A festa e a comensalidade no Candomblé

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Transcrição:

A festa e a comensalidade no Candomblé Marielys Siqueira Bueno Ursulina Maria Silva Santana 1 Resumo: Este trabalho pretende apontar alguns aspectos da origem do Candomblé. Dentre elas estariam as dificuldades, sofrimentos e adversidades que os levaram a buscar, nos parceiros de cativeiro, a formação de relações internas de cooperação. Esse movimento foi gradativamente se fortalecendo dando-lhes um sentimento e uma identificação de coletividade. Na dispersão das nações africanas, os escravos levaram fragmentos da sua cultura que estavam, no entanto, dissociados das suas instituições. Por isso, a sociedade afro-brasileira e o Candomblé enquanto uma de suas manifestações, só puderam se constituir através de um processo de acomodação dessas múltiplas culturas. No Candomblé a festa tem um lugar de destaque a ponto de ser considerada como sua Mara distintiva. Na festa do Candomblé os deuses entram em cena e incorporam seus eleitos e todos brincam, dançam e se divertem e através da comensalidade se dilui a fronteira entre o profano e o sagrado. Palavras-chave: Origem do Candomblé. Festa do Candomblé. Comensalidade. Profano. Sagrado Considerações iniciais Quando eu era criança, minha família era muito pobre. Nós não tínhamos nem o que comer em casa. Então, nos fins-de-semana a gente ia pro candomblé. Lá tinha música, tinha dança, roupas bonitas, brilhantes. Lá tinha comida! O candomblé era a única coisa bonita na minha vida. A única beleza. Então eu fiquei (Roberto de Oxum). Música, ritmo, cores, iguarias, devoção, encantamento... o espetáculo do candomblé. Todos aqueles que se empenham em estudar, descrever ou entender o candomblé, dão à festa um lugar de destaque a ponto de considerá-la a sua marca distintiva. E no dizer de Rita Amaral (2002, p.55) uma festa de candomblé só tem fim quando outra começa. Fernanda Áreas Peixoto (2005, p.11), ao prefaciar O Candomblé da Bahia de Roger Bastide, relata: Bastide não se cansa de descrever o movimento e a alegria das gentes se 1 Universidade Anhembi Morumbi. E-mail: sulasantana@uol.com.br

preparando para os festejos e celebrações, a loucura divina que toma conta das ruas, a sensualidade das danças e ritmos. As características do Candomblé de hoje é resultado de um processo longo, doloroso, de rupturas, incorporações, transformações e adaptações num movimento antropofágico que se iniciou na noite da escravidão e resultou numa construção identitária. A trajetória de povos africanos, trazidos como escravos começa com um desenraizamento total pois representou uma perda não só da liberdade mas, principalmente, dos vínculos familiares e sociais. A dor, a solidão e o sofrimento vão, então, os impulsionar a buscar nos parceiros de cativeiro relações internas de cooperação e de alianças. Inevitavelmente encontraram, também, nesses movimentos, a dificuldade de conciliar as diferenças étnicas, lingüísticas e tribais. Mas, apesar dos obstáculos e adversidades da sua condição de escravos, novos grupos mais amplos foram ganhando um sentimento de identidade e, conseqüentemente, surgia gradativamente uma autoconsciência coletiva. Foi importante o papel das matrizes religiosas para o fortalecimento desses movimentos. Parés (2006, p.78) relata que as associações de caráter religiosos, nas suas congregações e rituais providenciaram formas institucionais para reforçar esse sentimento de comunicalismo e de identificação com uma coletividade. Parés ainda reforça o papel desempenhado por esse sentimento dizendo que os africanos aqui inventaram o conceito de parente nação de maneira que as diferentes identidades étnicas foram aos poucos se limitando ao âmbito dessas práticas religiosas e das congregações organizadas em torno delas (p.101). Nessa dispersão das nações africanas, os escravos levaram fragmentos da sua cultura que estavam, no entanto, dissociados das instituições que os legitimavam. Assim, a sociedade afro-brasileira só pode se constituir com a acomodação dessas múltiplas culturas. Por isso a comunidade religiosa afro-brasileira é resultado desse processo de reconstrução. Ainda Parés (2006, p. 108) nos diz que a reinvenção das religiões africanas ocorreu não só como forma coletiva de resistência cultural, mas, em primeira instância como necessidade para enfrentar o infortúnio ou os tempos de experiência difícil. Esses agrupamentos religiosos formavam, de uma certa maneira, um espaço de sociabilidade dos negros que era aceita e até encorajada pelas classes dominantes.

