RELIGIOSIDADE AFRO-BRASILEIRA RESUMO ALBERTINA DE SOUZA PAVAN 1 DANILO FERREIRA DA FONSECA 2 O objetivo deste trabalho é desenvolver uma reflexão a partir de processos históricos em relação às religiões afro-brasileiras e as outras religiões articulando o campo da prática social e do conhecimento cultural, pois a formação étnica da população brasileira é constituída de mais de 50% de afro-descendentes. Por isso, é preciso incentivar o diálogo entre os movimentos religiosos, para a construção de uma sociedade verdadeiramente pluralistas, com base no reconhecimento e no respeito às diferenças religiosas. Em um país em que não haja injustiça e intolerância religiosa com práticas de violência contra uma classe minoritária e discriminada. Pois é constitucional o direito a liberdade de pensamento, de consciência e de religião, o direito de entrar neste ou naquele templo, nesta ou naquela tenda, o direito de adorar e deixar de adorar. O desenvolvimento da pesquisa se dará mediante a vídeos (documentários, vídeo-aula, fragmentos de filmes) músicas, slides produzidos a partir de conceitos e imagens, banners, fantoches e máscaras. O método é dialético: problematização, com sistematização a partir do diálogo dirigido sobre os conteúdos apresentados com intervenção mediada, pelo professor, a respeito dos fatores conceituais e ideológicos, parte para a produção e socialização dos trabalhos dos grupos para a classe com as considerações e a intervenção do professor de acordo com as produções dos educandos. Portanto, a aprendizagem só acontece quando ela é significativa, e a partir do momento em que os educandos apropriam-se do objeto do conhecimento em suas múltiplas determinações e funções. A base teórica será: BASTIDE, (1971), JENSEN (2001), KUCHENBECKER (2000), OLIVEIRA (2009). Palavras-chave: religiões; afro-brasileiras; conhecimento. INTRODUÇÃO Desde a época do Brasil colonial, quando os negros, foram trazidos para o país com o intuito de serem escravizados no trabalho das lavouras e todo tipo de labor das grandes fazendas.. Foram destituídos de tudo e quaisquer vínculos de liberdade social, política, religiosa, cultural, sendo tratados como um animal irracional, servindo apenas para realizar trabalhos pesados, impossibilitando-o de ser um sujeito histórico mais ativo. Contudo, o negro sempre se rebela, embora grande parte das suas rebeldias não fossem difundidas, a não ser que causasse um empecilho maior aos fazendeiros como a fuga dos escravos, agressões em capatazes e senhores de engenho. Dentre as lutas dos negros escravos por liberdade, estava também a luta pelo livre arbítrio. Eles queriam seguir suas origens. Para camuflar essa perda de direitos, os negros, que eram obrigados a seguir a religião católica imposta pela 1 Professora graduada em História pela FAFI Palmas/PR. 2 Professor Adjunto da Universidade Estadual do oeste de Paraná e Doutor em História pela PUC-SP...
