Raciocina... mas obedece! Poder e desejo nas relações de trabalho



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Transcrição:

Raciocina... mas obedece! Poder e desejo nas relações de trabalho Reasons... but obeys! : power and desire in the work relations Edson Luiz André de Sousa* Rosana de Souza Coelho** Resumo: No presente artigo buscamos identificar alguns efeitos do exercício do poder e do desejo nas relações de trabalho pós-modernas. Contextualizando a ordem econômica dominante, identificamos a forma hegemônica de trabalho imaterial. Usando o conceito de poder em Foucault e de mal-estar em Freud, concebemos que a racionalidade instrumental, sob o signo do poder gerencialista, favorece modalidades perversas nas relações de trabalho. Com o conceito de utopia, problematizamos a importância da função utópica no exercício do poder e do desejo nas relações de trabalho. Palavras-chave: Capitalismo, Trabalho Imaterial, Poder, Desejo, Utopia. Abstract: On the present we identify some effects of the exercise of power and the desire in the postmodern work relationship. From the context of the prevailing economic order, we identified the immaterial labor as the hegemonic form of work. Using the Michel Foucault s concept of power and Freud s concept of malaise, we conceived that the instrumental rationality, under the sign of the managerial power, favors perverse arrangements in labor relations. Taking the concept of utopia, we discussed the importance of the utopian function in the exercise of power and desire in labor relations. Keywords: Capitalism, Immaterial Labor, Power, Desire, Utopia. * Psicanalista. Analista Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Professor do PPG Psicologia Social e PPG Artes Visuais da UFRGS. Pesquisador do CNPQ. Coordena, junto com Maria Cristina Poli, o LAPPAP /UFRGS (Laboratório de Pesquisa em Psicanálise, Arte e Política). Pós-Doutorado na Universidade de Paris VII e Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Paris. Professor visitante na Deakin University, Melbourne e 17, Instituto de Estudos Críticos (Cidade do México). ** Psicanalista. Mestre em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS. Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre e do LAPPAP/UFRGS (Laboratório de Pesquisa em Psicanálise, Arte e Política). Consultora Institucional. 192

Raciocina... mas obedece! Poder e desejo nas relações de trabalho À guisa de introdução: o trabalho no capitalismo contemporâneo No prefácio de Império (2001), Hardt & Negri nos falam que economias em rede, avanço tecnológico, informatização, são processos que dão sustentação à globalização da produção e fazem crer que as relações econômicas tornaram-se mais independentes do controle político. Para os autores, o que está em jogo, principalmente no terreno político, é uma nova forma de soberania composta de uma série de organismos nacionais e supranacionais, unidos por uma lógica ou regra única. (HARDT & NEGRI, 2001, p. 12.) Os autores chamam de Império a esta nova forma global de economia. O Império se caracteriza como uma ordem mundial que não surge espontaneamente. A globalização se define em nível constitucional e visa projetar uma configuração única de poder político. Ausência de fronteiras, ocupação da totalidade do espaço, exercício de poder sem limites são características que compõem o conceito de Império não como um regime histórico nascido da conquista, mas como uma ordem que suspende a história para assim determiná-la, cristalizá-la. (HARDT & NEGRI, 2001.) Nessa mesma direção, Viviane Forrester denuncia uma estranha ditadura, alicerçada no engodo que faz pensar a globalização como algo espontaneamente associado ao econômico e não ao político. Trata-se, antes, de um regime político autoritário que se pretende perenizar na História englobando o econômico, o político, o social e o cultural na forma de uma ideologia imperiosa. (FORRESTER, 2001, p. 21.) Sua moldura democrática obnubila a percepção de que se trata de um sistema político preciso e com práticas intencionais (idem, 2001). Na verdade, o capitalismo foi desde sempre um processo contraditório e antagônico, voraz e iníquo. David Harvey já mostrara seu caráter processual e o quanto a sua lógica expansionista e imperialista abarcava todas as áreas da vida cultural: (...) O processo mascara e fetichiza, alcança crescimento mediante a destruição criativa, cria novos desejos e necessidades, explora a capacidade do trabalho e do desejo humanos, transforma espaços e acelera o ritmo da vida (...). (HARVEY, 1992, p.307, grifo nosso.) Reinventar-se para permanecer exatamente o mesmo, destruindo-se criativamente: eis a pacífica e sedutora proeza do capitalismo. A voracidade com que ocupa espaços e a surdez com que nega seus limites e seus efeitos encobre os paradoxos nocivos que ele produz na relação capital/trabalho, naturalizando a e banalizando-a. Esses dois poderosos soníferos entorpecem a percepção de que as relações entre a economia financeira e a economia libidinal são por demais estreitas, engendrando uma lógica que se mantém e se perpetua, não 193

