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Transcrição:

DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE: A LEGISLAÇÃO E A EDUCAÇÃO Rosângela Francischini 1 Resumo O objetivo deste artigo é apresentar uma reflexão sobre os Direitos da Criança e do Adolescente, considerando seu percurso histórico na legislação do Brasil e suas relações com a Educação. Optou-se, então, por traçar esse percurso histórico tendo por eixo central três aspectos: o Direito da Criança e do Adolescente a partir da legislação destinada a essa parcela da população, o direito à Educação e suas implicações e, por fim, a Escola e sua inserção no Sistema de Garantia desses direitos. Os dois primeiros aspectos serão apresentados conjuntamente. A promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, marco legal na garantia desses Direitos, encerra a discussão, destacando-se a inserção dos professores e demais agentes da escola nessa questão. Palavras-chave: Crianças e Adolescentes. ECA. Educação. Abstract The objective of this article is to raise a reflection on the Rights of Children and Adolescents, considering its historic route in the Brazilian legislation and its relationships with Education. The construction of this historic route was based on three aspects: the rights of children and adolescents from the point of view of a legislation addressed to this part of the population, the right to Education and its implications and, finally, the School and its insertion in the System of Guarantee of these rights. The first two aspects will be presented together. The promulgation of the Statute of Rights of Children and Adolescents, a legal mark in the guarantee of these rights, finishes the discussion, enhancing the insertion of teachers and other school agents in this issue. Keywords: Children and Adolescents. Statute of Children and Adolescents. Education. 1 Doutora em Linguística. Endereço: Rua Ismael Pereira da Silva, 1733, apto 202. Bairro Capim Macio. CEP 59 082-000. Natal RN

Rosângela Francischini SOBRE DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE E SOBRE O DIREITO À EDUCAÇÃO mar 2010/ago 2010 30 As condições relacionadas aos Direitos da Criança e do Adolescente no Brasil respondem, dentre outros determinantes, ao(s) conceito(s) de infância que foi(foram) sendo tecido(s) nesse percurso, determinado(s), por sua vez, pelas condições sócio-históricas e pelas práticas discursivas que perpassam essas condições. Assim, considerando os limites deste trabalho, iniciamos com o discurso jurídico, refletido no primeiro Código de Menores, de 1927, também conhecido como Código Mello Mattos, em decorrência de ter sido idealizado pelo Juiz José Cândido de Albuquerque Mello Mattos. Conforme o próprio nome já sinaliza, seu objetivo é o atendimento do menor abandonado ou delinquente e não aos filhos de família, que eram regidos pelo Código Civil. O artigo 26 do referido Código assim define a condição Menor: (...) Consideram-se abandonados os menores de 18 anos: I- Que não tenham habitação certa nem meios de subsistência, por serem seus pais falecidos, desaparecidos ou desconhecidos ou por não terem tutor ou pessoa cuja guarda vivam. II- Que vivam em companhia de pai, mãe, tutor ou pessoas que se entreguem, habitualmente, à prática de atos contrários à moral e aos bons costumes. III- Que se encontrem em estado habitual de vadiagem, mendicância ou libertinagem. IV- Que frequentem lugares de jogo ou de moralidade duvidosa ou andem na companhia de gente viciosa ou de má vida. V- Que, devido a crueldade, abuso de autoridade, negligência ou exploração dos pais, tutor ou encarregado de sua guarda, sejam: a) vítimas de maus-tratos físicos e habituais ou castigos imoderados: b) privados habitualmente dos alimentos ou dos cuidados indispensáveis a saúde. c) excitados habitualmente para gatunice, mendigagem ou libertinagem. (Brasil, 1927). Observa-se, dessa forma, igualdade de tratamento jurídico aos menores carentes e abandonados e aos chamados delinquentes. Em relação à Educação, o referido Código não a trata como Direito Fundamental e faz referências esparsas a esse direito, relacionando-o à vigilância/controle social da população considerada Menor acima descrita. Assim, a educação destinada a essa população era contemplada nas Escolas de Preservação e Escolas de Reforma. A primeira, regulamentada pelo art. 199 do Código de Menores, destinava-se às meninas e a dar-lhes educação física, mo-

