NOIVA DE ALUGUEL KISSES TO GO. Irene Peterson

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2 NOIVA DE ALUGUEL KISSES TO GO Irene Peterson Ele jamais perdia seu coração... O conde Ian Wincott tem coisas mais importantes a fazer do que perder tempo com namoricos. O que ele precisa, é arranjar, e com uma certa urgência, uma mulher livre e descompromissada que tope se passar por sua noiva por alguns dias e que o ajude a receber um importante empresário americano em sua mansão. Assim ele poderá concretizar um importante negócio. E Abby Porter parece ser a pessoa ideal... afinal ela é bonita, divertida... Embora tenha de admitir que Abby atrai muita atenção. E isso faz seu sangue azul esquentar... Coisa que, obviamente, ela adora! Ian é que não gosta nem um pouco. Será possível que ele esteja com ciúmes? Ou... apaixonado?!... DIGITALIZAÇÃO: SILVIA REVISÃO: ANA PAULA SOBRE A AUTORA Irene Peterson sempre acalentou o sonho de se tornar escritora, e se considera afortunada por ter conseguido publicar seus livros. Seu romance Paixão ou Vingança, publicado no Brasil pela Editora Nova Cultural na edição Sabrina 1544, foi vencedor do prêmio Golden Leaf ("Folha de Ouro").

3 Depois de flagrar seu namorado com outra mulher, Abby decide viajar para a Inglaterra e faz uma reserva para duas semanas de hospedagem na casa de um conde. Tudo corre bem, até ela ficar conhecendo o dono da casa e se envolver com ele numa tremenda de uma confusão... TRADUÇÃO Gabriela Machado Copyright 2007 by Irene Peterson Originalmente publicado em 2007 pela Kensington Publishing Corp. PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP. NY, NY - USA Todos os direitos reservados. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. Proibida a reprodução, total ou parcial, desta publicação, seja qual for o meio, eletrônico ou mecânico, sem a permissão expressa da Editora Nova Cultural Ltda. TÍTULO ORIGINAL: KISSES TO GO EDITORA: Leonice Pomponio ASSISTENTES EDITORIAIS: Patricia Chaves Paula Rotta EDIÇÃOTEXTO: Tradução: Gabriela Machado Revisão: Giacomo Leone ARTE: Monica Maldonado ILUSTRAÇÃO: IMAGE SOURCE KEYDISC MARKETINGCOMERCIAL: Andrea Riccelli PRODUÇÃO GRÁFICA: Sonia Sassi PAGINAÇÃO: Estúdio Editores.com 2008 Editora Nova Cultural Ltda. Rua Paes Leme, º andar CEP São Paulo - SP Premedia, impressão e acabamento: RR Donnelley

4 Capítulo I Dê-me um empurrão, Lutrelle. Tenho de ver por mim mesma. A drag queen de um metro e oitenta e cinco meneou a cabeça. Ah-ah, garota. Acredite você não vai querer ver o que está acontecendo lá. Abby Porter levou as mãos aos quadris, tremendo inteira. Por favor, Lutrelle ela implorou. Eu... eu lhe dou minha bolsa de miçangas se você me ajudar. Com as mãos capazes de empalmar uma bola de basquete, Lutrelle segurou Abby pela cintura e ergueu-a até que alcançasse o painel de vidro reforçado sobre a porta de metal do loft. Quando Abby encostou o nariz ao vidro, seus olhos quase saltaram das órbitas; ela parou de respirar. Lance estava lá dentro, de pé em frente à bancada de trabalho de aço inoxidável, completamente nu, de costas para a porta trancada. Suas nádegas tremiam, gingando para frente e para trás. E as solas de dois pés pequenos, definitivamente pés femininos, sacudiam-se sobre seus ombros. Viu o suficiente, baby? Lutrelle perguntou, num tom suave de contralto. Abby fez que sim com a cabeça, incapaz de pronunciar uma palavra. O amigo colocou-a no chão, e Abby perdeu o equilíbrio, os joelhos cedendo. Lutrelle sustentou-a. Abby respirou fundo, sentindo algo destroçar-se em seu peito. E, num impulso, atirou-se contra a porta de aço, aos chutes e socos, berrando palavrões que fariam um morto enrubescer. Vou picá-lo! Cortá-lo em pedacinhos! Ah, quando eu o pegar! Vou... vou... pregar suas bolas na mesa! Seu cachorro! Seu pulha vagabundo! Calma, garota. Ele não vale nada e agora você sabe por quê. O travesti passou o braço pelos ombros da amiga e levou-a até seu apartamento. Sinto muito, senhorita, mas é tarde demais para receber o dinheiro de volta pela segunda passagem a mulher do balcão de check in disse a Abby. O avião está na pista. Abby encarou-a, incrédula. Não tinha dinheiro nenhum. Seu talão de cheque e o cartão de poupança estavam no loft, por trás daquela porta trancada. Oooh! Lance e sua queridinha poderiam estar transando em cima de suas economias de uma vida inteira naquele exato momento. As únicas notas em sua bolsa eram as que tinham sobrado da breve passagem pelo shopping quando estava a caminho de casa quando fora pegar o passaporte no centro da cidade. Talvez seu cartão do banco também estivesse ali. Talvez. Como era idiota!

