A QUESTÃO DA SIGNIFICÂNCIA DA LÍNGUA EM ÉMILE BENVENISTE:

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Transcrição:

ROSÁRIO, Heloisa Monteiro. A questão da significância da língua em Émile Benveniste: o modo semiótico e o modo semântico. ReVEL, edição especial n. 11, 2016. [www.revel.inf.br]. A QUESTÃO DA SIGNIFICÂNCIA DA LÍNGUA EM ÉMILE BENVENISTE: O MODO SEMIÓTICO E O MODO SEMÂNTICO Heloisa Monteiro Rosário 1 heloisa.monteirorosario@gmail.com... é sempre do ponto de vista do sentido que Benvenisteinterroga a linguagem... (Roland Barthes, Por que gosto de Benveniste, 1966) RESUMO: Este estudo tem como objeto de investigação a questão da significância da língua em Émile Benveniste. Nessa perspectiva, as noções de semiótico e de semântico elaboradas pelo linguista são fundamentais, uma vez que configuram os dois modos de significar da língua. Assim, procede-se a uma análise dos artigos em que tais noções são formuladas A forma e o sentido na linguagem (1966/1967) e Semiologia da língua (1969) com o fim de determinar, de um lado, se neles a distinção semiótico/semântico tem ou não o mesmo estatuto e, de outro, qual seria, afinal, esse estatuto. Palavras-chave: Benveniste; língua; semiótico; semântico. INTRODUÇÃO Em uma de suas últimas publicações, Émile Benveniste: uma semântica do homem que fala, Marlene Teixeira, em coautoria com Rosângela Markmann Messa, utiliza a expressão universo benvenistiano para referir-se ao conjunto do pensamento de Émile Benveniste, salientando que a multiplicidade de interesses que nele encontramos tem seu ponto de convergência na preocupação com a significação (2015: 100). Segundo as autoras, essa preocupação evidencia-se no Benveniste comparatista, reconhecido especialista do campo da gramática comparada sobretudo pelos estudos apresentados nas obras Origine de la formation des noms en indo-européen (1935), Noms d agent et noms d action en indo-européen (1948) e nos dois volumes de O vocabulário das 1 Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS. Professora de Francês do Instituto de Letras da UFRGS. ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 50

instituições indo-europeias (1969), uma vez que neles Benveniste, afastando-se da escola comparatista clássica, não se centra apenas na descrição das formas linguísticas em si, mas busca descrevê-las com base em seu valor funcional. A esse respeito, aliás, Teixeira e Messa trazem a seguinte observação de Lucien Tesnière: Sente-se, por trás de cada um de seus raciocínios, uma teoria geral da linguagem, e constata-se com alegria que o comparatista não abafa nele o linguista (2015: 101, grifos meus). Em Problemas de linguística geral I (1966) e em Problemas de linguística geral II (1974) 2, encontram-se compilados diversos estudos pontuais de Benveniste, publicados originalmente entre 1939 e 1972, que versam sobre temas variados as relações entre o biológico e o cultural, a subjetividade e a sociedade, o signo e o objeto, o símbolo e o pensamento, os problemas da análise intralinguística e objetivam uma contribuição à grande problemática da linguagem 3 (Benveniste, 1966), conforme o Prefácio do primeiro volume. Para Teixeira e Messa, nessas obras surgem mais dois dos interesses que compõem esse universo benvenistiano: o interesse pelo campo da linguística geral e pelo campo enunciativo. Desse modo, tanto no PLGI quanto no PLGII, identifica-se o Benveniste linguista, voltado para questões de linguística geral com o propósito de introduzir o sentido no coração da análise linguística (2015: 101), assim como o Benveniste teórico da enunciação, que coloca para o linguista a necessidade de levar em conta a instanciação do sujeito na dinâmica do discurso, fazendo com que um modo de significação seja indissiociável de um modo de subjetivação (op. cit.: 101-102). A título de exemplo, as autoras citam os artigos Os níveis da análise linguística (1962/1964) e O aparelho formal da enunciação (1970), respectivamente, como emblemáticos dessas duas outras facetas do linguista; além de salientar que as reflexões que levam a uma teoria da enunciação estão reunidas sobretudo nas Partes intituladas A comunicação e O homem na língua dos dois volumes. Nesse momento, cabem alguns comentários: primeiro, os trabalhos de Benveniste no campo da linguística geral, de um lado, e no campo enunciativo, de outro, não foram objeto de uma obra específica do autor 4 ; segundo, conforme Gérard Dessons em Émile Benveniste, 2 Daqui em diante PLGI e PLGII, respectivamente. 3 Tradução minha. No original: une contribution à la grande problématique du langage. 4 Nesse sentido, Teixeira e Messa, recuperando uma avaliação de Valdir Flores no livro Introdução à teoria enunciativa de Benveniste (2013), afirmam que, diferentemente do que ocorre em outros autores, não é possível dizer que Benveniste tenha tido a intenção de produzir uma teoria da enunciação acabada, e que a chamada teoria benvenistiana da enunciação é, na verdade, uma construção a posteriori de seus leitores, que encontraram continuidade no conjunto da produção do linguista sobre o tema (2015: 98). ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 51

