ISBN 978-85-7846-516-2 O ESTADO BURGUÊS E A EDUCAÇÃO Guilherme Antunes Leite 1 UNICENTRO/PPGE E-mail: profguilhermeleite@gmail.com Paulo Augusto Mierjam 2 UNICENTRO/PPGE E-mail: paulomierjam@gmail.com Eixo 3: Temas contemporâneos na Educação Resumo Este resumo, objetiva discutir a relação entre Estado burguês e Educação no contexto da sociabilidade do Capital. O referencial teórico adotado para este estudo, parte dos fundamentos da teoria social marxista. Constatamos que a educação no contexto do Capital, cumpre a função de formação da força de trabalho necessária para a manutenção da máquina produtiva da sociedade burguesa. Com isso, procuramos contribuir com as discussões teóricas a respeito da temática proposta sob o viés das políticas educacionais. Palavras-chave: Estado burguês, Educação, Formação. Introdução Estudar os processos educacionais implica na necessidade de compreender o complexo de relações sociais implícitas e explicitas nesse contexto social, político e econômico. Assim, destacamos para nosso estudo duas dessas relações que configuram o complexo das relações sociais nas pesquisas da ciência pedagógica, ou seja, abordaremos a relação entre o Estado Burguês e a Educação. Desta forma, nosso objetivo é apresentar subsídios teóricos para contribuir com o processo de entendimento da relação entre Estado burguês e Educação no contexto da sociabilidade do Capital. Pois, destacamos que abordar 1 Licenciado em Pedagogia. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/UNICENTRO) da Universidade Estadual do Centro-Oeste Guarapuava PR. 2 Licenciado em Pedagogia. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/UNICENTRO) da Universidade Estadual do Centro-Oeste Guarapuava PR. 850
essa temática contribui para o avanço das pesquisas em educação, principalmente no campo das políticas educacionais. Uma vez que, compreender as bases de constituição das relações sócias do fenômeno educacional é fundamental para a produção do conhecimento na Pedagogia. Assim, destacamos que como processo teórico-metodológico deste estudo adotamos os fundamentos do Materialismo Histórico Dialético de Marx e Engels para a compreensão das bases de formação da sociabilidade do Capital e assim poder compreender a essência constituinte da educação enquanto prática social institucionalizada na sociedade de classes. Como procedimento metodológico, fizemos a revisão de alguns clássicos do marxismo que abordam a temática proposta. Com efeito, organizamos nosso texto em dois momentos. Primeiro abordaremos as relações sobre o Estado burguês e num segundo momento articularemos nossa discussão acerca da Educação no contexto e intensões do Estado. O Estado burguês Partindo dos fundamentos da teoria marxiana, para conceituarmos o surgimento do Estado nos reportamos para os estudos de Friedrich Engels em sua obra A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Nessa obra, o autor nos apresenta os subsídios necessários para a compreensão da gênese do trabalho. Engels (1984), parte dos estudos antropológicos do desenvolvimento das sociedades humanas a partir da categoria trabalho e afirma que o surgimento dos primeiros grupos familiares é consequência dos primeiros processos de produção do trabalho coletivo ainda na sociedade primitiva. No que se refere a historicidade do desenvolvimento da humanidade e, sobre, o longo processo gradual de desenvolvimento das forças produtivas, Engels (1984), destaca os estados de desenvolvimento da humanidade, ou seja, ao longo da história tivemos: 1) Estado selvagem; 2) Barbárie e 3) a Civilização. Em Linhas gerais, o Estado selvagem constitui em no período que antecede a humanização dos homens (anterior ao surgimento da linguagem articulada) foi o momento em que predominou a apropriação de produtos da natureza, prontos para ser utilizados; as produções artificiais do homem são, sobretudo, destinadas a 851