coroa portuguesa, passa a associar os orixás africanos aos santos católicos, usando suas características para identificá-los. Esse momento ou fato histórico fica conhecido como sincretismo religioso. Com a conquista da liberdade tão cobiçada, a sociedade negra composta por ex-escravos, inicia a sua própria prática religiosa, que como em todos os setores da sociedade, foi difícil, pois os problemas enfrentados foram muitos, e em meio a tantos obstáculos, se destacam duas religiões, a Umbanda originada na África e o Candomblé surgido no Rio de Janeiro no inicio do século XX. Dentro de uma sociedade preconceituosa, hierárquica e rígida, essas religiões sofreram e continuam sofrendo todo o tipo de discriminação, sendo conceituadas com uma entonação negativada como feitiçaria, macumba, como se tais práticas religiosas fossem coisas do diabo, dentro de uma perspectiva de uma hegemonia cristã.. Para problematizar esta relação em sala de aula foi realizada uma unidade didática desenvolvida no 9º ano do Ensino Fundamental, do Colégio Estadual Dr. João Ferreira Neves- Catanduvas, durante 32 h/a com os alunos de maneira presencial e 32 h/a de estudos, pesquisas e preparação de atividades. REVISÃO LITERÁRIA A religião como recurso cultural permanece como um poderoso recurso humano que pode atuar como veículo de mudança, desafio ou conservação, bem como forte capacidade de mobilização de pessoas e recursos materiais. Isto nos leva ao questionamento, afinal, o que é religião? A definição que poderá ajudar a entender o sentido é a seguinte: Etimologicamente, o termo religião surge na historia da humanidade através dos autores clássicos, como Cícero, Lactânio e Agostinho, respectivamente, nas palavras re-legere, que significa reler, re-ligarem que significa religar, e re-eligere, que significa reeleger. Todos os conceitos nos dão a idéia de voltar a uma situação anterior, ou seja, ligar novamente a criatura com o criador. É exatamente esta tentativa de religar com o Ser Superior, através de um conjunto de crenças, normas, ritos ou costumes, que dão origem às diversas religiões o fenômeno religioso propriamente dito. (KUCHENBECKER, 2000, p.18) Apesar de seguidamente ouvir-se que religião é algo recluso a setoreso, as menções acima indicam uma direção contrária. Estão apontando para o fato de que
o ser humano preocupa-se com o divino, aqui entendido no sentido daquilo que ocupa lugar de destaque ou o primeiro lugar na vida. Nossa nação é laica. Isso significa que ele não deve ter, e não tem religião. Seu dever e garantir a liberdade religiosa, conforme diz no artigo 5, inciso VI, da Constituição: É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias. A Liberdade religiosa é um dos direitos fundamentais da humanidade. Mas nem sempre foi assim, o negro para viver no Brasil sendo escravo ou liberto era indispensável antes de tudo, ser católico. Muitos dos negros religiosos se diziam católicos e se comportavam como católicos, pois era a maneira mais adequada para viver sua religião sem problemas e perseguições, para qualquer efeito eles estavam seguindo a religião católica. Isso ocorre mesmo depois da Proclamação da República, quando o catolicismo perde a condição de religião oficial. Por isso os negros no Brasil, para seguir a sua religião, recriaram seus orixás e voduns, relacionando-os com os santos católicos. Essa relação deu origem ao sincretismo entre as religiões africanas e a católica, as quais existem desde a época da escravidão no Brasil, e foi imposta pela religião católica que era a religião oficial do país. O sincretismo religioso, e mais particularmente o afro-católico, só evidenciam o quanto o sagrado é um elemento presente na formação cultural do Brasil. A intermistura cultural e a interfusão das práticas em torno do sagrado nos levam a um conhecimento mais amplo e detalhado da fé experimentada por estes do passado, e que hoje também revivem em seus terreiros e igrejas as mesmas práticas e devoções. (OLIVEIRA, 2009, p. 2) Porém, hoje, as religiões afro-brasileiras lutam pela desincretização, pois acreditam no livre arbítrio e não carregam mais o peso de se fazerem passar por católicos, pelo contrário, fazem questão de praticarem abertamente sua religião e de seus ancestrais. O negro foi trazido para o Brasil tirado do continente africano de uma maneira brutal. Foram arrancados de suas origens e jogados nas senzalas nos engenhos do Brasil, separados de suas famílias, parentes, amigos de sua cultura do dia a dia, onde passou a viver de acordo com a vontade e ordens de um branco europeu que jamais tinham visto.
