CONTOS DE FADAS: A CONSTRUÇÃO DISCURSIVA E A APROPRIAÇÃO DE CHAPEUZINHO VERMELHO DE PERRAULT E GRIMM EM A A COMPANHIA DOS LOBOS DE ANGELA CARTER 1

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1 CONTOS DE FADAS: A CONSTRUÇÃO DISCURSIVA E A APROPRIAÇÃO DE CHAPEUZINHO VERMELHO DE PERRAULT E GRIMM EM A A COMPANHIA DOS LOBOS DE ANGELA CARTER 1 NÍCOLAS TOTTI LEITE - UFOP 2 o xale vermelho que hoje tem aspecto brilhante e ominoso de sangue na neve. (CARTER in A Companhia dos Lobos, p. 205) RESUMO Este artigo é resultado do projeto de Iniciação Científica em andamento intitulado Contos de Fadas, feminismo e desconstrução: a escrita de Angela Carter, com apoio da FAPEMIG. Pretendemos traçar um paralelo entre a apropriação da ficção dos pobres pela burguesia ao transcreverem histórias calcadas na tradição oral, com a apropriação de Angela Carter ( ) dos contos de fadas tradicionais. Para isso analisaremos as versões de Chapeuzinho Vermelho transcritas por Perrault e pelos irmãos Grimm comparando-as com o conto A Companhia dos Lobos de Angela Carter, publicado no livro O quarto do Barba Azul (1979). Ao reescrever os contos de fadas, Carter não subverte apenas a função das personagens femininas, criticando, assim, a cultura patriarcal e a passividade que a elas são destinadas, mas também re-elabora algumas funções do gênero contos de fadas. Palavras-chave: Contos de Fadas, Construção Discursiva, Apropriação, Angela Carter. ANGELA CARTER, A LOBA Angela Carter ( ), ficcionista e ensaísta prolífica, foi uma das escritoras de língua inglesa mais instigantes e originais do final do século XX. Em The Bloody Chamber (1979) 3 percebemos um pouco do que foi sua criatividade. No livro, encontram-se contos em que o conteúdo advém de contos de fadas tradicionais do século XVII, XVIII e XIX. A autora britânica, com seu feminismo idiossincrático, ressignificou os contos de fadas e muitos de seus elementos, incorporando à sua prosa uma linguagem altamente sofisticada e robusta. Carter, ao se apropriar de histórias folclóricas, tem consciência de que está modificando princípios e ideologias de uma cultura que vigorou por muito tempo: o 1 Esta pesquisa está sendo orientada pela Profa. Dra. Maria Clara Versiani Galery e co-orientada pelo Prof. Dr. Adail Sebastião Rodrigues-Júnior. 2 Graduando pela Universidade Federal de Ouro Preto.

2 patriarcalismo. Ela fez dos contos de fadas uma poderosa arma de ataque aos costumes do patriarcado, produzindo, assim, uma das releituras mais originais da literatura contemporânea. Em entrevista à revista Marxism Today, publicada no início de 1985, Carter afirma achar interessante a qualidade com que a burguesia se apropriou da cultura dos pobres para o seu entretenimento. Os contos de fadas, segundo Carter, fizeram parte da tradição oral da Europa e foram a ficção dos pobres e dos iletrados (p. 20). Em A Companhia dos Lobos, a escritora se apropria e desconstrói uma das histórias folclóricas mais conhecidas por muitas culturas: Chapeuzinho Vermelho, que foi transcrita por Perrault, na França, e também pelos Irmãos Grimm, na Alemanha. O conto da escritora pode ser dividido em duas partes: na primeira, há lendas que envolvem figura de lobos e lobisomens. Elas são importantes para a construção da narrativa e contribuem para o clímax do conto. Nelas, os lobos são construídos como seres selvagens, assustadores e de todos os temíveis perigos da noite e da floresta (...) o lobo é o pior porque não dá ouvidos à razão (p. 200). Na segunda parte nos é descrita a história de uma menina que insiste em atravessar o bosque em pleno inverno para levar uma cesta contendo comida para a sua avó, e encontra no meio da floresta um belo jovem com o qual fica conversando. A adolescente que, até então, carregava uma faca para se proteger das feras, entrega-a junto com o cesto para o rapaz, uma vez que ele tinha uma espingarda. Os dois se separam após uma aposta em que se o jovem chegasse primeiro à casa da avó, ganharia um beijo da protagonista. Ao chegar antes da adolescente, ele, então, mostra sua outra face (a de um lobisomem), e devora a velha reumática. A menina que demorara no caminho para se certificar de que o belo jovem ganharia a aposta, chega à casa da avó e fica desapontada ao ver apenas a velha sentada perto da lareira. Mas, o jovem logo se revela e atira a colcha fora. A menina que não vê sua avó na casa percebe que está em perigo, mas deixa o medo de lado, uma vez que ter medo não adiantaria nada. O conto termina com os dois na cama da vovozinha, onde a heroína dorme em paz e docemente (...), entre as patas do lobo afetuoso. (p. 213). Pretendemos demonstrar neste artigo que ao comparar os contos de Chapeuzinho Vermelho, transcritos por Perrault e pelos Irmãos Grimm, com A Companhia dos Lobos de Angela Carter, percebemos neste último a subversão de funções ideológicas e estruturais em relação àquelas apresentadas pelos contos tradicionais. Para demonstrar quais as ideologias e as características presentes nos contos de fadas tradicionais faz-se necessário apresentar um 3 Nesta pesquisa, investigamos a tradução de O Quarto do Barba Azul (1999) feita por Carlos Nougué.