Houve inicialmente uma proliferação de cultos ou fragmentos de cultos que, gradativamente foram se consolidando e estabelecendo interações entre si e se pode dizer que no início do século XIX formavam uma comunidade religiosa afro-brasileira. Com a consolidação da comunidade ela começou a se organizar em espaços particulares para as práticas religiosas baseadas no que Parés chama de complexo altaroferenda que, em cerimônias públicas, inclui toques de tambor, danças e manifestações de múltiplas divindades no corpo dos seus adeptos. Os participantes dessas práticas religiosas era marcadamente heterogênea reunindo pessoas de vários status escravos, libertos, crioulos, mestiços e brancos. Roger Bastide (2005) diz que os candomblés pertencem a nações diferentes e, conseqüentemente, com tradições diferentes e que é possível distingui-las pela maneira de tocar o tambor, pelas músicas, pelas vestes litúrgicas, às vezes pelos nomes das divindades e por certos traços do ritual. Segundo Rita Amaral (2002) os terreiros estabelecem relacionamentos sociais entre si especialmente por meio de festas dando ênfase na vivência estético-lúdico-religiosa do mundo, convivendo com a ética capitalista pautada no trabalho, consumo, poder. Diz ela que no candomblé o estilo de vida é pautado pelos valores dionisíacos, pela alegria, pelo gosto da música popular, pelas cores fortes, pela dança, pela divinização do homem, pela livre expressão da sensualidade e da sexualidade. As festas para os deuses consomem tempo e dinheiro do povo-de-santo. Essa é uma das características mais importantes do tempo festa tempo suspenso, extraído do cotidiano e no qual o grupo se une, motivados e animados para a preparação da festa tecendo entre eles laços de convivialidade que os mantém coesos e, por esta razão, a festa ocupa uma posição especial em suas vidas. Rita Amaral (2002, p.29) diz que a própria vida dentro do terreiro pode ser pensada como a permanente produção da próxima festa. Assim, a realização de uma festa mobiliza, além das pessoas, uma série de recursos econômicos dentro e fora do terreiro. E porque é preciso e importante ajudar na organização da festa, muita gente faz horas extras no emprego, dobram seus plantões não pelo dinheiro, mas também, para terem tempo livre para o grande dia. Todos querem oferecer algo e ajudar nas tarefas do terreiro. Muitos trabalham durante anos para conseguirem oferecer uma festa de modo mais perfeito possível para honrar seu Orixá.

Na festa do candomblé não pode faltar música, pois é ela que traz os Orixás ao mundo dos humanos. A comida também não pode faltar. Às vésperas da festa os animais que serão oferecidos aos Orixás são sacrificados. Todo cardápio da festa depende do Orixá e são preparadas levando em conta suas recomendações. Cada Orixá tem seu alimento preferido e aqueles interditados por causa de algum acontecimento que fez com que ele passasse por alguma provação. Não existe a possibilidade de haver festa no Candomblé sem comida, e as comidas estão sempre associadas aos Orixás, e são Eles que determinam o que querem comer. As comidas no Candomblé estão carregadas de significados religiosos, são consagradas antes de serem servidas ao público. Tudo será determinado pelo jogo do Ifá e havendo alguma impossibilidade de utilizar determinados ingredientes, o Orixá será consultado novamente através do jogo, para fazer a escolha da substituição. Feitas as escolhas corretas, o terreiro se mobiliza para a compra do material para a festa e para os enfeites necessários para compor o Barracão local onde ocorrerá a Festa Pública. No candomblé a relação entre os homens e as divindades é bem estreita, quase íntima e as festas seguem determinações dadas pelas divindades. Rita Amaral (2002) conta que Pierre Verger, etnólogo francês, pensava que essa relação com as divindades criavam um sentimento de honra e prestígio que passava a permear os sentimentos que iam além dos momentos no terreiro. Diz ele: O candomblé é uma religião de exaltação da personalidade. Ela faz com que as pessoas se sintam honradas. Uma vendedora de acarajé tem prestígio. Compra-se dela com muito respeito porque ela é filha de Oxum, de uma deusa, porque sua deusa baila bem. A gente não se sente humilhado. (Entrevista concedida a Goulart Andrade, apud Rita Amaral, p.47). Na festa do Candomblé os deuses entram em cena e incorporam seus eleitos, dançam majestosamente e todos brincam, dançam e se divertem e juntos compartilham da festa. Poucas pessoas, além do povo-de-santo, dominam o complexo código religioso e o significado do seu ritual, mas, muitos estão lá para assistir o espetáculo sem perguntar pelo significado, pois sabem que ali as divindades estão presentes e sentem satisfeitos por