ral, profissional e literária e, a segunda, pelo Art. 204, destinada aos meninos, visando a regenerar pelo trabalho, educação e instrução os menores de mais de 14 anos e menos de 18, que forem julgados pelo juiz de menores e por este mandados internar. (Ferreira, p. 44). Para ambas, a legislação estabelece os recursos humanos e as matérias necessárias para seu funcionamento. Alterações do Código Mello Mattos e novas legislações relacionadas às crianças e adolescentes foram comparecendo na história do atendimento dessa população, no Brasil. No entanto, no intuito de destacar os marcos mais significativos, abordamos, a seguir, a Lei nº 6.697, de 10.10.1979, que estabeleceu o Código de Menores. De abandonados ou delinquentes, a população de crianças e adolescentes em situação de pobreza, de abandono e de envolvimento com atos infracionais passa a ser denonimada em situação irregular, considerando a Doutrina da Proteção ao Menor em Situação Irregular, que sustenta o referido Código. Assim como no Código anterior, o Código de 1979 destina-se a uma parcela da população de crianças e adolescentes, àqueles considerados em situação irregular. Da mesma forma, temos aqui, também, a caracterização dessa população, qual seja: Art. 2º. Para efeitos deste Código, considera-se em situação irregular o menor: I privado de condições essenciais à sua subsistência, saúde e instrução obrigatória, ainda que eventualmente, em razão de: a) falta, ação ou omissão dos pais ou responsável; b) manifesta impossibilidade dos pais ou responsável para provê-las; II vítima de maus- -tratos ou castigos imoderados impostos pelos pais ou responsável; III em perigo moral, devido a: a) encontrar-se, de modo habitual, em ambiente contrário aos bons costumes; b) exploração em atividade contrária aos bons costumes; IV privado de representação ou assistência legal, pela falta eventual dos pais ou responsável; V com desvio de conduta, em virtude de grave inadaptação familiar ou comunitária; VI autor de infração penal. (Brasil, 1979). Nessa nova legislação, referências à Educação comparecem no artigo 9, parágrafo dois, que determina que A escolarização e a profissionalização do menor serão obrigatórias nos centros de permanência, e no artigo 11, que estabelece que Toda entidade manterá arquivo das anotações a que se refere o parágrafo 3 do artigo 9º desta Lei, e promoverá a escolarização e a profissionalização de seus assistidos, preferentemente em estabelecimentos abertos (Brasil, 1979). 31 Direitos da Criança e do Adolescente: a Legislação e a Educação mar 2010/ago 2010

Rosângela Francischini Não se trata, pois, de reconhecimento de um dos direitos fundamentais do ser humano, o Direito à Educação. Tampouco as referências que se observam nos artigos acima citados (9 e11) tiveram regulamentação posterior. DE ABANDONADO, DELINQUENTE, EM SITUAÇÃO IRREGULAR À SUJEITO DE DIREITOS A CONSTITUIÇÃO DE 1988 E O ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. mar 2010/ago 2010 32 A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 227, estabelece que: É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. (Brasil, 1988) (grifo nosso). Para que o referido artigo fosse regulamentado e tivesse aplicabilidade, a organização de setores do Estado e da sociedade civil possibilitou a elaboração do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), promulgado em 13 de julho de 1990. Três princípios fundamentam a Doutrina da Proteção Integral, inaugurada pelo ECA. São eles: 1.) crianças e adolescentes são sujeitos em condição peculiar de pessoa em desenvolvimento; 2.) crianças e adolescentes são sujeitos de direito; 3.) Crianças e adolescentes são destinatários de absoluta prioridade. Portanto, a legislação em questão aplica-se a todas as crianças e adolescentes e não somente a uma parcela reduzida dessa população, como observado nos dois Códigos de Menores anteriores. No que diz respeito ao direito à Educação, grifado por nós acima, referido no artigo 227 da Constituição Federal, o ECA representa a garantia dos meios legais para que esse direito (e outros) possa ser efetivado. O Capítulo IV do referido Estatuto, artigos 53 a 59, é dedicado especificamente à Educação, à Cultura, ao Esporte e ao Lazer. Assim, o ECA estabelece que A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho. (Bra-

