A ESPIRITUALIDADE DA FAMÍLIA AO TER UM FAMILIAR INTERNADO POR DOENÇA CRÔNICA: RELATO DE VIVÊNCIA 1



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A ESPIRITUALIDADE DA FAMÍLIA AO TER UM FAMILIAR INTERNADO POR DOENÇA CRÔNICA: RELATO DE VIVÊNCIA 1 ROSSATO, Karine 2 ; GIRARDON-PERLINI, Nara Marilene Oliveira 3, MISTURA, Claudelí 4, CHEROBINI, Márcia Dal Bem 5, RODRIGUES, Isabela Lencina 6, CIELO, Cibele 7, ROSA, Natanna Da 8 1 Trabalho de Iniciação Científica 2 Acadêmica do Curso de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil. 3 Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do Curso de Enfermagem e da Pos Graduação em Enfermagem (PPGEnf) da UFSM, Santa Maria, RS, Brasil. 4 Enfermeira. Mestranda do PPGEnf da UFSM, Santa Maria, RS, Brasil. 5 Enfermeira. Especialista em Terapia Intensiva. Gerente da Unidade Clínica Médica II do Hospital Universitário da UFSM, Santa Maria, RS, Brasil. 6 Acadêmica do Curso de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). 7 Acadêmica do Curso de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). 8 Acadêmica do Curso de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). E-mail: kaka.rossato@hotmail.com; nara.girardon@gmail.com; claumistura@gmail.com; marcinhacherobini@yahoo.com.br; bela_1806@hotmail.com; cibelecielo@yahoo.com.br; natannaenf@hotmail.com RESUMO O objetivo deste estudo é relatar a vivência como estudante de enfermagem junto à equipe de uma Unidade de Clínica Médica sob o ponto de vista da espiritualidade no cuidado de famílias que tem um familiar com doença crônica. Trata-se de um relato de experiência vivenciado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM). Identificou-se que a família tem um papel central na formação de crenças, valores e conhecimentos do indivíduo. A espiritualidade ajuda as famílias a enfrentarem a doença e o sofrimento, transmitindo tranquilidade emocional para o paciente. Notou-se ainda, que a equipe de enfermagem apresenta dificuldades para lidar com as manifestações de sofrimento e espirituais. Conclui-se que a espiritualidade é uma das estratégias de enfrentamento para lidar com a doença crônica e esta, torna-se um aspecto importante na vida da maioria das pessoas, permeando por muitas culturas. Palavras-chave: Família; Espiritualidade; Doença Crônica; Enfermagem. 1. INTRODUÇÃO O surgimento de uma doença crônica tem um profundo impacto na vida das pessoas e essa realidade se intensifica ainda mais, uma vez que o tempo de internação e os cuidados necessários podem ser prolongados, trazendo mudanças na rotina diária e alterando a qualidade de vida. Esse agravo compromete pessoas de todas as idades, gêneros, classe social e crenças, afetando de forma direta ou indireta todos que convivem com o doente. Nesse contexto, muda não apenas a vida do paciente, mas a de todas as pessoas que estão ao seu redor, como os familiares, amigos e profissionais de saúde que tiveram a oportunidade de conviver com esta pessoa (VISONÁ; PREVEDELLO; SOUZA, 2012). 1

Assim, essas pessoas envolvidas começam a vivenciar diferentes emoções e medos frente ao adoecimento, levando consigo uma carga de expectativas das mais variadas. O envolvimento com uma doença crônica provoca mudanças de hábitos, da rotina e o funcionamento da vida familiar, tendo que ter força, ânimo e até mesmo fé para suportar esta experiência. Frente a isso, começam aparecer buscas por estratégias de enfrentamento para lidar com a doença crônica ou até mesmo durante o processo de adoecimento, o qual destaca-se a espiritualidade. Neste sentido, a espiritualidade pode fortalecer a família, contribuindo para a formação das suas crenças e valores, incentivando práticas saudáveis, interações sociais e ajudando a lidar com as crises e transições da vida (PAULA; NASCIMENTO; ROCHA, 2009). A espiritualidade pode ser considerada como aquilo que cada pessoa acredita ser para si, podendo aparecer nas formas de propósito de vida, conexão com uma força maior e autoconhecimento. Face ao exposto, percebe-se que a família tem papel fundamental junto ao paciente no enfrentamento da doença crônica. Os familiares que irão conviver com o paciente na trajetória de descobrimento e processo do adoecer encontram na espiritualidade um suporte para as perdas e limitações que a doença impõe. Diante disso, o cuidado de enfermagem torna-se importante no período de adoecimento e exige dos profissionais de saúde conhecimento sobre família para incluí-la como objeto de cuidado. Além disso, o cuidado espiritual deve ser compreendido como parte do cuidado à familia e não como uma dimensão alheia a assistência de enfermagem. É importante que, durante o planejamento do cuidado, a espiritualidade seja considerada como um aspecto individual, mas também relativa aos valores e experiência familiar. Nesse sentido, o presente trabalho revela o percurso do acadêmico de Enfermagem acerca do atendimento a pacientes crônicos, bem como de seus familiares, destacando a importância da espiritualidade para os familiares lidarem com as dificuldades enfrentadas nas suas experiências de cuidarem de um membro com doença crônica, tendo em vista que a mesma se impõe cada vez mais como uma necessidade a ser abordada pela enfermagem. 2. OBJETIVO Este estudo tem como objetivo relatar a vivência de estudante de enfermagem junto à equipe de uma Unidade de Clínica Médica sob o ponto de vista da espiritualidade no cuidado de famílias que tem um familiar internado com doença crônica. 3. METODOLOGIA 2

