filosofia contemporânea



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Transcrição:

filosofia contemporânea carlos joão correia 2014-2015 1ºSemestre

John Perry Um amnésico, de nome Rudolf Lingens, perde-se na biblioteca da [Universidade] de Stanford. Lê várias coisas na biblioteca, incluindo uma biografia dele próprio, assim como uma descrição pormenorizada da biblioteca na qual se perdeu. [ ] Continua a não saber o que ele é e onde está, por mais conhecimento que ele obtenha até que chegue o momento em que ele está pronto para dizer: este lugar é o corredor número cinco, do andar número seis, da biblioteca principal de Stanford. Eu sou Rudolf Lingens. John Perry. Frege on Demonstratives. The Problem of the Essential Indexical: And Other Essays. Oxford/New York: Oxford University Press. 1993, 21-22

Implantes de memórias Suponhamos que [...] neurocirurgiões do futuro conseguem criar num cérebro uma cópia de todos os traços de memória (memory-trace) num outro cérebro. (...) Jane concordou em que fosse copiado no seu cérebro alguns dos traços das memórias de Paul. Depois de recuperar a consciência no quarto hospitalar de recuperação, ela tem um conjunto de novas memórias aparentemente bem vivas. Ela parece lembrar-se de caminhar no pavimento de mármore de uma praça, de ouvir o bater das asas de pombos a voar, de escutar o som de gaivotas e de ver a luz cintilante na água esverdeada. Uma memória aparente é muito clara. Ela parece lembrar-se de ver ao longe na água uma ilha. Derek Parfit. 1984. Reasons and Persons. Oxford: Clarendon Press, 220.

A identidade pessoal e o futuro Sou condenado a ser torturado e sei que vou sofrer horrivelmente. Mas vou ser acompanhado por um médico que me diz: não se preocupe pois, quando chegar o momento, não se lembrará do que irá acontecer. Será que isso me descansa? Será sempre uma tortura que aguardarei penosamente; sei muito bem que se podem esquecer coisas terríveis e, no entanto, elas não deixam de ser traumáticas. Como não fico nada satisfeito, o médico diz-me: vou injectar-lhe uma droga e ficará amnésico em relação a toda esta situação. Nem se recordará desta conversa nem da situação que o trouxe aqui. Será que isso me descansa? Não, porque me posso perfeitamente imaginar com dores intensas e amnésico. Finalmente, diz-me que encontrou a solução final: vou injectar-lhe uma substância que o fará crer que é outra pessoa. Será que isso me sossega? Claro que não. Pois posso-me imaginar louco, com outra personalidade (julgar que sou, por exemplo, Napoleão [George IV]) e sofrer violentamente. Conclusão: a imaginação do nosso futuro é tão importante como a recordação do nosso passado. Resumo do caso descrito por Bernard Williams no artigo The Self and the Future (1970) Cf. Bernard Williams.1973. Problems of the Self. Cambridge et al: Cambridge Univ.Press, 51-53

O leitor está a olhar para esta página, a ler este texto e a elaborar o significado das minhas palavras à medida que vai avançando na leitura. Porém, o que se passa na sua mente não se limita de forma alguma ao que diz respeito ao texto e ao seu significado. Paralelamente à representação das palavras impressas e à evocação de conceitos necessária para compreender aquilo que escrevi, a sua mente revela também uma outra coisa, algo que é suficiente para indicar, a cada instante, que é o leitor e não outra pessoa quem está a ler e a compreender o texto. As imagens que correspondem às suas percepções externas e às percepções daquilo que recorda ocupam quase toda a extensão da sua mente, mas não ocupam a sua totalidade. Para além destas imagens, existe igualmente uma outra presença que o significa a si, enquanto espectador das coisas imaginadas, proprietário das coisas imaginadas e actor potencial sobre as coisas imaginadas. ( ) Se esta presença não existisse, como poderia saber que os seus pensamentos lhe pertencem? Quem poderia afirmá-lo? Esta presença é calma e subtil e por vezes é pouco mais do que uma alusão meio aludida e um dom meio compreendido ( ). Nesta perspectiva, a presença do si é o sentir daquilo que acontece quando o seu ser é modificado pela acção de apreender alguma coisa. Essa presença tenaz nunca desiste. António Damásio. O Sentimento de Si. 29

a presença de si-próprio é o sentir aquilo que acontece quando o seu ser é modificado pela acção de apreender alguma coisa. 1. sentimento de si associado à consciência do aqui e agora 2. mesmo quando estamos desatentos em relação a nós próprios, é sempre possível surpreender em cada acto de consciência um grau mínimo de auto-referência.