l invention du discours (2006), as datas de publicação original dos artigos dos PLGI e II mostram que a pesquisa generalista de Benveniste e a elaboração de sua teoria da enunciação revelam-se uma preocupação constante do linguista, sendo desenvolvidas paralelamente a seus estudos comparatistas (2006: 27); terceiro, e bastante significativo, o próprio Benveniste faz uso da expressão teoria da linguagem no Prefácio do PLGI, o que aponta, acredito, para uma questão de fundo do linguista presente em todos os seus estudos, sejam eles quais forem 5, pensar a natureza da língua/linguagem. E, em relação a essa questão de fundo, o princípio epistemológico o homem está na língua caracteriza o pensamento de Benveniste, ou seja, suas reflexões sobre as línguas em geral e, logo, sobre a língua/linguagem em particular. Tais reflexões, por conseguinte, fundamentam-se em uma visão antropológica da linguagem e, relacionando língua, homem, cultura e sociedade, têm por fim compreender a significância da língua. Não me proponho, nessas páginas, a tratar dessa visão de Benveniste; muitos autores de renome como Roland Barthes (1966), Henri Meschonnic (2009), Gérard Dessons (2006), Jean-Claude Coquet e Irène Fenoglio (Benveniste, 2012) e, entre os brasileiros, claro, Valdir Flores (2013) e Marlene Teixeira (2012) já referiram ou abordaram com propriedade essa questão. Gostaria apenas de retomá-la antes de continuar percorrendo o universo benvenistiano apresentado por Teixeira e Messa. Considerando os estudos atuais sobre a obra de Benveniste, impulsionados principalmente pelas recentes publicações de manuscritos do linguista, as autoras reconhecem, mais fortemente, outros dois interesses presentes no universo benvenistiano: o interesse pelo campo da literatura e pelo campo da semiologia. O envolvimento do linguista com o literário não se configura em uma novidade para o estudioso atento à obra, e também à vida, de Benveniste. Suas referências a escritores ou a passagens de textos literários são recorrentes. Teixeira e Messa mostram que esse interesse pode ser atestado, por exemplo, por sua proximidade com o movimento surrealista ou pela produção de L eau virile (1945), texto no qual versa sobre o imaginário poético da água. Sem mencionar a sempre referida resposta dada a Guy Dumur em entrevista para Le Nouvel Observateur, em 1968, reproduzida no artigo Esta linguagem que faz a história em que Benveniste afirma o imenso interesse da linguagem poética para a linguística. No entanto, com a publicação do manuscrito sobre a língua de Baudelaire, estabelecido e intitulado Baudelaire (2011) por Chloé Laplantine, surge o pesquisador 5 Como, aliás, percebe Tesnière sobre as reflexões de Benveniste no campo da gramática comparada (cf. citação acima). ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 52

preocupado não somente com a significação da linguagem ordinária, mas também com a significação da linguagem poética 6, ou seja, o Benveniste que pensa a linguagem poética ou a arte da linguagem. Completando o universo benvenistiano, a publicação em livro das Últimas aulas no Collège de France (1968 e 1969) (2012) texto organizado por Coquet e Fenoglio que traz os manuscritos de Benveniste relativos as suas aulas sobre a semiologia e a escrita relança a discussão aberta, no PLGII, em Semiologia da língua (1969). Nesse artigo, o Benveniste semiólogo reflete a respeito dos diferentes sistemas semiológicos, das relações existentes entre eles e, principalmente, a respeito do lugar da língua entre esses sistemas, propondo, no final do texto, o projeto de uma semiologia da língua a semiologia de segunda geração ou metassemântica, que toma por base a semântica da enunciação, e não a noção saussuriana de signo, em uma análise translinguística dos textos e das obras. Esse projeto, segundo Teixeira e Messa, deixa claro que o pensamento de Benveniste sobre o sentido não se esgota na semântica da enunciação, mas se volta para a elaboração de uma metassemântica (2015: 102). A pesquisa de Doutorado que desenvolvo atualmente busca, dentro do universo benvenistiano, nas palavras de Teixeira e Messa, esse Benveniste semiólogo. Desse modo, à luz dessas recentes publicações que apresentam seus manuscritos e de uma releitura de diferentes textos dos PLGI e II, proponho-me a um estudo que objetiva compreender o projeto dessa semiologia da língua anunciado por Benveniste no fechamento de seu artigo Semiologia da língua. Nessa perspectiva, as noções de semiótico e de semântico elaboradas pelo linguista são fundamentais, uma vez que, para Benveniste, essas noções encerram os dois modos de significar da língua, ou seja, a dupla significância da língua. Por isso, no presente estudo, dedico-me especialmente à análise dos artigos em que as noções de semiótico e de semântico são formuladas A forma e o sentido na linguagem (1966/1967) e Semiologia da língua (1969), ambos publicados no PLGII com o objetivo de determinar, de um lado, se neles a distinção semiótico/semântico tem ou não o mesmo estatuto e, de outro, qual seria esse estatuto. Tais artigos formam, portanto, o corpus textual desse estudo. Meu problema é provocado por uma afirmação de Flores A distinção 6 Flores ressalta que Benveniste, no também chamado Dossiê Baudelaire, não opõe o poético ao ordinário, mas toma ambos como representações possíveis da língua (2013: 184). Não se trata, então, de uma oposição, mas, sim, de uma distinção. Tal distinção, acrescenta o autor, mostra que Benveniste parece dar uma outra dimensão, mais ampla e mais complexa, à própria linguagem ordinária, na medida em que esta conteria os elementos que permitiriam à linguagem poética advir. ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 53