5 Deveria ter contado a Lance sobre a viagem surpresa à Inglaterra. Mas com o novo emprego e a mostra de Lance, ela estava ocupada, ele estava ocupado. Na verdade, não ficavam realmente Juntos fazia meses. Como pudera ser tão estúpida? Estúpida, estúpida, estúpida! Deveria ter chamado a polícia e mandado arrombar a porta do apartamento. Lance não tinha o direito de trancá-la para fora! Por outro lado, o apartamento estava no nome dele, certo? Ele que pagasse o aluguel. E comprasse a própria comida. Contudo, isso a deixava sem alternativa no momento. Não telefonaria aos pais, pedindo ajuda depois de todos os avisos acerca de Lance. Não tinha amigos com quem contar também. Exceto Lutrelle. O "grande ponto de mutação" chegara. Os Porter haviam sobrevivido a coisas muito piores. Ela não deixaria aquele imbecil impedi-la de partir e aproveitar a Inglaterra. De jeito nenhum. E assim, lá estava ela no aeroporto, com pouco dinheiro, um passaporte e uma enorme sacola plástica com seus pertences. As coisas poderiam piorar? A atendente disse: Claro, podemos transferir seu bilhete para a primeira classe. Primeira classe? Temos um assento vago na primeira classe. Fico com ele. Minutos depois, Abby subia a bordo do enorme jato. Todos os assentos estavam ocupados, ela percebeu, a não ser um logo na frente. A comissária inclinou-se para conversar com o homem sentado ao lado da janela. Era evidente que ele não gostara da idéia de ter de tirar seus papéis do assento ao lado. Levantou-se e enfiou a papelada toda no bagageiro. Só então deu uma olhada na direção de Abby. De cabeça erguida, costas eretas, ela se aproximou de olhos fixos no terno perfeito, sem fitá-lo nenhuma vez. Seus papéis podem ser importantes, mas isto ela tocou o traseiro é tão importante quanto e, além do mais, tem um bilhete. Assim dizendo, tirou o casaco de couro e colocou-o junto com a sacola de plástico no bagageiro. Em seguida, acomodou-se na poltrona confortável e macia da primeira classe. Sentiu o calor da ira do passageiro ao lado irradiar-se. Um raio de percepção a fulminou. Ô, raça! Não seria mais usada e abusada, com homens roubando seu dinheiro e seu orgulho. Talvez agora soubesse reconhecer um aproveitador. Talvez agora fosse capaz de mandar qualquer metido para o inferno se ele tentasse, apenas tentasse, tirar vantagem dela. Lição aprendida. Finalmente. Ian sabia que algo estava errado no momento em que viu a comissária de bordo parar a seu lado. Maldição! Ele sabia, sabia que a mulher iria pedir para que tirasse seus papéis da poltrona. Desculpe-me, mas receio que este assento não esteja mais vago, senhor Eu sempre peço um lugar vago.