obstante as dinâmicas produtivas venham se metamorfoseando ao longo da história e ensejando novas formas do trabalho, tendo em vista o declínio da industrialização. No capitalismo pós-moderno, a crise protagonizada pelo paradigma fordista traduz-se na crise da produtividade material e resulta da exploração das economias de escala estática e da demanda estandardizada, efeitos negativos da rigidez produtiva e tecnológica do fordismo. (COCCO, 2000; FUMAGALLI, 2008) Hardt & Negri postulam que em uma dada sociedade e em um dado momento histórico uma forma hegemônica de trabalho faz com que as outras formas adotem suas qualidades centrais, como nos séculos XIX e XX, quando a hegemonia da industrialização arrastava as outras formas de produção (agricultura, mineração, etc.) para os seus paradigmas. (HARDT & NEGRI, 2005) Consoante a esse momento histórico, evidencia-se a perda da hegemonia do trabalho industrial e o surgimento, em seu lugar, do trabalho imaterial, trabalho que cria produtos imateriais, como o conhecimento, a informação, a comunicação, uma relação ou uma reação emocional. (HARDT & NEGRI, 2005, p.148.) Gorz também confere hegemonia a essa forma de trabalho, afirmando-o como o coração da produção, o centro da criação de valor. (GORZ, 2005, p. 19.) Assim, as dimensões intersubjetivas do trabalho vêm ganhando destaque, dimensões em estreita dependência das dinâmicas imateriais: comunicativas, linguísticas, afetivas, dinâmicas que põem em relevo, ainda, a face social e política do trabalho. (NEGRI; HARDT, 2001; LAZZARATO; NEGRI, 2001; COCCO, 2007.) O computador, enquanto ferramenta universal e central pela qual deve passar toda e qualquer atividade, faz com que o trabalho se torne cada vez mais abstrato e se concentre em tarefas nas quais a comunicação e a circulação da informação têm lugar privilegiado, incrementando o nível de implicação subjetiva e a autoria dos trabalhadores. (COCCO, 2000, NEGRI & HARDT, 2001.) Logo, é como atividade abstrata ligada à subjetividade que o trabalho imaterial vem se tornando hegemônico na sociedade pós-industrial, fazendo com que a prescrição inerente à organização científica do trabalho tenha como foco de organização e comando não mais as tarefas, mas a subjetividade do trabalhador, ou seja, aquilo que o trabalhador pode produzir ao se dar à sua tarefa. (LAZZARATO & NEGRI, 2001; GORZ, 2005; COCCO, 2009; grifo nosso.) Se a relação trabalho-capital na era fordista caracterizava-se pelo acento na tarefa e traduzia-se pelo imperativo Faça!, o pós-fordismo, tomando como principal matéria-prima a subjetividade, tem como imperativo Seja! 194

Raciocina... mas obedece! Poder e desejo nas relações de trabalho Do poder disciplinar ao poder gerencialista Como sabemos, a organização científica do trabalho é representada por níveis hierárquicos, com os cargos de gestão no topo e as práticas que lhes são inerentes como fios condutores da lógica que estrutura as relações de trabalho. Weber nos mostrou que o capitalismo nascente, a fim de engajar os sujeitos para a ele aderir, instaurou uma nova relação moral entre o homem e seu trabalho, a qual se baseava na crença de um dever cumprido através de um ofício, crença distinta do ethos católico. (WEBER, 1971.) Mas, na contemporaneidade, a ideologia gerencialista vem ocupando o lugar vago deixado pela ética protestante, a qual legitimou o capitalismo em seus primórdios. Em linhas gerais, gestão pode ser definida como o conjunto de práticas administrativas colocadas em execução pela direção de uma empresa para atingir os objetivos que ela se tenha fixado (CHANLAT, 2007, p. 81). Gaulejac aponta que o gerenciamento, no capitalismo contemporâneo, é a garantia da organização concreta da produção, através de atividades que exigem a ligação e a combinação de elementos heterogêneos como o capital, o trabalho, matérias-primas, tecnologia, regras, etc. (GAULEJAC, 2007, p.39.) Boltanski & Chiapello também comungam dessa concepção, destacando a importância dos discursos gerenciais para a eficácia que as empresas buscam através da gestão (BOLTANSKI & CHIAPELLO, 2009). No que tange à íntima relação entre poder e saber, os estudos de Foucault nos dão mostras de que os saberes que emergiram com o capitalismo (o saber jurídico, psiquiátrico, psicológico, administrativo, etc.) foram uma condição essencial para a formação e o desenvolvimento da sociedade tecnológica e industrial (FOUCAULT, 1979; 1984). Acompanhando Foucault, entendemos que poder e saber se produzem mutuamente na medida em que todo poder objetiva impor uma visão como universal e, para isso, extrai sua força da normalização totalizante que qualquer saber veicula. Foucault, em seus termos, caracteriza essa imbricação: Temos antes que admitir que o poder produz saber (e não simplesmente favorecendo-o porque o serve ou aplicando-o porque é útil); que poder e saber estão diretamente implicados; que não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder (FOUCAULT, 1979, p. 30.). Assim, na modernidade, a racionalidade capitalista viabilizou-se em uma lógica calcada no detalhe, no controle do tempo e no esquadrinhamento dos 195

