRABALHO TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 8ª REGIÃO INTRODUÇÃO

A C Ó R D Ã O Nº COMARCA DE CAPÃO DA CANOA P.L.L... N.F.G.M... C.R.S... A.A.S.F... R.G.L... APELANTE APELANTE APELADO APELADO INTERESSADO

PROJETO DE LEI DO SENADO Nº 286, DE 2014

MATRICULA CASOS ESPECIAIS

OS FILHOS E O DIVÓRCIO

ESTATUTO DA CRIANÇA E ADOLECENTE PROF. GUILHERME MADEIRA DATA AULA 01 e 02

Introdução. instituição. 1 Dados publicados no livro Lugar de Palavra (2003) e registro posterior no banco de dados da

COMISSÃO DE SEGURIDADE SOCIAL E FAMÍLIA PROJETO DE LEI

A alienação parental e os efeitos da Lei nº , de 26 de agosto de 2010 no direito de família. Válter Kenji Ishida

CT.DSL-DR- /00 Rio de Janeiro, 10 de abril de

TOMADA DE DECISÃO EM SITUAÇÃO DE EXCEÇÃO. particulares a aplicação exata das regras do direito consagrado.

Marco legal. da política indigenista brasileira

Brasil. 5 O Direito à Convivência Familiar e Comunitária: Os abrigos para crianças e adolescentes no

ASPECTOS DA DESAPROPRIAÇÃO POR NECESSIDADE OU UTILIDADE PÚBLICA E POR INTERESSE SOCIAL.

PARECER N.º 18/CITE/2012. Assunto: Licença na situação de risco clínico e licença por maternidade Direito a férias Processo n.

5 Considerações Finais

DUNKER, C.I.L. Desautorização da Mãe pelo Pai. Revista Pais e Filhos, A Desautorização da Mãe pelo Pai

A extinção da personalidade ocorre com a morte, que pode ser natural, acidental ou presumida.

Princípios da educação inclusiva. Profa Me Luciana Andrade Rodrigues

Presidência da República Casa Civil Secretaria de Administração Diretoria de Gestão de Pessoas Coordenação Geral de Documentação e Informação

PARECER N.º 192/CITE/2015

Dicas para você trabalhar o livro Mamãe, como eu nasci? com seus alunos.

INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES. Jefferson Aparecido Dias *

NOTA JURÍDICA CONASEMS n. 014 NÚCLEO DE DIREITO SANITÁRIO

PODER JUDICIÁRIO JUSTIÇA DO TRABALHO CONSELHO SUPERIOR DA JUSTIÇA DO TRABALHO

A PRÁTICA PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL NO PROCESSO DE ADOÇÃO NO SERVIÇO AUXILIAR DA INFÂNCIA E JUVENTUDE DE PONTA GROSSA-PR

SÍNDROME DE DOWN E A INCLUSÃO SOCIAL NA ESCOLA

PROJETO DE LEI N.º 7.004, DE 2013 (Do Sr. Vicente Candido)

COMISSÃO DE SEGURANÇA PÚBLICA E COMBATE AO CRIME ORGANIZADO

Noções de Direito e Legislação em Informática

A MAIORIDADE PENAL NO BRASIL E EM OUTROS PAÍSES

O céu. Aquela semana tinha sido uma trabalheira!

Superior Tribunal de Justiça

CRITÉRIOS DETERMINANTES DA RELAÇÃO DE

RESOLUÇÃO Nº CLASSE 19 BRASÍLIA DISTRITO FEDERAL

Módulo 9 A Avaliação de Desempenho faz parte do subsistema de aplicação de recursos humanos.

DAS RELAÇÕES DE PARENTESCO Carlos Roberto Gonçalves

Atendimento Policial a Vítimas de Violência Doméstica

RESOLUÇÃO Nº INSTRUÇÃO Nº CLASSE 19 BRASÍLIA DISTRITO FEDERAL

PEDIDO DE FISCALIZAÇÃO DA CONSTITUCIONALIDADE

APELAÇÃO CÍVEL. PROCEDIMENTO ORDINÁRIO. AÇÃO DE COBRANÇA C/C INDENIZAÇÃO SECURITÁRIA. BENEFICIÁRIO DO

O MUNDO É A CASA DO HOMEM

Resumo Aula-tema 05: Direito de Família e das Sucessões.

Atualização Sobre Legislação a Respeito de Testagem de Álcool e Outras Drogas

CRIA O ISNTITUTO MUNICIPAL DE PREVIDÊNCIA DE CAMPO GRANDE, REGULA O SEU FUNCIONAMENTO E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS.