6 Esta é uma alteração de última hora, senhor. Sinto muito, mas o passageiro está esperando... Já voei por esta companhia dezenas de vezes, senhorita, e sempre tenho o assento extra. O passageiro tem um bilhete. Tenho certeza de que o senhor compreende que precisamos destinar a ele uma poltrona disponível; a qual, neste caso, acontece de ser a que está ao seu lado. Ian teve vontade de socar a mulher. Lançou um olhar cortante para o passageiro que esperava o lugar. Uma mulher. Claro. E, pela roupa, americana... Levantou-se, recolheu seus papéis, deixando o assento vago. Enfiou as planilhas no bagageiro, junto com a pasta, apertou os lábios numa linha firme, e retomou ao seu lugar. A mulher, depois de fazer um comentário rude a respeito de seu traseiro ter um bilhete, sentou-se com a delicadeza de um elefante. Americana típica! O perfume da passageira intrometeu-se em suas narinas. Um aroma suave, ligeiramente floral, porém limpo e sem exagero. Pelo menos não teria de suportar um odor sufocante durante o vôo! O avião estava prestes a decolar, e Ian recostou-se, sentindo o impulso dos motores poderosos. A mulher ao lado deixou escapar um gemido de dor, ele pensou. Ou de medo. Que chateação! Um rápido olhar, mostrou que ela segurava com tanta força os braços da cadeira que os nós dos dedos estavam brancos. Olhou-a outra vez. Cabelos loiros com um toque avermelhado, pele clara. Vira os olhos por um breve instante. Eram de uma nuance incomum de azul, talvez verde. Formas elegantes, contudo. De jeans justos e um suéter azul. Nada mau. Uma imagem da desconhecida nua em sua cama coruscou como um raio por sua mente. Será que fazia tanto tempo que não tinha uma mulher que cogitava em levar para a cama aquela criatura patética? Preciso de ajuda, resmungou no íntimo, ao se acomodar para o longo e enfadonho percurso aéreo. Um fungada veio do assento ao lado. Pelo canto do olho, Ian viu a primeira lágrima deslizar pela face pálida da passageira. Oh, Senhor! Ela está chorando! Sentiu que virava um mingau por dentro. Que diabos ele deveria fazer? Chorando! Uma mulher se derramando em lágrimas sentada perto dele por umas sete horas! Tarde demais, percebeu-se sugado para dentro daquele miasma emocional. Fez o que qualquer cavalheiro inglês faria. Tirou um lenço imaculado do bolso e colocou-o na mão da americana. Seis horas e meia de vôo. Seis horas e meia de absoluto inferno.

7 Abby passou pela inevitável imigração e pela alfândega. Ela não tinha nada a declarar, a não ser a sacola de plástico, aquele vestidinho preto, as sandálias elegantes e a lingerie que comprara no shopping. O atendente a encarou com ar de tédio. Qual é seu destino? Alguém deve me encontrar aqui para me levar a Glastonbury. Ficarei lá por duas semanas. Muito bem, senhorita. Pode passar. Abby endireitou os ombros e dirigiu-se à saída. Os outros passageiros lutavam para pegar suas malas na esteira giratória, e um homem alto, de bela aparência, carregando uma pequena valise e vários rolos de papel chamou sua atenção. Era o camarada do avião. Com um sobressalto, ela enfiou a mão no bolso do jeans e tirou o lenço que ele lhe emprestara. Espere! chamou. Senhor, estou com seu... Cabeças voltaram-se em sua direção. No mesmo instante, recordou-se das cinco regras básicas que lera num dos guias de viagem sobre o que não se deveria fazer na Inglaterra: Não erguer a voz: Rir alto; Chamar; Xingar. Não se vangloriar os Estados Unidos não são o único país do mundo que tem grandes coisas. Não fazer perguntas pessoais. Não falar sobre assuntos íntimos: Operações ou doenças; Sexo; Problemas familiares específicos; Dinheiro. Não dizer "desculpe" ou "perdão". Isso é reservado para arrotar ou soltar traques e ninguém realmente quer ouvir desculpas diante de tal grosseria. Abby sonhava em viajar para a Inglaterra desde adolescente. Era um lugar de cultura e refinamento. As pessoas eram classudas. Precisava comportar-se adequadamente. Seu companheiro de assento já sumira pela porta em que se lia "estacionamento". Ela apertou o lenço na mão. E notou um pequeno emblema, com um dragão vermelho ou um cão horroroso no centro. Havia algumas palavras, pequenas demais para se ler. Com um suspiro, enfiou o lenço no bolso do casaco. Umas poucas pessoas carregando cartazes com nomes andavam de um lado para o outro do saguão. Uma delas tinha na mão uma pequena placa com o nome "Porter" escrito. Um imenso alívio a invadiu. Sou eu disse ela, assim que chegou perto do homem. Senhorita Abigail Porter, de Nutley, New Jersey? Ela concordou.

