Feminilidade e Violência Emilse Terezinha Naves O tema sobre a violência e a feminilidade apresenta-se, nas mais diversas áreas do conhecimento, como um tema de grande interesse, quando encontramos uma variedade de estudos científicos sobre a violência e a mulher em diferentes abordagens teóricas e campos do saber. No entanto, apesar dessa multiplicidade de estudos, esse tema continua nos propondo uma série de enigmas que, ainda, estão longe de serem esgotados. Diante da amplitude de caminhos e possibilidades de se abordar esse tema, privilegiaremos circunscrever tal tema na análise das relações possíveis entre a constituição do feminino e a questão da violência. O surgimento dessa problemática parte da observação e experiência de dois contextos. De um lado, a prática clínica mostra um grande número de pessoas que procuram por atendimento psicológico em decorrência da presença de transtornos mentais ocasionados primariamente ou secundariamente pelo enfrentamento de situações de violência. Além da alta prevalência desses casos nos serviços de saúde mental, tanto privados como públicos, constituindo-se num problema de saúde mental, verificamos as dificuldades de encontrar estratégias adequadas para minimizar o alto índice de interrupção dos trabalhos terapêuticos realizados com tais pacientes e, como conseqüência, a manutenção e recorrência da submissão aos atos de violência. De outro lado, a violência sofrida tanto pela mulher como pelo homem nas relações intersubjetivas apresenta-se como um fenômeno presente na sociedade como um todo. Trata-se, portanto, de um problema multifacetado, englobando questões históricas, sociais, políticas e culturais que traz graves prejuízos tanto para os sujeitos em situação de violência como para todas as instâncias sociais envolvidas no trabalho com a violência e, como conseqüência para a população em geral. Dessa forma, as questões emergentes na clínica atual e nas mais variadas instituições sociais nos confrontam incessantemente com as repercussões dos atos de violência cometidos contra o feminino.
As estatísticas apontam um índice alarmante de violência contra a mulher, apesar dos avanços alcançados na promulgação de leis mais severas de proteção aos direitos da mulher e das políticas públicas de cuidados a saúde física e mental das mulheres submetidas a uma situação de violência. Ainda assim, os números continuam preocupantes apontando um alto índice de conduta baseada no gênero, que causa morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na esfera privada. Existem diversas teorias sociais, antropológicas, psicológicas que tentam explicar e trazer contribuições para a compreensão de tal fenômeno. Por outro lado, a realidade impõe uma repetição que não cessa de não se escrever, indicando que existe algo nesse contexto que não se inscreve. Diante da complexidade e dos diversos fatores presente nos estudos sobre a violência contra a mulher, uma questão nos causa estranheza. De um lado temos uma insistência de vitimização da mulher em situação de violência, apoiados pelos mais diversos campos de estudo e, de outro uma compulsão a repetição dessas mulheres, resistindo a qualquer abordagem terapêutica e intervenção social. Tal constatação impõe a realização de um estudo que problematize o papel da pulsão de morte na constituição do feminino que poderá deflagrar uma situação traumática produzindo uma força pulsional que irrompe na organização subjetiva de algumas mulheres, ameaçando sua autonomia e impedindo uma construção de sentido de sua experiência subjetiva. Assim, entendemos que a compreensão dessa problemática apresenta grande relevância tanto para o desenvolvimento de novas construções teóricas como para a obtenção de ferramentas de intervenção e análise para um tema de tão grande alcance social. A violência é, de maneira geral, um processo ou ação pelo qual um indivíduo é transformado de sujeito em coisa. Pode também ser compreendida pelo prisma da violação, da transgressão de regras, normas e leis aceitas por uma coletividade. Neste sentido, a primeira coisa que temos que pensar é que a violência destitui o sujeito, ou seja, retira dele seu lugar de alguém que pensa, sente e deseja, transformando-o em coisa. A pessoa exposta à violência ocupa um lugar de passividade, de não poder falar, de estar assujeitada ao outro.