semiótico/semântico não tem o mesmo estatuto nos dois textos em que é formulada (2013: 158) 7, quando o autor, na parte final de seu capítulo acerca do que chama o segundo momento da reflexão de Benveniste sobre a enunciação: o semiótico e o semântico 8, lança sugestões de temas para debate. Utilizo aqui, propositadamente, a palavra problema, fazendo uma referência ao que Dessons aponta como uma característica própria a Benveniste seu modo particular de pensar a linguagem, os objetos da linguística, através de problemas. Nas palavras do autor, Em Benveniste, a arte de pensar é inicialmente a arte do problema. O alcance disso é posto desde o título dos Problemas de linguística geral. A Introdução explica que, se os estudos foram apresentados aqui sob a denominação de problemas, é porque trazem em seu conjunto e cada um isoladamente uma contribuição à grande problemática da linguagem (I, n. p.). A ideia é, antes de tudo, que os trabalhos apresentados não constituem construções de saberes, mas atos de investigação em um domínio em que a linguagem não é uma positividade a ser conhecida de uma vez por todas, mas uma problemática a ser formulada indefinitivamente e novamente a cada vez. (2006: 10) 9 Aproximando-me, dessa forma, do modo como o linguista pensa a linguagem, conforme Dessons, e fazendo um paralelo, proponho uma investigação que resulta em uma possibilidade de leitura a respeito do estatuto, ou seja, do valor, de semiótico e semântico nesses textos e não, evidentemente, em uma positividade em relação a essa questão. Com isso, na primeira parte desse texto, considerando meu problema de pesquisa, faço uma contextualização dos dois artigos para, em seguida, na segunda e terceira partes, discutir as noções de semiótico e de semântico no artigo de 1966/1967, e, depois, no de 1969. 1. CONTEXTUALIZANDO OS ARTIGOS A FORMA E O SENTIDO NA LINGUAGEM E SEMIOLOGIA DA LÍNGUA A afirmação de Flores de que a distinção entre semiótico/semântico não tem o mesmo estatuto em A forma e o sentido na linguagem e Semiologia da língua provocou meu problema de pesquisa e definiu, consequentemente, meu objetivo no presente estudo 7 Como Flores, nessa afirmação, refere-se apenas aos artigos do PLGII nos quais Benveniste desenvolve as noções de semiótico e de semântico, não compõem meu corpus textual as aulas do linguista sobre semiologia na obra Últimas aulas no Collège de France (1968 e 1969) (2012). 8 Segundo Flores (2013), o primeiro momento diz respeito à questão da subjetividade na linguagem, envolvendo, portanto, a distinção pessoa/não-pessoa, e o terceiro momento é o da formulação da ideia de aparelho formal da enunciação. 9 Observo que todas as citações em português de obras não traduzidas são de minha autoria. ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 54

determinar, de um lado, se a distinção semiótico/semântico tem ou não, nesse corpus textual, o mesmo estatuto e, de outro, qual seria esse estatuto. Conforme Flores, essa distinção não tem o mesmo valor nesses artigos, na medida em que seu contexto de aparecimento muda de um texto para o outro (2013: 158). Qual seria, então, o contexto de aparecimento dessa distinção em cada um deles? Benveniste inaugura o XIII Congresso das Sociedades de Filosofia de Língua Francesa, ocorrido em Genebra, no ano de 1966, com uma conferência acerca de um tema cujo enunciado, em suas palavras, parece convir mais a um filósofo do que a um linguista: a forma e o sentido na linguagem (1989: 220). Sua exposição é publicada em três momentos: em 1966, nos Actes do próprio Congresso; em 1967, em Le langage II; e, finalmente, em 1974, na Parte O homem na língua do PLGII, com o título A forma e o sentido na linguagem. Nesse artigo, as noções de semiótico e de semântico são propostas, pelo linguista, pela primeira vez. O artigo intitulado Semiologia da língua, publicado, em 1974, na Parte A comunicação do PLGII, traz reunidas as duas partes inicialmente publicadas em separado, em 1969, na revista Semiotica 10. Em As perspectivas para o estudo das formas complexas do discurso: atualidades de Émile Benveniste, Flores e Teixeira afirmam que esse artigo é, de longe, o texto mais complexo de Benveniste, uma vez que nele o linguista problematiza a noção de signo em Charles Peirce e em Ferdinand de Saussure, formula os princípios das relações entre sistemas semióticos, analisa as relações entre esses sistemas e aprofunda a discussão das noções de semiótico e de semântico (2013, p. 7). Desse modo, em 1969, com Semiologia da língua, Benveniste desenvolve a reflexão teórica formulada, em 1966/1967, em A forma e o sentido na linguagem. Esses dois artigos diferenciam-se, no entanto, em um primeiro aspecto: a quem se dirige Benveniste em cada um dos textos. E, também, em um segundo aspecto: em relação ao ponto de vista através do qual Benveniste trata a questão da significância da língua. Em A forma e o sentido na linguagem, o linguista fala para um público de filósofos filósofos da linguagem sobretudo ; em Semiologia da língua, escreve para seus colegas linguistas. Logo, nesses textos, Benveniste dirige-se a interlocutores distintos. Sobre o ponto de vista assumido, em A forma e o sentido na linguagem, Benveniste discute a relação entre forma e sentido na linguagem de seu lugar de linguista, uma vez que reflete a respeito do problema da significação a partir da noção saussuriana de língua, um 10 Julia Kristeva, aluna de Benveniste, é quem faz ao linguista a encomenda desse artigo para a revista Semiotica. ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 55