facilitar essa apropriação. A barbárie foi o momento em que aparecem a criação de gado e a agricultura, e se aprende a incrementar a produção da natureza por meio do trabalho humano e pôr fim a civilização consiste o período em que o homem continua aprendendo a elaborar os produtos naturais, período da indústria propriamente dita e da arte (ENGELS, 1984, p. 28). Para não nos delongar, situaremos o foco de nossa discussão no período pós-civilização, momento em que já temos os grupos familiares constituídos e a divisão de classes passa a dar fundamente ao surgimento da propriedade privada dos meios de produção, podemos dizer que esse é o momento em que os seres humanos tiveram seu maior salto ontológico no desenvolvimento de suas relações sociais. Desta forma, a partir do desenvolvimento das sociedades e a forma como ocorre o surgimento do Estado, podemos considerar que, O Estado não é pois, de modo algum, um poder que se impôs à sociedade de fora para dentro; tampouco é a realidade da idéia moral, nem a imagem e a realidade da razão, como afirma Hegel. É antes um produto da sociedade, quando esta chega a um determinado grau de desenvolvimento; é a confissão de que essa sociedade se enredou numa irremediável contradição com ela própria e está dividida por antagonismos irreconciliáveis que não consegue conjurar. Mas para que esses antagonismos, essas classes com interesses econômicos colidentes não se devorem e não consumam a sociedade numa luta estéril, faz-se necessário um poder colocado aparentemente por cima da sociedade, chamado a amortecer o choque e a mantê-lo dentro dos limites da ordem. Este poder, nascido da sociedade, mas posto acima dela se distanciando cada vez mais, é o Estado (ENGELS, 1984, p. 191). Evidentemente, conforme exposto acima sabemos que a origem do Estado advém da propriedade privada, que em sua formação tem ascendência na constituição de família. Assim, o Estado em sua qualidade ideológica possui a função de atenuar os conflitos e divergências entre as classes sociais de acordo com o período histórico que se põe em vigência. Assim, o período do desenvolvimento histórico mais significativo para compreendermos as bases da natureza ideológica do Estado passa a ser na transição do feudalismo para o capitalismo. É no desenvolvimento desse processo de mudanças das formas de produção das atividades laborais que se configura e surge o Estado burguês. Marx e Engels (2008), asseguram e definem o papel que o Estado possui na sociedade de classe, em específico na sociedade capitalista no contexto 852
do liberalismo do século XIX. Para eles, [...]. O poder do Estado moderno não passa de um comitê que administra os negócios comuns da classe burguesa como um todo (MARX; ENGELS, 2008, p. 12). Ainda sobre a natureza ideológica do Estado defensor dos interesses burgueses, Lênin (1980) assegura ao apropriar-se dos escritos teóricos de Karl Marx e Friedrich Engels, que o [...], Estado representativo moderno é o instrumento da exploração do trabalho assalariado pelo capital (LÊNIN, 1980, p. 16), nesse contexto o revolucionário comunista russo chama atenção para a ideia de que o Estado cumpre em sua função de defesa um papel de cão-de-guarda da burguesia. Marx (2010), afirma que o Estado burguês tem por ordem de lógica de reprodução de sua relação social a exploração do homem pelo homem via trabalho assalariado. Esse trabalho é, o que, possibilita a perpetuação, reprodução, valorização e manutenção dessa sociabilidade de exploração que, aliena e corrompe os homens a partir da troca de mercadorias (valor de troca). Nesse sentido, Noqueira (2017) com base nos argumentos que apresentamos afirma que o Estado burguês é o atenuador dos conflitos entre as classes sociais (os que possuem e os que não possuem propriedade privada dos meios de produção). Com isso, por sua condição ideológica o Estado sempre defenderá os interesses da burguesia e impondo ações antagônicas aos interesses e vontades dos trabalhadores. Feito esses breves apontamentos, vamos compreender de que forma a Educação se submete a essa lógica de sociabilidade do Capital. A Educação no contexto do Estado burguês Com base nos argumentos que apresentamos ao longo do texto e, diante das dinâmicas do processo de desenvolvimento da sociedade atual, especificamente com a forma de organização da educação pública, podemos observar a forma como o Estado tem sido desconsiderado do processo de responsabilização da organização da educação principalmente para a classe trabalhadora. Dizemos partindo do pressuposto, de que o fato do desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo internacional, querem a formação de um sujeito 853