Trata-se de um relato de vivência realizada em um Hospital Universitário cuja atuação está voltada para o desenvolvimento do ensino, da pesquisa e da assistência em saúde. As atividades desenvolvidas e relatadas neste estudo, são de natureza extracurricular, realizada por meio do Programa de Formação Complementar em Enfermagem (PROFCEN) do Curso de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria, que estimula os estudantes a vivenciarem o cotidiano da prática profissional, articulando ensino e extensão nos espaços de atenção à saúde e ampliando o processo de formação acadêmica (BEUTER; NEVES; MAGNAGO; WEILLER, 2009). A atividade referida foi desenvolvida em uma unidade hospitalar de Clínica Médica e ocorreu no mês de janeiro de 2011, com duração de vinte dias, perfazendo 120 horas. A escolha da unidade foi determinada pelo interesse pessoal da estudante e a importância percebida, durante as atividades realizadas nas aulas teórico-práticas, do cuidado de enfermagem à pacientes portadores de doenças crônicas. Nesta unidade atuam profissionais de diferentes áreas e formação acadêmica, tais como: médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, técnicos e auxiliares de enfermagem, acadêmicos dos cursos de graduação da área da saúde, entre outros. De acordo com as características da unidade, os pacientes internados são adultos e idosos, de ambos os sexos, que apresentam doenças oncológicas, infecto-contagiosas, neurológicas, cardíacas, pulmonares e gastroenterológica, apresentando alto grau de dependência de cuidados, sendo muitos procedentes da Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). O objetivo traçado para a realização da atividade extracurrilular foi acompanhar o enfermeiro nas ações de sua competência, dando enfoque para os cuidados à família. As atividades envolveram o manuseio dos prontuários dos pacientes, a troca de experiências com os profissionais da equipe (técnico-científico), realização de orientações, cuidados aos pacientes e seus familiares e acompanhamento da dinâmica da unidade. 4. RESULTADOS E DISCUSSÕES Durante o percurso acadêmico, o primeiro contato com a unidade de Clínica Médica foi durante as aulas teórico-práticas. O interesse relacionado aos cuidados de enfermagem à pacientes crônicos e seus familiares foi sendo reforçado, sobretudo, no decorrer da realização das atividades extracurriculares proporcionadas pelo curso de graduação em enfermagem. As observações e as experiências vividas no contexto da unidade suscitaram reflexões e questionamentos acerca da família que acompanha o familiar doente pois, geralmente, a equipe de enfermagem e até mesmos os acadêmicos, centram a atenção na demanda de cuidados dos pacientes e não percebem como a família, representada pelo(s) 3