8 Julguei que haveria um cavalheiro acompanhando a senhorita o senhor distinto disse. Abby recordou-se da "lista" e meneou a cabeça. É uma longa história. Realmente, uma longa história. Por aqui, senhorita ele disse, imperturbável. Olhou ao redor, procurando a bagagem. Abby deu de ombros. Isso é parte da história. Andar num Bentley com chofer tinha de ser o modo mais luxuoso de se viajar, Abby disse a si mesma. Ela, porém, sucumbira ao sono logo depois que o carro deixara o aeroporto. E acordara ao senti-lo parar. Uma leve batida á janela a assustou. A mais linda jovem de cara lavada que já vira lhe sorriu. E, de repente, ela sentiu-se amarrotada e exausta. Olá disse a jovem quando abriu a porta do carro. Bem-vinda a Bowness Hall. Sou Letícia Wincott. E você deve ser Abigail Porter. Abby correspondeu ao sorriso e ia descer quando o enorme focinho de um cachorro apontou dentro do carro. Uma farejada rápida, uma sacudida de rabo, um beijo molhado, e o cachorro recuou, deixando-a sair do Bentley. Deixe a moça em paz, Tugger! Letícia puxou o cão de caça para trás. Sou Abigail Porter mesmo. O bom é que adoro cães. Sinto muito. Ele é inofensivo. Então, seremos bons amigos. Abby riu. Passou a mão pelo rosto, e depois alisou as calças, tentando parecer tão despreocupada quanto Letícia. A garota fez um ar de indagação. Pensei que traria um amigo. É uma longa história ela murmurou. Não iria lavar a roupa suja diante nos pilares magníficos do palácio à sua frente. Puxa. Isto é... impressionante. Atrás de si, ouviu uma tossidela. Esta é a sra. Duxbury, srta. Porter. É a governanta de Bowness Hall disse a mocinha. Que bom que pôde vir para ficar conosco disse a dama magra, grisalha, frágil e elegante num impecável vestido preto e avental branco. Obrigada, sra. Duxbury. Estou encantada por estar aqui. John, o chofer, sugeriu que ela poderia querer ver o quarto e se refrescar depois do longo vôo. E, ao entrar pelas imponentes portas da frente, ela estacou, deslumbrada. No teto, anjos e deusas brincavam em cores pastéis de arco a arco, e figuras masculinas em antigas armaduras douradas desfilavam em carruagens. O foyer, maior que a casa inteira dos Porter em New Jersey, tinha peças elegantes de mobília, algumas jardineiras imensas e várias pinturas a óleo em grossas molduras douradas. O chão, de mármore branco com veios de um rosado suave, contrastava de um modo soberbo com o intenso azul da cerâmica Wedgwood das paredes.

9 Tudo cheirava a riqueza para Abby. Riqueza, elegância e... antigüidade. E, pela primeira vez na vida, ela ficou muda. Gosta? sua anfitriã indagou. Incrível. Que modo glorioso de se entrar numa casa. Ficarei feliz em mostrar tudo a você mais tarde. Os olhos azuis de Letícia faiscaram. Posso ajudá-la a desarrumar as malas também emendou. Então, como se lembrasse que Abby não tinha "malas", ela bateu os cílios e abaixou a cabeça. Seguiram pelo corredor, deixando o chofer e a governanta na imensa entrada. Oh, céus murmurou a sra. Duxbury. E o rapaz? John Duxbury meneou a cabeça lentamente. Não sei, Duckie. Ela estava sozinha no aeroporto e, quando perguntei, me disse que era uma longa história. Aposto que o sujeito a deixou no altar ou algo assim. Ela vai querer o dinheiro de volta. Quem sabe a srta. Tish dá um jeito nisso. Isso não é nada bom, é, John? Duckie apertou os lábios. Não se preocupe. Vamos resolver de alguma forma. Abby e sua anfitriã passaram por porta após porta ao seguirem pelo corredor atapetado. Pararam diante de uma delas. Letícia abriu a de um quarto amplo e arejado. Fazendo um gesto para que Abby entrasse, ela dirigiu-se à janela mais próxima e puxou as cortinas. Abby inspecionou o aposento. A cama alta tomava uma parede inteira. Cortinas corriam pelo dossel, recolhidas por um cordão, deixando à mostra a colcha de um rosa provençal com um lindo fundo em vinho. Um suave tom rosado emprestava calor às paredes, destacando a cor das cortinas e da colcha. A madeira era escura e antiga. Abby correu a mão pelo criado-mudo, apreciando a textura do móvel. Este é o Quarto Rosa, srta. Porter. Tem um aposento anexo, com banheiro e chuveiro também, com tudo de que precisar. É realmente adorável, srta. Wincott. Obrigada. Abby sentou-se na cama. Era muito mais alta que qualquer uma em que já dormira. Chutou fora os sapatos. Pode me chamar de Abby, por favor Não estou acostumada a ser chamada de "srta. Porter" e é provável que não responda sem precisar pensar. Oh, Abby, pode me chamar de Tish, se não se importa. Não gosto nada de meu nome e só o uso quando preciso. Vou deixá-la à vontade. Posso voltar em, digamos, uma hora, e levá-la para aquele tour. Os olhos de Letícia faiscaram de ansiedade. Abby queria um banho. Não tenho relógio desculpou-se. Mas quando você voltar, estarei pronta. Quando Tish saiu do quarto, ela julgou ter ouvido um gritinho de triunfo, e depois o eco de passos correndo pelo corredor. Bela garota disse, e rumou para o banheiro.