gestos, cuja importância era o investimento político do corpo para assegurar o ordenamento das multiplicidades humanas, através de uma nova microfísica do poder que penetrasse em todo o tecido social e moldasse as suas instituições. Na fábrica, instituição capitalista por excelência, o controle se torna intenso e contínuo ao longo de todo o processo de trabalho, levando em conta, principalmente, a atividade dos homens, seu conhecimento técnico, a maneira de fazê-lo, sua rapidez, seu zelo, seu comportamento (FOUCAULT, 1984, p. 156.). A vigilância, intrínseca ao processo de produção, passa a ser um operador econômico decisivo para o exercício do poder disciplinar: utilizando-se dos olhares calculados, esse poder compara, diferencia, hierarquiza, homogeneíza e exclui, forjando saberes sobre o sujeito. Forjando o sujeito. Mas, se o poder na sociedade moderna se manifestava definindo parâmetros do pensamento e de práticas, arbitrando e sancionando padrões de normalidade ou de desvio, a pós-modernidade testemunha um poder em que o controle se intensifica e fica cada vez mais interiorizado. Seguindo os rastros teóricos de Foucault, Hardt & Negri postulam que a sociedade de controle 1 caracteriza-se por uma intensificação dos aparelhos de normalização e de disciplinaridade, os quais animam internamente nossas práticas diárias e comuns. (HARDT & NEGRI, 2001.) Pensamos que a ordem pós-moderna configura relações de trabalho que têm na gestão uma figura do poder em que a repressão é mais sutil, mais apoiada em discursos e em injunções paradoxais (ENRIQUEZ, 2007; BOL- TANSKI; CHIAPELLO, 2009). Referindo-se ao modelo que encorpa o discurso gerencialista, Gaulejac aponta seu caráter quantofrênico, o qual não está a serviço de medir para melhor compreender, mas de compreender apenas aquilo que pode ser medido. O universo no qual reina a gestão é eminentemente experimental, ancorando-se em uma perspectiva funcionalista, em que a fascinação pelo pragmatismo leva ao culto à eficácia da ação, desprezando qualquer proposta que tenha como parâmetro a reflexão. (GAULEJAC, 2007.) Examinando a literatura empresarial destinada a executivos, Boltanski & Chiapello observam que esta emerge como um dos principais meios de validação do modelo gerencialista, pois seu objetivo principal é informar aos executivos sobre as últimas inovações em termos de gestão empresarial e direção de pessoal. 1 Como lembram Hardt & Negri (2001), a passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle não é articulada explicitamente na obra de Foucault. Aderimos, com os autores, a esse termo tomado de empréstimo de Deleuze (1992). 196

Raciocina... mas obedece! Poder e desejo nas relações de trabalho A grande homogeneidade de temas evidencia sua característica totalizante de um saber confinado à prescrição, mas que não se limita a um saber puramente técnico. É antes uma literatura normativa que diz como deve ser e não como é. (BOLTANSKI & CHIAPELLO, 2009, p. 84.) Seguindo Gaulejac, entendemos que tais atributos conferem ao discurso gerencialista o caráter de uma tecnologia política, no sentido foucaultiano do termo, uma vez que ele se apresenta como Um conjunto de microdispositivos que não aparecem como fruto de uma concepção centralizada, de um sistema de dominação preestabelecido, mas como um conjunto de tecnologias, de regulamentos, de procedimentos, de arranjos e de discursos que emergem em dado momento histórico (GAULEJAC, 2007, p. 107). Se o capitalismo moderno teve nas disciplinas o recurso privilegiado para docilizar os corpos e maximizar sua utilidade em termos políticos e econômicos, o capitalismo pós-moderno, sofisticando os meios de exercício de poder nas relações de trabalho, vai colocar o discurso gerencialista no centro do palco, lucrando com a opção de substituir a coerção explícita por uma regulação mais insidiosa da subjetividade, obtida pela via do domínio instrumental. Da mesma forma que Foucault nos fez ver um deslocamento da representação do corpo supliciado do século XVII ao corpo dócil e útil que emerge no capitalismo, a representação do corpo que sustenta o ritual do poder pósmoderno não diz tanto respeito à economia da necessidade, mas (pre)ocupase com a economia do desejo exaltado. (GAULEJAC, 2007; ENRIQUEZ, 1990; 2007.) 2 Economia financeira e economia libidinal nunca estiveram tão claramente vinculadas: Passa-se do controle minucioso dos corpos para a mobilização psíquica a serviço da empresa. A repressão é substituída pela sedução, a imposição pela adesão, a obediência pelo reconhecimento, diz, com propriedade, Gaulejac (idem, p.109). Em tal cenário, não fica difícil perceber que essa adesão só se torna possível porque a prescrição da atividade se estende à prescrição da subjetividade, pois, no leque dos discursos gerenciais, encontram-se teorias cujo objetivo específico é delimitar quais seriam as competências necessárias a determinado cargo, as chamadas Teorias de Gestão por Competências. 2 Tanto Vincent De Gaulejac quanto Eugène Enriquez, são sociólogos clínicos e utilizam o conceito freudiano de desejo para sustentar suas análises. Conforme Gaulejac (2007) e Enriquez (1990; 2009). 197