familiar(es) presente(s), está lidando com a situação, se está sofrendo, precisando de ajuda seja física, emocional ou até mesmo espiritual. A experiência como acadêmica de enfermagem nesta unidade permitiu perceber que os pacientes e seus familiares vivenciam diferentes emoções, principalmente frente à proximidade da morte, e que, muitas vezes, é difícil contornar essa situação com tranquilidade. A família tem um papel central na formação de crenças, valores e conhecimentos do indivíduo. Em geral, quando um indivíduo adoece toda a família sofre e sente as consequências do momento vivenciado, lançando mão de diferentes estratégias para lidar com a situação, incluindo-se, dentre essas, a espiritualidade (MARQUES; FERRAZ,2004).. Durante o período de realização das atividades, não houve preocupação com o tempo disponível para o desenvolvimento das demandas técnicas. Foi prioridade estar presente, o quanto fosse necessário, com os doentes e seus familiares, oferecendo-lhes apoio e informações e escutando com atenção e sensibilidade suas demandas e questionamentos. Ao dialogar com as famílias sobre os procedimentos, as condições da pessoa doente, a internação e em como estavam se sentindo diante da experiência que estavam vivendo, pode-se observar a frequente referência à fé em Deus e à necessidade de se apegar a uma força maior para superar aquele momento de dor e sofrimento, advindo do adoecimento do familiar. Além disso, observou-se comportamentos e atitudes da família, que expressavam suas práticas espirituais, como a presença de um Terço próximo ao enfermo, ler a Bíblia ou mantê-la junto a cabeceira do leito ou o acompanhante rezando orações junto ao paciente. Estudos tem apontado que a espiritualidade influencia no bem estar e na capacidade de enfrentamento de pacientes e famílias diante de doenças graves e do sofrimento. Além disso pode constituir-se num recurso que ajuda a transmitir tranquilidade emocional e esperança para o paciente (GUERRERO; ZAGO; SAWADA; PINTO, 2011). Contudo, foi observado que, geralmente, a equipe de enfermagem parece ter dificuldades para lidar com as manifestações de desconforto emocional e de sofrimento por parte da família, bem como parece não ater-se aos sinais de espiritualidade manifestados pelos familiares e pelos pacientes. Deste modo não incluem essa dimensão como uma necessidade a ser atendida, assim como não recorrem a esse recurso para fortalecer a família De acordo com Paula, Nascimento e Rocha (2009) é importante que os enfermeiros reconheçam o sofrimento e os sofredores da doença crônica, ouvindo suas histórias, criando vínculos e ajudando-os no enfrentamento do adoecimento. Esses profissionais têm a possibilidade de identificar o interesse e facilitar o acesso aos recursos espirituais, reconhecendo e respeitando as opções e práticas espirituais das famílias. Para isso a enfermagem precisa incluir a família em seus cuidados, procurando reconhecer sentimentos 4

de desesperança e comportamentos depressivos, auxiliando-a a encontrar significados de vida. 5. CONCLUSÃO As vivências no âmbito hospitalar permitiram perceber que a espiritualidade é um aspecto importante na vida da maioria das pessoas e em muitas culturas. Nesse sentido, ampliar as possibilidades de entendimento e valorização da espiritualidade, considerando o contexto biopsicossocial e cultural das famílias e indivíduos, por parte dos profissionais que lidam com a saúde e sofrimento humano, em especial, os enfermeiros, pode representar uma alternativa a contribuir na promoção da saúde e qualidade de vida das pessoas. A família tem, dentre suas inúmeras características, a proteção de seus membros. Diante disso, foi possível observar que, independente da doença, do contexto e do modo como esta surge em suas vidas, é a família que se mobiliza e reúne recursos emocionais, espirituais e financeiros para o cuidado do familiar doente. Sendo assim, ressalta-se que é preciso uma atenção a família como um todo. Intervenções que utilize a escuta atenta e sensível aliada a uma postura acolhedora e respeitosa para sentir e perceber os seres cuidados em suas singularidades e complexidades e a habilidade para atender integralmente as demandas apresentadas, deve fazer parte do cuidado oferecido pela equipe de enfermagem. Portanto, no cuidado de enfermagem o reconhecimento da espiritualidade e o conhecimento das práticas espirituais da familia como forma de elaborar e ajudar a suportar situações adversas, pode constituir-se numa estratégia de aproximação e vínculo com o paciente e sua família, indo ao encontro das políticas de humanização na assistência à saúde. REFERÊNCIAS BEUTER, M.; NEVES, E. T.; MAGNAGO, T. S. B. S.; WEILLER, T. H. Programa de Formação Complementar em Enfermagem/PROFCEN. Santa Maria, 2009. (digitado) GUERRERO, G. P.; ZAGO, M. M. F.; SAWADA, N. O.; PINTO, M. H. Relação entre espiritualidade e câncer: perspectiva do paciente. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 64, n. 1, p. 53-9, 2011. 5

MARQUES, S. M.; FERRAZ, A. F. A vivência do cuidado domiciliar durante o processo de morrer: a perspectiva de familiares cuidadores. Revista Mineira de Enfermagem, Belo Horizonte, v. 8, n. 1, p. 165-252, 2004. PAULA, E. S.; NASCIMENTO, L. C.; ROCHA, S. M. M. Religião e espiritualidade: experiência de famílias de crianças com Insuficiência Renal Crônica. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v.62, n.1, p. 100-6, 2009. VISONÁ, F.; PREVEDELLO, M.; SOUZA, E. N. Câncer na família: percepções de familiares. Revista de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, v. 2, n.1, p. 145-155, 2012. 6