Após centenas de anos de trabalho escravo e inúmeros revoltas e tentativas para se obter a sua liberdade, os negros deixaram de ser escravos pela Lei Áurea, em maio de 1888, Os mesmos foram lançados, a própria sorte, sem instrução, sem economias, nenhum lugar para morar, ou seja, sem nenhum meio para construir sua independência social e econômica. Sendo assim, o ex-escravo era analfabeto, sem renda, sem profissão e principalmente, sem incentivo e crédito para produzir. Sem falar na Lei da Terra de 1850, feita com o intuito de impedir que o negro conseguisse terra para fazer aquilo que sabia fazer, já que trabalhavam de escravos em fazendas, sua cultura estava totalmente desestruturada, travada por anos de repressão. Sua religião era imposta pela Igreja Católica e oficiais de engenhos. Neste contexto o negro é tratado como força de trabalho, nunca como um ser humano pensante. Este fato não muda com a libertação dos escravos em 1888, pelo contrário, agrava-se ainda mais, pois agora livre o negro fica também sem trabalho, sem teto, sem alimento diário. Para o negro se firmar como um cidadão, sua luta foi enorme e contínua batalhando até os dias atuais. Talvez agora, com um melhor respaldo na lei que na maioria das vezes é manipulada, favorecendo uma classe em detrimento de outra. Precisa-se incentivar o diálogo entre os movimentos religiosos, para a construção de uma sociedade verdadeiramente pluralistas, com base no reconhecimento e no respeito às diferenças religiosas. Em um país em que não haja injustiça e intolerância religiosa com práticas de violência contra uma classe minoritária e discriminada. Pois é constitucional o direito a liberdade de pensamento, de consciência e de religião, o direito de entrar neste ou naquele templo, nesta ou naquela tenda, o direito de adorar e deixar de adorar. As religiões de um modo geral estão embasadas em um elo que serve de suporte e união e que as perpetua e as expande pelo mundo. No cristianismo, a Bíblia Sagrada informa a cerca do plano de Deus para os homens, por meio de Jesus Cristo e seus discípulos. O islamismo baseia-se no Alcorão ou Corão que é o livro sagrado o qual reúne as revelações que o profeta Maomé recebeu de Deus no qual estão contidos os ensinamentos: a onipotência de Deus (Alá), importância de praticar a bondade, generosidade e justiça no relacionamento social. Já as religiosidades orientais, o Hinduísmo e o Budismo, cada uma tem suas características próprias. O Hinduísmo tem sua ênfase no que seria o modo correto
do viver (dharma). Os cultos hinduístas são realizados tanto em templos e congregações quanto podem ser domésticos. Já o Budismo é uma filosofia de vida baseada integralmente nos profundos ensinamentos do Buda para todos os seres, que revela a verdadeira face da vida e do universo. O Budismo é uma religião prática, devotada a condicionar a mente inserida em seu cotidiano, de maneira a levá-la à paz, serenidade, alegria, sabedoria e liberdade perfeitas, até alcançar o Nirvana. Observando estas estruturas fundamentais que sustentam essas grandes religiões, percebe-se que as religiões afro-brasileiras e africanas contam apenas com raízes profundas no imaginário e na tradução oral dos povos. Outro fator que as enfraquecem é o poder de divulgação da mídia. Algumas religiões evangélicas detêm concessões de canais de TV, a exemplo a rede Record, dirigida por Edir Macedo. Sabendo do veículo que tem nas mãos, faz uso disso, e é como diz Guareschi (2006, p.139) quem detém a comunicação constrói uma realidade de acordo com seus interesses, justamente para poder garantir o poder. Esta religião, além de pregar a salvação eterna, também prega o desenvolvimento econômico de seus seguidores, igualdade social, elementos que acabam reunindo a grande massa da população que precisam acreditar em algo, o que acaba arrebatando grande número de fiéis. As religiões africanas eram baseadas em grupos familiares ou clãs, ou seja, a vida religiosa era familiar, quando trazidos como escravos para o Brasil, foram obrigados a seguir uma religião em um sistema patriarcal, de latifúndio e de hierarquia muito diferente de sua cultura de origem. O candomblé é uma religião que teve origem na cidade de Ifé, na África, e foi trazida para o Brasil pelos negros Iorubas. Esta extravasou suas fronteiras geográficas, abandonando os limites originais de raça e etnia dos seus fieis e ampliou seu território. Seus deuses são os Orixás. Prandi (2003) descreve que o processo de transformação em religião universal se deu através do Movimento de africanização do candomblé e sua constituição como religião autônoma inserida no mercado religioso é o processo de desincretização, com o abandono de símbolos, práticas e crenças de origem católica (p.22)