Em um trabalho de pesquisa no contexto brasileiro, Fleury & Fleury definem competência como um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes (isto é, um conjunto de habilidades humanas) que justificam um alto desempenho, acreditando-se que os melhores desempenhos estão fundamentados na inteligência e na personalidade das pessoas, (...) como um estoque de recursos que o individuo detém. (FLEURY & FLEURY, 2003, p. 2, grifo nosso.) Para esses autores, o conceito de competência compreende um saber agir responsável e reconhecido, que implica mobilizar, integrar, transferir conhecimentos, recursos e habilidades que agreguem valor econômico à organização e valor social ao indivíduo. (Idem, p. 3, grifo dos autores.) E, ainda, consultando um estudo realizado por Bitencourt & Barbosa, acerca das competências do gestor contemporâneo, lemos que as competências pessoais conduzem à necessidade crescente de formar e valorizar o profissional para oferecer respostas mais rápidas às demandas do mercado e da empresa, através de uma postura aberta à inovação, com base em um perfil criativo e flexível, e do preparo para trabalhar e estimular o desenvolvimento das pessoas com quem se trabalha. (BI- TENCOURT & BARBOSA, 2004, p. 240, grifo nosso.) Para nós, sob o argumento de agregar valor econômico à organização e valor social ao indivíduo (como se as duas esferas fossem distintas!) a padronização da subjetividade que subjaz à ciência gerencialista (GAULEJAC, 2007) não é outra coisa senão uma estratégia política para definir quem está dentro ou fora do jogo capitalista, em que a responsabilização do sujeito contribui para reforçar o imaginário do triunfo individualista, ao mesmo tempo em que o saber totalizante o ameaça de diluição, fazendo-o sentir como apenas mais uma peça que pode, ou não, fazer a diferença para que se ganhe a partida. Entendemos que é a isso que alude Foucault ao apontar que não se trata mais de descobrir o que somos, mas de recusar o que somos: Temos que imaginar e construir o que poderíamos ser para nos livrarmos deste duplo constrangimento político, que é a simultânea individualização e totalização própria às estruturas do poder moderno. (FOUCAULT, 1995, p. 239.) Gestão do mal-estar e montagem perversa Em dois de seus últimos escritos O Futuro de uma Ilusão (1927) e O Mal-Estar na Cultura ([1929-1930] Freud teoriza sobre o trabalho. No texto de 1927 ele vai situá-lo como necessário para a construção da civilização, retomar os argumentos sobre a renúncia das pulsões para que essa construção seja possível e os efeitos que dela decorrem para a economia libidinal. Já no ensaio de 1930 tece vários comentários enfatizando o trabalho como uma resposta 198

