18. Lentes gravitacionais
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- Judite Brás Bandeira
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1 18. Lentes gravitacionais 1
2 lentes gravitacionais a gravitação afeta a propagação da luz, criando o efeito de lentes gravitacionais 2
3 lentes gravitacionais há muitos efeitos, em 2 regimes: -lentes fortes: arcos, imagens múltiplas, anel de Einstein, microlentes -lentes fracas: distorções estatísticas, shear cósmico 3
4 lentes gravitacionais muitas aplicações: -determinação de massa -estudo da natureza da matéria escura -descoberta de planetas -telescópios gravitacionais -cosmologia 4
5 5
6 Deflexão da luz das estrelas pelo Sol história da deflexão da luz -suspeitada por Newton, Laplace... -cálculo do ângulo de deflexão (newtoniano): Soldner (1804) -cálculo via princípio da equivalência: Einstein (1911) -cálculo via teoria da relatividade geral: Einstein (1916) -este efeito foi observado pela primeira vez em Sobral, no Ceará, e na Ilha de Príncipe, na costa da África, durante o eclipse solar de
7 manuscrito de Einstein de 1913 onde ele apresenta o resultado de seu cálculo da deflexão da luz de uma estrela pelo Sol note o valor que ele obteve para a deflexão: 0.84 arcsec, metade do valor correto 7
8 Deflexão da luz das estrelas pelo Sol a deflexão da luz: a gravitação altera a propagação da luz física newtoniana: a força gravitacional altera a propagação da luz teoria da relatividade geral: a curvatura do espaço-tempo altera a propagação da luz 8
9 Deflexão da luz das estrelas pelo Sol eclipse solar de 1919, Sobral, Ceará o resultado das observações foi apresentado por Eddington em Londres, numa reunião da Royal Society, divulgado pelo Times no dia seguinte, e depois por jornais de todo o mundo, tornando Einstein uma verdadeira superstar da ciência 9 Sobral, (Eclipse total do Sol, em 29 de maio de 1919, em fotografado por Henrique Morize, ex-diretor e astrônomo do Observatório Nacional)
10 Sobral, CE, 1919 A questão que minha mente formulou foi respondida pelo radiante céu do Brasil (Einstein, 1925) 10
11 história das lentes sugeridas por Eddington (1920) Einstein (1912, 1936) discute lentes estelares: conclui que a deflexão é muito pequena Zwicky (1937): aglomerados de galáxias como lentes discute também telescópios gravitacionais, probabilidade de lentes,... Walsh, Carswell & Weymann (1979): descoberta do primeiro quasar duplo: QSO : 2 imagens separadas por 6 arcsec Lynds & Petrosian e Soucail et al. (1987): detecção de arcos gravitacionais detecção do primeiro anel de Einstein (1988): MG (Hewitt et al.) efeito de lentes fracas: primeira detecção em 1990 (Tyson & Valdes) microlensing (1993): projetos MACHO e EROS shear cósmico: Whittman et al. (2000) 11
12 deflexão da luz na gravitação newtoniana consideremos um raio de luz que passa rasante ao Sol vamos supor que, quando passa próximo ao Sol, o raio é atraído com aceleração g ~ GM / Rʘ2 durante um intervalo de tempo Δt ~ 2Rʘ/c assim, o fóton vai ganhar uma componente transversal de velocidade v ~ g Δ t ~ 2 G M / (Rʘ c) de modo que o ângulo de deflexão resultante fica sin α α v /c 2 G M / (Rʘ c2) 12
13 deflexão da luz na teoria da relatividade geral na TRG o valor de α é duas vezes o que se obtém usando a gravitação newtoniana: α = 4 G M / (Rʘ c2) a deflexão da luz de uma estrela observada rasante ao disco solar será de 1.7 arcsec 13
14 Equação da lente vamos considerar uma massa M no ponto L que serve de lente para a fonte sejam α, β e θ o ângulo de deflexão, o ângulo em que a fonte seria observada na ausência da lente e o ângulo em que a fonte é observada, respectivamente sejam dl, ds, dls as distâncias (de diâmetro) à lente, à fonte e entre a lente e a fonte, respectivamente note que dls ds - dl! a equação da lente relaciona os ângulos α, β e θ com as distâncias da lente e da fonte 14
15 Equação da lente na ausência da lente uma estrela seria observada em S, formando um ângulo (supondo ds >> y) β y / ds com a direção da lente devido à deflexão gravitacional, a estrela é observada em S ; se a deflexão é pequena, α (x - y) / dls supondo θ pequeno, θ x / ds e θ R / dl daí se obtém a equação da lente: θ β = α dls / ds 15
