Paranóia A Clínica do Real João Ezequiel Grecco Prosseguindo no que tenho pesquisado, no Mestrado fiz da análise e leitura do sintoma da paranóia articulações na abordagem psicanalítica de Victor Tausk. O aparelho de influenciar aspecto do delírio, salvaguardado das condições defensivas, pode ser explorado na exposição de um caso clínico. Agora retomo o mesmo tema, isto é, a paranóia buscando das pontuações teóricas interpretativas pertinentes e elaboradas por Freud, e os traços da foraclusão do campo lacaniano, novos rumos a que pretendo abordar: paranóia e a clínica do real. O que estou propondo nesse texto preliminar é uma discussão dos aspectos clínicos que concerne às condições da transferência e da interpretação. A clínica da psicose em especial da paranóia esmera-se em desafios e posições de realce no que tange à postura do manejo das condições do delírio e o lugar que o analista passa a ocupar. Não devemos recusar a esta clínica, dito de Lacan. As condições que proponho a analisar verte-se de cuidados e certo estado de humor, não só no manejo da transferência, mas as condições da interpretação. Para ir ao encontro da minha proposição, tomo como referência os argumentos de Freud em seu texto maior a respeito: o caso Schreber. Do relato descrito por Freud existe uma preocupação em estabelecer parâmetros do que faz jus ao que cabe a neurose e a paranóia. Sua investida em analisar o caso Schreber, decorre das descrições que o paciente relata em seu depoimento e das informações do Dr. Weber - referente à sua segunda crise paranóica, que culmina com sua crença de ter
uma missão de beatitude - isto é, as condições para a interpretação do delírio que é acometido o paciente. Freud condiciona que as manifestações do delírio persecutório do paranóico é furto de defesas contra as fantasias homossexuais. O que esta em jogo na proposta de Freud, na análise do caso Schreber não só o divisor de água entre a manifestação da neurose e da psicose, mas também o que concerne à figura do masculino. As tentativas de uma intervenção interpretativa do delírio Eu não o amo Eu o odeio, caracteriza-se pela persecutoriedade do sentimento de fantasia vertida na homossexualidade, o que às vezes possa a contar com outras formas de delírio como o da grandeza (megalomania). A isso posso complementar com Freud: A proposição eu (um homem) o amo é contradita por: Delírios de perseguição, pois eles ruidosamente asseveram: Eu não o amo Eu o odeio. Esta contradição, que deve ser enunciada assim no inconsciente, não pode, contudo tornar-se consciente para um paranóico sob essa forma. O mecanismo de formação de sintomas na paranóia exige que as percepções internas sentimentos sejam substituídas por percepções externas. Freud (2002, p 77,78) As condições para o desencadeamento dos estados psicóticos e em especial a paranóia, vincula-se ao processo evolutivo da libido, onde as condições da descoberta e escolha do objeto serão de tal ordem para as manifestações da projeção e identificação. Em um primeiro momento as escolha recai no corpo e se alimenta de todo potencial do prazer que essa etapa do narcisismo primário cabe. Na oportunidade de mirar em outro objeto amoroso e do prazer, a condição evolutiva da libido interrompe sua jornada, com se abrisse uma fenda, uma situação traumática (Grecco, 2005).
Freud toma esse mesmo caminho frente às condições da evolução da libido, o que reafirmamos que o trauma inserido nesse estádio da evolução não encontra qualquer veio que possa ser da representação ou do significante, o que estamos dizendo que o hiato, o vazio, o que não há palavras ira se constituir em condição de uma mudança na percepção do objeto, já que não é da ordem do recalque o que é que vai valer nesse momento é a fantasia, a fantasia do delírio da persecutoriedade. Freud substancia assim o que estamos propondo nesse trabalho: Pesquisas recentes dirigiram nossa atenção para um estagio do desenvolvimento da libido, entre o auto-erotismo e o amor objetal. Este estágio recebeu o nome de narcisismo. O que acontece é o seguinte: chega uma ocasião, no desenvolvimento do indivíduo, em que ele reúne seus instintos sexuais (que ate aqui haviam estado empenhados em atividades auto-eroticas), a fim de conseguir um objeto amoroso, e começa por tomar a si próprio seu próprio corpo, como objeto amoroso, sendo apenas subseqüentemente que passa daí para a escolha de outra pessoa que não ele mesmo, como objeto. Freud (2002,p 75) Se ocaso Schreber é a divisão de águas para o entendimento e interpretação do delírio, podemos agora estabelecer que na descrição de Tausk (1990), as condições do processo evolutivo da libido, isto é, da passagem do narcisismo inato ao adquirido, à libido faz a descoberta e escolha do objeto. Nessa fase é que os aspectos evolutivos encontram razões de desequilíbrio, impedimentos inatos ou inadequações frente às manifestações das pulsões. Sendo assim podemos acrescentar que, a proposta de Tausk máquina de influenciar determina um delírio de defesa frente à percepção do que este fora é ameaça fantasias homossexuais não pode ser escolhido pela libido, em razão das condições inadequadas do percurso evolutivo da libido, entre descoberta e escolha do objeto.
