Assumir estas tarefas no contexto atual é, sem dúvida, um ato de coragem e de determinação.

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1 Discurso do Ministro da Saúde na tomada de posse do Bastonário e Órgãos Nacionais da Ordem dos Farmacêuticos 11 de janeiro de 2013, Palacete Hotel Tivoli, Lisboa É com satisfação que, na pessoa do Sr. Bastonário Prof. Doutor Carlos Maurício Barbosa, cumprimento e felicito todos aqueles que hoje assumem relevantes funções na Ordem dos Farmacêuticos. Formulo também votos de êxito, institucionais e pessoais, a todos os que agora iniciam o seu mandato legitimado pelo sufrágio de Dezembro, com a firme expectativa de que contribuam ativamente para consolidar e prestigiar as relevantes atribuições de interesse público que na Ordem dos Farmacêuticos estão delegadas. A disponibilidade e a motivação para o exercício destas funções convocam um particular sentido de missão de cada um dos empossados. Valorizo assim a disponibilidade e motivação de todos quantos, além das suas responsabilidades profissionais quotidianas, se voluntariam em prol do interesse público. Assumir estas tarefas no contexto atual é, sem dúvida, um ato de coragem e de determinação. Num momento de mudança que carrega naturais incertezas, e de dificuldades que fomentam inseguranças, é muito importante existirem na nossa sociedade demonstrações de compromisso cívico e de participação democrática. Além da responsabilidade indeclinável de todos os responsáveis políticos, institucionais, económicos ou sociais, é importante que existam momentos de afirmação da cidadania em que os cidadãos e a sociedade civil assumem responsabilidades perante os outros e compatibilizam o interesse da comunidade com as suas próprias e legítimas aspirações. Necessitamos assim que face à crise económica e financeira exista também uma resposta cívica ativa e empenhada, prevenindo o minar da confiança dos portugueses no 1

2 funcionamento da sociedade democrática, das instituições representativas ou das diferentes expressões públicas da sociedade civil. É neste contexto que a missão das Ordens Profissionais, e em particular esta dos Farmacêuticos, coloca hoje desafios adicionais. Além do cumprimento das suas missões legais e estatutárias, às Ordens Profissionais é também solicitado um contributo público adicional: o de contribuir para a confiança dos cidadãos. A intervenção independente, crítica e responsável das associações públicas profissionais é um contributo imprescindível para enfrentar os delicados desafios que o país atravessa. A credibilidade e confiança face às Ordens Profissionais são valores que devem ser cultivados na sociedade portuguesa. Importa assim que, num quadro de algumas incertezas e inseguranças, os cidadãos portugueses possam rever nos profissionais e na sua auto-regulação um referencial de confiança que, mesmo perante adversidades, garantem aos cidadãos a prestação de serviços com elevada competência, diferenciação e qualidade. Este esteio de confiança é, naturalmente, da maior importância no âmbito dos cuidados de saúde. É neste contexto de reforço de credibilidade que, recentemente, se promoveu uma reforma do quadro legal aplicável às associações públicas profissionais no nosso País. Como quadro de referência para a organização das representações profissionais, o diploma publicado ontem dotará o funcionamento das Ordens Profissionais de um conjunto homogéneo de princípios regentes das suas atribuições e do seu funcionamento. Este quadro comum é importante para que os cidadãos possam ter uma legibilidade consistente do papel das associações públicas profissionais e das suas atribuições. A complexidade, relevância e sensibilidade social da regulação profissional exige que possamos ser capazes de oferecer à sociedade e aos cidadãos um enquadramento mais claro e consistente sobre estas associações públicas. 2

3 Destaco alguns princípios que me parecem basilares desta consistência que o novo enquadramento legal valoriza: Transparência as responsabilidades públicas delegadas pelo Estado nas Ordens Profissionais exigem um crescente dever de prestação de contas destas entidades junto da sociedade, reforçando a confiança e credibilidade da sua intervenção junto dos cidadãos; Independência a criticidade das profissões para o bem-estar e confiança sociais exigem um exercício pleno da autonomia técnico-científica e da liberdade profissional, o que é igualmente válido no interior de cada uma das próprias profissões e no relacionamento interpares; Modernização aproveitando o largo potencial de maior participação das Ordens Profissionais na modernização de procedimentos administrativos e na rentabilização de novas tecnologias, melhorando e facilitando o relacionamento com os cidadãos e com os profissionais; De forma particular, os desafios globais que enunciei colocam-se com especial incidência no âmbito da saúde e, naturalmente, à Ordem dos Farmacêuticos. O sistema de saúde, e em particular o Serviço Nacional de Saúde, apresentam relevantes desafios. A missão constitucional de garantia de acesso de todos os cidadãos a cuidados de saúde de forma universal e geral apresenta desafios de sustentabilidade em que às dificuldades atuais do país se somam os desafios históricos pré-existentes. Independentemente das restrições de financiamento público do presente, subsistem diversos elementos de preocupação em relação à sustentabilidade dos encargos públicos e privados com os cuidados de saúde. O crescimento desigual entre os encargos com saúde e as disponibilidades financeiras do país não surge com o atual contexto de contenção orçamental. Eram já conhecidos e estavam sinalizados os riscos para a sustentabilidade da prestação de cuidados. Esta realidade estava assim devidamente conhecida e identificada. 3