3 breve panorama da importância das figuras femininas para o surgimento e para a consolidação desse gênero e como os contos de fadas foram apropriados pela burguesia. A hipótese que se levanta neste artigo é a de que o caráter subversivo de Carter atribuise não à consumação do ato sexual que existe entre Chapeuzinho Vermelho e o lobo, mas à sensualidade que paira entre os dois. No conto, a protagonista não se deixa ser devorada pelo lobo como nas histórias antigas; na verdade, ela se entrega ao lobo. Neste artigo levantamos algumas questões que serão objeto de investigação mais sistemática ao longo da pesquisa. A CONFECÇÃO DO CAPUZ VERMELHO Em uma época moderna os contos de fadas assumiram funções civilizadoras e didáticas. Escritores como Charles Perrault e Jacob e Wilhelm Grimm, ao transcreverem histórias calcadas na tradição oral, não só procuravam consolidar a literatura vernácula e sistematizar a unidade cultural dos povos de suas respectivas nações, como também alertar as pessoas sobre os vários perigos da vida. À luz da feminilidade nos contos de fadas, analisar a trajetória ideológica que constitui a personagem Chapeuzinho Vermelho nos enredos dos contos analisados neste artigo significa analisar como a posição das mulheres na sociedade se modificou dentro da sociedade no decorrer dos séculos. Os contos de fadas se consolidaram a partir do século XVII, com a publicação de Histoires ou contes du temps passé (1697) de Perrault. Percebemos, ao analisar contos de fadas de Perrault e dos irmãos Grimm, que a presença das figuras femininas também está associada ao contexto cultural em que foram escritos. O modo como as mulheres são representadas na maioria desses contos nos revela certas estereotipias; geralmente elas são princesas, fadas, bruxas, madrastas, mães, filhas, etc., e são descritas como ingênuas, passivas, sempre a espera de seus príncipes encantados. Essa representação mostra-nos que tais personagens são construídas a partir de um ideal de feminilidade de uma sociedade patriarcal. De acordo com Marina Warner, em seu minucioso estudo sobre os contos de fadas Da Fera à Loira (1999), o gênero começa a se destacar na França no século XVII, antes mesmo de Perrault, com escritoras como Marie-Catherine d Aulnoy e Marie-Jeanne L Héritier. As précieuses, como ficaram conhecidas, eram mulheres que frequentavam salões onde aconteciam círculos literários, em que histórias folclóricas eram contadas e escritas. Conforme Warner, elas apresentavam um ideal de celibato, o que as impulsionou a serem consideradas

4 mulheres anômalas, subversivas dentro da ordem do Antigo Regime. Além de suas histórias terem sido esquecidas ou apagadas pelo grande sucesso de Perrault, elas foram satirizadas por Molière em Lês précieuses ridicules (1697) e Les femmes savantes (1699). Perrault, que frequentava esses círculos literários, não hesitou em tomar a causa das précieuses como podemos notar em seus contos, principalmente em Chapeuzinho Vermelho, em que insere uma moral adjacente ao conto, advertindo as menininhas para não conversarem com certos lobos. Dessa forma, embora as précieuses tenham sido negligenciadas pela História, elas influenciaram diretamente as obras mais conhecidas de Perrault e, por isso, em seu livro o autor cria uma arquetípica contadora de histórias: A Mamãe Gansa. A partir do século XVIII, o interesse pelos contos de fadas passou a ser grande, pois o público infantil foi seduzido por essas narrativas curtas. Como afirma Warner (1999), os livreiros e tipógrafos, tendo em mente as censuras dos pais, expurgaram muitas das histórias, fato que fez com que as manifestações do grotesco e do brutal, muito comum a essas narrativas e ao folclore, fossem suprimidas para agradar aos pedagogos e aos editores. Como nos afirma Angela Carter na introdução de 103 Contos de Fadas (2007), a eliminação de certas expressões pesadas contribuiu para que o divertimento universal dos pobres se transformasse em passatempo da burguesia, principalmente das crianças burguesas. Marina Warner (1999) nos relata alguns desses elementos grotescos que existiam na versão oral de Chapeuzinho Vermelho, mas que foram suprimidas por Perrault. Segundo ela, o lobo usa de ardis para levar a heroína a comer um pedaço de carne de sua avó e a beber um pouco de sangue da velha, mas a criança, ao final, consegue se safar, recusando-se a deitar na cama com o pretexto de urinar. O lobo, então, amarra uma corda ao pé da menina, que ao chegar ao bosque, consegue se livrar do nó da corda e foge. Assim como Perrault, os irmãos Grimm, no final do século XIX, na Alemanha, também transcreveram histórias advindas da tradição oral. Tendo como principal fonte uma mulher chamada Dorothea Viehnmann, eles também excluíram e acrescentaram elementos que habitualmente não havia nas versões orais. Conforme a psicanalista Dra. Clarissa Pinkola Estés, no prefácio de uma coletânea que faz dos contos dos irmãos Grimm (2005), ao transcreverem as histórias folclóricas os autores alemães acrescentaram uma versão judaicocristã de Deus em alguns dos contos mais antigos, o que nos mostra que contos de fadas são impregnados de ideologias dos autores e da época em que se inseriam. Portanto, são atribuídos aos contos folclóricos crenças e ideologias de seu tempo e de sua nação. Uma característica marcante dessas histórias é a transformação a que seus enredos estão sujeitos,