sistema de signos. Ou seja, nesse artigo, Benveniste fala a partir de seu próprio campo de estudos e adota, consequentemente, uma abordagem linguística do tema. Em Semiologia da língua, porém, sua reflexão não instaura um domínio linguístico, apesar de suas muitas referências às ideias de Saussure, marcando sua filiação teórica ao mestre genebrino. Partindo de um problema 11, através de uma pergunta central e norteadora Qual é o lugar da língua entre os sistemas de signos?, Benveniste formula, nesse texto de 1969, os princípios não de uma linguística, mas de uma semiologia. Ou seja, nesse artigo, Benveniste desloca-se de seu campo de estudos e adota uma abordagem semiológica do tema. Entre esses dois artigos, contudo, não existem somente diferenças. O aspecto comum entre ambos encontra-se no fato de que, neles, as noções de semiótico e de semântico ocupam um lugar central na reflexão teórica do autor a propósito da significância da língua. Por outro lado, é preciso salientar que Benveniste também faz referência a essas noções, direta ou indiretamente, em outros textos, como, por exemplo, nos artigos Estruturalismo e linguística (1968) e Estrutura da língua e estrutura da sociedade (1968/1970) do PLGII. E, nesse sentido, outro texto do linguista Os níveis da análise linguística merece um comentário especial. Trata-se de uma conferência realizada no 9 o. Congresso Internacional de Linguística, em Cambridge, em 1962, igualmente publicada em três momentos: em 1962 e, depois, em 1964, em Proceedings of the 9 th International Congress of Linguists; e, mais tarde, em 1966, na Parte Estruturas e análises do PLGI. Nesse artigo, Benveniste discute a relação entre forma e sentido na linguagem base da reflexão em torno dos dois modos de significar da língua sem, no entanto, fazer uso dos termos semiótico e semântico. Nesse momento, Benveniste limita-se a referir dois diferentes domínios de análise o da língua como sistema de signos e o da língua como instrumento de comunicação (1995, p. 139). Esse texto apresenta, por conseguinte, o princípio de sua reflexão sobre a questão da significância da língua. Como mencionado anteriormente, o linguista somente propõe, de fato, as noções de semiótico e de semântico no artigo de 1966/1967. Também é importante assinalar que Benveniste, nesse texto, tem como interlocutores outros linguistas e adota um ponto de vista linguístico em sua abordagem. Aliás, vale lembrar que Teixeira e Messa apontam, dentro do universo benvenistiano, o artigo Os níveis da análise linguística como emblemático do Benveniste linguista. 11 Como costuma proceder, segundo Dessons (2006). ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 56

Mas por que motivo me detenho agora, mais especialmente, nesse texto? Porque, como indica Flores, quando trata do segundo momento da reflexão de Benveniste: o semiótico e o semântico, uma nota de Semiologia da língua 12 remete aos artigos Os níveis da análise linguística e A forma e o sentido na linguagem, sendo, então, o próprio autor que o autoriza a constituir o conjunto desses textos como corpus textual de pesquisa desse momento da teoria (2013: 128). Lembro que meu corpus, no presente estudo, é formado apenas pelos artigos A forma e o sentido na linguagem e Semiologia da língua, na medida em que, neles, são claramente formuladas as noções de semiótico e de semântico. Porém, não é possível deixar de lado o artigo de 1962/1964; afinal, mais do que uma relação, Benveniste estabelece, acredito, um fio condutor entre esses três artigos. Considerando, assim, os aspectos nos quais se diferenciam esses textos a quem se dirige Benveniste em cada um deles e o ponto de vista através do qual o linguista trata a questão da significância da língua, fica claro que o contexto de aparecimento da distinção semiótico/semântico no artigo de 1966/1967 não é o mesmo que no de 1969. Em A forma e o sentido na linguagem, como mencionado, Benveniste dirige-se a filósofos a partir de uma perspectiva linguística, ao passo que, em Semiologia da língua, dirige-se a linguistas e sua perspectiva é semiológica. E é essa mudança de perspectiva que explica, para Flores, a diferença de estatuto da distinção semiótico/semântico nos dois artigos em que é formulada. Nesse momento, soma-se a meu problema de pesquisa uma outra questão: essa diferença de estatuto da distinção semiótico/semântico significa também que, nesses textos, essas noções não têm o mesmo sentido? Buscando, desse modo, respostas para meu problema, passo a uma análise das noções de semiótico e de semântico em A forma e o sentido na linguagem e em Semiologia da língua. 2. O SEMIÓTICO E O SEMÂNTICO EM A FORMA E O SENTIDO NA LINGUAGEM Benveniste, em A forma e o sentido na linguagem, problematizando a relação entre forma e sentido, afasta-se de uma interpretação que coloca em oposição essas noções. Para o autor, essa oposição deve ser reinterpretada no funcionamento da língua, pois encerra, em sua 12 Trata-se da nota 28, página 64, da tradução para o português e da nota I., página 63, do original. ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 57