16 Equação da lente equação da lente: θ β = α dls / ds onde α = 4 G M / (R c2) definindo o raio de Einstein como θe = [(4 G M / c2) dls / (ds dl)]1/2 e com R= θ dl, a equação da lente fica: θ β = θe2 / θ a relação entre a posição das imagens e a da fonte pode ser generalizada para uma lente com distribuição de massa não-simetrica: 16
17 O anel de Einstein equação da lente: θ β = θe2 / θ vamos supor que β = 0: alinhamento entre fonte, lente e o observador nesse caso, θ = θe onde θe = [(4 G M / c2) dls / (ds dl)]1/2 forma-se um anel em torno da lente- o anel de Einstein- com raio θe 17
18 imageamento de fonte puntual por lente puntual equação da lente: θ β = θe2 / θ ou θ2 β θ θe2 = 0 solução: uma solução tem β positivo e a outra β negativo a luz chega por cima" e por baixo" da fonte um caminho passa por dentro e o outro por fora do anel de Einstein: formam-se imagens duplas 18
19 imageamento de fonte puntual por lente puntual separação entre as imagens: Δθ = [β2 + 4 θe2]1/2 ou Δθ = β se β >> θe Δθ = 2 θe se β << θe 19
20 imageamento de fonte puntual por lente puntual note que a luz leva tempos diferentes para chegar ao observador percorrendo cada um dos dois caminhos Δt 418 dias 20
21 Atraso Temporal A luz leva tempos diferentes para ir da fonte ao observador por cada um dos dois caminhos 21
22 B B z=0.68 Δt = 10.5 ± 0.4 dias 22
23 O anel de Einstein θe = [(4 G M / c2) dls / (ds dl)]1/2 -exemplos do raio de Einstein: deflexão da luz de uma estrela pelo Sol: dls ds e dl = 1 UA: θe = 40 arcsec impossível de se observar: bem menor que o diâmetro do disco solar: ~30 arcmin raio de Einstein de uma estrela na Galáxia: vamos supor que M = 1 Mʘ e dl = 10 kpc se dls ds >> dl, então θe arcsec muito pequeno para se detectar no ótico associado ao efeito de microlentes 23
24 O anel de Einstein lente galáxia galáxia: o anel de Einstein ER Wayth et al (2005, MNRAS 360, 1333) - θe =1.17 arcsec - zl = zs = 3.67 daí (usando h=0.65, Ωm=0.3, ΩΛ=0.7): - dl = 1335 Mpc - ds = 1599 Mpc - dls = 1175 Mpc logo, - RE = θe dl = 7.6 kpc - M(< RE) = 3.1 x 1011 h65 Mʘ - MB(lente)= M / LB 5 h65 Mʘ / Lʘ 24
25 25
26 A magnificação o campo gravitacional não só modifica a trajetória de um raio de luz mas também de um feixe de luz como a deflexão gravitacional não esta ligada a emissão ou absorção de luz, o brilho superficial se conserva: é idêntico ao que seria observado da fonte na ausência da lente se o ângulo sólido da fonte é Ωs e o da imagem é Ωi, como o brilho superficial se conserva, a razão entre o fluxo da imagem e o da fonte- a magnificação- é: μ = Ω i / Ωs essa magnificação permite observar objetos tão distantes que, se não fosse pelo efeito da lente, não seriam observáveis: as lentes agem como telescópios gravitacionais 26
27 um telescópio gravitacional: 27
28 Curvas críticas e cáusticas a magnificação fica máxima para certas posições da fonte em relação à lente os pontos onde isso ocorre no plano da lente (isto é, o plano das imagens) formam as curvas críticas, enquanto que no plano da fonte são as cáusticas o anel de Einstein é uma curva crítica, mas pode haver outras, dependendo da forma da distribuição de massa da lente imagens próximas às curvas críticas podem ser bastante magnificadas e distorcidas, produzindo os arcos gravitacionais então, a posição dos arcos é próxima da dos anéis de Einstein modelo para a emissão de CO em PSS J C
29 exemplo de cáustica 29 produção de imagens múltiplas em cáusticas
30 30
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32 Microlentes Microlentes: magnificação de objetos mais distantes (estrelas, planetas, anãs marrons, buracos negros...) por estrelas da Galáxia este fenômeno foi aplicado na procura de objetos compactos de baixa luminosidade no halo da Galáxia: MACHOs: massive compact halo objects MACHOs: anãs marrons, planetas será que a matéria escura é constituída por MACHOs? anã marrom em torno da estrela LHS 2397A observada com o Gemini Norte 32
