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Transcrição:

Resultados 62

Resultados 63

Resultados 64

Resultados 65

Resultados 66

Discussão 67 4. DISCUSSÂO Até a década de 70, os estudos e os modelos de tratamento eram estruturados e embasados nas características masculinas e não contemplavam as peculiaridades existentes entre os gêneros; como consequência, as mulheres ficaram durante um longo período à margem nas pesquisas. Apenas nas últimas décadas, pesquisadores evidenciaram que há disparidades entre homens e mulheres dependentes do álcool. Os objetivos deste estudo, com enfoque no gênero, foram: caracterizar a amostra quanto às variáveis sociodemográficas, consumo alcoólico e intervenções terapêuticas; identificar os fatores associados à retenção, após a 4ª semana de tratamento, nos primeiros 12 meses de tratamento, comparando o tempo de retenção no mesmo período, visando ampliar o conhecimento destas diferenças; e facilitar o planejamento e a aplicação de intervenções terapêuticas e medidas preventivas ajustadas às necessidades e especificidade de cada grupo. Dentre os resultados do nosso estudo, verificou-se que as mulheres dependentes do álcool, proporcionalmente aos homens, apresentavam-se desempregadas e tinham melhor escolaridade (terceiro grau completo), semelhante aos achados de Zilberman et al. (1999) [a]. Dados do IBGE (2009) apontam que em 2003, em média, 44,7% das mulheres desocupadas tinham 11 anos ou mais de estudo. Em 2009, essa proporção ultrapassou significativamente a metade da população (59,8%), constatando-se que a população feminina desocupada apresenta melhor escolaridade. Além disso, sabe-se que ainda hoje as mulheres que apresentam um vínculo empregatício,

Discussão 68 mesmo com melhor escolaridade, recebem menor remuneração que os homens (IBGE, 2009). A situação de desemprego entre as mulheres provavelmente está relacionada tanto à gravidade do quadro de dependência do álcool quanto também aos papéis esperados e ainda desempenhados por muitas mulheres (mãe e esposa), principalmente aquelas oriundas dos estratos socioeconômicos mais baixos. Outro achado foi que as mulheres viviam menos com um companheiro. Estudos apontam que o status marital é um fator de proteção para os homens dependentes do álcool, visto que há maior incentivo, tolerância e ativa participação da parceira no tratamento. No alcoolismo feminino, pelo contrário, existe menor compreensão e maior resistência do companheiro em participar do tratamento. Além disso, quando a mulher dependente do álcool é casada, isso representa um fator de risco, levando-as às recaídas em menor espaço de tempo, pois não raro as mulheres vivem com parceiros que consomem álcool de forma pesada (McCrady, 2004) [a]. O I levantamento nacional sobre os padrões de consumo de álcool na população brasileira (SENAD, 2007) [a] apontou que existem diferenças no tipo de bebida ingerida por homens e mulheres: a cachaça é consumida preferencialmente por homens; o vinho por mulheres. Nosso estudo constatou que as mulheres dependentes do álcool, proporcionalmente aos homens, consumiram mais bebidas fermentadas (cervejas). Apesar de ser uma bebida mais dispendiosa que a cachaça, existe a influência e o incentivo da mídia, cujo intuito é de encorajar o consumo de fermentados e cativar populações específicas, entre elas as mulheres. Desta forma, o consumo de fermentados torna-se menos estigmatizante e o beber feminino passa a ser encarado com

Discussão 69 maior naturalidade. Além disso, a cerveja poderia ser consumida por mulheres com melhor situação econômica ou com grau de dependência leve ou moderado. A literatura especializada enfatiza que as mulheres dependentes do álcool apresentam mais comorbidades psiquiátricas do que os homens, principalmente os transtornos depressivos (Weinberger et al., 2009) [a]. Este resultado também foi encontrado em nosso estudo, no entanto, a maioria dos pacientes, devido ao abandono precoce de tratamento, não foi avaliada por médico especialista, o que poderia sugerir que a amostra de pacientes fosse subdiagnosticada no tratamento, independentemente do gênero. As mulheres iniciaram mais tardiamente o consumo de bebidas alcoólicas, e, embora fossem mais susceptíveis aos efeitos nocivos do álcool, houve menor necessidade de intervenção no programa de desintoxicação alcoólica ambulatorial, quando comparadas aos homens. Este é um dado difícil de ser interpretado, na medida em que outros fatores deveriam ser avaliados, como o último consumo alcoólico antes da triagem, características intrínsecas do paciente, tipo de bebida utilizada preferencialmente e grau de dependência do álcool. A capacidade de reter pacientes em ativa participação tem sido apontada como uma medida sensível relacionada à qualidade e eficácia de um programa de tratamento, sendo o tempo gasto um dos mais fortes indicadores associados a resultados positivos no pós-tratamento. Pacientes que apresentam baixa retenção e não completam as etapas do tratamento proposto estão sujeitos a apresentar um aumento no risco de readmissões (Moos et al.,1995) [a]. Assim, é bem-vinda qualquer intervenção terapêutica,