sil, 1990). Os incisos de I a V do artigo 53 especificam, ainda, que crianças e adolescentes têm igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; direito de ser respeitado por seus educadores; direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias escolares superiores; direito de organização e participação em entidades estudantis; acesso à escola pública e gratuita próxima de sua residência (Brasil, 1990). Alguns desses direitos, como apontado por Ferreira (2008), são contemplados pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Lei nº 9.394/96. O inciso II faz referência ao artigo 17 do ECA, que afirma que O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais. (Brasil, 1990). Mas, como bem observa Ferreira, o preparo para o exercício da cidadania, um dos princípios da Educação apontados acima, implica em educar para se reconhecer os direitos (civis, políticos e sociais) e os deveres, como parte da formação do sujeito. O autor citado recorre a Bobbio, cientista político italiano, para afirmar que A figura do direito tem como correlato a obrigação. (Bobbio, 1992: 80, citado por Ferreira, 2008: 60). Ainda segundo Ferreira, um dos papéis da escola centra-se nesta questão, ou seja, de contribuir para que o aluno-cidadão tenha ciência de seus direitos e obrigações, sujeitando-se às normas legais e regimentais, como parte de sua formação. (Ferreira, 2008, p. 59-60) Assim, Constituição Federal, ECA e LDB, ao afirmarem que crianças e adolescentes são sujeitos de Direito, pensando os direitos fundamentais como cerne da proteção integral dessa população, e ao reconhecerem neles a condição de cidadãos, desencadearam discussões sobre o trabalho do professor diante desse novo aluno. Olhar esse novo aluno posiciona a Escola como responsável pela educação de crianças e adolescentes, o que não se resume ao processo ensino-aprendizagem. Assim, essa alteração social, política e legislativa, atinge a escola como um todo e, em especial, a formação do educador. Este tem diante de si, a partir do que a Lei regulamentou, uma condição diferenciada, que se traduz em dois aspectos: 1.) a cidadania infanto-juvenil, ou seja, o aluno-cidadão (Ferreira, 2009); 2.) de estar entre os responsáveis pela formação para o exercício da 33 Direitos da Criança e do Adolescente: a Legislação e a Educação mar 2010/ago 2010

Rosângela Francischini mar 2010/ago 2010 34 cidadania. Não se trata de se recorrer a uma disciplina específica para ensinar cidadania, como se isso fosse possível e suficiente por si mesmo. (...) Envolve um projeto maior, um programa completo e complexo, em que o professor é o principal referencial e, neste caso, sua formação como intelectual crítico reflexivo é de extrema importância, já que a sua ação deve estar voltada para este objetivo referente à cidadania. (Ferreira, 2009: 102) Esse apontamento, na verdade, responde a uma discussão mais ampla, em que, como aponta Pereira (2004), a educação de crianças tem cada vez mais se articulado com a questão da formação do cidadão (o sujeito útil) e com o desenvolvimento da autonomia do sujeito, tudo isso com o aval da crença de que o conhecimento disponibilizado pelo currículo escolar é a mola propulsora da emancipação dos sujeitos rumo à cidadania. (...). O discurso da cidadania é bastante sedutor e vem se configurando ao longo dos tempos como discurso universal normatizado. É importante que o coloquemos em questão, ou seja, convém que indaguemos a respeito de quem profere tal discurso e de que lugar profere, considerando que a cidadania reivindicada pelas massas populares é uma, a cidadania defendida pelas instâncias governamentais e a cidadania do mundo econômico são outras, e assim por diante. As cidadanias proclamadas ao longo dos tempos podem guardar resquícios umas das outras, além de se atualizarem conforme os contextos históricos os quais atravessam. Assim, a criança, sendo incorporada nos projetos de cidadania que se atualizam, também passa a ser concebida no seu enlaçamento com as próprias noções de cidadania. Tais projetos são arquitetados, por excelência, no âmbito da educação escolar. É lá que a educação das crianças se articula com a cidadania, como se a escola fosse o único espaço capaz de produzir o cidadão. Só que essa cidadania não é uma cidadania qualquer; ela é contextualizada. (Pereira, 2004: 36). Assim, embora espaço por excelência onde se circunscrevem as principais responsabilidades na formação do cidadão, a escola não é o único espaço onde esse exercício pode ser posto em prática. Igualmente, está inserida em contextos sócio-histórico- -culturais específicos; suas ações, portanto, não podem ser pensadas destacadas desses contextos. Uma outra questão ainda se coloca, diante dessa nova configuração da Escola como um todo: a da sua inserção no Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente. O Art. 56