Já a umbanda é uma religião formada dentro da cultura religiosa brasileira que sincretiza vários elementos, inclusive de outras religiões como o catolicismo, o espiritismo, as religiões afro-brasileiras e a religiosidade indígena. A palavra umbanda deriva de m banda, que em quimbanda significa sacerdote ou curandeiro. De acordo com Prandi (2003) A umbanda conservou do candomblé o sincretismo católico: assimilou preces, devoções e valores católicos que não fazem parte do universo do candomblé. Muitas lideranças afro-brasileiras têm de fato se empenhado em lutar pelo apagamento das vinculações identitárias do candomblé e da umbanda com o catolicismo e o espiritismo. (p.17). A Umbanda se originou com a sociedade moderna brasileira, ou seja, ela já nasceu num processo de branqueamento e ruptura com símbolos e características africanas, propondo-se como uma religião para todos, capaz mesmo de se mostrar como símbolo de identidade de um País mestiço que então se forjava no Brasil das primeiríssimas décadas do século XX. (PRANDI, 2003, p.20) Por isso, A umbanda é chamada de a religião brasileira por excelência, num sincretismo que reúne o catolicismo branco, a tradição dos orixás da vertente negra e símbolos e os espíritos de inspiração indígena, contemplando as três fontes básicas do Brasil mestiço. (PRANDI, 2003, p.20) Os terreiros de Umbanda e Candomblé, que, além de locais sagrados de culto, são também guardiões da memória de povos arrancados da África e escravizados no Brasil, portanto é trabalho da educação incentivar o diálogo entre os movimentos religiosos, para a construção de uma sociedade verdadeiramente pluralistas, com base no reconhecimento e no respeito às diferenças. Um país em que ninguém sofra ou pratique injustiça contra seu semelhante. Um mundo e um país de todos. Além da Umbanda e Candomblé há outras regiões afro-brasileiras, como Espiritismo Branco e a Macumba, cada uma com suas especificidades e características. Enquanto as religiões afro-brasileiras estavam concentradas no nordeste do Brasil, as correntes religiosas do sudeste tiveram uma importância decisiva na fundação da Umbanda, uma nova religião brasileira.
O termo Macumba se refere a várias misturas de religiões afro-brasileiras com outras religiões que se originaram no sudeste brasileiro. Entre as várias tradições religiosas que entram na Macumba estão o Candomblé, o culto aos Caboclos. A macumba também é o termo depreciativo para o baixo espiritismo. Com a Macumba apareceram dois arquétipos diferentes: o Caboclo (o índio brasileiro) e o Preto Velho (um espírito de escravo), ambos assumiram grande importância da fundação da Umbanda. A heterogeneidade ética e social dos membros e clientes da Macumba fez dela uma religião que pode mediar os antagonismos religiosos entre baixo espiritismo e alto espiritismo. Desta forma a Macumba antecipou a Umbanda (JESEN, 2001, p.5) A Umbanda é frequentemente vista como a maior síntese entre as tradições religiosas Afro-brasileiras e Ameríndias, o Espiritismo Kardecista e o Catolicismo. A Umbanda é vista como uma tentativa de formular uma religião nacional, de criar uma religião democrática que seria capaz de unir os vários grupos étnicos e classes sociais. A tendência original de ver a Umbanda como religião Afro-brasileira parece refletir preconceitos generalizados contra as religiões Afro-brasileiras e uma inclinação para transformá-las em folclore. Os especialistas tem visto a Umbanda como uma religião criada pela classe média e ao mesmo tempo como uma religião que une a classe media branca e a classe baixa de cor (JENSEN, 2001, p.6). Por ter sido interpretada e distanciada de outras tradições Afro-brasileiras por meio da desafricanização, embranquecimento e abrasileiramento, a Umbanda se ajusta à ideologia dominante da democracia racial. Para entender este contexto histórico se faz necessário desenvolver uma educação crítica, problematizadora, conscientizadora, que leve à prática da liberdade, construtora de um saber libertador e, portanto humanizador, libertadora da consciência oprimida. Propor uma educação libertadora é resgatar a liberdade original do ser humano, aquela que lhe possibilita ser, junto com outros, construtor, transformador da natureza e construtor do mundo, com base na aceitação de que as pessoas são livres para fazer escolhas.