10 Abby acordou com a batida à porta, desorientada com o ambiente estranho. Srta. Porter? Abby? Humm, pode entrar disse, ao sentar-se, meio tonta. A porta não está trancada. Tish apontou a cabeça pela fresta. Olá disse, os olhos brilhando de alegria. Vim para levá-la àquele passeio. Apaguei Abby desculpou-se. Tomei uma ducha e fui ver se a cama era macia e confortável como parecia e... Bum! A próxima coisa que sei é de você batendo à porta. Jet lag. Li numa revista que um cochilo resolve, compensa o fuso horário. Não sei se é verdade. Esta é minha primeira viagem ao exterior Abby confessou. É mesmo? Pensei que... estava acostumada a viajar com pouca bagagem... pronta para ir a qualquer parte... Bem, não sou uma viajante experiente para a Europa, mas conheço todos os Estados Unidos. Quando era criança, meus pais nos levavam a visitar os Estados, nas férias de verão. Ah, que maravilha! Eu gostaria... Tish calou-se antes de completar o pensamento. Abby levantou-se da cama, ajeitou o suéter e correu os dedos pelos cabelos. E aquele tour que você prometeu? Bowness Hall tinha noventa e três quartos. Tish conduziu Abby por dezenas de portas de carvalho em arco, e, ocasionalmente, abriu uma para mostrar o ambiente. Parava de vez em quando para apontar um objeto em particular ou alguma pintura. Esta é a galeria de retratos. Antigamente, os músicos tocavam para os convidados daqui. Aqui estão os retratos de todos os condes de Bowness. Do outro lado, a parede se erguia apenas a um metro e vinte do chão. Abby aproximou-se e espiou pela beirada. Lá embaixo, estendia-se o saguão principal da mansão. Enfeitado com estandartes e pendões, e antigas tapeçarias, tinha uma longa mesa rústica flanqueada por grandes cadeiras maciças. Abby soltou um assobio de admiração. Vinte... não, vinte duas de cada lado! Diante de cada cadeira havia um serviço de porcelana que reluzia ao sol da tarde. Abby imaginou um menu adequado ao local, daqueles de cinema. Mas logo voltou à realidade. Você é chefe de cozinha nos Estados Unidos, não é? Estava imaginando cavalheiros reunidos em tomo da mesa? Tish soltou uma risadinha marota. Abby enrubesceu. Só sonhando com o cardápio para a refeição, junto com o vinho que acompanharia confessou.