Dispõe sobre a recepção, pelos Oficiais de Registro Civil das Pessoas Naturais, de indicações

Artigo jurídico para publicação. Classificação: parecer. Título:

PONTOS DO LIVRO DIREITO CONSTITUCIONAL DESCOMPLICADO QUE FORAM OBJETO DE ATUALIZAÇÃO NA 6ª EDIÇÃO DA OBRA.

Vedação de transferência voluntária em ano eleitoral INTRODUÇÃO

TRATADOS INTERNACIONAIS E SUA INCORPORAÇÃO NO ORDENAMENTO JURÍDICO 1. DIREITOS FUNDAMENTAIS E TRATADOS INTERNACIONAIS

A Hermenêutica do Artigo 50, 13, Inciso III, do ECA, Frente à Equidade e aos Princípios Constitucionais da Proteção Integral e da Prioridade Absoluta

BuscaLegis.ccj.ufsc.br

GILBERTO VALENTE DA SILVA SUGESTÃO PRÁTICA SOBRE REGISTRO PENHORAS

As decisões intermédias na jurisprudência constitucional portuguesa

Turma e Ano: Turma Regular Master A. Matéria / Aula: Direito Civil Aula 19. Professor: Rafael da Mota Mendonça

Transcrição:

BuscaLegis.ccj.ufsc.Br Dois pais e uma mãe: É possível registrar? Rafael D'Ávila Barros Pereira * No dia 09/04/08, no capítulo da novela "Duas Caras", da Rede Globo, foi apresentada uma situação, se não comum, inusitada e interessante. Em sentido oposto ao que presenciamos nos dias atuais, em que muitos pais biológicos se furtam em registrar seus filhos, dois homens se declaram pais de uma criança e assim desejam registrá-la. Detalhe: têm os "pais" a concordância e o apoio da mãe. Exame de DNA? Que nada. Os pais aqui me refiro aos três não querem realizar o referido exame. Por quê? Não querem saber quem é o pai biológico, o "verdadeiro pai" na linguagem popular, para evitar desavenças entre eles! As aspas em verdadeiro pai são utilizadas porque, em nosso entendimento, o verdadeiro pai não é apenas aquele que contribuiu com o material genético para a formação da criança. Isto é ser genitor! Ser pai e mais que isso: é cuidar, educar, dar carinho e amor, brincar, levar à escola, e muito mais. Ser genitor é fácil, basta alguns minutos, ou até segundos. Ser pai não, é bem mais complicado; requer uma dedicação constante, durante toda a vida; requer um sentimento de pai e filho. Para nós, o que se afigura de positivo nessa situação é a harmonia em que vivem os três: os dois "pais" e a mãe. Desculpe nosso rigor, mas é só. Enquanto observamos desavenças e brigas entre os casais, os três personagens vivem "num mar de rosas". Pelo menos até agora; pelo menos é assim que a novela deixa transparecer. Não iremos adentrar nos meandros das relações sociais, das relações humanas. Não pretendemos discutir o que é certo ou errado, o que pode e o que não pode, o que á "careta"

e o que é moderno. Cabe-nos apenas analisar se existe a possibilidade jurídica de promover o registro de nascimento de uma criança de forma a fazer constar dois pais e uma mãe. Não. Em nosso ordenamento jurídico tal registro não é possível. Queremos deixar claro, desde logo, que não somos contrário à paternidade sócioafetiva. A jurisprudência pátria tem reconhecido esta paternidade, há tempos defendida por alguns civilistas. Não é demais repetir: ser pai não é apenas ser genitor. É muito mais que isso. Importante destacarmos que prevalece nos Tribunais que os filhos têm direito de conhecer sua paternidade biológica, embora satisfeitos com a paternidade sócio-afetiva. Dessa forma, no caso em comento, impossível seria a recusa em saber quem seria o pai biológico da criança, da forma em que vem sendo feita. Em situações "normais", a mãe representaria o filho em uma Ação de Investigação de Paternidade. Mas, e neste caso, em que ela não quer saber (ou divulgar) quem é o pai biológico? A lei 8.560/92, no artigo 2º, 4º, reza que se o suposto pai não atender no prazo de 30 (trinta) dias a notificação judicial, ou negar a alegada paternidade, o juiz remeterá os autos ao representante do Ministério Público para que intente, havendo elementos suficientes, a ação de investigação de paternidade. Seria possível aplicar este artigo no casu in tela? Claro que sim. Parece-nos até que este dispositivo fora criado para regulá-lo! Poderia o Ministério Público ingressar coma a referida ação com o escopo de defender os interesses do menor. Esta se apresenta como uma de suas mais nobres atuações. Algumas decisões judiciais vedam à investigação de paternidade pelo Ministério Público quando contrária à decisão da mãe. Mas, neste caso, tal entendimento não deve prevalecer, por tratar-se de direito indisponível do menor, alocado a uma situação especialíssima.

