CONVERSANDO COM GUDERIAN 1 Alex Alexandre de Mesquita, Major de Cavalaria do Exército Brasileiro AMAN 1992, Especialista no Emprego Tático de Blindados pelo CIBld, Mestrado em Operações Militares pela EsAO/2000 e Mestrado em Ciências Militares, pela ECEME / 2007-2008. Atualmente, servindo na Assessoria de Doutrina do Departamento deeducação e Cultura do Exército.mexquita@gmail.com 1. Introdução Para aqueles que desconhecem quem foi Guderian, basta dizer que foi um expoente líder militar alemão e inovador general. Oriundo da Arma de Infantaria, serviu nas Comunicações a maior parte da I Guerra Mundial (GM) e, em 1937, revelou as suas ideias a respeito da necessidade de evolução na forma de combater do Exército alemão por meio do livro Achtung, Panzer! 2, publicado em 2009 pela Biblioteca do Exército Editora, com tradução de Luiz Carlos Carneiro de Paula. Guderian, ao contrário de muitos teóricos da época, conseguiu definir o conceito do emprego prático das unidades blindadas alemãs com base no que vivenciou durante a 1ª Guerra Mundial, analisando, principalmente, os exércitos da França e da Inglaterra. Militar de temperamento forte e posições firmes, era estimado de forma unânime pelas tropas que comandava, porém, o mesmo não acontecia com seus superiores. Era um dos poucos que discutia com veemência e abertamente com Hitler e, apesar de suas divergências, o Führer o chamava constantemente para comandos onde a situação era desesperadora. Por estas e outras qualidades, foi apelidado pelos subordinados de "Heinz, o veloz". Embora Achtung, Panzer! tenha sido um trabalho teórico, cuja intenção foi preparar a Alemanha para uma guerra futura, as suas proposições revolucionárias, mostram-se ainda atuais, inclusive para o Exército Brasileiro, 1 Contribuíram para o presente artigo o TC Cav Heitor Freire de Abreu, atualmente servido no Estado-Maior da MINUSTAH e o TC Charles Domingues da Silva, atualmente no segundo ano do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército. 2 Achtung, Panzer! Inspirou as operações das forças panzer e serviu como manual para treinamento dos oficiais do corpo blindado alemão.
que elegeu o início desta década para realizar a sua transformação em direção a um Força Armada digna dos desafios que o Brasil já enfrenta e encontrará no futuro. Desta forma, nada mais oportuno do que, baseado em Achtung, Panzer!, buscar conceitos que possam ser aproveitados por aqueles que prezam o estudo e o desenvolvimento da doutrina militar. Este texto levantará questionamentos que serão respondidos por passagens do livro em questão, na intenção de simular uma conversa com o próprio General Heinz Guderian. 2. Transformando um Exército - Leopard 1 A5 O Exército Brasileiro (EB) elegeu o ano de 2010 para iniciar o seu processo de transformação. O objetivo é proporcionar-lhe o desenvolvimento das capacidades requeridas pela evolução da estatura político-estratégica do Brasil, por meio, principalmente, da modernização dos sistemas operacionais. Um dos saltos neste sentido foi a aquisição dos Carros de Combate (CC) Leopard 1 A5, adotando o Leopard como CC principal do EB 3. A respeito disso, não há como deixar de observar o praticado por países como os Estados Unidos da América, Inglaterra, Espanha, França e Chile, dentre outros. Como a Alemanha, ao seu tempo, lidou com este problema? R: [...] a Inspetoria das Forças Blindadas teve a difícil responsabilidade de decidir qual dos diversos modelos estrangeiros deveria recomendar ao nosso Alto-Comando como o mais apropriado às condições da Alemanha, ou se, de fato, deveríamos elaborar nova doutrina para os blindados. Duas coisas, ao menos estavam claras: nós não poderíamos seguir as táticas do Reino Unido, da França e Rússia ao mesmo tempo. Também não poderíamos inaugurar uma doutrina nossa quando estávamos totalmente desprovidos de experiência prática e, na verdade, não tínhamos mais do que conhecimento superficial das experiências dos franceses e britânicos dos tempos da guerra. (p. 205). Guardadas as devidas proporções, esta também é uma realidade do EB. A última experiência que mobilizou grandes contingentes em combate convencional foi a 2ª Guerra Mundial e, daquele tempo até hoje, houve, ainda, problemas relativos a reduções orçamentárias que impactaram negativamente a Força, em particular as tropas blindadas. Isto acabou por reduzir o emprego prático dos meios blindados, muitas vezes por falta de suprimento e manutenção. Como recuperar o tempo perdido? 3 Todos os regimentos de carros de combate e três, dos quatro regimentos de cavalaria blindados, estão dotados de versões do Leopard 1.
