O MERCOSUL E A REGULAÇÃO DO COMÉRCIO ELETRÔNICO: UMA BREVE INTRODUÇÃO



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Transcrição:

O MERCOSUL E A REGULAÇÃO DO COMÉRCIO ELETRÔNICO: UMA BREVE INTRODUÇÃO Ricardo Barretto Ferreira da Silva Camila Ramos Montagna Barretto Ferreira, Kujawski, Brancher e Gonçalves Sociedade de Advogados São Paulo, Brasil

O MERCOSUL E A REGULAÇÃO DO COMÉRCIO ELETRÔNICO: UMA BREVE INTRODUÇÃO* O Mercado Comum do Sul (Mercosul), instituído em 1991 como um dos mais importantes blocos regionais do movimento de integração entre os países da América Latina, compreende, entre seus membros, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai; Chile e Bolivia são países associados ao Mercosul, desde 1996 e 1997, respectivamente. Do ponto de vista legal, o principal instrumento jurídico do Mercosul é o Tratado de Assunção, firmado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai em 26 de março de 1991, cujo objetivo central é a constituição de um Mercado Comum (livre circulação de bens, serviços e fatores de produção). O início efetivo do bloco econômico se deu a partir de 1º de janeiro de 1995, com a União Aduaneira, através da instituição de uma zona de livre-comércio entre os 4 Estados-Partes. Como resultado da utilização dos instrumentos previstos no Tratado, atualmente cerca de 95% do comércio entre os Estados-Partes realiza-se atualmente livre de barreiras tarifárias. A Tarifa Externa Comum (TEC), que varia de 0% a 20%, encontra-se definida para todo o universo tarifário do Mercosul. A estrutura institucional do Mercosul foi alinhavada através do Protocolo de Ouro Preto, assinado pelos quatro países em dezembro de 1994. O Protocolo reconhece a personalidade jurídica de direito internacional do bloco, atribuindo-lhe, assim, competência para negociar, em nome próprio, acordos com terceiros países, grupos de países e organismos internacionais. A Presidência do Conselho do Mercado Comum (CMC), órgão superior do Mercosul ao qual incumbe a condução política do processo de integração e a tomada de decisões para assegurar o cumprimento dos objetivos estabelecidos, é exercida por rotação dos Estados-Partes, em ordem alfabética, pelo período de seis meses (Presidência Pro Tempore). * Os autores agradecem o trabalho do Dr. Herbert N. Wiggins, JD/MBA, na edição desta peça. Dr. Wiggins é Membro e Operador da Wiggins Consulting Group, LLC (www.wigginsconsultinggroup.com) em Costa Mesa, Califórnia, cujo enfoque é a formação de alianças estrategicas entre empresas de tecnologia dos Estados Unidos da América, Canadá e América Latina. 2

Embora o Mercado Comum do Sul tenha sido constituído precipuamente como projeto de natureza econômica, voltado à livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos entre os países, não se pode negar seu atual caráter estratégico do ponto de vista político, configurando-se, hoje, como mercado de grande importância no continente. De fato, a integração comercial propiciada pelo Mercosul acabou estimulando a cooperação em diversos setores, gerando acordos e negociações 1. O COMÉRCIO ELETRÔNICO COMO PAUTA DO MERCOSUL Considerando que o desenvolvimento do comércio eletrônico tem importância indiscutível no fomento ao comércio exterior e tendo em vista a necessidade de políticas específicas para a economia digital, os Estados-Partes do Mercosul têm se empenhado em discutir o tema, diagnosticando os obstáculos a serem superados e os possíveis instrumentos a serem criados especificamente para o setor. Objetivando promover o desenvolvimento científico e tecnológico entre os Estados- Partes, foram criados subgrupos de trabalho (os SGTs) no Mercosul para lidar com as mais diversas questões de variados setores da economia. De acordo com a estrutura institucional do Mercosul, os SGTs são órgãos de assessoramento do Grupo Mercado Comum (GMC), órgão executivo do bloco regional, e dividem-se por temas, reunindo-se, em média, duas vezes por semestre, no país onde esteja a Presidência Pro Tempore. O CMC conferiu ao GMC a atribuição e responsabilidade de coordenar e orientar as tarefas de SGTs e considerar as recomendações por eles transmitidas, que podem resultar em Resoluções aprovadas pelo GMC. Seguindo tal estrutura, o SGT-13 foca o comércio eletrônico de forma específica, entre os 14 subgrupos criados e atuantes. Entre os objetivos do SGT-13 inclui-se a coordenação das posições nacionais a respeito dos diversos temas que permeiam as 1 No site do Ministério das Relações Exteriores do Brasil (www.mre.gov.br), e nos sites semelhantes dos outros países membros do bloco, é possível encontrar diversos textos de interesse do Mercosul e informações acerca da agenda para as negociações entre os Estados-Partes do bloco regional. 3