5 ocasionados pela mudança das crenças de cada escritor. A respeito disso, Angela Carter no prefácio de 103 Contos de Fadas afirma que qualquer um pode se apropriar de uma história e modificá-la (2007, p.15). Essas histórias calcadas na tradição oral de diversas regiões foram responsáveis por dizer ao seu público o que era certo e o que era errado, de acordo com os preceitos de suas respectivas épocas. Ao perceberem como os contos de fadas são carregados de crenças, escritores como Angela Carter, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Marina Colassanti, Robert Coover e outros, se apropriaram de histórias consagradas com o intuito de rever tais crenças. Como procuramos demonstrar, as figuras femininas exerceram um papel fundamental, seja dentro dos enredos, como na história de Chapeuzinho, seja para a consolidação e desenvolvimento do gênero contos de fadas com as précieuses e Angela Carter. Segundo Warner (1999), os contos folclóricos (...) moldam intensamente a memória nacional; suas versões poéticas cruzam-se com a História, e na atormentada busca contemporânea por identidade nativa, subestimar a influência deles sobre valores e atitudes pode ser tão perigoso quanto ignorar mudanças de realidade históricas. ( WARNER, 1990, p. 450). Da mesma forma em que, no século XVII, as précieuses fizeram dos contos de fadas uma possibilidade de protesto ou, pelo menos, de desafiar ideias estabelecidas, no século XX, não foi diferente. Sob uma perspectiva moderna, os contos de fadas ofereceram para muitos escritores contemporâneos um território de liberdade não só para expressarem suas crenças, mas também suas revoltas. Como afirma Warner, protestos e contos de fadas são parceiros de longas datas. Ao estudar as formas para determinar as constantes e as variantes dos contos folclóricos russos, o eminente formalista Vladimir Propp, em seu ensaio intitulado As Transformações dos Contos Fantásticos (1928), afirma que embora os contos de fadas apresentem algumas características diferentes, como aparências, idades, sexos, estado civil, etc., eles realizam durante o curso da ação os mesmos atos. Carter, em The Bloody Chamber, brinca com os limites e, ao mesmo tempo, com a liberdade das transformações dos contos de fadas, atualizando-os, principalmente, em relação ao modo como as mulheres passaram a ser vistas no século XX. A seguir, analisaremos algumas dessas variantes que estão presentes nos contos da escritora.