R: O Exército Alemão, pelo que eles estabeleceram 4, ficou pequeno e incapaz de se desenvolver. Entretanto, a medida mais restritiva não foi a diminuição numérica ou a obrigação do serviço por 12 anos. Foi a proibição de ter quaisquer armas modernas. (p. 162). É verdade que o exército manteve seu velho orgulho, agressividade e espírito ofensivo, como era próprio de sua gloriosa tradição. [...] Contudo, estávamos proibidos de ter exatamente aquelas armas que mostraram a grande importância do poder de choque, na última guerra, [...]. (p.163) De certa maneira, as restrições orçamentárias impostas às Forças Armadas, em particular ao EB, nos colocaram em situação semelhante à Alemanha após a edição de Versalhes. Em relação às forças blindadas, quais as repercussões? R: [...] distanciando-se permanentemente delas 5, o exército corria o perigo real de deixá-las de lado definitivamente ou, pelo menos, de menosprezálas por mais ou menos tempo. As coisas foram muito mais difíceis para as forças blindadas. Na guerra havíamos efetivamente nos atrasado em relação a elas, pois nossos 45 carros eram muito poucos para constituírem qualquer coisa palpável. Tudo o que restou foram as poucas experiências das quais alguns indivíduos se lembravam e que, com poucas exceções, haviam deixado o exército em razão das reduções de efetivos. (p163). General Guderian, sabe-se que o Exército Alemão suplantou as imposições do Tratado de Versalhes e no período entre guerras organizou as eficientes Divisões Panzer. Uma das soluções criativas foi o emprego de simulacros de lona. Esta medida realmente foi eficiente? R: Quando finalmente os simulacros de lona foram usados nos exercícios, deviam ser empurrados ou carregados pelas tropas contra a infantaria e a artilharia. Francamente, eles eram ridículos, não levavam o jeito de inimigo mortal nem convenciam as outras armas a mudarem suas táticas que continuavam aquelas usadas em 1914 (p. 163 e 164). Pode-se concluir que realizar exercícios pouco realistas ou utilizar simuladores que não atendam à realidade de emprego pode conduzir a conclusões doutrinárias erradas ou vícios de conduta? R: Atentos a esses perigos, os alemães equipavam seus simulacros de carros com motores. [...] Os simulacros autopropulsados serviram para, pelo menos, persuadir os oficiais e tropa a prestarem um pouco de atenção às defesas anticarro. [...] No entanto, o nosso segredo eram os 4 Nesta passagem, Guderian refere-se ao Tratado de Versalhes, imposto à Alemanha, ao final da 1ª GM. 5 As armas que mostraram a grande importância do poder de choque, na última guerra.
tratores Rübezahl. Com essa máquina nós ensaiamos nossas táticas de companhia de carros de combate sob o maior segredo. (p. 164). Embora apenas simulacros, os modelos mostraram a necessidade de armas anticarro eficientes e mantiveram vivo um debate sobre como empregar os carros de combate e como realizar a defesa anticarro. (p. 197) Para evitar os problemas relatados, a simulação virtual está em franco desenvolvimento e aplicação pelas tropas blindadas, com equipamentos profissionais adquiridos junto ao fabricante do Leopard e capacitação de pessoal no exterior. Desta forma, é possível dizer que, diferentemente do que já ocorreu, não devem persistir problemas neste sentido. R: O uso de simuladores, [...], poupa os veículos e seu armamento e possibilita algo que é essencial, a prática constante. Os motoristas começam seu treinamento em veículos sem cobertura para depois o fazerem nos carros de combate. [...]. (p.215) A adoção da plataforma Leopard trouxe sensíveis mudanças na forma de combater, não só da Cavalaria, mas das tropas blindadas como um todo. Com o CC Leopard é possível atirar em movimento e em alvos em movimento com uma precisão considerável. Isto modifica, em muito, o emprego das frações de carros de combate e a maneira como a Infantaria Blindada deve combater, quando integrando uma Força Tarefa (FT). Contudo, há um problema. É notória a diferença de mobilidade entre os Leopard e as Viaturas Blindadas de Transporte de Tropas (VBTP) M 113. Existem, inclusive, conclusões equivocadas que comparam as velocidades entre as duas plataformas e advogam que o M 113 pode acompanhar os deslocamentos realizados pelos Leopard. R: Alguns dos exércitos nos anos seguintes (a 1929) revelaram impasses, sobretudo a perda da velocidade de progressão dos carros de combate em conseqüência de estarem tão presos à progressão da infantaria. (p. 173). Se, por exemplo, nós pudermos possuir os recursos necessários para atacar com velocidade, parece ridículo forçar os carros de combate se oferecerem como alvos lentos ao fogo inimigo, só porque a infantaria ultrapassada seria incapaz de acompanhá-los. (p.207). Estabelece-se, então, um impasse, pois as VBTP M 113 não têm as características necessárias para acompanhar, a contento, os CC Leopard. A