A educação problematizadora e libertadora não é desprovida de conteúdo, mas este é entendido segundo outra ótica, ou seja, do ponto de vista daqueles que querem se libertar. Segundo Freire Para o educador-educando, dialógico, problematizador, o conteúdo programático da educação não é uma doação ou uma imposição um conjunto de informes a ser depositado nos educandos -, mas a devolução organizada e acrescentada ao povo daqueles elementos que este lhe entregou de forma desestruturada (p. 85). O conteúdo a ser trabalhado com os educandos, tem origem, portanto, nas necessidades, interesses e anseios deles mesmos, agindo desde o início como agentes e co-educadores no processo de libertação de suas consciências. Neste contexto histórico de construção e entendimento do conhecimento acumulado pela humanidade o fator de mudança de postura frente às religiões depende da postura do docente em sala de aula, na relação com seus alunos e as concepções de homem que deseja para a sociedade atual. Tendo com pano de fundo a interdisciplinaridade, a importância do diálogo, o método dialético enquanto metodologia para contribuir com a emancipação do indivíduo. Sendo assim, a interdisciplinaridade é uma proposta de trabalho que vem constituir em um movimento a ser assumido e construído pelos professores [...] levando em consideração a sua interação com os alunos, na condição de intermediar a (re)elaboração do conhecimento como um processo pedagógico dinâmico, aberto e interativo. (LÜck, p.15) Como complementação O diálogo e a discussão coletiva como forças propulsoras de uma aprendizagem significativa e contempla os trabalhos coletivos, as parcerias e a participação critica e reflexiva dos alunos e dos professores (BEHRENS apud MORAN, p.87). O método dialético descrito por Gasparin (2003) pressupõem alguns passos entre eles: a Prática Social Inicial o professor apresenta os conteúdos a ser trabalhado, o tema, explicitando seus respectivos objetivos, dialogando com os alunos sobre os conteúdos, buscando verificar qual o domínio que já possuem e que uso fazem deles na prática social cotidiana.
Na problematização o professor encaminha uma discussão sobre os principais problemas postos pela prática social e pelo conteúdo, elaborando questões problematizadoras, a partir das dimensões do conteúdo mais apropriadas para o desenvolvimento do trabalho. As dimensões podem ser: conceitual, científica, social, histórica, política, cultural, econômica, filosófica, religiosa, moral, ética, estética, legal, afetiva, operacional, etc. De acordo com Gasparin: Para o professor implica uma nova maneira de estudar e preparar o que será trabalhado com os alunos: o conteúdo é submetido a dimensões e questionamentos que exigem do mestre uma reestruturação do conhecimento que já domina. O conteúdo é entendido como uma construção histórica, não natural, portanto, uma construção social historicizada para responder às necessidades humanas.(gasparin, 2003, p.49). A Instrumentalização, neste momento os alunos começam a se apropriarem dos instrumentos teóricos e práticos, ou seja, do conhecimento produzido historicamente e sistematizado. Para isso, cabe ao professor, planejar as ações e selecionar os procedimentos técnicos mais adequados com vistas à efetivação do processo de aprendizagem e à construção do conhecimento científico. Neste estágio, o papel do professor é fundamental para a aprendizagem, pois se torna o mediador, propondo desafios e ajudando-os a resolver de forma colaborativa. A Catarse, é a síntese do cotidiano e do científico, do teórico e do prático a que o educando chegou, marcando a sua nova posição em relação ao conteúdo e à forma de sua construção social e sua reconstrução na escola.[...] É a manifestação do novo conceito adquirido (GASPARIN, 2003, p.130). O procedimento prático, dessa etapa metodológica, equivale à avaliação, na qual se deve expressar a apropriação do conteúdo e a compreensão da realidade com vistas a transformação social. A avaliação deve atender às dimensões trabalhadas e aos objetivos propostos. Quanto à avaliação, Gasparin afirma que: A avaliação da aprendizagem do conteúdo, não como demonstração de que aprendeu um novo tema apenas para a realização de uma prova, de um teste, mas como expressão prática de que se apropriou de um conhecimento que se tornou um novo instrumento de compreensão da realidade e de transformação social. Deve-se ressaltar que esse tipo de avaliação não ocorre apenas nessa fase, mas durante o transcorrer de todas as atividades. Todavia, aqui se conclui o processo intelectual de aquisição do conhecimento proposto (GASPARIN, 2003, p.138).