A violência está inserida no campo social, não escolhendo idade, raça, nível sócioeconômico, ou nível cultural, transcendendo o tempo e o espaço. A história da humanidade nos mostra a expressão da violência no seio da sociedade. Em todos os tempos encontramos a existência de guerras, crimes, a exploração do outro. Não podemos afirmar que a violência é um fenômeno específico da sociedade contemporânea. Ela sempre existiu em suas mais variadas formas. O homem, desde que existe, nunca deixou de fazer guerras e exterminar seu próximo. Segundo Freud, a violência é um fenômeno presente tanto na constituição do sujeito como na constituição da civilização. Para nosso autor, o homem é regido por dois tipos de pulsão: a pulsão de vida que é representada pela sexualidade e é responsável pelas ligações, pelo desenvolvimento e crescimento. É a construção e criação. E a pulsão de morte definida como um poder demoníaco, podendo efetuar, de forma silenciosa, um trabalho destrutivo. O aspecto destrutivo da pulsão de morte pode se voltar para o próprio indivíduo ou para o outro. Nesse sentido, os atos de violência cometidos contra o outro são, na perspectiva freudiana, a expressão mais pura da pulsão de morte. Na realidade, para Freud o ser humano é ambivalente, ou seja, ele carrega dentro de si tanto aspectos bons como aspectos maus. Assim, coabitam nele amor e ódio, egoísmo e altruísmo. Embora a violência enquanto uma manifestação da pulsão de morte, esteja presente como um mal-estar na sociedade, Freud não deixou de apostar em uma ética que pudesse fazer valer novas formas de enfrentamento desse mal. Em uma carta dirigida a R. Rolland, Freud questiona a necessidade de aprendermos a distrair nossas pulsões do ato de destruir. Quando nos deparamos com as estatísticas avassaladoras das mulheres nas mais variadas situações de violência nos perguntamos por que será que grande parte delas não está conseguindo distrair suas pulsões destrutivas? Independente das questões de gênero socialmente construídas, o que há de pulsão de morte na constituição do feminino que escapa a uma possível simbolização? O que acontece que não conseguem dominar a força pulsional e desviar seu excesso, levando a uma incessante vivência do mesmo? Tais perguntas nos impõem no primeiro momento, uma breve retomada dos estudos psicanalíticos sobre as relações entre a feminilidade e a pulsão morte.
Desde os primeiros estudos, Freud deparou com grandes questões colocadas pelas mulheres. Podemos verificar que seu primeiro enfrentamento com a questão feminina teve origem na clínica da histeria. A tentativa freudiana de buscar a cura para os sintomas histéricos proporcionou o desenvolvimento de princípios básicos para a elaboração de uma teoria sobre a sexualidade feminina. Mesmo de forma incipiente, é possível encontrar, nos Estudos sobre a histeria e no chamado caso Dora, os pressupostos fundamentais que nortearam sua concepção final sobre a feminilidade. No entanto, os textos fundamentais que apresentam uma teoria consistente sobre a feminilidade só aparecem a partir de 1920, coincidindo com a formulação da segunda tópica. Nesse contexto, Freud finaliza seus escritos clínicos postulando que a feminilidade e a pulsão de morte encerram as duas grandes questões que determinam os destinos de uma análise. Em 1937, ele concebe que tanto o homem quanto a mulher, marcados por uma constituição bissexual, repudiam a feminilidade, obviamente se utilizando de modos diferentes. A recusa da feminilidade aparece no tratamento analítico como um entrave à cura, sendo uma expressão da pulsão de morte. Em contrapartida, o fim da análise corresponderia, independentemente do gênero, a uma assunção da feminilidade. Vemos, assim, que Freud encerra sua grande obra apontando, em nossa leitura, para uma questão central na feminilidade: a expressão da dualidade pulsional. Referências bibliográficas Freud, S. (1895d [1893-95]). Estudos sobre a histeria, in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. II, Rio de Janeiro: Imago,. (1920g). Além do princípio de prazer, in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XVIII, Rio de Janeiro: Imago,. (1924c). O problema econômico do masoquismo, in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XIX, Rio de Janeiro: Imago, 1987
(1927). O Futuro de uma ilusão, in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XIX, Rio de Janeiro: Imago, (1929). O mal-estar na civilização, n Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XIX, Rio de Janeiro: Imago,. (1931b). Sexualidade feminina, in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XXI, Rio de Janeiro: Imago,. (1937c). Análise terminável e interminável, in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XXIII, Rio de Janeiro: Imago, Lacan, J. (1998). O estádio do espelho como formador da função do Eu, in Escritos. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor. (Originalmente publicado em 1966). (1998). Diretrizes para um congresso sobre a sexualidade feminina, in Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. (Originalmente publicado em 1966). (1998). Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano, in Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. (Originalmente publicado em 1966). (1985). O Seminário, Livro XX: Mais, Ainda. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor. (Originalmente publicado em 1975)