MANEJO INTEGRADO DE CUPINS



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Transcrição:

1 MANEJO INTEGRADO DE CUPINS Os cupins são insetos sociais que apresentam castas reprodutoras e não reprodutoras, vivendo em colônias permanentes chamadas de termiteiros ou cupinzeiros. São mastigadores e se desenvolvem por paurometabolia (ovo-ninfa-adulto), constituindo importante grupo de insetos daninhos às pastagens. Os indivíduos alados (reprodutores) possuem dois pares de asas membranosas semelhantes, daí o nome da ordem (Iso = igual; ptero = asa). As asas possuem uma sutura basal característica, a qual favorece a sua queda, após a revoada, sobrando, adjacente ao corpo do inseto, uma escama, importante na taxonomia dos cupins (Figura 1A). Os operários e soldados dos cupins possuem uma depressão com poro frontal na cabeça, denominada fontanela, que é ligada a uma glândula cefálica, e expele um líquido viscoso e espesso, com função de defesa. Outra característica importante de insetos dessa ordem é a associação mutualística entre o inseto e protozoários (Filo Mastigophora, Classe Hypomastigina) ou bactérias, que se localizam no intestino do mesmo, sendo responsáveis pela digestão do material celulósico ingerido pelo inseto. Os indivíduos adultos dos cupins podem ser de duas categorias: reprodutores: sexuados alados ou ápteros estéreis: operários e soldados Anualmente (entre agosto e outubro), ocorre nas colônias de cupins um fenômeno conhecido como revoada, caracterizado pelo surgimento dos indivíduos reprodutores alados (siriris ou aleluias). Após a cópula, os machos e fêmeas, agora ápteros, tornam-se reis e rainhas, e são responsáveis pelo estabelecimento de um novo ninho. A ordem Isoptera apresenta cerca de 2000 espécies em nível mundial, sendo que no Brasil, ocorrem três famílias: Kalotermitidae: cupins sem fontanela, que atacam madeira seca; não apresentam operários; os principais gêneros são Cryptotermes, Neotermes e Rugitermes; Rhinotermitidae: cupins com fontanela e escamas alares grandes; não apresentam dentes basais na mandíbula; constroem ninhos subterrâneos, atacando plantas vivas e madeira morta; os principais gêneros são Coptotermes e Heterotermes; Termitidae: cupins com fontanela e escamas pequenas; apresentam dentes basais mandibulares desenvolvidos; constroem diferentes tipos de ninhos e possuem

2 hábitos variados; os principais gêneros são Cornitermes, Nasutitermes, Syntermes e Anoplotermes. A. ASPECTOS BIOECOLÓGICOS O cupinzeiro típico é constituído das seguintes partes: Endoécia ou câmara nupcial: é a câmara onde vive o casal real e onde são depositados os ovos; Periécia ou canais de comunicação: são as galerias periféricas que se comunicam com o exterior e com as fontes de alimento; Paraécia ou bolsas de manutenção climática: é o espaço que existe entre o cupinzeiro e o solo que o circunda, destinado à manutenção de umidade e temperatura constantes no interior do ninho; Câmara de celulose: é o local onde é depositada matéria orgânica e criadas as formas jovens, constituindo a maior parte do ninho. Os cupins podem construir vários tipos de ninhos, como galerias e câmaras simples (cupins de madeira seca), ninhos subterrâneos (cupim-de-terra-solta), ninhos arborícolas (túneis cobertos) ou de montículos ("murunduns") (Figura 2A). B. CASTAS DE CUPINS As chamadas castas dos cupins, assim como em todos os insetos sociais (formigas, abelhas, etc.) são divisões morfo-fisiológicas dos indivíduos da colônia de acordo com sua função na sociedade (Figura 3). A origem das castas pode ser explicada por duas teorias básicas. A primeira recorre a uma questão hereditária, ou seja, na fase embrionária da blastogênese se daria a definição da casta a que pertenceria o indivíduo. A segunda teoria baseia-se em questões nutricionais, ou seja, insetos que, na fase de ninfa, recebem alimento proctodeal, contendo saliva, teriam uma inibição na permanência de protozoários no intestino, o que daria espaço para o desenvolvimento normal do aparelho reprodutor, originando as formas reprodutoras (aleluias). O mais óbvio seria supor uma conjunção dos fatores genéticos e nutricionais (Figura 3A).