A Prática Social Final é o ponto de chegada desse encaminhamento metodológico. Essa prática é a mesma do ponto de partida, porém alterada qualitativamente pela mediação pedagógica. Quanto ao tipo de professor é necessário que seja um mediador e que a afetividade seja o alicerce, além de ser um pesquisador. Para Moran (2009) o professor precisar ser: um pesquisador em serviço. Aprende com a prática e a pesquisa e ensina a partir do que aprende. Realiza-se aprendendo pesquisando ensinando - aprendendo. O seu papel é fundamentalmente o de um orientador/mediador.(p. 30). Portanto, a aprendizagem só acontece quando ela é significativa, e a partir do momento em que os educandos apropriam-se do objeto do conhecimento em suas múltiplas determinações e funções. IMPLEMENTAÇÃO Discorrer sobre a religiosidade afro-brasileira nas escolas foi o titulo do Projeto, que, através de uma Unidade Didática Pedagógica, trazendo textos e a atividades complementares para dar suporte aos professores das escolas sobre os assuntos, busca amenizar o preconceito gritante que ainda persiste nos dias atuais, com relação à religiosidade afro-brasileira, principalmente a Umbanda e o Candomblé, que são as religiões africanas mais difundidas no Brasil. Tanto o Projeto quanto a Unidade Didática Pedagógica foram discutidos por um grupo de professores através do GTR. No primeiro tema a discussão discorreu em relação ao descaso das religiões africanas no Brasil, que na verdade, na maioria das vezes, nem é considerada uma religião, mas sim seitas do mal. Isso ocorre por vários motivos, mas o principal deles é a discriminação, o preconceito racial e social, que está impregnada em nossa sociedade, colocando a Umbanda e o Candomblé como prática de ritualidades religiosas de segunda categoria, e não como um ato de fé e espiritualidade, ligados a um ser superior, em que se confia e espera algo além do que o homem possa fazer, ou seja, onde se espera algo sobrenatural, divino, que amenize, melhore a vida do ser humano na terra.