flexível, adaptável e apenas com conhecimentos e aprendizagens necessários para a execução de atividades de trabalho que contribuíam com o processo de acumulação produtiva flexível (NEVES, 2008). Claro que consideramos assim como aponta Marx (2013); Engels (2005) e Leontiev (2004), que a Educação enquanto relação social humana, foi em sua condição primeva, promotora das possibilidades do desenvolvimento do mundo social, ou seja, a educação tem sua base ontológica no trabalho humano criador possibilitou a humanização dos sujeitos desde a mais primitividade dos homens. Mas com o surgimento da sociedade de classes e, por conseguinte o Estado burguês, a Educação passa a ter um caráter de institucionalização que implica numa intencionalidade da burguesia formar foção de trabalho necessária à máquina produtiva da sociabilidade do Capital (MÉSZÁROS, 2008). Essa institucionalização da educação apontada por Mészáros (2008), passa a ter um caráter cada vez mais estatal, ou seja, cada vez mais o Estado em defesa dos interesses da burguesia passa a organizar e promover a organização e implementações de políticas para a educação, principalmente ao longo do século XX. É sabido que durante todo o século XX a educação do administrada a fim de atender um princípio específico, mas, destacamos o contexto da década de 1990 como o ápice da intervenção da burguesia no processo educacional da classe trabalhadora via ações do Estado. Isso, evidencia apenas que para cada momento de crise estrutural do Capital esse, incube ao Estado a responsabilidade de criar mecanismos para a superação e defesa dos interesses da burguesia (MÉSZÁROS, 2008). Com efeito, O capital precisa que alguém, execute as ações integradas ao trabalho alienado da lógica produtiva. Isso é, que possibilitará o desenvolvimento das forças produtivas e consequentemente da ordem e sociabilidade capitalista. Assim, o Estado é convidado pela burguesia a sair em cena e, pouco a pouco, deixar a educação (formação) dos que vivem do trabalho tal qual a burguesia necessita para a manutenção da máquina produtiva. Conclusão 854
Com base nas discussões postas nesse estudo, buscamos contribuir para o avanço das discussões da relação entre Estado burguês e Educação na sociabilidade do Capital no âmbito dos estudos sob viés das políticas educacionais. Esperamos ter contribuído com as discussões da temática proposta e destacamos a necessidade de se fazer uma análise radical e total da sociabilidade em vigência, para que possamos desvelar as ilusões acerca da compreensão do que é e, qual a função, da educação no contexto do Capital. Por fim, consideramos que a educação no contexto do Estado burguês cumpre em sua essência a função de formar a força de trabalho necessária para a manutenção e reprodução da máquina produtiva. Isso constitui a natureza ideológica do Estado moderno burguês que por sua lógica estrutural é antagônica a classe a as causas da classe trabalhadora. Referências Bibliográficas ENGELS, Friedrich. A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.. Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem. (1876). Versão para E-book 2005. Disponível em < http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/macaco.pdf > acesso em 20 de abril de 2018. LEONTIEV, Alexis. O desenvolvimento do psiquismo 1904/1979. [Tradutor Rubens Eduardo Frias]. São Paulo, SP: Centauro, 2004. LENIN, Vladimir Ilytch. O Estado e a Revolução (1917). In: Lenin, V. I. Obras escolhidas. São Paulo: Editora Alfa-Ômega, 1980. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Expressão Popular, 2008. MARX, Karl. Salário, preço e lucro. In: MARX, Karl. Trabalho assalariado e Capital & Salário, preço e lucro.são Paulo: Expressão Popular, 2010.. O Capital Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013. MÉSZÁROS, István. A Educação para além do Capital. São Paulo: Boitempo, 2008. NOGUEIRA, Zilas. Estado: quem precisa dele?. Maceió: Coletivo Veredas, 2017. 855
NEVES, Lúcia Maria Wanderley. Educação e política no liminar do século XXI. Campinas, SP: Autores Associados, 2008. 856