do ECA estabelece que Os dirigentes de estabelecimento de ensino fundamental comunicarão ao Conselho Tutelar os casos de: I maus-tratos envolvendo seus alunos; II reiteração de faltas injustificadas e de evasão escolar, esgotados os recursos escolares; III elevados níveis de repetência. (Brasil, 1990). Em outro contexto, o mesmo Estatuto estabelece as sanções, em casos de descumprimento do art. 56. Assim, professores ou responsáveis por estabelecimento de ensino que deixam de comunicar os casos de violência ou suspeita de violência de crianças e adolescentes de que tenham conhecimento, estão sujeitos à multa de 3 (três) a 20 (vinte) salários de (referência). Em relação a essa questão, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA), através da Resolução nº 112, de 27/03/06, traçou parâmetros para a formação continuada de atores do sistema de Garantias dos Direitos da Criança e do Adolescente, em todos os níveis desse sistema. Conforme apontado em outro trabalho (Francischini e Souza Neto, 2007), faz-se necessária uma definição da continuidade e da progressividade do processo formativo, sempre objetivando o aprofundamento dos conteúdos, respeitadas e incorporadas as realidades, especificidades e diversidades regionais, possibilitando uma visão crítica da realidade e contextualização político-sócio- -econômica do fenômeno da violência, com o intuito de qualificar as intervenções dos educandos, não apenas para identificar e providenciar respostas para as variadas situações de violências, mas sobretudo para facultar a construção de uma consciência crítica e provocar o compromisso como a proteção integral das crianças e adolescentes (Francischini e Souza Neto, 2007, p. 249) Nessa linha da Resolução nº 112, o MEC, através da SE- CAD (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade) vem, através do Projeto Escola que Protege, promovendo formação de professores e demais profissionais de educação, para que os mesmos possam identificar e encaminhar devidamente os casos de violência sofridos por seus alunos - crianças e adolescentes, nos mais diversos contextos de desenvolvimento. Assim, o envolvimento da comunidade escolar, somando-se a outros diversos e estratégicos atores sociais implicados com a questão, é fundamental, considerando que uma política eficiente no enfrentamento da violação dos Direitos de Crianças e Adolescentes passa, necessariamente, 35 Direitos da Criança e do Adolescente: a Legislação e a Educação mar 2010/ago 2010

Rosângela Francischini pelo envolvimento dos atores da chamada Rede de Garantia desses direitos. A Escola, assim, além de atuar no eixo da Promoção dos Direitos, atua, igualmente, na proteção daqueles sujeitos que têm esses direitos violados. REFERÊNCIAS BRASIL. Código de Menores de 1927. Decreto n 17.943 A, de 12 de outubro de 1927. BRASIL. Código de Menores de 1979. Lei n º 6.697, de 10 de outubro de 1979. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de Dezembro de 1988. BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei 8.069/90, de 13 de julho de 1990. CONANDA. Parâmetros para Formação Continuada de Atores do Sistema de Garantias dos Direitos da Criança e do Adolescente. Secretaria Especial dos Direitos Humanos Brasília-DF, 2006. FALEIROS, V. Formação de educadores (as): subsídios para atuar no enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes. Brasília: MEC/SECAD; Florianópolis: UFSC/SECAD, 2006. FERREIRA, Luiz Antonio Miguel. O Estatuto da Criança e do Adolescente e o Professor reflexos na sua formação e atuação. São Paulo: Cortez Editora, 2008. FRANCISCHINI, R. e SOUZA NETO, M.O. Enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes: Projeto Escola que Protege. Revista do Departamento de Psicologia UFF Vol. 19, N. 1, p. 243-251. Jan/ Jul 2007. PEREIRA, A. M. A. (2004). A infância no âmbito do discurso dos Parâmetros Curriculares Nacionais. Dissertação (Mestrado em Psicologia), Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal. Data de recebimento: Março 2010 Data de aceite: Maio 2010 mar 2010/ago 2010 36