O que é uma prova? Paulo Feofiloff
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- Manoel Rios Paranhos
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1 O que é uma prova? Paulo Feofiloff Em matemática, uma prova é uma argumentação precisa que procura convencer o leitor de que uma certa proposição, previamente enunciada, está correta. Num sentido mais informal, uma prova é um texto que ajuda o leitor a entender por que uma dada afirmação é verdadeira. Que cara tem uma prova? Uma prova é uma história escrita em linguagem humana e feita de sentenças completas. Mais especificamente, uma prova é uma sequência de afirmações organizada da seguinte maneira: cada afirmação é consequência simples das afirmações anteriores e das hipóteses da proposição em discussão; a última afirmação é a proposição que se deseja provar. Exemplo Considere a configuração do jogo Minesweeper indicada ao lado. Cada B representa uma bomba. As posições em branco não têm bombas. As posições marcadas com? podem ou não ter bombas. Uma posição marcada com um número k não tem bomba mas é vizinha de exatamente k bombas. Cada posição do tabuleiro é especificada por suas coordenadas. Assim, por exemplo, o extremo superior esquerdo do tabuleiro tem coordenadas (, ) e o cruzamento da primeira linha com a segunda coluna tem coordenadas (, 2).?? B?? 2 2 B?? 3 B?? B 2?? 2?? 3 2 B B Proposição: Não há bomba na posição (, 2) da configuração acima. Prova, por contradição: Suponha, por um momento, que há uma bomba em (, 2). A posição (2, 3) é vizinha de duas bombas e há uma bomba em (3, 4); logo, as posições (2, 2) e (3, 2) não têm bomba alguma. Portanto, o 3 na posição (3, 3) garante que há uma bomba em (4, 2). Agora, o 2 na posição (5, 3) garante que não há bomba em (5, 2) nem em (, 2).
2 Mas isso é inconsistente com o 3 na posição (, 3). Esta contradição mostra que (, 2) não pode conter bomba. Exemplo 2 Proposição: A raiz quadrada de 2 é irracional, ou seja, não existem números inteiros positivos p e q tais que p/q = 2. Prova, por contradição: Suponha que existem números inteiros positivos p e q tais que (p/q) 2 = 2. Escolha p e q de modo que eles não tenham divisor comum, ou seja, de modo que não exista um número inteiro maior que que divida p e q. O número p 2 é par (pois p 2 = 2q 2 ). O número p é par (pois o produto de quaisquer dois números ímpares é ímpar). Seja s o número p/2. O número q 2 é par (pois q 2 = p 2 /2 = (2s) 2 /2 = 2s 2 ). O número q é par. Os números p e q são divisíveis por 2. Isso contradiz a maneira como escolhemos p e q. A contradição mostra que a raiz quadrada de 2 é irracional. Exemplo 3 Proposição: Para qualquer número natural não nulo n tem-se n 2 = n(n + )(2n + ). Prova, por indução em n: Base da indução: n =. Nesse caso, os dois lados da identidade valem e portanto são iguais. Passo da indução: n >. Por hipótese de indução, (n ) 2 = (n )n(2n ). Portanto, n 2 = = (n ) 2 + n 2 (n )n(2n ) + n2 2
3 = n ((n )(2n ) + n) = n (2n2 3n + + n) n (2n2 + 3n + ) n(n + )(2n + ), como queríamos provar. Mau exemplo. Eis uma maneira feia de organizar a indução. Feia porque vai de n + para n e assim termina com uma expressão que não tem a mesma forma do enunciado. Base da indução: Se n = então os dois lados da identidade valem e portanto são iguais. Passo da indução: Suponha que a identidade vale para n. Vamos provar a identidade para n + : n 2 + (n + ) 2 = n(n + )(2n + ) + (n + )2 (n + ) (n(2n + ) + (n + )) (n + ) (2n2 + 7n + ) (n + ) (n + 2)(2n + 3) (n + )(n + 2)(2(n + ) + )), como queríamos provar. Exemplo 4 Proposição: Em qualquer grafo (V, E), a soma dos graus dos vértices é igual ao dobro do número de arestas, ou seja, v V d(v) = 2 E. Prova, por indução em E : Base da indução: E = 0. Nesse caso, d(v) = 0 para todo vértice v e portanto v d(v) = 2 E. Passo da indução: E > 0. Hipótese de indução: a identidade vale em qualquer subgrafo próprio de (V, E). Seja xy uma aresta do grafo. Seja F o conjunto E {xy}. Seja d F (v) o grau de v no grafo (V, F ). Por hipótese de indução, v d F (v) = 2 F. 3