Esta subjectividade é assinalada por um facto como este: posso sentir as minhas dores e vocês não. Vejo o mundo do meu ponto de vista; vocês vêem no a partir do vosso ponto de vista. Sou consciente de mim mesmo e dos meus estados mentais internos, enquanto inteiramente distintos da individualidade e dos estados mentais das outras pessoas. Desde o século XVII, pensámos a realidade como algo que deve ser igualmente acessível a todos os observadores competentes isto é, que pensam que ela deve ser objectiva. Ora, como é que vamos acomodar a realidade dos fenómenos mentais subjectivos à concepção científica da realidade enquanto totalmente objectiva? John R. Searle. 1984. Minds, Brains, and Science. Cambridge (Mass.): Harvard Univ.Press, 16 ( ed.port. 21)

imagem de si sentimento de si nuclear - consciência de si aqui e agora

linguagem

linguagem "Nos tempos em que estudava medicina e neurologia, lembro-me de perguntar a algumas das pessoas mais sábias que me rodeavam como é que produzíamos a mente consciente. Curiosamente, a resposta era sempre a mesma: o segredo está na linguagem. Diziam-me que as criaturas sem linguagem estavam limitadas à sua ignorante existência, ao contrário de nós, felizardos humanos, a quem a linguagem permitia conhecer. A consciência era uma interpretação verbal dos processos mentais em curso. A linguagem providenciava o afastamento necessário para podermos olhar para as coisas com a distância necessária. Esta resposta pareceu-me sempre muito simples, simples demais para explicar um fenómeno que eu imaginava na altura impossível de explicar dada a sua complexidade. E a resposta não só era simples, mas também improvável, dado o que me era dado ver sempre que visitava o Jardim Zoológico. Nunca acreditei na resposta e agrada-me muito nunca ter acreditado. A linguagem, com as suas palavras e frases, é tradução de uma outra coisa, é uma conversão de imagens não-linguísticas que representam entidades, eventos, relações e inferências. Se a linguagem funciona em relação ao si e à consciência do mesmo modo que funciona para todas as outras coisas, ou seja, simbolizando em palavras e frases aquilo que começa por existir de uma forma não verbal, então deverá existir um sentimento de si não-verbal 133-134

linguagem/ii "A melhor demonstração do que acabo de descrever ocorre em pessoas com aquilo a que chamamos afasia global. Trata-se de uma perturbação de todas as faculdades da linguagem. Os doentes são incapazes de compreender a linguagem, auditiva ou visualmente. Quando se fala com eles não compreendem o que dizemos e não conseguem ler uma única letra ou palavra; não são capazes de falar ( ) Não há qualquer prova de que, nas suas mentes atentas, se estejam a formar quaisquer palavras. Pelo contrário, o seu processo de pensamento parece não usar palavras. Todavia, enquanto manter uma conversa normal com afásicos globais está fora de questão, é possível comunicar com eles, duma forma rica e humana, se tivermos a paciência de nos adaptarmos ao vocabulário limitado e improvisado de sinais não linguísticos que estes doentes inventam e usam. ( ) Em termos de consciência nuclear, estas pessoas em nada diferem de mim ou do leitor, apesar da incapacidade de traduzirem o pensamento em linguagem e viceversa. ( ) Posso assegurar-vos que ninguém jamais pôs em causa a integridade da consciência de Earl e que ninguém com bom juízo clínico o faria nos dias de hoje. ( ) O Earl não só estava vígil e atento, como também produzia um comportamento apropriado à desgraçada situação que lhe tinha cabido em sorte. Não se limitava a produzir reflexos não pensados e não conscientes. ( ) A gratidão dos seres humanos para com a linguagem não requer de todo que a linguagem esteja na origem da consciência. 135-138