6 CORRENDO COM OS LOBOS Ítalo Calvino, em Seis Propostas Para o Próximo Milênio (1995), ao se pronunciar sobre a rapidez, afirma que a principal característica dos contos de fadas é a economia de expressão, uma vez que, nesse gênero, os detalhes inúteis são negligenciados. Ou seja, (...) as peripécias mais extraordinárias são relatadas levando em conta apenas o essencial; é sempre uma luta contra os obstáculos que impedem ou retardam a realização de um desejo ou a restauração de um bem perdido (...) (CALVINO, 1995, p. 50). Mas em Carter não vemos essa economia nas palavras. Como nos afirma Marina Warner (1999), nos contos da autora britânica, deparamos-nos com uma prosa híbrida, sendo, ao mesmo tempo, elaborada e vulgar. Angela Carter, ao atualizar os conteúdos daquilo que um dia foi a ficção dos pobres e iletrados, nos mostra uma linguagem delicadamente complexa, artificial e rebuscada. Conforme Cristina Bacchilega, em An Introduction to the Innocent Persecuted Heroine Fairy Tales (1993), os discursos narrativos dos contos de fadas tradicionais limitam o papel das mulheres a mães e filhas. O fato dos narradores dos contos de fadas serem geralmente em terceira pessoa e também por essas histórias terem sido transcritas por homens, contribuíram para que as personagens femininas fossem construídas a partir de ideologias patriarcais. Nessas narrativas, na maioria das vezes as heroínas não têm voz. Suas inocências e perseguições que geralmente sofrem são construídas sob a idealização de uma sociedade aristocrática, em que a heroína está disponível para ser salva pelo herói. No fim da jornada do príncipe encantado, haverá uma mulher esperando por ele, com a qual irá se casar e possuí-la sexualmente. Angela Carter, em The Bloody Chamber, desconstrói todas essas características advindas de uma sociedade patriarcal por meio das quais as personagens femininas foram constituídas discursivamente nos contos de fadas tradicionais. Suas heroínas não são frágeis nem inocentes, mas ambivalentes e, em alguns contos, elas têm a oportunidade de contar as suas próprias histórias. Percebemos, portanto, que as personagens femininas nos contos de Carter não são construídas de uma maneira simplista como nos contos de fadas de outrora. A complexidade psicológica e a audácia que a elas são atribuídas demarcam suas identidades. Dessa forma, a escritora britânica, ao desenvolver suas personagens, nos mostra os desejos femininos mais profundos.

7 Através da comparação entre a versão francesa e a alemã de Chapeuzinho Vermelho com A Companhia dos Lobos, podemos perceber que Carter, além de subverter a função das personagens femininas, criticando, assim, a cultura patriarcal e a passividade que a elas são destinadas, re-elabora algumas funções do gênero contos de fadas, tais como, a economia das palavras, como fora afirmado anteriormente, a presença da sensualidade em seus contos e a construção discursiva das personagens, como explicitaremos a seguir. DESAMARRANDO O XALE VERMELHO Chapeuzinho Vermelho é uma história em que é narrada a trajetória de uma menina muito bonita, mas ao mesmo tempo ingênua, que deve levar uma cesta contendo bolo e manteiga para sua avó, que mora do outro lado da floresta. Ao analisar discursivamente os contos de Perrault e dos irmãos Grimm, verificamos que há entre as histórias características particulares que possibilitam interpretações diferentes. Nesta parte do artigo, pretendemos comparar os contos em foco, analisando algumas dessas características e mostrando como Carter reelabora tais elementos. Assim como na versão dos Grimm, a Chapeuzinho Vermelho de Perrault é construída de uma maneira simplista e categórica. A descrição inicial da protagonista feita por um narrador heterodiegético nos mostra como algumas atribuições que são dadas a essa heroína, como por exemplo, a beleza e a ingenuidade constroem a personagem discursivamente. Atendendo a um pedido de sua mãe, Chapeuzinho vai à casa de sua avó. Diferentemente da versão alemã, no conto de Perrault não há nenhum tipo de advertência ou alerta por parte da mãe. A menina, ao passar pelo bosque, encontra o lobo que teve muita vontade de comê-la, mas não ousou, porque havia por ali alguns lenhadores na floresta (p. 67). A pobre menina, que não sabia o quão perigoso era conversar com um lobo diz a ele para onde vai. O lobo, então, vai para casa da ingênua avó, que é enganada e devorada. Quando chega à casa da avó, a menina teme, ao ouvir a voz grossa do lobo, mas depois achou que era só um resfriado da velha. Chapeuzinho, sob o pedido da falsa avó, tira a roupa e se deita na cama. Após um envolvente diálogo, a menina é devorada pelo lobo e o conto termina. Nos diversos contos que escreveu, Perrault insere uma moralidade, que segundo Mariza Mendes, em Em busca dos Contos Perdidos (2000), ele atribui como sendo o