Os terreiros, que são a representação sagrada da Umbanda, do Candomblé e de outras religiões africanas, são invadidos, depredados, desrespeitados, enquanto seus lideres religiosos tem sua imagem depreciada perante a sociedade, como propagadores do mal. Durante a discussão do GTR, os integrantes chegaram a um consenso: tudo isso ocorre no Brasil devido à falta de um conhecimento mais profundo sobre o assunto. Através de leituras, pesquisas e diálogos em sala de aula, entre professores e alunos é possível iniciar pequenas mudanças dentro de nosso meio social, pois só se discrimina ou se condena algo que não é prejudicial à sociedade, por ignorância, portanto a partir do momento que o conhecimento for difundido sobre determinado assunto, provavelmente a reação será aceitação, se não poderá passar a ser respeitada e discutida com mais naturalidade pela sociedade. A Unidade Didático-Pedagógica apresentou o trabalho de alguns autores, servindo de apoio didático em sala de aula para dar uma base sólida ao professor quando expuser o conhecimento sobre a religiosidade afro-brasileira com o objetivo de que esse tema polêmico passe a ser respeitado no âmbito religioso e social. A implementação da Unidade Didático-Pedagógica foi feita com alunos dos 9º anos e se iniciou com texto sobre as religiões do mundo. Um resumo sobre as principais religiões do mundo, suas principais características e preceitos religiosos. Foi feita apostila para cada aluno, contendo todos os conteúdos. A apostila foi feita usando o livro de Dora Jordac da coleção As religiões do mundo, a unidade Umbanda e candomblé, contendo todos os textos que foram discutidos no projeto. Como os alunos tinham posse do conteúdo, as aulas foram ministradas através de leituras, explicações e comentários. Os comentários eram feitos na maioria das vezes, na forma de comparação com as religiões praticadas ou conhecidas pelos alunos, eles próprios paravam a leitura de texto ou imagens para questionar os costumes e crenças das religiões africanas. Estes questionamentos, em nenhum momento, foram de injurias contra tais religiões, mas sim de surpresas, hora achando um absurdo, hora achando engraçado, ou até mesmo achando alguns costumes muito parecidos com nossas crenças. Portanto, dizer que houve comentários do tipo coisas do demônio, ou não é religião, é feitiçaria, seria incorreto. Houve sim, alguns que duvidavam um pouco do que a autora afirmava, mas nada além disso. As discussões ficaram mais acirradas no momento em que se falou da falta de ética nas religiões da Umbanda e
Candomblé, não havendo nenhum tipo de proibição ou restrição sobre o tipo de vida que os adeptos devem levar, pois não existem limites a ser seguidos. A turma do 9º ano do Colégio Dr. João Ferreira Neves, onde foi aplicado a Unidade Didático-Pedagógica é bem eclética, tendo alunos adeptos às religiões Católica e evangélica, os alunos são críticos, pois conhecem suas religiões e praticam fielmente seus preceitos, então todas as discussões foram calorosas, havendo em alguns momentos a necessidade de interferência do professor para acalmar os ânimos. As aulas foram ministradas no laboratório de informática e foram direcionadas para as habilidades e características dos doze (12) orixás mais conhecidos no Brasil. Todos os alunos pesquisaram sobre todos os orixás, mas para a apresentação os alunos foram divididos em duplas, onde cada dupla apresentaria um orixá. Nesse mesmo processo um aluno ainda apresentaria as máscaras, que também foram pesquisadas, e o jogo de búzios também fez parte de uma apresentação brilhante. Depois das aulas no laboratório de informática, as duplas, já de posse das informações necessárias, passaram a fazer uma explanação sobre a sua pesquisa na sala de aula, em forma de seminário, que serviu também como um ensaio para a apresentação final para a comunidade escolar. Depois de todo o conteúdo estudado e discutido, as pesquisas feitas e apresentadas, foi a vez de assistir as vídeo-aulas que mostravam depoimentos, documentários, terreiros de Umbanda e Candomblé, e testemunho de alcance de cura. Em seguida foram aplicadas as atividades para comprovação de aprendizagem. As atividades envolveram desde simples detalhes como: costumes, formação de um terreiro, número de orixás e suas principais características, comparações entre as religiões praticadas na comunidade com as religiões africanas, citando diferenças e semelhanças, até produções de texto sobre as religiões da Umbanda e Candomblé. O gran finalle aconteceu no dia oito (08) de maio com uma apresentação ao ar livre para toda a comunidade escolar. No total foram quatorze (14) mesas, doze (12) delas caracterizadas com banners dos orixás mais conhecidos no Brasil, e suas principais habilidades e características, que eram expostas pela dupla de estudantes, uma (01) com um banner de algumas máscaras africanas, e também máscaras confeccionadas em madeira, onde um aluno explicava que a máscara faz parte da religiosidade afro-brasileira e africana. A última mesa era composta do jogo