33 Microlentes Microlentes: magnificação de objetos mais distantes (estrelas, planetas, anãs marrons, buracos negros...) por estrelas da Galáxia o raio de Einstein é muito pequeno: exemplo- lente: estrela de M = 1 Mʘ e ds = 2 dl então θe arcsec as duas imagens ficarão muito próximas mas o fenômeno pode ser observado porque a imagem da fonte pode ser muito magnificada! 33
34 Microlentes 34
35 microlentes a variação de brilho é acromática: não depende do comprimento de onda em que é observada esta propriedade permite distinguir o efeito de microlentes do de estrelas variáveis 35
36 microlentes probabilidade de eventos de microlentes: muito pequena! p ~ 10-6 é necessario monitorar milhões de estrelas para se observar um evento de microlentes: projetos MACHO, OGLE, MOA, EROS, etc 36
37 microlentes um dos objetivos iniciais dos projetos de busca de microlentes era verificar se o halo de nossa Galáxia poderia ser constituído por MACHOs resultado: menos da metade da massa do halo escuro pode ser explicada por MACHOs uma descoberta inesperada: exoplanetas em eventos de microlentes! 37
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40 Lentes Gravitacionais em Aglomerados de galáxias aglomerados podem ser lentes fortes, amplicando e distorcendo a luz de galáxias 40
41 Equação da lente para lentes extensas para uma fonte puntual: α = 4 G M / (R c2) suponhamos agora que a distribuição de massa da lente é extensa e que pode ser caracterizada por uma densidade supercial Σ(R) na posição R (em relação ao centro da lente) no plano do ceu podemos decompor a distribuição de massa em pequenos elementos de massa dmi (na posição Ri), e a deflexão total será no limite contínuo, dm = Σ(R) d2r, onde d2r é o elemento de área no plano da lente e, então, 41 onde a integral é sobre o plano da lente
42 Equação da lente para lentes extensas no caso de simetria circular, R α (R) = 4 G M(<R) /(R c2) onde M(<R) = 2π 0R Σ(R ) R dr é a massa projetada dentro de um raio R compare α (R) com o de uma fonte puntual de massa M: α (R) = 4 G M /(R c2) 42
43 Equação da lente para lentes extensas no caso de simetria circular, α (R) = 4 G M(<R) /(R c2) e a equação da lente θ β = α(r) dls / ds pode ser reescrita como: β = θ ( 1 <Σ(R)> / Σc) onde <Σ(R)> = M(< R) / (π R2): densidade supercial média de massa dentro do raio R Σc = c2 / (4 π G) x ds / (dl dls ): densidade crítica da lente 43
44 Equação da lente para lentes extensas β = θ ( 1 <Σ(R)> / Σc) Σc = c2 / (4 π G) x ds / (dl dls ): densidade crítica da lente no raio de Einstein (β = 0): Σ = Σc os arcos são observados onde a densidade superficial média é igual à densidade crítica da lente 44
45 Lentes Gravitacionais em Aglomerados de galáxias CL aplicação : estimativa da massa central de um aglomerado vamos supor que se observa um arco em um aglomerado e que este arco esteja em θe vamos supor que dls ~ ds >> dl (aglomerado próximo e/ou fonte distante) nesse caso, Σc 2x104 (100 Mpc / dl) Mʘ pc-2 a massa projetada dentro de θe é (lembrando que θe = RE/dL) M(< θe ) 1010 (dl / 100 Mpc) (θe / 1 arcsec)2 Mʘ A
46 Lentes Gravitacionais em Aglomerados de galáxias aplicação : esfera isotérmica singular pode-se verificar que, nesse caso, R Σ(R) = σv2 /(2 G R) e, portanto, a massa projetada dentro do raio R será RCS , z=0.773 M(< R) = 0R 2 π R Σ(R ) dr = π σv2 R / G nesse modelo α é constante: α = 4 π σv2 / c2 e o raio de Einstein é θe = α dls / ds 46
47 Lentes Gravitacionais em Aglomerados de galáxias aplicação : esfera isotérmica singular R α é constante: α = 4 π σv2 / c2 29 arcsec (σv / 1000 km/s)2 RCS , z=0.773 e o raio de Einstein é θe = α dls / ds este valor de α mostra a ordem de grandeza esperada em aglomerados 47
48 Telescópios gravitacionais O raio de Einstein depende das distâncias da lente e da fonte θe [4GM(<θE)/c2 dls/(ds dl)]1/2 Conhecendo-se a distribuição de massa do aglomerado é possível estimar onde seria o raio correspondente a um certo redshift z e procurar nesse raio imagens magnificadas de fontes nesse redshift Ex.: galáxia em z=10 no campo de A1835 (Pelló et al. 2004) 48