A máquina de influenciar é uma forma engendrada pelo paciente em delírio, que se vale para sua construção e sensações e percepções de engrenagem, fio elétrico, sentimento de persecutoriedade de pessoas que atribui como sendo suas inimigas. O paciente tem a sensação que seu corpo esta dividido em partes, não consegue vê-lo por inteiro, tem a sensação que o mesmo cheira mal. Podemos relacionar esses dados com o caso Schreber, sua persecutoriedade passa pelo corpo, é esse que esta putrefato, as víceras estão à mostra. Agora seu médico psiquiatra Dr. Flechsig reúne o que tem de pior em uma criatura, Schreber o abomina, antes havia uma idolatria seu médico esta no delírio, era uma forma de protegê-lo agora é percebido fora, e reveste-o como uma ameaça. Seu delírio passa a ser do místico uma salvalgarda dos impulsos homossexuais Eu não o amo Eu o odeio. As condições da paranóia esta para a psicanálise em dois momentos, Freud o caso Schreber e Lacan no caso Aimée. Se a histeria foi o início das articulações psicanalíticas do inconsciente a paranóia foi à porta de entrada da psicanálise para Lacan. É no advento do campo lacaniano que a psicose é vista não como demência, mas o que se chama de loucura. O Lacan nos oferece é a visão outra do que chamamos manifestações paranóicas. Em primeiro lugar a diferença da estrutura ou da manifestação elementar que aproxima de uma paranóia. Dentro do que estou propondo das condições da transferência e interpretação, cabe salientar que a condição da estrutura é fundamental estar esclarecido, visto que em outras situações pode haver simulações de caráter paranóico e que não fazem parte da estrutura psicótica. Se a condição da exigência da estrutura for atendida para a praxi clínica, Lacan condiciona que o saber é inconsciente.
Podemos argüir de que é esse saber, visto que o que esta em questão é as relações entre o simbólico e o imaginário, sendo o ato no real a única saída que o paranóico encontra, isto é, fazer acting-out. Lacan esclarece: As questões que se colocam passam em revista exatamente as categorias eficazes no nosso campo operatório. É clássico dizer que, na psicose, o inconsciente está à superfície, é consciente. Por isso mesmo não parece que isso tenha grande efeito em ser articulado.nessa perspectiva, bastante instrutiva em sim mesma, pode observar de saída que não é pura e simplesmente, como Freud sempre sublinhou, desse traço negativo de ser um Unbewsst, um não-conciente, que o inconsciente guarda sua eficácia. ( Lacan, p.20) Do que foi exposto até aqui permite sim articular a proposição que cabe, a transferência e a interpretação. Em relação à transferência, o lugar que o analista passa ocupar no imaginário do paciente, o delírio incorpora a figura do analista, ora dentro ou fora do sentido que lhe assevera. A principal característica da produção discursiva dos psicóticos foi teorizada por Lacan que chamou de hológrase da cadeira significante ; que na psicose os significantes não formam cadeia. (Leite). Estas razões impossibilitam o paranóico uma posição frente ao analista, isto é, lugar suposto saber. A causa da psicose dever-se-ia a um acidente - o que vou chamar de trauma (Grecco, 2005) ocorrido na estruturação do Complexo de Édipo, o qual, na opinião de Lacan, seria a ausência do Nome-do-Pai; (Leite) Se o lugar do analista no paranóico fica condicionado a estrutura delirante, o sentido que o paciente articula volta-se contra ele, essa relação de aproximidade e vinculação entre o analista e o paciente torna-se vulnerável
visto que sua forma fantasística pode ser um delírio persecutório e ameaçador, e deve ser evitado. Se as condições transferências esbarram no lugar do suposto saber que estaria colocado o analista, como razão sintomático, no paranóico isso passa ao largo, sem dimensão para articular ou possibilitar o que deveria ser do manejo analítico. O que dizer da interpretação nesse caso fico com a expressão de Lacan em que o que se deve interpretar não são os ditos de um paciente, mas sim o seu dizer. A condição de um dizer interpretativo vincularia ao que poderíamos produzir na pontuação, no corte, pela condição da alusão, ou equívoco, e pelo enigma. Finalizando posso concluir que a clínica da psicose, em especial da paranóia confronta-se com o conceito que esclarece. A foraclusão é o nome da fratura do estar fora, esse fora que inclui o psicanalista que tem a pretensão de fazer a escuta e não fugir da clínica da psicose..
Bibliografia Freud, S. O Caso Schreber Notas Psicanalíticas de um Relato Autobriográfico de um Caso de Paranóia (Dementia Paranoides), Imago Editora, RJ, 2002. Lacan, J. Seminário 3 As Psicoses, Jorge Zahar Editores, RJ, 1988. Leite, M.P.S. Psicanálise Lacaniana Cinco seminários para analistas kleinianos, Editora Iluiminuras, S.P., 2000. Grecco, J.E. A Paranóia e o Aparelho de Influenciar, - Dissertação de Mestrado, PUC, SP, 2005. Rabinovitch, S. A Foraclusão, Jorge Zahar Editores, RJ.2001.