antítese, o ser mesmo da linguagem, o que nos conduz ao centro do problema mais importante, o problema da significação (1989: 222, grifos meus). A linguagem, conforme Benveniste, significa, e essa é sua característica primordial, sua vocação original que transcende e explica todas as funções que ela assegura no meio humano ; por isso, bem antes de servir para comunicar, a linguagem serve para viver e, sem ela, não haveria nem possibilidade de sociedade, nem possibilidade de humanidade (op. cit.: 222). Com essa definição, o linguista mostra, de um lado, sua visão antropológica da linguagem 13 e, de outro, a importância que tem a questão da significação em seu pensamento. Benveniste, em seguida, deixa claro que não é do ponto de vista dos lógicos que pensa a significação, na medida em que não fundamenta sua reflexão nas condições de aceitabilidade dos predicados, mas na noção saussuriana de língua, um sistema de signos. Desse modo, como mencionado anteriormente, o autor parte de Saussure e instaura um domínio linguístico com sua reflexão. No entanto, o linguista observa Quando Saussure introduziu a ideia de signo linguístico, ele pensava ter dito tudo sobre a natureza da língua; não parece ter visto que ela podia ser outra coisa ao mesmo tempo, exceto no quadro da oposição bem conhecida que ele estabelece entre língua e fala. Compete-nos tentar ir além do ponto a que Saussure chegou na análise da língua como sistema significante. (op. cit.: 224) Nessa perspectiva, Benveniste não se centra na divisão proposta por Saussure no interior da linguagem entre um lado social, a língua, e um lado individual, a fala. Há, para ele, a língua como semiótico e a língua como semântico duas maneiras de ser língua no sentido e na forma (op. cit.: 229). Diferenciando-se, portanto, do mestre genebrino, o linguista propõe uma divisão fundamental, em suas palavras no interior da própria língua; divisão essa que confere uma outra dimensão para a língua como sistema significante. Em relação ao modo semiótico, Benveniste toma o signo linguístico como unidade de análise. E, seguindo as ideias de Saussure, determina que a forma do signo é o significante a forma sonora que condiciona e determina o significado (op. cit.: 225) e seu sentido é o significado. Segundo o autor, contudo, tudo o que é do domínio do semiótico tem por critério necessário e suficiente que se possa identificá-lo no interior e no uso da língua. Cada signo entra numa rede de relações e de oposições com os outros signos que o definem, que o delimitam no interior da língua. Quem diz semiótico diz intralinguístico. Cada signo tem de próprio o que o distingue dos outros signos. Ser distintivo e ser significativo é a mesma coisa. (op. cit.: 227-228, grifos meus) 13 Através da relação intrínseca que estabelece entre linguagem, homem e sociedade. ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 58

Com isso, Benveniste traz para a noção de signo e, consequentemente, para a própria noção de sentido do signo (a noção de significado) a noção de uso da língua: É no uso da língua que um signo tem existência; o que não é usado não é signo; e fora do uso o signo não existe (op. cit.: 227); daí por que existe chapéu e não chaméu 14. Ou seja, as unidades do semiótico que são os signos linguísticos devem ser delimitadas e definidas em uma rede de relações e oposições paradigmáticas no interior do próprio sistema e devem poder ser identificadas, pelos falantes, no uso da língua. O movimento de delimitação e de definição das unidades implica uma operação de distintividade um signo vale o que os outros signos do sistema não valem ; por sua vez, o movimento de identificação das unidades implica uma operação de reconhecimento. Isso faz com que, no modo semiótico, o signo tenha, sempre, um valor genérico e conceitual, devendo ser reconhecido. Tendo definido as características do semiótico, Benveniste passa a se interrogar a respeito da frase, a função comunicativa da língua, uma vez que é assim que nos comunicamos: por frases, mesmo que truncadas, embrionárias, incompletas, mas sempre por frases (op. cit.: 228). Nesse momento, para o linguista, chega-se a um ponto crucial da análise: pensamos que o signo e a frase são dois mundos distintos e que exigem descrições distintas, o que o faz introduzir a noção de semântico, domínio da língua em emprego e em ação (op. cit.: 229) 15. E, em relação ao modo semântico, Benveniste define a palavra como unidade de análise, salientando, porém, que é na frase que a palavra encontra expressão. Por isso, o linguista estabelece o sintagma como forma do semântico e o sentido da frase ou seja, o sentido do semântico como a ideia que ela expressa. Esse sentido, acrescenta Benveniste, se realiza formalmente na língua pela escolha, pelo agenciamento de palavras, por sua organização sintática, pela ação que elas exercem umas sobre as outras, assim tudo é dominado pela condição do sintagma, pela ligação entre os elementos do enunciado destinado a transmitir um sentido dado, numa circunstância dada (1989: 230). 14 Benveniste refere-se, nesse momento, à semiologia e acrescenta: Para que um signo exista, é suficiente e necessário que ele seja aceito e que se relacione de uma maneira ou de outra com os demais signos (op. cit.: 225). No original, em francês, o linguista indica que chapeau e chameau existem, mas chareau não. 15 Benveniste volta-se, assim, para a língua em sua função mediadora entre o homem e o homem, entre o homem e o mundo, entre o espírito e as coisas, transmitindo a informação, comunicando a experiência, impondo a adesão, suscitando a resposta, implorando, constrangendo; em resumo, organizando toda a vida dos homens (op. cit.: 229). Segundo Flores, essa passagem revela, mais uma vez, o viés antropológico de sua reflexão sobre a linguagem (2013: 141). ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 59