11 Temos duas cozinhas em Bowness Hall. Uma é imensa, separada da casa principal originalmente e depois anexada conforme a construção foi modernizada no século dezenove. Claro, recebeu novos equipamentos. Quer ver? Abby hesitou, lembrando da "lista" e não querendo ser intrometida. Tish, porém, continuou o tour pelo longo corredor, apontando os vários condes e citando nomes. Todos os quadros mostravam feições semelhantes. Algumas de face raspada, outras de barbas e bigodes, de acordo com o estilo da época. Babados nos pescoços, roupas de cores sóbrias ao vibrante vermelho. Quando chegaram ao fim da galeria, Abby parou diante de uma pintura de origem mais recente, de um jovem. Tinha longos cabelos escuros, usava a camisa aberta no colarinho e calças jeans. Uma das mãos repousava no focinho de um cavalo baio. Quem é? indagou curiosa. Ian. O conde atual. É bem jovem, não? E bonito. Tish pareceu pesar as palavras. Ele é um pouco mais velho. Esse retrato foi feito há vários anos. Provavelmente se tomara um homem de deixar qualquer moça babando, Abby pensou. Talvez fosse por isso que sua guia parecia estranha. Tem uma queda por ele, Tish? A garota deixou escapar uma risada cristalina. Acho que gosto dele. Afinal, ele é meu irmão. A surpresa quase provocou em Abby uma desagradável paranóia. Ela estava conversando com a irmã do conde de Bowness, ou, mais apropriadamente, com lady Letícia. Como deveria se comportar diante disso? Oh, não me olhe desse jeito, Abby. Já vi esse olhar antes. Sou apenas uma pessoa comum. Não ligamos muito para títulos por aqui. Não é grande coisa. Como assim? Fui filha e irmã de um conde durante toda a minha vida. Acredite, não quer dizer muito. Talvez para Ian faça diferença, mas ninguém por aqui me trata como alguém especial. E não gosto. O que quer dizer, não gosta? Deveria se orgulhar disso. É bobagem, eu acho. Talvez quando eu ficar mais velha eu escreva um livro sobre como é ser a filha de um conde e depois irmã de um. Mas agora, não significa coisa nenhuma. Tish virou-se, e seguiram por outro corredor interminável. Subiram e desceram vários lances de escadas e, agora, estavam num local escuro. Quando Tish acendeu as luzes, contudo, Abby sentiu que não estavam mais sozinhas. Armaduras! Ela riu, inquieta, quando a luz se refletiu no metal. Foram usadas em uma ocasião ou outra pelos Wincott explicou Tish. Esta aqui data do tempo de Henrique VIII.

12 A armadura exibia um elmo emplumado, cujo visor, uma mera fenda, tinha uma aparência sinistra. Mas não prendeu a atenção de Abby tanto quanto a de couro e bronze num manequim. Aquilo era dez vezes melhor que um museu. Abby não resistiu e tocou o bronze antigo da couraça de peito. Um zunido soou em sua cabeça, e ela sentiu-se compelida a pousar a palma nos pequenos elos quadrados. Ao contato, sua mente encheu-se de imagens de sangue e selvageria. Como se levasse um choque, tirou a mão depressa. Olhou para a guia, encabulada. Qual é a idade deste castelo? Faz quinze séculos que este é o lar dos Bowness. Agora venha por aqui chef Abigail. Vamos ver as cozinhas disse Tish já saindo pela porta. Um som agudo de sirene arrancou Abby do sono. E ela ergueu-se nos cotovelos e olhou para o relógio do criado-mudo. Oito da manhã. O que era aquele barulho horrível? Em passos arrastados, seguiu para o banheiro e, depois de lavar o rosto com água fria, olhou-se no espelho. O que viu foi uma figura pálida, com marcas de lençol pela face, cabelos arrumados como um batedor de ovos. O ruído estridente parou. Rapidamente usou o banheiro e foi se vestir. E já que sua opção de roupas era limitada, enfiou-se, com relutância, nas calças jeans. Seguiu pelos corredores e, por fim, congratulou-se ao chegar ao que chamavam de cozinha. A porta estava aberta. Ao ouvir o que parecia a voz de Tish, Abby foi até a soleira da porta. A chuva tomava o cenário cinzento e pesado. No gramado,as portas abertas de uma ambulância esperavam para receber a maca. Um arquejo escapou-lhe ao reconhecer a sra. Duxbury. Tish se apoiava ao braço de John, o chofer, as lágrimas escorrendo pelas faces. As mãos de John tremiam. John vai acompanhá-los, Duckie ela anunciou, enquanto o pessoal da ambulância colocava a maca no veículo. Não se preocupe com nada. Tudo ficará bem aqui. Quando as portas se fecharam, a ambulância saiu devagar do pátio. Tish ficou olhando a ambulância afastar-se e então, em passos lentos, como se o peso do mundo estivesse em seus ombros, seguiu para a porta onde sua hóspede se postara. Duckie caiu esta manhã. Tenho quase certeza de que quebrou o tornozelo, mas receio que o quadril possa estar deslocado. Oh, nossa! Espero que não seja tão ruim assim. Receio que seja pior... para nós. Sou uma péssima cozinheira. Abby não pensara nisso. Claro, não teriam uma cozinheira para as refeições. Mas isso não era realmente um problema. Se estiver com fome, faço uma boa omelete, e me arranjo bem numa cozinha. Não se importa? Só por enquanto?