8 elemento fundamental da fábula e a razão pela qual elas devem ser feitas. Como veremos a seguir a moral do conto de Perrault nos revela a identidade oculta do lobo: Percebemos aqui que as criancinhas,/principalmente as menininhas/ Lindas, boas, engraçadinhas,/ Fazem mal de escutar todos que se acercam,/ (...) Se um lobo mau então as coma, e bem./digo lobo, lobo em geral, /Pois há lobo que é cordial/ Mansinho, familiar e até civilizado/ Que, gentil, bem educado,/ Persegue donzelas mais puras (...) / Quem não sabe, infeliz, que esses lobos melosos, /Dos lobos todos são os bem mais perigosos? (PERRAULT, 2004, p. 75) Dessa forma, o verdadeiro lobo é o homem civilizado, bajulador e sedutor. Para Marina Warner (1999), Perrault vira a identidade costumeira do lobo de cabeça para baixo e o situa próximo de si, em vez de distante e como o Outro. (p. 215). A autora afirma que se não houvesse em suas transcrições a inserção da moral, e não soubessem da sua afinidade com as précieuses, dificilmente os seus contemporâneos associariam o lobo a um homem refinado do século XVII. Bruno Bettelheim em A Psicanálise dos Contos de Fadas (1990) afirma que Perrault não desejava apenas entreter seu público, mas apresentar uma lição de moralidade específica. O psicanalista afirma ainda que a moral do escritor francês ocasiona a perda de significações possíveis, pois fica óbvio que o lobo não é um animal, mas uma metáfora. Portanto, a moralidade do conto de Perrault nos mostra como devemos interpretar o conto. Chapeuzinho Vermelho é uma história que narra, antes de qualquer coisa, a travessia de uma criança à maioridade, ou a perda da inocência de uma criança. O conto dos irmãos Grimm inicia-se de forma semelhante. Uma característica diferente se encontra na fala da mãe que adverte a menina para que não saia do caminho e nem se demore. Quando a menina chegou à floresta, encontrou o lobo. Mas não sabia que ele era um animal malvado, por isso, não sentiu um pingo de medo. (p. 285). Ela, então, conta ao lobo para onde vai e ele pensa: Essa criaturinha será um bom petisco. Bem mais gostosa que a velha. Preciso ser esperto e abocanhar as duas (p. 285). Persuadida pelo lobo a pegar flores para sua avó, Chapeuzinho se demora pelo caminho e sai da trilha, desobedecendo, assim, sua mãe. Imediatamente, o lobo vai à casa da avó e a devora. Quando Chapeuzinho Vermelho chega à casa da avó, percebe algo estranho e fica apreensiva. Ao se aproximar da cama da avó a heroína percebe que a velha estava diferente. Em seguida, há o diálogo entre a menina e o lobo que nos dois contos em questão constituem o clímax. Após dizer: Mas, vovó, que dentes grandes a senhora tem. e o lobo responder: É para comê-la melhor, minha querida, a menina é devorada. O final do conto,

9 entretanto, é diferente em relação à de Perrault, pois passava por ali um lenhador que ouviu o roncar da velha e achou aquilo estranho. Entrou na casa e ao ver o lobo dormindo, disse: E não é que o encontro aqui, seu velho pecador! exclamou. Faz bastante tempo que venho procurando você (p. 287). O lenhador pega a espingarda, mas lhe ocorreu que talvez o lobo tivesse devorado a velha, com uma faca, então, abre a barriga do lobo, de onde saem Chapeuzinho e sua vovozinha são e salvas. A menina trouxe umas pedras com as quais rechearam o lobo, quando o animal acordou e tentou correr, caiu morto. O conto se finda com a seguinte reflexão de Chapeuzinho: Quando minha mãe proibir, nunca mais vou sair passeando pela floresta enquanto eu viver. (p. 287). Para Mariza Mendes, no livro Em busca dos Contos Perdidos (2000), o fato da versão francesa não ter um final feliz contribui para que o conto seja caracterizado não como um conto de fadas, mas um conto de advertências. Além disso, ela nos lembra que no conto de Perrault, diferentemente no dos Grimm, a menina não desobedece à mãe, que, por sua vez, não lhe faz nenhuma advertência. No conto dos Grimm, entretanto, a mãe adverte a menina para que ande rápido e que não se afaste do caminho, mas ela a desobedece e, como punição, é devorada. Angela Carter inicia o conto A Companhia dos Lobos com uma inversão. Ao invés de caracterizar a protagonista, a autora nos apresenta uma série de lendas que qualificam a personagem masculina, o anti-herói: o lobo. Nessas lendas, o narrador heterodiegético além de caracterizar o lobo como um ser feroz, astuto e como a personificação carnívora, também nos mostra a sua outra face, a de um lobisomem. O lobisomem vive cerca de sete anos, mas, se lhe queimarmos as roupas de homem, condenamo-lo a ser lobo pelo resto da vida; por isso as velhas daqui pensam que se protegem atirando um chapéu ou avental a um lobisomem, como se as roupas fizessem o homem. (...) (CARTER, 1999, p. 204) Angela Carter, através dessas lendas, mostra o quão mal o lobo/lobisomem pode ser, o que, de certa forma, potencializa o clímax do conto que vai se manifestar no final da história. Como fora dito anteriormente, a escritora britânica constrói sua personagem modificando o discurso que caracterizava uma protagonista de contos de fadas dos séculos XVII, XVIII e XIX. Podemos ver isso logo no começo da segunda parte, quando, em pleno inverno, a menina de espírito indômito insiste em atravessar o bosque para levar o cesto à