4 Temos d(x) = + d F (x), d(y) = + d F (y) e d(v) = d F (v) para todo v diferente de x e y. Portanto, v d(v) = + + v d F (v) = F. Mas F = 2 E, e portanto v d(v) = 2 E, como queríamos demonstrar. Errado. Eis uma versão errada da indução que acrescenta uma aresta ao grafo em vez de tirar uma aresta. Base da indução: E = 0. Nesse caso, d(v) = 0 para todo vértice v e portanto v d(v) = 2 E. Passo da indução: Vamos supor que v d(v) = 2 E para um grafo (V, E). Acrescente ao grafo uma nova aresta xy. Seja E o novo conjunto de arestas e denote por d os graus dos vértices no novo grafo. Temos d (x) = + d(x), d (y) = + d(y) e d (v) = d(v) para todo v diferente de x e y. Portanto, v d (v) = + + v d(v) = E. Mas E = 2 E, e assim v d (v) = 2 E. Exemplo 5 Proposição: Em qualquer grafo, todo vértice não isolado é saturado por um emparelhamento máximo. Prova: Seja G um grafo e u um vértice não isolado de G. Seja M um emparelhamento máximo em G. Se M satura u então nada mais temos que provar. Suponha agora que M não satura u. Seja uv qualquer uma das arestas que incidem em u. O emparelhamento M satura v (pois é máximo). Seja vw a aresta de M que incide em v. O conjunto ( M {uv} ) {vw} é um emparelhamento. Esse emparelhamento é máximo (pois tem o mesmo tamanho que M). Esse emparelhamento satura u, como queríamos provar. 4
5 Observação final É claro que você não precisa seguir fielmente o formato dos exemplos acima: o texto da prova pode ser complementado com comentários e observações que tornem a leitura mais fácil e agradável. A propósito, veja o artigo de Reuben Hersh ( Math Lingo vs. Plain English: Double Entendre, The American Mathematical Monthly, v.04 (997), pp. 48-5) sobre o jargão da matemática. Exercícios. Prove, por indução em k, que k = 2 k+. 2. [D. E. Knuth, Fundamental Algorithms] Seja a um número positivo qualquer. Afirmo que para todo inteiro positivo n tem-se a n =. Eis a prova (por indução em n): Se n = então a n = a 0 = e portanto a afirmação está correta nesse caso. Agora tome n > e suponha, a título de hipótese de indução, que a k = quando k = n, n 2,...,. Temos então a n = a n 2 a n 2 an 2 = a a = n 3 =. Portanto, a afirmação está correta para todo inteiro positivo n, como queríamos provar. Onde está o erro da prova? 3. [D. E. Knuth, Fundamental Algorithms] Afirmo que para todo número inteiro positivo n tem-se n i= i (i + ) = 3 2 n. () Eis a prova (por indução em n): Para n =, ambos os lados de () valem /2 e portanto a afirmação está correta nesse caso. Agora tome n > e suponha, como hipótese de indução, que n 2 i= = 3. Teremos então i (i+) 2 n n i= i (i + ) = n 2 i= i (i + ) + (n ) n = 3 2 n + (n ) n = 3 2 n + n n = 3 2 n, 5
6 como queríamos demonstrar. Onde está o erro da prova? Alguma coisa deve estar errada, pois quando n = o lado esquerdo de () vale 5/ enquanto o lado direito vale 4/3. 4. [M. Blum] Imagine uma dessas barras de chocolate retangulares que consiste em quadradinhos dispostos em linhas e colunas. Uma tal barra pode ser quebrada ao longo de uma linha ou de uma coluna produzindo assim duas barras menores. Qual o número mínimo de quebras necessário para reduzir uma barra com m linhas e n colunas aos seus quadradinhos constituintes? 5. [M. Blum] Imagine uma jarra contendo um certo número de bolas brancas e bolas pretas. Suponha também que você tem um suprimento ilimitado de bolas brancas fora da jarra. Agora repita o seguinte procedimento enquanto ele fizer sentido: Retire duas bolas da jarra; se as duas tiverem a mesma cor, coloque uma bola branca na jarra; se as duas tiverem cores diferentes, coloque uma bola preta na jarra. Qual a cor da última bola a sobrar na jarra?
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