13 Com um sorriso, ela enrolou as mangas do suéter e fez uma rápida inspeção pela cozinha, procurando o que precisava, abrindo gavetas e armários. Assumira o pedaço. Que coisa inusitada, pensou Abby. Lá estava ela, falida, numa terra estranha, andando de cabriolé com a irmã de um conde. Usava roupas emprestadas que, felizmente, eram quase do tamanho certo, cedidas a ela por uma verdadeira dama inglesa. As ruas enxameavam de gente. Era Sexta-Feira Santa, feriado. Era evidente que os ingleses não estavam na igreja batendo no peito, ou a cidadezinha de Glastonbury não fervilharia de tanta atividade. Algumas pessoas acenavam para Tish. Normalmente venho de carro, mas fui multada a semana passada e todos na cidade sabem disso. Preciso tomar cuidado antes que alguém conte a meu irmão. Espero que não se importe de andar de charrete. Claro que Abby não se importava. A cidade era antiga e os prédios provavelmente da Idade Média. As datas nos frontispícios eram de quando a América nem mesmo fora descoberta pelos espanhóis. As lojas, no entanto, ostentavam bandeiras nas cores do arco-íris. Sobre as portas pendiam signos de madeira com anúncios de cristais da Nova Era e espadas arturianas, enquanto figuras exóticas passeavam vestidas com costumes ao estilo do lendário Rei Arthur. Uma mulher saiu de uma lojinha e acenou. Loira, de olhos claros, enormes. Sem conhecer uma alma na Inglaterra, Abby virou-se para perguntar a Tish quem era, mas a garota estava ocupada estacionando o cabriolé. Quando virou-se outra vez, a mulher sumira. Por que não dá uma volta pelas lojas enquanto eu cuido de um assunto desagradável? Tish saltou do cabriolé e amarrou o pônei. Abby não hesitou; seguiu direto para uma das lojas. Entrou na loja. Os balcões exibiam pedras e cristais, livros e bijuterias. O cheiro pesado de incenso pairava no ar. Uma mulher saiu de trás de uma área fechada por cortinas. Bem-vinda, viajante. Abby sorriu. Olá. Posso dar uma olhada? Claro. Se encontrar algo que desperte sua fantasia, me avise. Como se ela pudesse gastar algum dinheiro. Mas olhar não custava, ora. Cartas de tarô, cristais pendentes, braceletes, bolas de mármore com dragões em torno. Parou diante dos pendentes de cristal. A mulher saiu de trás do balcão. Cada um tem um significado, você sabe. Tome. Sinta. Ponha em sua mão. Quando o cristal tocou a palma de sua mão, começou a vibrar. Pelo menos, foi o que ela achou que sentia. Esquisito. É lindo, mas não tenho dinheiro. Sua aura é muito forte, mas tenho certeza de que sabe disso. Você faria objeção a uma leitura? Grátis? Abby não sabia o que era uma "leitura", mas a curiosidade a espicaçou.