10 sua avó. A menina tem certeza que as feras não irão lhe fazer mal e, para se proteger, coloca uma faca no cesto. Como nos é descrito, ela sempre fora amada demais para sentir medo e a (...) tão bonita e caçula temporã, teve todos os mimos da mãe e da avó, que lhe fez o xale vermelho que hoje tem aspecto brilhante e ominoso de sangue na neve. Os seios começam a despontar; o cabelo parece linho, tão louro que mal forma sombra na testa; as faces são de um escarlate e branco emblemáticos, e já lhe começaram as regras, esse relógio dentro dela que dará sinal uma vez por mês. (CARTER, 1999, p. 205) Enquanto nos contos dos escritores de fadas tradicionais a Chapeuzinho Vermelho é descrita categoricamente como bela, sem haver nenhuma descrição de sua beleza, no conto da escritora britânica a beleza da heroína nos é mostrada, com os seus detalhes mais íntimos. Além disso, podemos verificar como a protagonista de Carter é ousada, pois mesmo sabendo os perigos que a floresta representa, ela insiste em levar a cesta para avó. A protagonista fica impressionada com um jovem que encontra na floresta, pois nunca tinha visto um rapaz tão fino, não entre os rústicos palhaços da aldeia natal (p. 206). Ele, que tinha no bolso uma bússola, garante a heroína que chegaria à casa da avó antes dela. A garota, que sabia que se saísse do caminho ou se perderia imediatamente ou seria atacada por lobos, pergunta ao rapaz se ele não tem medo desses animais. Ele, então, dá uma palmadinha no cano da espingarda que carrega e sorri. Os dois decidem fazer disso uma aposta e como prêmio o jovem pede à garota um beijo. Ele vai pelo matagal e leva consigo o cesto da menina, mas ela que se esquecera de ter medo dos animais, queria demorar no caminho para ter certeza de que o lindo rapaz ganharia a aposta (p. 207). Em seguida, a avó da jovem nos é descrita como idosa e frágil, [em que] três quartos da vovozinha estão dominados pelo falecimento que a dor nos ossos lhe promete, e ela está quase pronta para render-se inteiramente. (p. 208) Bateram na porta. Fingindo ser a neta da velha, o rapaz entra na casa; ao ver o cesto de sua neta, a avó pergunta: Oh, meu Deus, o que você fez a ela? (p. 209). O jovem então se despe da roupa humana e A última coisa que a senhora de idade viu neste mundo foi um jovem, olhos como cinza, nu como veio ao mundo, aproximar-se da cama (p. 209). Ele, após acabar com ela, lambeu a beiçada e vestiu-se rapidamente, tal qual estava a velha quando ele entrou. Por conseguinte, ele queima o cabelo da velha que não se podia comer, guarda os ossos numa caixa e, cuidadosamente, troca os lençóis ensanguentados por novos.

11 Ao chegar à casa da avó, o narrador afirma que talvez [Chapeuzinho] estivesse um pouco desapontada por ver apenas a avó sentada ao lado da lareira (p. 210), mas o rapaz logo tira a colcha fora e salta para a porta, trancando-a. A menina não podia estender a mão para pegar a faca que estava no cesto, pois ele tinha os olhos fixos nela. A menina exclama: Que olhos grandes você tem! São para te ver melhor! (p. 210), e pergunta: Onde está minha avó?, ao que o homem responde: Aqui não há mais ninguém, só nos dois, meu amor. (p. 211). Nisso, elevou-se um uivo de uma multidão de lobos; ela sabia que os piores lobos são peludos na parte de baixo e teve um arrepio apesar do xale encarnado, que ela aconchegou mais a si como se a pudesse proteger, embora tão vermelho como o sangue que teria de derramar. (CARTER, 1999, p. 211). A menina chega perto da janela para ver os lobos que estavam a uivar e fala: Está tão frio, coitadinhos! disse ela. Não admira que uivem assim. (p. 211). Nessa fala, percebemos que a protagonista não sente medo dos lobos, mas pena. Em seguida, ela tira o xale da cor dos sacrifícios, da cor das menstruações, e, uma vez que o medo não a ajudava em nada, deixou-o de lado (p. 211), ou seja, ela, por um lado, despiu-se do medo e, por outro, abandonou o receio de perder sua inocência, representada no xale, vestimenta que simbolizava a tradição cultural de sua época. Após a protagonista tirar sua roupa, ela vai terse com o rapaz, tira-lhe a blusa e afirma: Que braços grandes você tem! e ele responde: São para abraçá-la melhor! (p. 212). Como podemos ver em seguida o diálogo entre Chapeuzinho e lobisomem continua: (...) ela de livre vontade lhe deu o beijo devido. - Que dentes grande você tem! Ela viu-lhe a queixada cobri-se de baba (...) mas não vacilou nem quando ele disse: - São para te comer melhor! A menina desatou a rir, sabia que não era carne para ninguém comer. Riulhe em cheio na cara, tirou-lhe a camisa e atirou-a no fogo, na esteira de fago da roupa que ela própria tinha despido.. (p. 212) A sensualidade que paira entre as personagens é construída através das falas dos diálogos dos contos de fadas tradicionais, mas que ao serem pronunciadas por estas personagens e nesse contexto, apresentam outro sentido. A menina, ao invés de deixar-se ser devorada pelo lobisomem, nesse conto, o seduz assumindo, assim, as iniciativas de sua iniciação sexual. Dessa forma, a protagonista se distancia das heroínas inocentes