Raciocina... mas obedece! Poder e desejo nas relações de trabalho sublimatória ao desamparo e ao mal-estar, conferindo-lhe uma importância singular para a economia libidinal e para a vida em sociedade, colocando-o, ao lado do amar e do criar, como vias eróticas e sublimatórias pelas quais o homem pode dar lugar às suas exigências pulsionais e constituir destinos para o mal-estar produzido pelo desamparo que possam, em alguma medida, resultar em satisfação e prazer. (FREUD [1929-1930] 1976.) Contudo, aos nossos olhos pós-modernos as considerações de Freud podem parecer um tanto românticas, uma vez que é impossível pensar o trabalho na contemporaneidade dissociado dos conflitos inerentes à organização social. Mas, se com o mestre vienense aprendemos que a relação entre a economia financeira e a economia libidinal é por demais estreita, pensamos que no âmbito das relações intersubjetivas no trabalho uma análise que se apoie no discurso freudiano sobre o desamparo e o mal-estar se mostra pertinente, se não esquecermos que no universo da gestão há a necessidade contínua de manejar o importante paradoxo autonomia versus dependência. Sabemos que Freud inaugura a sua crítica da cultura no ensaio intitulado Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna (FREUD, [1908] 1976) e, embora insista no caráter antagônico entre as exigências restritivas da sociedade sobre a força pulsional dos indivíduos na etiologia das neuroses, ele demonstra uma forte crença de que esse antagonismo poderia ser superado através da cura pela psicanálise. Tais elaborações teóricas são recolocadas e reelaboradas no texto O Futuro de uma Ilusão e, principalmente, no célebre ensaio O Mal-Estar na Cultura, em que Freud nos adverte sobre a emergência da agressividade e da destrutividade nas relações entre os homens e a dificuldade de convivência pacífica entre as comunidades, indicando que as compensações trazidas pelo progresso, pela tecnologia e pela associação entre os homens, pagas ao preço das renúncias pulsionais, estão aquém do esperado em termos de prazer. (FREUD, [1929-1930] 1976.) Acompanhados pela releitura que Birman faz do discurso freudiano no âmbito histórico e político para situá-lo em relação à contemporaneidade, apontamos que com este texto Freud desloca a psicanálise do registro estrito da clínica para o da cultura. Com o conceito de mal-estar Freud forja uma crítica da cultura e não da civilização lato sensu, ou melhor, uma crítica dos impasses que a cultura coloca para o sujeito. (BIRMAN, 2006; 2007.) Poli também assinala que o termo Kultur é cunhado intencionalmente pelo psicanalista para justamente oportunizar que não se distinga por demais os tempos e as composições sociais. (POLI, 2004, p. 41.) 199

Essas considerações nos possibilitam retomar o texto do Mal-Estar para pensá-lo na atualidade e destacar que a individualidade é a categoria fundamental que definiu o ideário moderno. Alçado à medida de todas as coisas, o indivíduo perdeu a caracterização que lhe era atribuída pela concepção holística do mundo, onde ele era diluído na totalidade do cosmos. Fundou-se enquanto valor principal, tendo em vista, no registro econômico e político, a imposição do liberalismo como doutrina predominante. Nesse contexto o discurso da ciência vem ocupando uma posição estratégica na produção e no agenciamento da verdade, substituindo progressivamente os discursos filosófico e teológico. (BIRMAN, 2006, p. 41.) A tecnologia se estabeleceu como instrumento por excelência das relações de poder-saber. Além disso, na caminhada da modernidade em direção à pós-modernidade o discurso freudiano apontou o descentramento do eu e o inexorável dinamismo das forças pulsionais, fazendo advir o desejo como movente do psiquismo. (BIRMAN, 2006; 2007.) Tributário do desejo do Outro (Lacan), o desejo do sujeito está para sempre inscrito no duplo registro do eu e do outro. Sendo a condição de possibilidade da civilização a reunião do homem com outros homens e a substituição do poder dos indivíduos pelo poder da comunidade, a vida em sociedade repousa, necessariamente, no tensionamento entre os polos do narcisismo e da alteridade. Ao primado do eu (narcisismo) haverá sempre a sombra do outro, sem o qual o eu não se reconhece, desvelando sua condição de desamparo que produz certo-mal estar na relação consigo e com os outros. Se no texto Sobre o narcisismo: uma introdução (1914), ao trabalhar o conceito de narcisismo, Freud destaca a inevitável imbricação eu-outro, no texto de 1923, O Ego e o Id, ele aborda a relação entre o eu e o outro numa perspectiva econômica e dinâmica, colocando em cena a figura do superego. Este faz severas críticas ao ego, o qual procura desviar-se delas através da repressão, num esforço por mantê-las para além do umbral da consciência. O superego ganha com isso uma independência do ego consciente, aproximando-se do id, o que possibilita, segundo Freud, que o superego vá beber nas mesmas fontes do id, sendo influenciado por uma pura cultura da pulsão de morte e apresentando sua face sádica (idem, p. 69). Pensamos que é importante dar crédito à metáfora energética de Freud e reconhecer que na própria renúncia há satisfação. Assim, à ferocidade do superego corresponde, nas relações sociais, uma agressividade que ora se coloca do lado do sujeito, ora é endereçada ao outro e que se torna o leitmotiv da repressão na cultura. (FREUD, [1929-1930] 1976.) Repressão que, presentificada 200