O linguista introduz, nessa perspectiva, o seguinte princípio: o sentido de uma frase é diferente do sentido de suas palavras. Desse modo, o sentido de uma frase é sua ideia percebida por uma compreensão global, ao passo que o sentido de uma palavra é seu emprego na frase. Benveniste esclarece também uma outra questão: se o sentido da frase é sua ideia, sua referência é o estado de coisas que a provoca, a situação de discurso. Ou seja, sua referência é construída no discurso 16. Isso faz com que, no modo semântico, o sentido da palavra tenha, sempre, um valor particular, específico e circunstancial, devendo ser compreendido. Com base nessa reflexão, Benveniste aponta a necessidade de uma descrição distinta para cada elemento ou unidade da língua, na medida em que seu sentido muda, conforme é tomado como signo ou como palavra. Em outras palavras, conforme é tomado como pertencente ao modo semiótico ou ao modo semântico 17, as duas maneiras de ser língua no sentido e na forma. Para Benveniste, desse modo, sobre o fundamento semiótico a línguasistema 18, a língua-discurso constrói uma semântica própria, uma significação intencionada, produzida pela sintagmatização das palavras em que cada palavra não retém senão uma pequena parte do valor que tem enquanto signo. (op. cit.: 233-234) E, como quem tem na tradução um de seus interesses, encerro essa parte de meu texto com uma observação de Benveniste a respeito de seu ponto de vista sobre a questão da significância da língua: Pode-se transpor o semantismo de uma língua para o de uma outra, salva veritate ; é a possibilidade da tradução; mas não se pode transpor o semioticismo de uma língua para o de uma outra; é a impossibilidade da tradução. Atinge-se aqui a diferença entre o semiótico e o semântico. (op. cit.: 233) 19 16 Como mostra Flores, Benveniste segue, por conseguinte, a concepção sistêmica de Saussure, excluindo qualquer relação com algo que não esteja na própria língua (2013: 143). 17 No debate ocorrido após sua conferência, Benveniste chega a referir que concebe, a esse respeito, duas linguísticas distintas (1989: 240). 18 Utilizo aqui língua-sistema como sinônimo de semiótico, termo empregado por Benveniste. Faço isso porque entendo que o autor utiliza, nessa passagem, o termo língua-discurso como sinônimo de semântico. Assim, a língua-sistema e a língua-discurso encerram, acredito, as duas maneiras de ser língua apresentadas nesse artigo. 19 A compreensão das noções de semiótico e de semântico formuladas por Benveniste é fundamental na atividade de tradução, uma vez que essa atividade também envolve uma reflexão sobre a questão da forma e do sentido na linguagem. Considerando, por conseguinte, essas noções, não basta ao tradutor um (re)conhecimento dos signos de um determinado idioma (de seu semiótico) para que possa traduzir um texto; é preciso, de fato, que o tradutor compreenda o agenciamento das palavras na frase (o semântico). Por isso, é essencial que uma reflexão enunciativa acerca da língua/linguagem seja introduzida nos cursos de formação de tradutores, que faça parte da construção da chamada competência tradutória expressão do campo dos estudos da tradução, na medida em ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 60

3. O SEMIÓTICO E O SEMÂNTICO EM SEMIOLOGIA DA LÍNGUA As noções de semiótico e de semântico ocupam um lugar central na reflexão desenvolvida por Benveniste em Semiologia da língua. Porém, diferentemente do que ocorre em A forma e o sentido na linguagem 20, nesse artigo de 1969, essas noções são apresentadas em um momento específico do texto: quando o linguista trata da relação de interpretância entre sistemas semióticos 21. Benveniste define a relação de interpretância como a relação que se estabelece entre um sistema interpretante e um sistema interpretado. No que concerne à língua, conforme o autor, é a relação fundamental, na medida em que consiste na relação que divide os sistemas entre os sistemas que articulam porque manifestam sua própria semiótica e os sistemas que são articulados cuja semiótica não aparece senão através da matriz de um outro modo de expressão (1989: 62). Com isso, Benveniste introduz e justifica o princípio de que a língua é o interpretante de todos os sistemas semióticos. Nenhum outro sistema dispõe de uma língua na qual possa se categorizar e se interpretar segundo suas distinções semióticas, enquanto que a língua pode, em princípio, tudo categorizar e interpretar, inclusive ela mesma. (op. cit.: 62, grifos meus) Em outras palavras, a língua articula outros sistemas pelas características de seu próprio sistema, que é, ao mesmo tempo, semiótico em sua estrutura formal e em seu funcionamento, uma vez que 1 o. ela se manifesta pela enunciação, que contém referência a uma situação dada; falar, é sempre falar-de; 2 o. ela consiste formalmente de unidades distintas, sendo que cada uma é um signo; 3 o. ela é produzida e recebida nos mesmos valores de referência por todos os membros de uma comunidade; 4 o. ela é a única atualização da comunicação intersubjetiva. (op. cit.: 63) Essas características fazem da língua a organização semiótica por excelência (op. cit.: 63), pois somente a língua, através da modelagem semiótica que exerce, pode conferir e confere efetivamente a outros conjuntos a qualidade de sistemas significantes informandoos da relação de signo (op. cit.: 64). que o conhecimento bilíngue sozinho não garante em nada a capacidade de se traduzir o semantismo de uma língua para outra. 20 Em que constituem o tema do texto. 21 O termo semiótico é usado, nesse contexto, como sinônimo de semiológico, referente a signo. ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 61

Benveniste, em seguida, interroga-se sobre o que faz da língua o interpretante de todo sistema significante, o que poderia ser explicado por se tratar simplesmente do sistema mais comum, mais abrangente, mais usado e, na prática, mais eficaz. Porém, a esse respeito, acrescenta: Exatamente o oposto: esta situação privilegiada da língua na ordem pragmática é uma consequência, não uma causa, de sua preeminência como sistema significante, e somente um princípio semiológico pode explicar esta preeminência. (op. cit.: 64, grifos meus) Segundo o linguista, portanto, a língua não é o interpretante de todo sistema significante porque, no conjunto desses sistemas, apresenta essas características de ordem pragmática, mas porque é o único sistema que significa de uma maneira específica a língua é investida de uma dupla significância, articulando, consequentemente, dois modos distintos de significância, o modo semiótico e o modo semântico 22 (op. cit.: 64). Eis o princípio semiológico que explica a preeminência da língua em relação aos demais sistemas; assim, aquilo que, a princípio, aparece como uma causa dessa preeminência, acaba sendo, de fato, sua consequência. Cabe aqui um comentário: é nesse momento do texto que Benveniste insere a nota na qual informa que a distinção semiótico/semântico foi proposta pela primeira vez em A forma e o sentido na linguagem, artigo que traz a finalização da análise apresentada em Os níveis da análise linguística 23. O semiótico, retoma o autor, corresponde ao modo de significação próprio do signo linguístico e tem, no signo, sua unidade. O signo existe quando é reconhecido pelo conjunto dos membros da comunidade linguística e evoca, a grosso modo, para cada um, as mesmas associações e oposições, ou seja, o mesmo sentido. Por outro lado, o semântico corresponde ao modo de significação engendrado pelo discurso. Benveniste não utiliza aqui o termo frase, como em A forma e o sentido na linguagem, mas mensagem 24, como segue: 22 Por sua vez, conforme Benveniste, os demais sistemas apresentam uma significância unidimensional: semiótica sem semântica, como os gestos de cortesia, ou semântica sem semiótica, como a música. Essa afirmação bastante polêmica do linguista é problematizada por Meschonnic no texto Benveniste: sémantique sans sémiotique. 23 Cf. nota 12. 24 Frase e mensagem são, nesse contexto, termos sinônimos, pois se referem ao domínio da língua em emprego e em ação, à produção do discurso. ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 62

