Filhotes bem-educados Erros cometidos pelos donos logo nos primeiros meses de vida dos cães podem prejudicá-los ao longo de toda sua vida. Aprenda como evitá-los Texto ana luísa vieira É fácil cair na tentação de mimar demasiadamente um filhote: a cara de criança e as expressões graciosas dos bichinhos tornam a imposição de limites uma tarefa quase impossível. Concessões que parecem insignificantes, entretanto, prejudicam o comportamento do animal e provocam vícios que ele tende a carregar durante a vida inteira. Mesmo quando a intenção é proteger e educar o cãozinho, alguns donos pecam pelo excesso e acabam por induzir atitudes indesejáveis a longo prazo. Com firmeza e reforço positivo, porém, é possível paparicar a pequena mascote sem comprometer a convivência com ela no futuro. 22 Melhor Amigo
O adestramento precoce ajuda a evitar que o animal adquira vícios que serão difíceis de reverter quando for adulto Melhor Amigo 23
Limites desde sempre Para Elaine Natal, comportamentalista animal e adestradora da empresa Clube das Patinhas, do Rio de Janeiro (RJ), um erro clássico que as pessoas cometem é achar graça de qualquer coisa que o bichinho faça. De fato, um filhote saltando em cima de qualquer um que chegue em casa é muito bonitinho. Estimular o comportamento e retribuir as investidas com carinho, porém, traz complicações a longo prazo especialmente se, na fase adulta, o animal adquirir um porte avantajado. Um labrador que pula no dono toda vez que o vê, por exemplo, torna-se um problema, ressalta a profissional. A conduta correta, segundo a adestradora, é ignorar o filhote desde as primeiras vezes em que ele apresentar esse tipo de comportamento. É difícil e causa certa dor no coração, mas é necessário para que o cão não associe a brincadeira a reações positivas por parte dos donos. O certo é passar reto quando o animal saltar e só no momento em que ele estiver quieto fazer carinho e incentivá-lo com expressões como 'Muito bem' e 'Bom garoto', acrescenta. Coibir atitudes indesejáveis desde os primeiros meses é fundamental para a boa educação dos pets fotolia Incômodo à mesa Evitar dar comida e petiscos fora de hora, faz com que o cão desista de pedir e melhora a saúde dele Quase sempre, os pedidos insistentes do cachorrinho se estendem à mesa de refeições. É de praxe que ele faça cara de sofrimento enquanto vê o dono comendo algo que lhe parece apetitoso. Não raro, seres humanos de coração mole cedem à expressão penosa do bicho. Um pedacinho aqui, outro ali, e algum tempo depois a situação se torna insuportável do ponto de vista comportamental sem contar os problemas de obesidade e intoxicação que a maioria dos alimentos para pessoas pode causar a animais. Se o objetivo é cortar o mal pela raiz, vale disponibilizar a ração ou qualquer que seja o alimento em uma vasilha própria para o filhote sempre no mesmo horário, para que ele se acostume com uma rotina predeterminada. De resto, é contar com a colaboração de todas as partes envolvidas: O importante é que toda a família coopere e nenhuma pessoa ceda aos pedidos, explica o adestrador John Silva. Depois de algumas negativas, é natural que o cão desista. 24 Melhor Amigo
fotolia Desde os primeiros dias na nova casa, o pet deve ter seu espaço, com cama, água e comida próximos O cachorro pode até subir na cama, mas só com autorização do dono e por curtos períodos Atendendo a pedidos Outro erro que pode trazer consequências comportamentais graves para o bicho é atender às vontades toda vez que ele choramingar ou fizer cara de pidão, durante os primeiros meses de vida. Ele aprende que basta insistir um pouco para conseguir o que quer, e o hábito se transforma em vício na vida adulta. Normalmente, as súplicas começam nas primeiras noites que o animal passa na casa da nova família. É que ele acabou de se separar da matilha e ainda sente falta da presença da mãe e dos companheiros de ninhada na hora de dormir. Alguns segundos de choro exagerado são suficientes para que muitos donos abram a porta do quarto e convidem o cãozinho a se acomodar na cama. Depois de algum tempo caso a sequência se repita frequentemente, ele passa a encarar o local como um território ao qual tem passe livre. E pode, inclusive, desenvolver dificuldades sérias para ficar sozinho. A melhor forma de evitar que essa ansiedade provocada pela separação se torne doentia é ensinando o cachorro a ter independência desde cedo, explica John Silva, adestrador da Cão Cidadão. Preparar uma caminha para o filhote em um local guarnecido com ração e água é a primeira medida para que ele se sinta amparado também quando os donos estiverem longe. O especialista ainda recomenda que, ao longo do dia, o bichinho seja treinado a ficar só ainda que ele choramingue muito nas primeiras vezes pelo menos durante curtos períodos. Para Elaine Natal, não há problema em deixar o cão subir na cama algumas vezes, contanto que ele saiba que deve sair quando o dono determinar. A comportamentalista endossa que os latidos devem ser ignorados, recomenda exercícios de separação e indica o uso de grades de proteção removíveis (aquelas próprias para o convívio com animais) para sinalizar ao cachorro quando a presença dele é vetada. É bom também disponibilizar brinquedos de que ele goste para mantê-lo entretido nos momentos em que estiver sozinho, orienta. Melhor Amigo 25
Educação recompensada Mesmo quando a intenção dos donos é educar, há medidas que trazem prejuízos para a saúde física e psicológica do animal, que ele corre o risco de carregar para o resto da vida. Algumas pessoas dão bronca se o cachorro faz xixi e cocô no lugar errado, e ele adquire o hábito de fazer escondido ou segurar até não aguentar mais, conta o adestrador John Silva. O correto é, desde os primeiros dias, mostrar o local correto que pode ser forrado com jornal, por exemplo e presentear o bichinho com afagos e petiscos quando ele fizer as necessidades por lá. A comportamentalista Elaine Natal ainda explica que a melhor forma de coibir um comportamento errado é se antecipar a ele: Se o cão costuma fazer xixi ou cocô depois de atividades específicas como comer, beber água, acordar e brincar, o dono pode, já nessas horas, preparar o jornal e indicar onde ele deve se aliviar. Sem se esquecer, depois, de recompensar o acerto. Dar broncas duras quando o pet faz as necessidades no local errado pode gerar consequências negativas no animal Fotos: fotolia Proteção sem excesso Também é importante lembrar que, assim como muitos pais de crianças, alguns donos de cães são superprotetores; tendem a criar seus melhores amigos em uma redoma de cuidados exagerados que prejudicam a sociabilidade dos bichinhos na vida adulta. Nesse sentido, não levar o cão para fora de casa desde pequeno é a mais perigosa das medidas. A maioria dos veterinários recomenda que os cachorros só saiam à rua depois de tomadas todas as vacinas. Alguns adestradores, por outro lado, incentivam os donos a levar os filhotes para passear no colo antes disso: Quanto mais cedo o animal tiver contato com diferentes cheiros, visões e barulhos, melhor, diz Elaine Natal. O hábito de passear ajuda o cão a descarregar energias e evita que ele se torne um adulto agressivo e entediado. No fim das contas, é sempre uma questão de encarar o futuro do bicho como um reflexo de seu presente: É algo que eu sempre digo às pessoas: não deixe seu filhote fazer agora o que você não deseja que ele repita quando crescer, recomenda a adestradora. A superproteção também pode causar problemas 26 Melhor Amigo