Raciocina... mas obedece! Poder e desejo nas relações de trabalho em regras, normas, preceitos e, principalmente, em altos padrões de perfeição, tem como efeito colateral engordar o superego. Ouçamos Freud: Do ponto de vista do controle pulsional, da moralidade, podese dizer do id que ele é totalmente amoral; do ego, que se esforça por ser moral, e do superego que pode ser supermoral e tornarse então tão cruel quanto somente o id pode ser. (...) A opinião comum vê a situação do outro lado: o padrão erigido pelo ideal do ego parece ser o motivo para a supressão da agressividade. Permanece, contudo, o fato de que, como afirmamos, quanto mais um homem controla a sua agressividade, mais intensa se torna a inclinação de seu ideal à agressividade contra seu ego. É como um deslocamento, uma volta contra seu próprio ego. Mas mesmo a moralidade normal e comum possui uma qualidade severamente restritiva, cruelmente proibidora. É disso, em verdade, que surge a concepção de um ser superior que distribui castigos inexoravelmente. (Idem, p. 70-71) Ao abandonar definitivamente a ideia de uma possível harmonia entre as satisfações pulsionais e as exigências da civilização, Freud situa, na condição de desamparo primordial inerente ao ser humano, a existência do sentimento de culpa que provém do superego. O desamparo se impõe como sintoma na cultura, retornando na forma de Unbehagen, um mal-estar inevitável nas relações sociais. Sendo estrutural e perene, ele não encontra nenhuma técnica que o ultrapasse, marcando a subjetividade humana para todo o sempre, de maneira indelével e insofismável. (BIRMAN, 2006, p.37.) Ao sujeito pósmoderno restou somente a possibilidade de gestão do mal-estar na relação consigo e com o outro, na vida em sociedade. (BIRMAN, 2006; 2007.) A alusão de Birman à gestão do mal-estar nos permite articular as questões de poder nas relações intersubjetivas no trabalho na perspectiva da economia pulsional e dos circuitos do desejo ou, também podemos dizer, abordaremos tais questões indicando que, para a psicanálise, a regulação política no espaço social tem como correlato psíquico a relação dos sujeitos com suas fontes de prazer e gozo 3. 3 O conceito de gozo que adotamos é o concebido por Lacan em sua relação com a compulsão à repetição e, portanto, com predomínio de sua face mortífera, bem como a articulação teórica que ele faz entre gozo e saber, a qual perpassa, por exemplo, seu Seminário XVII. 201

Vimos trabalhando com a concepção de que o caráter instrumental do capitalismo contemporâneo veicula um pensamento totalizador que assume a criatividade individual e a coletiva para reinscrevê-las na racionalidade instrumental do modo de produção capitalista, pois, aliando-se ao discurso da razão, cataloga, define, classifica, supondo conhecer, nomear e controlar, acalentar a ilusão de ser o senhor do sentido. (ENRIQUEZ, 1990, p. 300.) Afinal, é preciso encontrar meios para negar o que pulsa, o que resta difícil (impossível?) de controlar, o que teima em se manter vivo, e assim fazendo, claudica e desafia a lógica da plenitude. Para isso, faz-se necessário que todos sigam a mesma linha (de montagem?). A participação e a autonomia, tão propaladas no discurso gerencialista contemporâneo, nos fazem lembrar a fina ironia de Zizek: Como sujeito autônomo da reflexão (...) pode-se raciocinar livremente e questionar todas as autoridades, mas enquanto peça da máquina, do mecanismo social, é-se obrigado a seguir irrestritamente as ordens dessas mesmas autoridades. (ZIZEK, 1991, p. 159.) Os efeitos do economicismo e da instrumentalidade em nível dos recursos humanos, pensados por Gaulejac desde uma perspectiva clínica, levam o sociólogo a explicitar uma queixa: A gestão se perverte quando favorece uma visão do mundo na qual o humano se torna um recurso a serviço da empresa. (GAULEJAC, 2007, p.63, grifo nosso.) Porém, entendemos que aqui Gaulejac articula os termos gestão e perversão de forma um pouco equívoca. Para nós, a gestão, enquanto tecnologia política, é produto, efeito de um laço social perverso ao mesmo tempo em que possibilita sua manutenção. E, dizendo isso, não dizemos que os sujeitos que ocupam cargos de gestão são perversos per se, mas falamos de uma modalidade de relação perversa que emerge em determinados contextos, favorecida por traços de um dado momento histórico e cultural, pois, considerando que a economia política dos bens e dos valores no campo social é correlata à economia do gozo e do prazer na dimensão subjetiva, entendemos que são as formas de existência das normas e dos dispositivos de poder no espaço social que agenciam as formas de ser da subjetividade. Assim, o sujeito inscrito na trama complexa das relações intersubjetivas se inscreve, ao mesmo tempo, nos registros social, político e econômico, sendo impensável sua estrutura na exterioridade daquela trama. (BIRMAN, 2007, p. 283.) Isso posto, a noção de perversão que assumimos é a que tematiza Contardo Calligaris ao articulá-la à concepção lacaniana de laço social, deslocando-a do registro sexual para o registro social e pensando-a pela via da instrumentalidade. (CALLIGARIS, 1986; 1991.) À ênfase dada por algumas análises à técnica, Calligaris argumenta destacando o papel da subjetividade: 202