a mensagem não se reduz a uma sucessão de unidades que devem ser identificadas separadamente; não é uma adição de signos que produz o sentido, é, ao contrário, o sentido (o intencionado ), concebido globalmente, que se realiza e se divide em signos particulares, que são as palavras. (op. cit.: 65) Nesse sentido, Benveniste aponta que o critério de validade requerido por cada um desses dois modos não é o mesmo, na medida em que o semiótico (o signo) deve ser reconhecido, ao passo que o semântico (o discurso) deve ser compreendido. O autor igualmente salienta que a ordem semântica se identifica ao mundo da enunciação e ao universo do discurso (op. cit.: 66), tendo, por conseguinte, além de sentido, referência, o que não ocorre em relação ao modo semiótico. É dessa dupla dimensão de significância da língua que, nas palavras de Benveniste, provém seu poder maior, o de criar um segundo nível de enunciação, em que se torna possível sustentar propósitos significantes sobre a significância (op. cit.: 66). E o linguista acrescenta: É nesta faculdade metalinguística que encontramos a origem da relação de interpretância pela qual a língua engloba os outros sistemas (op. cit.: 66). Referindo-se ao pensamento saussuriano, Benveniste observa que, quando Saussure define a língua como um sistema de signos, estabelece o fundamento da semiologia linguística. O signo não pode ser considerado, no entanto, como o princípio único de explicação da questão da significância, uma vez que corresponde apenas às unidades significantes da língua e não à significância da língua em seu funcionamento discursivo 25. O autor ressalta, além disso, que o mundo do signo é fechado, que não há transição do signo à frase, pois um hiato os separa, o que o faz concluir que É preciso desde já admitir que a língua comporta dois domínios distintos, cada um dos quais exige seu próprio aparelho conceptual. Para o que denominamos semiótico, a teoria saussuriana do signo linguístico servirá de base à pesquisa. O domínio semântico, ao contrário, deve ser reconhecido como separado. Ele precisará de um aparelho novo de conceitos e de definições 26. (1989: 66-67) Nessa perspectiva, Benveniste observa que a semiologia da língua foi bloqueada, paradoxalmente, pelo instrumento mesmo que a criou: o signo (op. cit.: 67), daí por que finaliza seu artigo propondo: 25 Sobre esse funcionamento, Benveniste ressalta que Saussure não ignora a frase, mas a deixa para o campo da fala. 26 Em relação ao semântico, para Flores, o artigo O aparelho formal da enunciação condensa os mais de quarenta anos de reflexão linguística sobre a enunciação, tratando-se, portanto, de um momento-síntese da obra enunciativa de Benveniste (2013: 161). Aliás, como mencionado anteriormente, Teixeira e Messa também indicam esse texto como emblemático do Benveniste teórico da enunciação. ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 63

Em conclusão, é necessário ultrapassar a noção saussuriana do signo como princípio único, do qual dependeriam simultaneamente a estrutura e o funcionamento da língua. Esta ultrapassagem far-se-á por duas vias: na análise intralinguística, pela abertura de uma nova dimensão de significância, a do discurso, que denominamos semântica, de hoje em diante distinta da que está ligada ao signo, e que será semiótica; na análise translinguística dos textos, das obras, pela elaboração de uma metassemântica que se construirá sobre a semântica da enunciação. Esta será uma semiologia de segunda geração, cujos instrumentos e o método poderão também concorrer para o desenvolvimento das outras ramificações da semiologia geral. (op. cit.: 67) Ou seja, é a compreensão da dupla dimensão de significância da língua que permite a Benveniste, de um lado, desenvolver sua semântica da enunciação e, de outro, propor a noção de interpretância da língua, assim como seu projeto apenas anunciado de uma semiologia da língua a semiologia de segunda geração ou metassemântica, tendo como base a semântica da enunciação, e não o signo de Saussure, em uma análise translinguística dos textos e das obras. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesse estudo, dedico-me a uma análise das noções de semiótico e de semântico desenvolvidas por Benveniste nos artigos A forma e o sentido na linguagem (1966/1967) e Semiologia da língua (1969) do PLGII com o objetivo de determinar, de um lado, se nesse corpus textual a distinção semiótico/semântico tem ou não o mesmo estatuto e, de outro, qual seria esse estatuto. Meu problema de pesquisa é provocado pela afirmação de Flores de que essa distinção não tem o mesmo estatuto nos dois textos em que é formulada. E isso ocorre porque, para o autor, seu contexto de aparecimento muda de um texto para outro. De fato, considerando os aspectos nos quais se diferenciam esses artigos os interlocutores de Benveniste em cada um deles e seu ponto de vista a respeito da questão da significância da língua, é possível perceber que o contexto de aparecimento da distinção semiótico/semântico em um e em outro não é o mesmo. Em A forma e o sentido na linguagem, os interlocutores de Benveniste são filósofos e seu ponto de vista é linguístico; em Semiologia da língua, por outro lado, seus interlocutores são linguistas e seu ponto de vista é semiológico. Segundo Flores, por conseguinte, essa mudança de perspectiva linguística no artigo de 1966/1967, semiológica no de 1969 explica o diferente estatuto da distinção ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 64