4 As recentes dificuldades de financiamento do Estado português vieram apenas enfatizar e acelerar a necessidade de encontrar fórmulas para preservar a sustentabilidade do sistema de saúde e a necessidade de revisitar a sustentabilidade dos encargos de forma determinada. De forma mais particular, gostaria de enfatizar a forma como o Ministério da Saúde encara este desafio. A salvaguarda de um Serviço Nacional de Saúde que garanta acesso e qualidade é um compromisso fundamental do atual Governo. Num momento em que se exigem especiais sacrifícios aos cidadãos, é fundamental assegurar que o SNS continue a sua missão referencial de coesão social. Garantir que aos cidadãos, e em particular aos doentes dada a sua condição de maior fragilidade, são disponibilizados cuidados de saúde com segurança e qualidade em função das suas necessidades em saúde constitui um dever fundamental da sociedade portuguesa. Sendo esta componente imutável, estamos empenhados em modificar a componente dos encargos com o SNS. Não desejando, nem querendo, reduzir o nível de cuidados prestados aos portugueses, teremos de encontrar os compromissos, as fórmulas e as estratégias que permitam assegurar a sua cobertura orçamental no conhecido contexto de assinaláveis limitações orçamentais e de impossibilidade de acumular endividamento público. Temos optado de forma determinada pela via que nos permite compatibilizar estes dois elementos fundamentais de garantirmos cuidados de saúde e sustentabilidade: a racionalização dos encargos. Temos de ser capazes de fazer mais e melhor com os recursos disponíveis. Um exemplo é o facto de os doentes manterem o acesso a medicamentos, inclusive com aumento do número de medicamentos consumidos, vendo reduzidos os seus encargos em paralelo com uma simultânea redução da comparticipação pública. Os desafios que se colocam são, contudo, mais vastos e merecem respostas aprofundadas. De forma específica, e no âmbito de atividades com forte contributo dos 4

5 farmacêuticos, temos de continuar a definir e implementar medidas estruturais. Quer ao nível dos medicamentos, em ambulatório e hospitalar, quer ao nível dos meios de diagnóstico e terapêutica, temos de continuar a desenvolver medidas estruturais que assegurem acesso, racionalidade, qualidade e serviço aos nossos cidadãos. Necessitamos de normalizar a utilização de protocolos clínicos e normas de orientação terapêutica que suportem uma utilização de medicamentos e MCDT de acordo com critérios de qualidade terapêutica e custo-benefício, nomeadamente através da construção de formulários nacionais do SNS. Necessitamos de consolidar os mecanismos de avaliação da inovação para que, de forma transparente, remuneremos adequadamente inovações que acrescentem valor à saúde. Temos de consolidar a implementação da prescrição e dispensa de medicamentos por Denominação Comum Internacional, cuja alteração estrutural na forma como se prescrevem e dispensam medicamentos no nosso país necessita do envolvimento ativo de todos os profissionais de saúde, nomeadamente na disponibilização de mais informação aos utentes. Queremos contar assim com médicos e farmacêuticos num processo partilhado com o utente de cogestão dos encargos com medicamentos. Queremos contar assim com a Ordem dos Farmacêuticos, e com os farmacêuticos portugueses, numa agenda estrutural que reforce o SNS e garanta confiança a todos os cidadãos em todas as atividades farmacêuticas. A perícia farmacêutica é uma aliada indispensável para uma gestão mais rigorosa e racional dos recursos em saúde. Precisamos e queremos contar com os farmacêuticos assumindo que, como profissionais de saúde, concretizam o seu primado deontológico focado no superior interesse do doente. Aos farmacêuticos portugueses, através da sua Ordem, lanço o desafio de ainda maior intervenção cívica, profissional e científica que transmita aos cidadãos a plenitude de confiança nas suas intervenções profissionais norteadas pela evidência científica, pela autonomia profissional e pelo elevado escrúpulo ético. 5

6 Sr. Bastonário, Sras. Farmacêuticas e Srs. Farmacêuticos Os cidadãos, e em particular os doentes, reconhecem e valorizam a intervenção dos farmacêuticos na nossa sociedade. O Ministério da Saúde conta com a profissão farmacêutica e com a Ordem dos Farmacêuticos como parceira relevante na definição das políticas de saúde. O Ministro da Saúde reitera os votos de sucesso para todos quantos assumem a sua responsabilidade cívica no mandato que hoje iniciam. Obrigado pela atenção. 6

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