Urge ressaltar, mais uma vez, que não discutiremos a relação tríplice do casal. O que defendemos é que a criança tem o direito de saber, no futuro, que é seu pai biológico, em face de diversos fundamentos, posteriormente mencionados. A Lei 6.015/73 Lei dos Registros Públicos estabelece, em seu artigo 54, um rol de informações que devem constar em um assento de nascimento. E a alínea 7ª menciona que devem figurar a qualificação dos pais. Mas quantos pais: dois, três, dez? Não. A lei quer dizer pai e mãe. O mesmo diploma, no artigo 52, elenca, em ordem sucessiva, quem deve promover a declaração de nascimento: na alínea 1ª, o pai; na alínea 2ª, em falta ou impedimento do pai, a mãe. Ou seja, nosso principal diploma regulador dos registros públicos funda-se num dado relevante: toda criança tem uma pai e uma mãe. Pode até existir apenas um deles, ou melhor, ser conhecido apenas um deles. Mas figurar dois pais e uma mãe? Não temos amparo legal para isso. Em sendo possível, faço uma indagação: teríamos no registro um pai figurando como biológico e outro como sócio-afetivo? Não sei. Não vislumbro tal possibilidade. Deverá constar no registro do nascimento da criança, sim, o nome do pai biológico, juntamente com o nome da mãe. Casados ou não, é assim que nossa legislação determina. Poderia até figurar apenas o nome da mãe, mas o nome desta e de dois pais, isso não. Ademais, imperioso ressaltar que o Código Civil de 2002, em seu artigo 231, estabelece que aquele que se nega a submeter-se a exame médico necessário não poderá aproveitar-se de sua recusa. Assim, aqueles dois homens que se declaram pais da criança e que recusam em fazer o exame de DNA não poderão, com isso, ser beneficiados. É o que aconteceria se ambos fossem registrados como pais de uma mesma criança. O raciocínio seria: como não sabemos quem é o pai, registramos os dois como assim sendo. Nessa linha de entendimento é o Enunciado de Súmula n.º 301 do Superior Tribunal de Justiça: "Em ação investigatória, a recusa do suposto pai a submeter-se ao exame de DNA induz presunção júris tantum de paternidade". Então, ante a recusa dos dois supostos pais em se submeterem ao referido exame, ambos seriam presumidamente pais biológicos da criança? Tratar-se-ia de uma situação inimaginável, para não dizer absurda. Pai

biológico, apenas um é possível. Já paternidade sócio-afetiva, essa sim, pode comportar mais de um pai. Destaca-se: nem mesmo através de adoção poderia ocorrer tal situação. Sabemos que a adoção, conforme disposto no artigo 1.626 do Código Civil de 2002, atribui a situação de filho ao adotado e elimina qualquer relação com os pais anteriores, com a ressalva quanto aos impedimentos para o casamento. No caso exemplificativo em questão, não pairam dúvidas quanto à maternidade, ou seja, a mãe deve figurar no registro. E os "dois pais"? Se adotassem a criança, como um casal homossexual, a mãe perderia o vínculo com o filho, e não é isso que eles querem. Não somos contra esse arranjo familiar: dois homens, uma mulher, um filho. Ou melhor, não analisaremos tal situação, tão comum no Oriente Médio. Podem viver dessa forma, desde que no registro de nascimento da criança conste o nome da mãe que no caso não há dúvida e o nome do pai biológico. Sorte dessa criança, arrisco-me a dizer, de ter dois pais. Digo dois pais sócioafetivos, sendo certo que um deles também é o pai biológico. O registro de apenas um dele o pai biológico não impede a convivência desse modelo familiar. Todavia, necessário é o registro de nascimento da forma, digamos, tradicional. A determinação da paternidade biológica repousa sua importância no fato de que a todos é conferido o direito de saber sobre sua identidade genética. O fundamento não é só o interesse pessoal em conhecer seus familiares biológicos; funda-se no direito (em alguns casos necessidade) em conhecer a história de saúde de seus parentes consangüíneos para fins de prevenção de doenças físicas e psíquicas. E claro, também para evitar o incesto. Como se não bastasse, sabemos que o entendimento e a harmonia nas relações humanas podem desaparecer num piscar de olhos. Sendo assim, prudente seria conferir a maior proteção possível à criança, evitando que futuras desavenças possam causar-lhe problemas. Promova-se o registro com o nome da mãe e do pai biológico, após definição mediante exame de DNA. Se se juntará aos pais e à criança outro homem, figurando como um segundo pai, sócio-afetivo, constituindo um novo arranjo familiar, é questão de outra ordem.

* Rafael D'Ávila Barros Pereira - Advogado em Juiz de Fora, Pós-Graduando em Direito Constitucional Disponível em: http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=11152 Acesso em: 14 de abril de 2008.