E ra bonita a tartaruguinha. Forte, pernas roliças, tinha

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1 E ra bonita a tartaruguinha. Forte, pernas roliças, tinha um verde que saía da metade do casco e se espalhava manso até a beirada. Viviam dizendo que ela era lerda, preguiçosa até. É preciso reconhecer que havia um pingo de verdade nestas más línguas, mas o resto era pura invenção, potoca de quem não tinha o que fazer. Era lerda sim, e daí? Já viram tartaruguinha correndo a oitenta por hora? Pelo menos não vivia atropelando ninguém na rua, subindo na calçada e derrubando poste. Além disso, vai uma grande distância entre ir devagar e ser preguiçosa. Quando estava com sono, ela punha a cabeça dentro daquele verde e olhava pra fora com uns olhinhos cada vez menores. E sumia de repente no casco. Era o lugar em que se escondia quando o vendedor de tartaruguinha a expunha no tabuleiro para algum comprador mal-encarado. Não se preocupava muito com o vendedor. Parecia um bom sujeito. Olha, pra dizer a verdade, se preocupava sim. Ele era um moço de voz grossa. Nunca parava de gritar: Óia a tartaruguinha! Companhia pros velhos, divertimento das crianças! Só trinta cruzeiros. No tabuleiro, no meio das outras, ela tinia de raiva. Ora, vejam só! Bichinho é mercadoria de se vender? Tinha certeza de que não. Já pensou se uma tartaruguinha entra 9

2 numa loja e pede ao vendedor vou levar aquele menino ali, também o de sarda e o pretinho, embrulha tudo com papel celofane que é para presente? E agora, aquele topetudo gritando pra quem quisesse ouvir que ela valia trinta cruzeiros! Bom, não estava muito surpresa. Uma vez lhe disseram que os homens vendiam homens também. Se não havia acreditado, ali estava o começo da prova. A tartaruguinha tinha tanta raiva que lhe dava vontade de brigar. Ainda mais que um estabanado veio conversando sem olhar pra frente e deu um encontrão no tabuleiro. De pernas para o ar, a tartaruguinha queria briga, mexendo os pés e as mãos. O vendedor não lhe deu atenção. Ele conversava com uma mulher e um menino. A tar taru gui nha continuava enfezada, puxando briga. Olhou em volta. As ou tras dormiam dentro do casco. Só ela ali, esperneando pra mostrar brabeza. Olha, mãe, a tartaruguinha verde tá querendo bater palmas! Compra pra mim, mãe, compra! A mãe, elegante na sua saia rodada, toda colorida, consultava a carteira de dinheiro. E não se decidia. A tartaruguinha torcia pra ela não ter dinheiro. Não ia muito com a cara do menino. Muito mimado, parecia cheio de manias. Por exemplo: dormir de olho aberto, mijar na cama e judiar de gatinho. Ou, então, comer até sentir dor de barriga. Ainda mais que a tartarugui nha queria brigar. Oh, meu Deus, ela estava querendo bater palmas coisa nenhuma! 10

3 Ah, mãe, compra a tartaruguinha. Ela quer bater palmas! Não tenho dinheiro, menino. O menino emburrou. Fez cara de choro, resmungou, e disse que só saía dali com a tartaruguinha. E ela, escutando tudo, pedia pelo amor de Deus que a pusessem do lado certo, pois estava de pernas pro ar. Ela está batendo palmas, mãe! A mãe fincou pé. E não comprou. O vendedor explicou que vendia a prestações, dez de entrada e cinco por mês. Mesmo assim, a mãe não se decidiu. Então o vendedor resolveu procurar outro freguês. O menino ainda esperneava. A mulher deu uma bronca deste tamanho e o puxou pelo cangote. A tartaruguinha achou que ele fosse morrer, de tão emburrado. A mão do vendedor se lembrou de botá-la no tabuleiro pelo lado certo e a tartaruguinha pôde respirar melhor. Ela sentia fome. Na hora do almoço o vendedor lhe tinha dado um pedaço de minhoca. Ela se lembrava bem quando um homem de bigode, com um relógio de correntinha perguntara o seu preço. O vendedor respondera: É trinta, o senhor quer levar? A tartaruguinha também não gostara do homem, principalmente por causa da correntinha do relógio: saía do bolso do colete, atravessava por cima da pança e entrava na presilha da cintura. Trinta é caro o homem respondera, mostrando seus dentes de ouro. Ela come muito? Quase nada havia respondido o vendedor, só uma minhoquinha de vez em quando. E onde vou achar minhoca? Moro em apartamento. Então dá miolo de pão. A tartaruguinha gostou menos ainda. Vê lá se ela ia comer todos os dias miolo de pão? Tartaruguinha come carne, insetos... mas miolo está fora de questão. Mas o freguês não desanimava: Ela é sadia? 11

4 12 Muito. Tartaruga não pega doença. Cachorro fica doido no mês de agosto; porco se estrepa na peste suína; vaca morre babando. Tartaruga, neca pau. Principalmente esta esverdeada. Supimpa, ela. É cara, mas acho que vou levar. As mãos do homem levantaram a tartaruguinha no ar. Dentro do casco ela se perguntou o que ele ia fazer. Depois de examinar o casco e a barriga, o homem perguntou onde era a cabeça. E acrescentou: Só com o casco não posso descobrir se é sadia. Esta é sadia respondeu o vendedor. Quer ver? E cutucou a cabeça da tartaruguinha com um palito de fósforo. Por desaforo, ela botou a cabeça pra fora, depois as duas patinhas da frente, em seguida, uma de trás. E saiu mancando. Mas falta uma das patas observou o freguês. Ué, agora mesmo tinha as quatro. Deixa ver. Não é que é verdade? Quem diria: agora mesmo tinha as quatro. Só com três não levo. Quero uma sadia. Tem esta aqui. Pode contar: uma, duas, três, quatro. E a cabeça está aí na frente. Então levo. Faz por vinte e cinco? Vá lá, mas não espalha por aí. Vendo a vinte e cinco pro senhor porque já estou tendo prejuízo. Ah, ia esquecendo. Ela vive dentro d água? Nos dois. Na terra e na água. Então, o homem fez rir seu punhado de dentes de ouro. Tirou o relógio do bolso do colete e disse que tinha pressa. Depois, olhou a tartaruguinha verde. Se fosse das grandes, levava esta assim mesmo. Carne de tartaruga é muito gostosa. Na Amazônia é muito comum. Igual a carne de galinha. Um gosto mais refinado, claro. A tartaruguinha sentiu raiva do velho. Ainda bem que dera certo a ideia de esconder uma das patas. O vendedor arrumava numa caixinha a tartaruga amarelada que o homem tinha comprado. Antes de entregar, coçou a cabeça.

5 Uma coisa está me cutucando aqui na cabeça: como pode ter perdido uma pata em cinco minutos? Pode ser malandragem dela. Te digo uma coisa: se tiver só três patas mesmo, não me serve. Boto no lixo. O homem da correntinha pagou ao vendedor e se afastou com a tartaruguinha amarela. A verde ficou com medo de ir pro lixo. Esperou que o homem da correntinha sumisse na esquina e mais do que depressa começou a andar normalmente. Ué, será que contei errado? Está aí, ó: quatro patas. Uma, duas, três, quatro. Puxa vida, esta zoeira do Centro me deixa meio confuso. Não faz mal, esta verde vendo fácil. 13

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