de búzio, que foi apresentada com perfeição pela aluna, que fez pesquisa, leu vários textos sobre o assunto, e foi muito feliz em sua exposição, chamando a atenção do público escolar e coroou a apresentação com sua desenvoltura e conhecimento. A apresentação foi feita nos períodos da manhã, tarde e noite. No período noturno, onde o conteúdo não foi trabalhado, ocorreram fatos que surpreenderam os alunos que faziam a exposição do trabalho. O fato é que a maioria dos alunos do noturno são adultos, grande parte casados, que resolveram voltar a estudar, levam uma vida corrida entre trabalhar de dia e estudar à noite, já as mulheres além da escola ainda precisam ajudar e administrar a casa, marido e filhos, e possuem uma vida religiosa seguida regularmente, sem nunca ver o diferente. Os comentários surgiram com naturalidade ao verem os banners dos orixás e a mesa do jogo de búzio, já perguntavam onde ia ser o feitiço, quem ia receber o pai de santo, se os alunos iam fazer um sarava, e apesar de fazer uma bela apresentação, foram poucos os que se interessaram, fizeram perguntas e quiseram saber mais sobre o projeto. Os alunos ficaram decepcionados, mas conseguiram apresentar para os poucos que demonstraram interesse, portanto não foi um trabalho perdido. O encerramento foi feito com muito cansaço, mas também com a sensação de dever cumprido, pois somando os resultados positivos e negativos, prevaleceram os positivos, com muitos elogios, fotos e festas. CONSIDERAÇÕES FINAIS A história da escravidão no Brasil foi muito marcante e vem transmitindo preconceito racial de geração em geração, até os dias atuais. Portanto é comum em pleno século XXI depararmos com casos de discriminação racial em todos os lugares, escolas, trabalhos, clubes sociais, até mesmo nas igrejas. No caso da religiosidade afro-brasileira a discriminação é ainda maior, pois a grande maioria das pessoas não acredita que suas crenças possam ser consideradas religião. Percebese que as mudanças, aceitação ou reconhecimento desse estudo é a longo prazo, porque na verdade nossa sociedade sabe muito pouco ou nada sabe sobre esse tema. É um trabalho permanente e persistente, para se chegar a um resultado razoável. A aplicação do projeto Religiosidade Afro-brasileira, obteve um ótimo resultado momentâneo, o importante agora é continuar nessa busca de
desconstrução de conceitos e quebra de tabus que vem travando as linhas de conhecimento e de liberdade de expressão. Como o grupo de participantes de GTR, os alunos chegaram a seguinte conclusão, só se critica muito ou não quer nem ouvir falar aquilo que ainda não conhece a fundo. Prova disso foi a apresentação no período noturno. Os alunos não tiveram uma explicação mais profunda e ficaram observando, o que dava para ver e sentir, mas não queriam ler nem ouvir, então, o resultado deixou a desejar, mas a partir do momento que o professor levar o tema para a sala de aula como conteúdo para ser explorado e dissecado, o próprio estudante vai ver com os próprios olhos e mesmo que não acredite, que não queira para si esse estilo de vida, vai passar a respeitar o diferente como são respeitadas todas as religiões. REFERÊNCIAS BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil. São Paulo. Editora da Universidade de São Paulo, 1971. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%c3%a7ao.htm. Acessada em 29/05/2012. FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. 37ª Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. GASPARIN, João Luiz. Uma Didática para a Pedagogia Histórico-Crítica. 3ª ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2003. GUARESCHI, Paulinho. Sociologia critica: alternativas de mudanças. 59ª Ed. Porto Alegre : EDIPICURS, 2006. JORDACK, Dora M. Religiões do Mundo: Umbanda e Candomblé. BrasiLeitura. São Paulo: JENSEN, Tina Gudrum. Discurso sobre as religiões afro-brasileiras: da desafricanização para a reafricanização. Revista de Estudos da religião. Nº 1/2001/PP. 1-21. KUCHENBECKER, Valter. O homem e o sagrado. 5ª. ed. Canoas : Editora da Ulbra, 2000.
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