49 z = 5.6 Amplificação de Ellis, Santos, Kneib & Kuijken (2001)
50 Lentes Gravitacionais em Aglomerados de galáxias há 2 tipos de efeitos de lentes gravitacionais em aglomerados: lentes fortes: arcos gravitacionaisamplicação e distorção forte de galáxias de fundo próximas ao raio de Einstein lentes fracas: distorção da forma das galáxias de fundo pelo campo gravitacional do aglomerado 50
51 Lentes Gravitacionais em Aglomerados de galáxias lentes fracas: distorção da forma das galáxias de fundo pelo campo gravitacional do aglomerado as galáxias longe do centro da distribuição de massa não formam arcos, mas são ligeiramente deformadas essa deformação não pode ser determinada individualmente para uma galáxia, mas pode ser determinada estatisticamente para um conjunto de galáxias de fundo 51
52 Lentes Gravitacionais em Aglomerados de galáxias a distorção gravitacional tem duas componentes: a convergência e o shear (cizalhamento) convergência: produz uma magnificação na imagem shear: produz uma distorção (astigmatismo) alinhada com as equipotenciais do campo gravitacional 52
53 Lentes fracas e fortes em aglomerados Mellier 99 o campo gravitacional do aglomerado introduz uma distorção global que produz uma deformação nas galáxias atrás do aglomerado 53
54 Lentes fracas e fortes em aglomerados 54
55 55
56 Lentes Gravitacionais em Aglomerados de galáxias a análise do campo de distorções permite mapear diretamente a distribuição de massa do aglomerado parâmetro de distorção ("elipticidade"): ε = (a-b)/(a+b) a e b: eixos maior e menor da galáxia para uma esfera isotérmica singular: ε = 2ɣ / (1+ɣ2) onde ɣ é o módulo do shear, ɣ = θe / (2θ) logo, conhecendo-se ε(x,y) determina-se a distribuição de massa 56
57 Lentes Gravitacionais em Aglomerados de galáxias a análise do campo de distorções permite mapear diretamente a distribuição de massa do aglomerado A2029: da esquerda para a direita: mapas de elipticidade média, distribuição de luz e distribuição de massa 57
58 cosmologia com lentes fracas o efeito de lentes fracas em grandes escalas- o shear cósmico- permite mapear a distribuição da matéria escura tomografia com lentes fracas da estrutura em grandes escalas: mapa em 3D da distribuição de matéria escura o estudo da distribuição da matéria escura em função do redshift permite colocar vínculos sobre a energia escura 58
59 59
60 as lentes e a existência da matéria escura o aglomerado bala -Choque de aglomerados: o fenômeno mais energético conhecido ~1056 erg -Choque: Mach 3.2, ~4500 km/s vermelho: gás azul: matéria escura 60
61 o aglomerado bala curvas de nível da densidade projetada de massa obtida com o método de lentes fracas; em vermelho a distribuição de gás quente 61
62 O que esperar numa colisão? o gás é colisional e perde energia numa colisão, enquanto que as galáxias e a matéria escura são não-colisionais ME MOND gravitação newtoniana modificada (sem matéria escura) 62
63 O que esperar numa colisão? a prova da existência da matéria escura! ME MOND observaçoes consistentes com ME! 63
64 Aglomerado MACS J
65 Exercícios 1. Mostre que se a distância da fonte é fixa, a área dentro do anel de Einstein, π dl2 θe 2, é máxima quando ds = 2 dl (suponha que a lente e a fonte estão próximas, de modo que dls = ds - dl ) 2. Mostre que a equação da lente pode ser escrita como θ β = θe2 / θ 3. Mostre que o ângulo de deflexão α é constante para uma esfera isotérmica singular. 4. A Cruz de Einstein é um conjunto de 5 imagens de um quasar em z = brilhando através de uma galáxia em z = Calcule dl e Σc para a lente. Quatro das imagens estão em aproximadamente um círculo com raio 0.9 arcsec. Tomando esse valor par θe, calcule RE e M(< RE ). Se H0 = 70 km s-1 Mpc-1 e supondo um universo com (Ωm=0.3, Ωλ=0.7), as distâncias dl, ds e dls são, respectivamente, 65 Cruz de Einstein
66 Exercícios 5. Sendo d = dl dls / ds a distância efetiva da lente, mostre que Σc = 0.35 g cm -2 (d / 1 Gpc)-1 6. Visite o Point Gravitational Lens Simulator: e se convença que os arcos ficam sempre no raio de Einstein da lente. 66
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