Discussão 70 medicamentosa ou não, que facilite e ajude a reter dependentes do álcool no tratamento. No presente estudo, observamos que ser mais velho, beber mais frequentemente durante a semana, usar medicação coadjuvante e apresentar dependência grave do álcool foram fatores preditivos relacionados à retenção, após a 4ª semana de tratamento. Nosso estudo verificou que os pacientes que ficaram retidos mais tempo no tratamento usaram proporcionalmente mais Dissulfiram, quando comparados aos pacientes com menor retenção, independentemente do gênero. No entanto, a sua prescrição deve ser cuidadosa, já que um grupo de pacientes não retornou ao tratamento, imediatamente após a medicação ter sido prescrita. Alguns motivos poderiam estar atrelados a isso, como o não entendimento quanto à proposta terapêutica, o receio aos seus efeitos colaterais e a baixa motivação, além das expectativas com relação ao tratamento. Ser mais jovem e ter menos severidade da dependência são fatores preditivos relacionados a um pior desfecho, pois o paciente não percebe a necessidade de um tratamento, abandonando-o precocemente (McKellar, 2006) [a]. A dependência grave do álcool, presente na maioria dos pacientes do estudo, traz como consequência uma diversidade de problemas em diferentes esferas, os quais podem constituir um indicador prognóstico favorável, porque a continuidade do beber se torna punitiva demais para esses pacientes. A hipótese inicial do nosso estudo, de que as mulheres dependentes do álcool apresentavam menor tempo de retenção no tratamento, quando comparadas aos homens, não se confirmou, já que verificamos que a média do

Discussão 71 tempo de retenção no tratamento foi de oito semanas, independentemente do gênero. Ainda que este possa ser considerado um curto período para a obtenção de resultados satisfatórios, em se tratando de pacientes dependentes graves, podemos considerar, no entanto, que qualquer tempo de exposição terapêutica é melhor do que nenhum. Alguns fatores podem estar atrelados à baixa retenção e que ainda merecem comentários: 1. No período de coleta de dados, a UNIAD atendia pacientes procedentes de bairros distantes e até mesmo de outras cidades e estados. A distância do local de tratamento poderia ter sido um obstáculo para a sua continuidade. Schneider et al. (2004) [a], avaliando os desejos e as expectativas de dependentes do álcool, concluíram que um tratamento próximo de casa foi mais requerido por mulheres para a sua continuidade; 2. O programa de desintoxicação alcoólica foi uma intervenção importante no tratamento e atendeu 63,5% da amostra do estudo. Com a remissão dos sinais e sintomas da abstinência, muitos pacientes poderiam ter a percepção de uma sensível melhora e, por conseguinte, já estarem satisfeitos com a intervenção oferecida e que, somados, contribuiriam para a interrupção precoce do tratamento; 3. A fase motivacional, na qual o paciente não está completamente convencido da necessidade de um tratamento, não conseguindo enxergar os diversos prejuízos originados por seu consumo excessivo, contribui para a interrupção do tratamento; 4. A aliança terapêutica precoce é apontada como um fator importante na retenção de pacientes em tratamento e, se frágil, pode ser um obstáculo para a continuidade do tratamento (Palmer et al., 2009).

Discussão 72 As limitações do estudo se referem à não aplicação de instrumentos e escalas diagnósticas e outros trabalhos, com metodologia prospectiva, que poderiam contribuir para melhor conhecimento da amostra. Mediante as diversidades existentes entre homens e mulheres dependentes do álcool, os gestores de políticas públicas deveriam: aplicar intervenções terapêuticas, baseadas em evidências no contexto da sistematização do planejamento e do desenvolvimento de projetos específicos, incentivar o treinamento e a capacitação da equipe profissional, investir em programas de reinserção social, incorporar ações preventivas e desenvolver relações de colaboração e articulação com outros serviços e sistemas, a fim de atender às necessidades específicas de cada população, visando facilitar a retenção de pacientes no tratamento, diminuindo o custo social e tornando o tratamento mais eficiente.

Conclusões 73 5. CONCLUSÕES As principais conclusões e implicações destes estudos foram: 1. O uso do Dissulfiram pode contribuir para a retenção de dependentes do álcool no tratamento ambulatorial, independentemente do gênero. 2. A prescrição do aversivo deve ser cuidadosa, pois uma parcela de pacientes interrompeu o tratamento, imediatamente após a medicação ser prescrita, independentemente do gênero. 3. Diversos fatores interferem na entrada, na retenção e no abandono de tratamento de dependentes do álcool, sendo que as mulheres, em geral, apresentam mais obstáculos, quando comparadas aos homens. 4. As mulheres dependentes do álcool, comparativamente aos homens, eram desempregadas, viviam sem um companheiro, apresentavam melhor nível de escolaridade, iniciaram o consumo regular de bebidas mais tardiamente, necessitaram menos do programa de desintoxicação alcoólica, consumiam mais bebidas fermentadas, apresentaram menos comorbidades psiquiátricas e usaram menos medicações coadjuvantes durante o tratamento. 5. A retenção de dependentes do álcool, após a 4ª semana, nos primeiros 12 meses de tratamento, teve maior chance de acontecer entre aqueles mais velhos, que consumiam mais álcool durante a semana, que apresentavam dependência alcoólica grave e que fizeram uso de coadjuvante durante o tratamento.

Conclusões 74 6. O tempo de retenção de mulheres dependentes do álcool, nos primeiros 12 meses de tratamento, foi similar ao dos homens, com média de oito semanas de tratamento.