12 perseguidas, como Bacchilega (1993) caracteriza as protagonistas dos contos de fadas tradicionais. Em seguida, a seguinte cena nos é descrita: As chamas dançaram como as almas na noite de Walpurgis 4, e os velhos ossos debaixo da cama começaram um terrível matraqueado, mas ela não lhes deu atenção. Carnívoro personificado, só a carne imaculada o acalma. (p. 213) Podemos considerar essa passagem ambígua, pois não sabemos se Chapeuzinho foi devorada pelo lobo ou não. Mas, a ambiguidade é desfeita na passagem seguinte, em que Chapeuzinho e Lobisomem se encontram na cama da vovozinha, onde a heroína dorme em paz e docemente (...), entre as patas do lobo afetuoso. (p. 213). Ao comparar o final do enredo de A Companhia dos Lobos com os de Chapeuzinho Vermelho transcritos por Perrault e pelos Irmãos Grimm, poderíamos afirmar, a princípio, que eles divergem entre si. Enquanto no conto de Perrault e dos irmãos Grimm a protagonista é devorada, sendo que no último ela é salva pelo caçador, no de Carter, a Chapeuzinho dorme entre as garras do lobo afetuoso. Pode-se interpretar o ato de devorar sob inúmeras formas, como por exemplo, uma relação sexual ou uma apropriação do Outro em ato canibalístico. Outras interpretações poderiam ser arroladas nessa análise, mas a nós interessa apenas como Carter explicita algo que nos contos de fadas tradicionais são parcialmente ou totalmente camuflados. Na versão de Perrault, alguns indícios nos levam a acreditar que o ato de devorar a Chapeuzinho Vermelho é, na verdade, a consumação do ato sexual. No conto francês, se não bastasse o fato de Chapeuzinho se despir para depois deitar na cama com o lobo, Perrault faz questão de inserir à moralidade a associação do lobo mau com um homem. Em contrapartida, no conto dos irmãos Grimm, a consumação do ato sexual não é tão evidente quanto na versão francesa. No conto alemão, percebemos que o ato de devorar a Chapeuzinho é, na verdade, um castigo pelo fato da menina desobedecer a sua mãe quando saiu do caminho. Nesse caso, a 4 A noite de Walpurgis (de 30 de Maio para 1 de Abril) é uma festa europeia, sobretudo de tradição germânica, que foi acusada pela Igreja de ser dedicada à magia e ao culto do diabo, mas que era, na realidade, uma festa de alegria dramática. Walpurgis é um nome de inspiração pagã, que provém de Wal (que significa pilha de mortos ou campo de batalha) e bergs (proteger), ou, segundo uma outra interpretação etimológica, de Purag (castelo ou cidade fortificada, que é defendida na batalha, ou, segundo outros, castelo dos mortos). Remete, portanto, para os derradeiros soldados que enfrentam as forças disformes que ameaçam a cidade, a ordem, a forma. In: Acesso dia 7 de novembro de 2009.