Raciocina... mas obedece! Poder e desejo nas relações de trabalho (...) acho que poderíamos falar do efeito do interesse e da paixão humana em sair do sofrimento neurótico banal, alienando a própria subjetividade, ou melhor, reduzindo a própria subjetividade a uma instrumentalidade. Esta paixão me parece uma tendência inercial de qualquer neurótico: a paixão da instrumentalidade. Entendo por paixão da instrumentalidade a paixão de ser instrumento. (CALLIGARIS, 1991, p.110-111, grifos do autor.) Recordemos que, para a psicanálise, o exercício do desejo não se dá, para o sujeito, pela via do saber. Contudo, para o neurótico há uma ilusão que se constrói a partir da referência à função paterna, enquanto referência significante. A invenção e a consistência de tal instância passam pela suposição de um saber paterno que garanta a validade e justifique a função do pai. (CALLIGA- RIS, 1986; 1991.) Por outro lado, não desconhecemos totalmente que este saber suposto ao pai é impossível de ser sabido, e isso nos desassossega continuamente. De tal impasse decorre o que Calligaris denomina saída perversa da neurose pela via da construção de um semblante de saber paterno que, se por um lado gratifica com a certeza nos atos e a prática possível de uma fantasia comum, por outro custa ao sujeito sua transformação em instrumento do saber assim estabelecido. A inserção em uma montagem perversa revela-se ao sujeito como a tentativa de uma saída que lhe permita certa tranquilidade, o alívio de suportar-se em um saber sabido e compartilhado. (Idem, 1996; 1991.) Sendo o trabalho signo da cultura, não resta difícil considerarmos os efeitos da instrumentalização dos sujeitos no âmbito das relações de trabalho sob a crescente incidência dos discursos que trouxemos acima e do exercício de um poder que se mostra tanto mais eficaz quanto mais invisível, mescla de desejo e gozo. Como aponta Peixoto Junior, Basta um mínimo de instrumentalização dos sujeitos, com a consequente redução de suas possibilidades simbólicas, para que a relação perversa se instale, na medida em que eles passam a emprestar seus bens (seus corpos e seus nomes) para o gozo de um outro. E basta que este gozo se torne um sistema de regulação social para que a perversão ganhe impulso em direção ao seu estabelecimento como política. (PEIXOTO JUNIOR, 1999, p. 270-271.) Parece-nos que, então, o poder em sua face perversa pode circular mais livremente, escolhendo e dispondo de seus fetiches para tentar dar cabo da 203

angústia. Não é difícil pensar que o bastão de comando pode muito bem ser um dos representantes mais eficazes, permitindo que se justifique e se banalize certa confusão entre o apetite de gozo pessoal e o simbólico da investidura. É verdade que, sob a hegemonia do imaterial, as aptidões relacionais e comunicacionais fazem da subjetividade um produto imaterial de destaque, mas parece-nos, para que o sujeito se torne uma peça importante, indispensável: O trabalhador é apenas unidade de valor. Aviso para aqueles para quem esta expressão tem ressonâncias já disse, certamente com seu tom irônico, Lacan. ([1969-1970 1992, p. 84.) Logo, se não há sujeito que não seja efeito do discurso 4, é preciso reconhecer que não há discurso que não seja do gozo, pelo menos quando dele se espera o trabalho da verdade. (LACAN, ([1969-1970] 1992, p. 23.) E, nesse sentido, se a gestão do desamparo é o que restou ao sujeito pós-moderno, produzir relações de trabalho que não se pautem somente pela servidão e pela dominação implica ressituar o sujeito e a ética como elementos indissociáveis a uma política que resista à instrumentalização social do gozo. Desejo de utopia Como seriam as relações sociais se elas não fossem mediadas pela lógica do lucro? E se houvesse trabalho para todos e cada um pudesse escolher livremente qual destino dar ao seu desejo de realização profissional? Questões singelas e sem respostas prontas, mas o ato de formulá-las é pensar em outros possíveis. Exercício de utopia, que busca trilhar caminhos pela contramão de certezas, de desejos realizados e habitados por um amanhã burocratizado. (SOUSA, 2007.) Nenhuma utopia pode prescindir de uma prática que é condição mesma de sua enunciação, lembra Sousa (2007, p.34). Enunciação que a prevalência do discurso padronizado tenta fazer calar em nome de resultados a serem alcançados. A obsessão pela produtividade faz com que carreguemos com orgulho e ostentação os estigmas de uma raça que adora o suor da fronte. (CIORAN, 1994). Desde que, claro, esse suor seja contabilizado em unidades. Nesse cenário, o desejo parece mostrar-se timidamente quando a tarefa requer ultrapassar o contorno do supostamente seguro lugar do eu em direção ao imprevisível e multifacetado nós. Produz utopias privadas do desejo de utopias. 4 Na verdade, igualmente essencial ao fato de que eu fale ou não tranquilamente é aquilo em que estão imersos os que me escutam. O que estou falando assinala, de fato, a entrada em ação desse discurso que não é o meu, mas sim aquele de que sou, para me ater a este termo provisório, o efeito. (LACAN, [1969-1970] 1992, p. 23.) 204