semiótico/semântico nesses textos 27. A constatação dessa mudança traz uma outra questão para meu problema de pesquisa: essa diferença de estatuto implica também que, nesses textos, as noções de semiótico e de semântico não têm o mesmo sentido? Penso que não. A reflexão a respeito da questão da significância da língua é iniciada no artigo Os níveis da análise linguística (1962/1964) 28, com a delimitação do domínio da língua como sistema de signos e do domínio da língua como instrumento de comunicação, e aprofundada nos artigos A forma e o sentido na linguagem e Semiologia da língua, com a formulação das noções de semiótico e de semântico. Lembro que é o próprio linguista quem relaciona esses textos através de uma nota de Semiologia da língua, estabelecendo, entre eles, acredito, mais do que uma relação, um fio condutor. Fio condutor que diz respeito a uma preocupação constante do linguista a preocupação com a significação presente, como mostram Teixeira e Messa, em todo o universo benvenistiano. Desse modo, tanto em A forma e o sentido na linguagem quanto em Semiologia da língua, não há diferença entre as noções de semiótico e de semântico os dois modos de significar da língua. O modo semiótico refere-se ao mundo fechado dos signos da língua, ou seja, à significância da língua-sistema. As relações que se estabelecem entre os signos são paradigmáticas, fazendo com que cada signo da língua tenha, sempre, um valor genérico e conceitual, devendo ser reconhecido. Por sua vez, o modo semântico refere-se à significância da língua em seu funcionamento discursivo, ou seja, à significância da língua-discurso. As relações não se estabelecem mais entre os signos, mas entre as palavras, e são sintagmáticas, fazendo com que cada palavra tenha, sempre, um valor particular, específico e circunstancial, devendo ser compreendida. Benveniste conclui, então, que a língua comporta dois domínios distintos, sendo que, cada um deles, exige seu próprio aparelho conceitual. O semiótico baseia-se na teoria saussuriana do signo linguístico; o semântico necessita de um aparelho novo de conceitos e de 27 Laplantine observa que, entre a escrita de A forma e o sentido na linguagem e de Semiologia da língua, há o trabalho sobre a língua poética de Baudelaire (2011: 80). Para a autora, inclusive, Semiologia da língua não teria sido possível sem essa poética (op. cit: 81), uma vez que o problema da arte constitui o cerne do questionamento de Benveniste nesse artigo. A questão da arte ocupa, de fato, um lugar importante nessa reflexão do linguista, mas, se Benveniste examina sistemas não linguísticos (o sistema da música e o das artes plásticas, em particular), acredito que seu propósito seja o de esclarecer como a língua significa para explicar por que se constitui no interpretante de todos os sistemas semióticos. 28 Saliento que a perspectiva adotada no texto de 1962/1964, assim como no de 1966/1967, é linguística. ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 65

definições e consiste na reflexão de Benveniste a respeito da enunciação, que encontra, aliás, seu momento-síntese, nas palavras de Flores, no artigo O aparelho formal da enunciação. É assim, portanto, que a língua significa para Benveniste. Ou seja, são as noções de semiótico e de semântico que fundamentam suas reflexões sobre a questão da significância da língua em uma perspectiva linguística, enunciativa ou semiológica. Mas, afinal, e a diferença de estatuto da distinção semiótico/semântico em A forma e o sentido na linguagem e em Semiologia da língua? O que essa diferença significa efetivamente, uma vez que há uma sinonímia entre essas noções de um texto para o outro? Acredito que a mudança de perspectiva apontada por Flores linguística no artigo de 1966/1967 e semiológica no de 1969 mostre a função, o papel, da distinção semiótico/semântico nesses textos. Em A forma e o sentido na linguagem, essa distinção responde à pergunta de Benveniste Como a língua significa?. Interessa aqui pensar linguisticamente a questão da significância da língua. Em Semiologia da língua, por outro lado, essa distinção explica o que faz da língua o interpretante de todos os sistemas semióticos. Interessa aqui pensar semiologicamente como a língua significa os outros sistemas inclusive, ela mesma e, a partir daí, propor o projeto de uma semiologia da língua. Por isso, para Flores, Semiologia da língua ocupa um lugar central na reflexão benvenistiana e tem, talvez, uma amplitude não vista nos demais [textos] (2013: 146), na medida em que Semiótico e semântico servem, aqui, para argumentar em favor de uma semiologia diferente da aludida por Ferdinand de Saussure. A semiologia de Benveniste não se funda exclusivamente sobre a noção de signo, tal como em Saussure, mas, sim, sobre o discurso e, principalmente, sobre o aspecto próprio da língua de ser interpretante de si e dos outros sistemas semiológicos. A semiologia da língua seria exatamente decorrente da propriedade que tem a língua de interpretar-se e interpretar os demais sistemas. Eis a ultrapassagem em relação a Saussure e ela não se dá como uma negação da linguística saussuriana, mas como a fundação de um outro campo: o da semiologia da língua. (op. cit.: 158, grifos do autor) A diferença de estatuto da distinção semiótico/semântico em A forma e o sentido na linguagem e em Semiologia da língua mostra, portanto, que o pensamento de Benveniste acerca da questão da significância da língua transborda os limites de uma reflexão linguísticoenunciativa na busca de um novo campo de estudos: o da semiologia da língua. ReVEL, edição especial n.11, 2016 ISSN 1678-8931 66

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