3 Castas Temporárias (alados e sexuados) Permanentes (ápteros sexuados e assexuados) Fêmeas e Machos (aleluias) Sexuados Assexuados Reprodução sexuada da colônia Rainha e rei Rainhas e reis de substituição Soldados Operárias Reprodução sexuada da colônia Produção de ovos Substituem o casal real quando morrem Defendem a colônia Cuidam da prole, forrageiam alimento e constroem o ninho C. FORMAÇÃO DA COLÔNIA DE CUPINS A formação da colônia de cupins inicia-se com a revoada ou enxameagem, como acontece com as formigas. Os alados, conhecidos como siriris ou aleluias, são formados em grande número alguns meses antes da revoada. A época de revoada varia de agosto a outubro e acontece sempre no crepúsculo de dias claros e tardes nubladas e de alta umidade do ar. Os adultos alados voam do ninho e caem no solo, arrancam as asas e procuram um parceiro sexual para formarem um casal. Os cupins não copulam durante o vôo, como acontece com formigas e abelhas. Após a formação do casal real, eles procuram um local adequado e iniciam a escavação do cupinzeiro, que se inicia com uma galeria e termina numa câmara nupcial, onde o casal vai copular e iniciar as posturas. Cerca de um mês após, aparecem as primeiras formas jovens, que serão criadas pelo casal real.

4 Após algum tempo estas formas jovens começam a se locomover e passam a desempenhar todas as funções da colônia, exceto a procriação. O abdome da rainha cresce extraordinariamente, chegando a ter duzentas vezes o volume do resto do corpo (fisiogastria), devido à produção de grande número de ovos. O número de ovos postos por dia varia entre as espécies, podendo ser de 12 a 7000/dia. O cupinzeiro cresce rapidamente, podendo ter milhões de indivíduos, e inicia o processo de revoada, fechando o ciclo. A rainha pode viver 10 anos e as rainhas de substituição por 25 anos. A colônia pode ser formada também através da fragmentação de uma colônia adulta, por quebra natural ou provocada por animais ou o homem. Isso ocorre porque em uma colônia adulta existem os reis e rainhas de substituição que servem para tomar o lugar do rei ou rainha quando estes morrem, por isso que não se deve quebrar um cupinzeiro antes de matá-lo, pois isso irá multiplicá-los. C. COMPORTAMENTO ALIMENTAR Os cupins podem consumir vários tipos de alimento como húmus, madeira, vegetais vivos, couro, lã, matéria orgânica etc., graças à simbiose que apresentam com bactérias e protozoários, que possuem enzimas capazes de digerir estes produtos em substâncias assimiladas pelos cupins. Como estes organismos vivem no aparelho digestivo dos cupins, eles são eliminados durante o processo de muda e, portanto, após cada ecdise os cupins devem receber novos organismos simbiontes. Para que isso ocorra, os cupins desenvolveram o comportamento de trofalaxia (troca de alimentos entre indivíduos), que pode ser pela boca (alimento estomodeico) ou pelo ânus (alimento proctodeico). Este comportamento e o de canibalismo, que é acentuado, são muito importantes no controle de cupins. Além disso, há um comportamento típico, conhecido como "grooming" (= limpeza), através do qual os indivíduos lambem-se uns aos outros. Esse mecanismo parece funcionar como forma de comunicação, mas, principalmente, agindo na eliminação de partículas estranhas ou patógenos que podem causar doenças em indivíduos de uma colônia, e também deve ser considerado quando da introdução de algum agente de controle destes insetos.

5 D. GRUPOS DE IMPORTÂNCIA Heterotermes tenuis e Heterotermes longiceps (Rhinotermitidae) Características: ninho subterrâneo e difuso; operários pequenos, esbranquiçados, de aspecto vermiforme; Prejuízos: provocam tunelamento das estruturas das plantas, como raízes, colo e caule; causando perda do poder germinativo e prejudicando o desenvolvimento das plantas. Cornitermes cumulans e Cornitermes bequaerti (Termitidae) Características: ninhos em montículos; formato variado; 50 a 100 cm de altura; câmara externa de terra cimentada com saliva, de 6 a 10 cm de espessura; parte interna de celulose e terra, menos dura, com galerias horizontais superpostas e separadas por paredes verticais, revestidas por camada escura; Prejuízos: ocupam espaço na cultura, dificultando os tratos culturais e o manejo (dependente do nível de tecnologia adotado). Com relação ao consumo de plantas, é mais importante na fase inicial da cultura, quando pode reduzir o estande. Quando já estabelecida, o cupim-de-montículo causa pouco dano, surgindo recentemente o conceito de que ele é uma "praga estética" (aspecto visual desagradável ao produtor). Syntermes molestus, Syntermes obtusus e Syntermes insidians (Termitidae). Características: ninhos subterrâneos com pequenas câmaras semelhantes aos de formigas "lava-pés"; há comunicação entre as câmaras, e entre estas e o exterior, por meio de canais estreitos e tortuosos, que se abrem como "olheiros", num diâmetro de cinco e oito centímetros na superfície do solo, principalmente à noite; Prejuízos: exercem o forrageamento da cultura, cortando as plantas ao nível do colo, causando um ataque em reboleiras, e prejudicando a rebrota; também atacam a raiz da planta, causando aspecto de secamento.