Raciocina... mas obedece! Poder e desejo nas relações de trabalho Jameson aponta que (...) o medo de sujar um futuro aberto com nossos próprios hábitos sociais deformados e reformados do presente é uma ameaça perpétua à indulgência das fantasias de uma coletividade futura. (JAMESON, 1997, p. 67-68.) Por isso, o poder se protege em um pragmatismo individualista e se regozija em forjar saberes para dar conta do impossível que pulsa, inconvenientemente, no cotidiano do trabalho. Inquietamo-nos com a possibilidade de que o trabalho não encontre lugar outro que não seja o dos olhares míopes dos manuais de gestão e de Qualidade Total. Com nossas mãos cheias de regulamentos perdemos a chance de reter a energia necessária para a construção de novas paisagens. Talvez porque o medo de forjar o futuro com suas incertezas inerentes surja exatamente onde a transgressão da forma encontra a presença ruidosa do informe e a inquietação que ele produz. No entanto, o informe não é o avesso da forma, mas, ao contrário, a afirma, mesmo que em uma condição de provisoriedade, instabilidade, suspensão e incompletude. (SOUSA, 2004, p. 223.) Há que se suportar o intervalo entre informe e forma, intervalo necessário a um tempo de produção do novo. Mas, bem o sabemos, o poder tem um apego narcísico à homogeneização das formas. Por isso, a desqualificação da utopia e sua assimilação ao impossível, discurso vigente em nosso tempo, parecem alimentar as ideologias, sobretudo no campo do trabalho, onde a ideologia tecnicista legisla sobre o traçado da linha divisória que separa os bons e produtivos cidadãos dos excluídos. (SOUSA, 2007, p. 38.) Diz Bloch que a utopia tem uma íntima relação com a esperança, mas que esta não tem nada de uma mera emoção autônoma, sendo antes afeto do sonho que sonha para frente. (BLOCH, 2005, p. 144.) Sonho como função utópica porque sempre em outro lugar, indo ao encontro dos desejos que clamam por desejar, desejos que povoam a Outra cena. Para isso, é preciso que o desejo retire suas forças do vazio, não tema o desequilíbrio. Seja desejo prazeroso de produzir cortes entre saber e verdade, desconfiando da continuidade impermeável dos discursos que apregoam o que Lacan nomeia como a ética do Soberano Bem. À sedução do discurso único que parece habitar confortavelmente as relações de trabalho, talvez não fosse desnecessário evocar a inquietude da utopia como função de resistência aos imperativos do consenso que cada vez mais o laço social nos impõe. (SOUSA, 2007, p.14.) Sabemos que a existência do sujeito do desejo situa-se na dualidade do polo pulsional e representacional da linguagem, na descontinuidade radical entre as exigências da pulsão e as possibilidades de simbolização sempre insu- 205

ficientes. Porém, é nesse intervalo denominado desamparo pelo discurso freudiano, é desse estado abissal e trágico de desamparo que o homem cria. (MORAIS, 2006, p. 6.) Como agarrar os vapores das novas idéias, se a confiança exagerada na técnica, no saber fazer, deixa o amanhã de mãos cheias de regulamentos, de projetos de ações, de estatutos, de bulas, de manuais de instruções? (SOUSA, 2007, p 37.) Este é o desafio que temos pela frente. Precisamos encontrar as palavras que nos ajudem a transpor esses espaços esvaziados de esperança. Referências BIRMAN, Joel. Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.. Mal-estar na atualidade - A psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. BITENCOURT, Claudia; BARBOSA, Allan Claudius Queiroz. A gestão de competências. In: Bitencourt, Claudia. Gestão contemporânea de pessoas: novas práticas, conceitos tradicionais. Porto Alegre: Bookman, 2004. BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. BOLTANSKI, Luc; CHIAPPELLO, Eve. O novo espírito do capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009. CALLIGARIS, Contardo. Perversão - um laço social? Salvador: Cooperativa Cultural Jacques Lacan, 1986.. A sedução totalitária. In: Aragão et al. Clínica do social Ensaios. São aulo: Escuta, 1991. CHANLAT, Jean François. O indivíduo na organização. Dimensões esquecidas. Volume I. São Paulo: Atlas, 2007. CIORAN, Emil. História e utopia. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. COCCO, Giuseppe. Entrevista à revista IHU Revista Eletrônica da Unisinos em 10/01/2007. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_ noticias&itemid=18&task> Acesso em: 14 mar. 2010.. Trabalho e cidadania. Produção e direitos na era da globalização. São Paulo: Cortez Editora, 2000.. MundoBraz. O devir-mundo do Brasil e o devir-brasil do Mundo. Rio de Janeiro: Record, 2009. 206

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