14 Por que não? Duas cadeiras e uma mesa desgastada de madeira ocupavam o espaço além da cortina. Para seu desapontamento, não havia uma bola de cristal, só um lenço vermelho em cima da mesa e um punhado de pedras. Não leio a palma da mão nem olho em bolas de cristal, minha cara. Abby sobressaltou-se. A mulher lia mentes? Em resposta, a estranha riu. Se eu lhe disser que às vezes posso ler mentes, você acreditaria? Acho que teria de acreditar. Por favor, sente-se e relaxe. Fica mais fácil fazer minha... leitura. Abby sentou-se, comprimindo os lábios para não rir. O que vai "ler"? Ao sentar-se na outra cadeira, a mulher esticou a mão e deslizou-a no ar, a uma curta distância do rosto e dos ombros de Abby. Sua aura. Ora, não se encolha. Tem muita energia, querida. Abby meneou a cabeça. Não sou forte. As pessoas sempre pisam em mim. Ah, mas as coisas mudaram. Você deu um grande passo. Você é talentosa, mas precisa saber disso. Tem uma alma antiga. E habilidades a desvendar Era ótimo saber disso. Quando chegasse em casa, enfrentaria um novo desafio. Estremeceu. O tom de voz da mulher abaixou-se. Você vai se apaixonar por um príncipe. Você é aquela que pode domar dragões. Que força! Você tem poder em suas mãos, em seu ser, apenas ainda não o reconhece. Mas vai descobri-lo. E o reconhecerá. Não tenho poder algum. E gostaria que a parte do príncipe aconteça logo. Continuo beijando sapos. Acredite. Seu coração lhe mostrará o caminho. Claro que seria ótimo ter um príncipe para adicionar à sua lista de fracassos íntimos, mesmo que terminasse como todos os outros. Contudo, nunca poderia domar um dragão, literal ou figurativamente. Obrigada. Espero estar á altura de suas previsões. A leitora de aura levantou-se e abriu a cortina para Abby. Tenha toda a confiança em você, querida. Siga seu coração. Apertou a mão de Abby com força. Só na calçada foi que Abby se deu conta de que a mulher enfiara o pendente de cristal em sua mão. Fitou o objeto por um instante. Por que a lojista fora tão gentil? Então, enfiou o cristal no bolso da jaqueta. Tish alcançou-a a poucos passos depois da loja e juntas seguiram até a abadia de Glastonbury. Ao ver-se diante das ruínas do convento que abrigara os monges no século doze, Abby de repente, sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Um leve zunido ressoou em seus ouvidos, substituído por um mais alto. Vertiginoso. Impressionante. Zonza, cambaleou até a grade.

15 Saia daqui! Saia daqui! Ela afastou-se e só quando passou além das ruínas de pedra, o zunido cessou. O que estava acontecendo? Tish alcançou-a e continuaram a andar em silêncio até chegarem a uma placa de ferro. Aqui jaz o Rei Arthur e sua Lady Guinevere Abby leu, em voz alta. Virou-se para a acompanhante. Ele não está realmente enterrado aqui, está? Assim dizem. Quase novecentos anos atrás, o abade de Glastonbury resolveu ampliar sua capela e, quando os monges faziam as fundações, descobriram uma pedra enorme. Escavaram ao redor e içaram a pedra. Embaixo, encontraram uma cruz de chumbo com o nome "Arthur" inscrito. E, sob ela, os restos mortais de um homem e uma mulher Como sabiam que era o verdadeiro Arthur, se é que ele existiu? A única coisa concreta era o nome Arthur na cruz, que foi levada a Londres, é claro, e depois desapareceu. Mas funcionou como publicidade. O abade conseguiu sua nova igreja, o objetivo da coisa toda. Ah, entendo. Não houve como provar se era o corpo de Arthur, e nem como negar também. Exato. E você acredita que seja o túmulo de Arthur e Guinevere? Se conheço História, nos tempos antigos esta região inteira costumava ficar inundada. A lenda diz que Arthur foi para a ilha de Avalon. O outeiro é o ponto mais alto aqui. Se a área inundava, o local seria como uma ilha, não seria? Humm... Não sei. Mudando de assunto, Abby indagou. Alguma vez você se sentiu estranha quando veio aqui, Tish? O que quer dizer? Como se estivesse zunindo. Ressoando por dentro. Elétrica. Não, nunca. E você? É só uma pergunta idiota de turista. Esqueça. Na manhã seguinte, quando Abby entrou na cozinha, amarrando o cinto do vestido na cintura, o aroma de especiarias a recebeu. Faminta, abriu a porta da geladeira, examinando o conteúdo. Ouviu passos se aproximando e, então, dois braços fortes a agarraram por trás e a puxaram. Uma voz profunda de homem soou a seus ouvidos, e uma cabeça se afundou em seu pescoço. Ah, Duckie, meu amor! Que milagres você está prestes a conjurar? Abby soltou um berro. Os braços a largaram no mesmo instante. E ela virou-se, apavorada. E se viu de frente com a face do... sujeito do avião. Você! ele exclamou. Você! Abby berrou.

Em algum lugar de mim

Em algum lugar de mim Em algum lugar de mim (Drama em ato único) Autor: Mailson Soares A - Eu vi um homem... C - Homem? Que homem? A - Um viajante... C - Ele te viu? A - Não, ia muito longe! B - Do que vocês estão falando?

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