6 E. ESTRATÉGIAS E TÁTICAS DO MANEJO DE CUPINS - Táticas de Controle Cultural Adubação: plantas bem nutridas apresentam maior resistência ao ataque de cupins. Época de plantio: fazer o plantio em época chuvosa para acelerar o desenvolvimento das plantas e escapar da fase de danos por cupins. - Táticas de Controle Biológico O controle não químico envolve métodos que visam, sem o uso de inseticidas comerciais, prevenir contra o acesso de cupins às plantas, reduzir o número de cupins na vizinhança das mesmas e diminuir a suscetibilidade ou aumentar a resistência das plantas a esses insetos. Desta forma a utilização de fungos entomopatogênicos no controle de cupins, tem-se mostrado altamente promissor. A estratégia para controle biológico de cupins é a introdução inundativa, cujo objetivo é a aplicação de uma grande quantidade de fungos sobre os insetos, eliminando a oportunidade para que estes se defendam por meios físicos, químicos ou comportamentais. O controle de cupins de montículo é feito com uma polvilhadeira usada para aplicação de formicida, adaptada com um câmara na mangueira de descarga para melhorar a distribuição do fungo dentro do ninho. - Táticas de Controle Químico Tratamento do cupinzeiro: no caso de cupins de montículo, que são facilmente encontrados, pode-se fazer o combate diretamente nos ninhos, bastando perfurar o montículo com uma lança de ferro e aplicar o inseticida com auxilio de uma mangueira acoplada a um funil. Fazer o combate dos cupins de montículo de 30 a 60 dias antes do preparo do solo. Não é necessário tampar o orifício após a aplicação do produto.

7 Grupo químico Nome técnico Nome comercial Dosagem Nitroguanidinas imidacloprid Confidor 700 GRDA 30 g/100l água - 1 l calda/ninho Organofosforado fenthion Lebaycid 500 300 ml/100 l água - 1 l calda/ninho Fenil pirazol fipronil Tuit NA 5 g/ninho Se forem encontrados cupinzeiros do gênero Syntermes (cupim subterrâneo) pode-se combatê-los diretamente através da aplicação de inseticidas em pó semelhante à aplicação de formicidas. Porém existem poucos produtos registrados e os ninhos são profundos e difíceis de serem localizados, o que dificulta esse tipo de combate. Tratamento das plantas: no caso de cupins subterrâneos, que são dificilmente encontrados, pode-se fazer o combate preventivo através do tratamento das plantas antes ou após o plantio, imergindo-as ou regando-as com calda química, ou aplicando a calda sobre a planta no sulco de plantio. Para o combate pré-plantio, pode-se fazer um levantamento das populações de cupins para verificar a necessidade desse tratamento preventivo: 1 o - plantar em vários pontos da área algumas mudas e avaliar a percentagem de dano 2 o - se atingir o nível de controle (3% de mudas atacadas) 3 o - fazer o tratamento químico preventivo das mudas no viveiro ou próximo ao talhão. Grupo químico Nome técnico Nome comercial Dosagem Fenil pirazol fipronil Tuit NA Fenil pirazol fipronil Tuit NA Imersão: 500 ml/100 l água imergir as mudas na calda por 30 s. Proteção de 6 meses Pulverização: 250 ml/100 l água - pulverizar as mudas no coleto. Proteção de 6 meses

8 Tratamento com iscas atrativas: pode-se usar iscas atrativas (papel cartonado ou outro material celulósico) impregnadas com fungos entomopatogênicos e inseticidas estressores (imidacloprid) em concentrações subletais. Esse tipo de tratamento encontrase em fase experimental, não sendo utilizado ainda comercialmente.