13 simbologia de consumação sexual é atenuada. Devemos ressaltar ainda que o conto dos irmãos Grimm, ao apresentar um final feliz, dá a oportunidade para Chapeuzinho aprender a lição e se vingar do lobo. Ao comparar as duas versões o psicanalista Bruno Bettelheim afirma que Enquanto no relato de Perrault a ênfase recai sobre a sedução sexual, na estória dos Irmãos Grimm dá-se o oposto. Nela, não se menciona nem direta nem indiretamente nenhuma sexualidade: isso pode estar sutilmente implícito, mas, essencialmente, o ouvinte tem de completar a idéia, para compreender a estória. (BETTELHEIM, 1990, p. 189) Segundo Marina Warner (1999), o encantamento dos contos de fadas oculta interesses, crenças e desejos sob imagens brilhantes e sedutoras, que são em si uma forma de camuflagem, e permite ousar dizer o que se deve calar. Em a Companhia dos Lobos, a subversão de Carter não está no fato de haver a realização do ato sexual entre o lobo e a Chapeuzinho, pois, como vimos, a relação está presente, mesmo que de forma camuflada, nos contos de fadas tradicionais. A transgressão do enredo de Carter está no fato de ser explicitado algo que nos contos tradicionais existe apenas de forma alusiva. Enquanto no conto de Perrault e dos irmãos Grimm o jogo de sedução entre Chapeuzinho e lobo é parcialmente ou totalmente omitido, no conto de Carter a sedução além de ser evidente é fundamental para o desfecho. Além disso, a transgressão do enredo de Angela Carter consiste na atitude da protagonista, em seduzir e persuadir o lobo com a sua beleza, invertendo, assim, a função lobo mau-predador e Chapeuzinho Vermelho-presa. No conto de Carter, a protagonista não exerce a função da heroína perseguida, uma vez que ela não é mais a presa. Outra característica que na análise se torna evidente é a de que o ato de devorar, em A Companhia dos Lobos, não é visto como um castigo à heroína, diferentemente dos contos tradicionais. Por fim, uma característica divergente entre os contos aqui analisados, e que talvez seja a mais notória, é a mudança do título de Chapeuzinho Vermelho para A Companhia dos Lobos. Na versão francesa, se compararmos este conto com os outros contos de fadas cujos títulos são os nomes que as protagonistas são chamadas como A bela adormecida no bosque ou Cinderela ou o sapato de vidro que se encontram no livro de Perrault, percebemos que essas histórias têm finais felizes em que as heroínas terminam casadas, diferentemente do que acontece com Chapeuzinho, que acaba devorada pelo lobo. Ou seja, não há um príncipe encantado que irá salvá-la e despozá-la como há nos outros contos. Na versão alemã, embora a protagonista seja salva pelo lenhador, o desfecho de Chapeuzinho não é igual ao de

14 Cinderela ou a A Bela Adormecida. O lenhador que ao se deparar com o lobo na casa da vovózinha, pensou que ele poderia ter devorado a velha. Surpreso ficou, quando abriu a barriga do lobo e saiu de lá não só a avó, mas também a menina. Chapeuzinho, mesmo após se vingar do lobo, não tem um final semelhante ao das outras protagonista dos contos de fadas, pois ela termina sozinha. No conto de Carter, é como se a escritora não quisesse dar o mesmo fim solitário para sua protagonista, pois em seu conto, a protagonista não só termina na cama da avó, onde dorme em paz nas guarras do lobo afetuoso, mas também na companhia dos selvagens e ferozes lobos. Conclusão Através deste artigo, traçamos um paralelo entre a apropriação da ficção dos pobres pela burguesia para o seu entretenimento a partir do século XVII e a apropriação de Carter dos contos de fadas tradicionais no século XX, para atualizar a posição ideológica sobre as figuras femininas. Portanto, o que une todas essas protagonistas de xales vermelhos é que esses contos nos mostram como a mulher era vista nos séculos passados e como sua posição dentro da sociedade mudou no decorrer dos séculos. Diante dessas mudanças, Carter necessitava atualizar as velhas tradições dos contos de fadas. Como demonstramos, ao se apropriar dos contos de fadas, Angela Carter não só ressignificou o modo de olhar as personagens femininas, como também re-elaborou várias características do gênero contos de fadas. Além disso, a escritora britânica não tem pudores em evidenciar a sensualidade que paira entre Chapeuzinho e lobo, que nos contos de fadas tradicionais era subentendida. A ousadia é uma característica não só dos contos de fadas de Angela Carter, como também de todas as suas obras, o que impulsionou o enorme sucesso de uma das escritoras britânicas mais consagradas do século XX. Referência Bibliográfica BACCHILEGA, C. An Introduction the Innocent Persecuted Heroines Fairy Tales. In: Perspectives on the Innocent Persecuted in Fairy Tale. Published by: Western Folklore, Vol. 52, Nº1, 1993, p

15 BETTELHEIM, B. A Psicanálise dos Contos de Fadas. Trad. Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, Acesso em: Psicanalise-Dos-Contos-de-Fadas, ao dia 15 de fevereiro de CALVINO, I. Seis Propostas Para o Próximo Milênio: lições americanas. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, CARTER, A. O Quarto do Barba Azul. Trad. Carlos Nougué. Prefácio de Vivian Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, Contos de Fadas. Trad. Luciano Vieira Machado. São Paulo: Companhia das Letras, GRIMM, Jacob. Contos dos Irmãos Grimm. Selecionado e prefaciado por Clarissa Pinkola Estes. Trad. Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, MENDES, M. Em Busca dos Contos Perdidos: o significado das funções femininas nos contos de Perrault. São Paulo: Editora UNESP, PERRAULT, C. Histórias ou Contos de Outrora. Trad. Renata Cordeiro. São Paulo: Landy Editora, PROPP, V. As Transformações dos Contos Fantásticos. In: Teoria da Literatura: formalistas russos. Trad. Ana Mariza Ribeiro Filipouski et alli. Porto Alegre: Editora Globo, WARNER, M. Da Fera à Loira:sobre contos de fadas e seus narradores. Trad. Thelma M. Nóbrega. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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