relações comerciais eletrônicas, fortalecendo o relacionamento externo do bloco nesta matéria, bem como o melhoramento do marco regulatório, visando ao desenvolvimento transfronteiriço do comércio eletrônico entre os Estados-Partes. Desde sua criação, o SGT-13 vem realizando reuniões periódicas, em média trimestral, realizando-se a cada semestre em um dos Estados-Partes. Neste segundo semestre de 2004, a Presidência Pro Tempore está sendo exercida pelo Brasil e a última reunião do SGT 13 ocorreu na Cidade do Rio de Janeiro, em setembro. Para 2004-2005, entre os temas colocados em pauta, destacam-se questões relacionadas à regulamentação do uso da assinatura digital no âmbito do Mercosul e de aspectos de privacidade e proteção de dados pessoais. No primeiro de 2004, o SGT 13 finalizou as discussões iniciadas em 2003 a respeito de uma proposta de normativa sobre direito à informação do consumidor nas transações comerciais realizadas pela Internet. Ademais, outros temas relacionados ao uso da assinatura digital colocam-se em foco, como é o caso do relacionamento com a União Européia, os aspectos de meios de pagamento para o comércio eletrônico, proteção de dados pessoais e do consumidor e soluções para as pequenas e médias empresas, cujas participação na atividade comercial dos países membros do Mercosul têm importância inegável. Á próxima reunião do SGT-13 está prevista para ser sediada no Uruguai, no primeiro trimestre de 2005, país responsável pela presidência pro-tempore do Mercosul durante o primeiro semestre. Vale observar que o SGT-13 conta com a representação e a participação dos representantes dos governos e do setor privado. Por exemplo, a Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico, Camara-e.net, como principal entidade multi-setorial da Economia Digital no Brasil e América Latina, vem marcando presença como representante do setor privado em diversos fóruns de negociações internacionais, e não poderia ser diferente no âmbito do Mercosul. A entidade, que já celebrou seus três anos de atividades, tem por objetivos a discussão, formulação, proposta, defesa e monitoramento das políticas 4

públicas, regulatórias e de mercado visando o fomento às Tecnologias da Informação e da Comunicação e a formatação da Economia Digital no Brasil. Nesse sentido, a Camara-e.net tem participado ativamente das discussões e reuniões do SGT-13, juntamente com a delegação oficial brasileira, coordenada atualmente pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e, na qualidade de representante do setor privado, vem colaborando para a criação de um canal direto de comunicação com o governo brasileiro e com os assuntos relacionados à integração regional. Ademais, a Camara-e.net promove o amplo debate de diversas das questões em discussão no âmbito do SGT-13, através de reuniões de seus comitês, dos quais participam membros associados e interessados. Sem dúvida, trata-se de uma excelente fonte de informações sobre o tema, podendo ser acessada através da homepage www.camarae.net. CONCLUSÃO O comércio eletrônico, de caráter transfronteiriço, por natureza, somente se desenvolverá com base em estruturas harmônicas, sejam do ponto de vista técnico, como do ponto de vista regulatório legal. Tais estruturas devem ser implementadas mediante amplo debate com o envolvimento dos diversos players interessados, inclusive representantes do setor privado e do empresariado. No âmbito do Mercosul, pode-se dizer que este caminho já está sendo trilhado, através das discussões do SGT 13, nas quais o setor privado vem colaborando nas discussões travadas entre as delegações oficiais governamentais dos 4 países envolvidos, os quais buscam, individual e conjuntamente, de forma simultânea, esclarecer questões cruciais ao desenvolvimento do comércio eletrônico. São Paulo, Brasil, Novembro de 2.004 Costa Mesa, Califórnia, Fevereiro de 2.005 5