participarem, de algum modo, desses momentos considerados sagrados e o povo-de-santo adora exibir seus convidados ilustres aos amigos. É nesse caráter comunitário, nos quais todos compartilham da alegria, do prazer e também da preparação, da coleta dos recursos necessários, que o candomblé expressa seu vigor. O jogo de cores, o ritmo encanta, seduz e cria um envolvimento que dilui as fronteiras entre o sagrado e o profano. Esses momentos são marcados pela atitude de acolhimento e hospitalidade, pois a magia e o encantamento são compartilhados também com aqueles que não pertencem ao terreiro. Isabel Baptista (2002) enfatiza a necessidade e importância desses momentos de acolhimento e hospitalidade, pois segundo ela deles surgem à consciência de um destino comum e o sentido de responsabilidade que motiva a ação solidária p.158. No Candomblé, tanto no imaginário individual quanto coletivo, o compartilhar iguarias é um dos fortes símbolos da hospitalidade. Pode-se dizer que a comensalidade guarda um sentido especial de hospitalidade pela atmosfera de confiança, alegria e celebração. Etimologicamente, a palavra comensalidade é formada pela palavra latina mensa e do prefixo cum designando, assim, em sua origem as pessoas que comem juntas. No entanto, cum em sua origem, designava um bolo sagrado, que cortado em quatro pedaços era servido como oferenda aos deuses. Assim, de certa forma, a palavra guarda esse sentido especial de celebração da mesa, através da qual se ritualiza os laços de convivialidade. Jean Jacques Boutaud (2004) diz que podemos, seguramente, arriscar a dizer que uma das formas mais reconhecidas de hospitlalidade, em todas as épocas e em todas as culturas é o compartilhar da mesa, das refeições. E no candomblé, esse compartilhar das iguarias se desdobra no tempo, expande suas dimensões por sacralizar a experiência da vida social e por, através dele, o homem se conecta com o sagrado e, conseqüentemente, deve ser considerada na sua dimensão simbólica horizontal com seus semelhantes e na dimensão vertical pela conexão com seus deuses, portanto unificante e transcendente. Boutaud (2004) diz que comer simbolicamente pode compreender dois níveis. Um primeiro nível é o da incorporação, ou seja, a ingestão de valores ligados aos alimentos; um segundo nível é ligado ao valor simbólico dos laços criados pelo alimento que é consumido em comum, no grupo. A comensalidade, diz ele, opera, assim, sobre os dois níveis pois a natureza dos alimentos age diretamente sobre a natureza dos convivas.

O caráter místico ou mágico que preside a realização dessas festas ritualizadas são, antes de mais nada, um signo da dádiva dos deuses, que ao dividir os alimentos, oferece também sua proteção. Dos deuses para os homens se manifestam à condescendência e também a generosidade. Dos homens para os deuses se manifestam à homenagem e a fidelidade. Ao compartilhar o alimento fortalece-se os compromissos entre os grupos e os Orixás. Ao oferecer os alimentos desejados pelos deuses e comer as partes designadas por eles permite ao grupo ascender à condição de seus filhos e de serem possuídos de todas as qualidades desses deuses. Esse clima favorece a confiança e o abandono e representam, para quem participa deles, os grandes momentos da vida onde se torna visível a rede de solidariedade. As festas públicas de um Terreiro são momentos em que encontramos a representação da socialização pela comida: escolhida pelo Orixá homenageado, fortalecendo a ligação entre os homens, Deuses e a Natureza. Referências AMARAL, Rita. Xirê! O modo de crer e de viver no Candomblé. Rio de Janeiro: Palas, São Paulo: Educ, 2002. BAPTISTA, Isabel. Lugares de hospitalidade. In Dias, Célia Maria de Moraes (org.). Hospitalidade: reflexões e Perspectivas. Barueri: Manole, 2002. BASTIDE, Roger. O Candomblé da Bahia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. BOUTAUD, Jean Jacques. Commensalité: lê partage de la table. In MONTADON, Alain (dir.) Lê livre de l hospitalité. France: Bayard, 2004. PARÉS, Luis Nicolau. A formação do Candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia. Campinas: Editora Unicamp, 2006.