sua ideia sugere a adoção de Viaturas Blindadas de Combate para a Infantaria 6 (VBCI)? R: Agora, que a tecnologia pode pôr a infantaria em veículos blindados de acompanhamento, que podem se mover tão rápido quanto os carros, são eles que devem determinar a velocidade de progressão da infantaria. (p.207). Parece, então, que a Infantaria deverá começar a raciocinar em adotar um novo paradigma, que é o combate embarcado para poder acompanhar a velocidade dos CC 7? R: Tentaremos romper um ponto-forte por meio de poderosa concentração de nossa principal arma ofensiva, ou renunciaremos às suas potencialidades de velocidade e grande raio de ação, para progredirmos na velocidade da infantaria [...], rejeitando a todas as perspectivas de decisão rápida para a batalha ou para a guerra? (p.207). Pode-se dizer, que a implantação do Leopard e todas a mudanças técnicas e doutrinárias advindas disso é um caminho para tornar mais homogênea a compreensão a respeito das tropas blindadas brasileiras? R: Fazendo uso das lições do tempo de guerra, nós temos renunciado a qualquer ideia de limitar os carros de combate ao papel de escoltas da infantaria e, desde o começo, temos estado determinados a criar uma Arma que seja treinada para lutar em grandes formações e que estará à altura de qualquer tarefa que lhe seja confiada ao longo do tempo. (p.209). Como oficial oriundo de Infantaria, o senhor defende que em uma FT, os CC e as VBTP devam progredir à mesma velocidade, de modo a manter íntegro o binômio Infantaria/Carro? R:Quais eram as vantagens de os carros atuarem independentemente, explorando seu grande raio de ação e sua velocidade? Um ataque bem sucedido pode trazer vitória rápida que ganha maior dimensão pela extensão e pela profundidade [...]. A ruptura e a perseguição tornavam-se uma possibilidade real, e a guerra poderia assumir ou manter suas características de guerra de movimento. (p.172). Quais, por outro lado, eram as desvantagens de separar os carros de combate da infantaria? Se as forças blindadas se adiantarem em demasiado às demais tropas, ou se afastarem para longe de seus flancos, 6 O termo Infantaria, empregado nesta parte do texto, refere-se ao combate a pé. A Cavalaria Brasileira também possui frações que combatem a pé, nos esquadrões de fuzileiros blindados, dos regimentos de cavalaria blindados e nos grupos de combate, dos pelotões de cavalaria mecanizados. 7 A velocidade aqui referenciada está relacionada à velocidade nominal do CC, aliada à sua capacidade de vencer obstáculos naturais e reduzir as resistências inimigas.
seriam capazes de conquistar grande faixa do terreno, mas não teria condições de mantê-la por muito tempo. [...] Por outro lado, a infantaria poderia se sentir em desvantagem, sem o apoio imediato e permanente dos carros de combate, e seus objetivos poderiam parecer-lhe impossíveis ou, pelo menos, atingíveis apenas a um preço intolerável. (p.207). Cumpre dizer, então, que a adoção do Leopard como CC principal do EB insere modificações que transcendem o emprego dos carros de combate. Atingem a forma de combater das formações blindadas, incluindo, nesta lista a Infantaria. Transformando um Exército transformando a sua Infantaria Recentemente, foram criadas no Exército Brasileiro Brigadas de Infantaria Mecanizadas para continuar a aplicação da Doutrina Delta. Estas brigadas surgirão por transformação de Brigadas de Infantaria Motorizada. Não restam dúvidas de que esta nova organização militar será um salto na Doutrina Militar Terrestre, em particular para a Infantaria Brasileira. R: A infantaria é forte na defensiva, mas sua capacidade ofensiva é reduzida, ao menos, lenta, em razão do poder defensivo das modernas armas da própria infantaria que deve enfrentar. (p.234). Todo atacante precisa de poder de choque quando se pretende obter surpresa estratégica [...]. O que exatamente desejo dizer com poder de choque? Está em nossas baionetas, nos fuzis da infantaria, ou mesmo em nossas metralhadoras e artilharia? [...] O corpo do infante armado com sua baioneta e seu fuzil pode representar o poder de choque da infantaria? É realístico esperar que esses homens, que se expõem durante a maior parte do tempo do combate, venham a lançar tempestade contra metralhadoras inimigas e ainda e ainda mostrar superioridade moral sobre defensores que estão atirando de seus abrigos? (p.250). Desta maneira, o que se pode concluir é que a Brigada de Infantaria Mecanizada realmente é um vetor de modernização na forma de combater da Infantaria. Assim sendo, faz-se necessário pensar em uma nova forma de fazer a guerra, na qual a viatura blindada não seja somente um meio de transporte, mas uma plataforma de combate. Este paradigma enseja mudanças doutrinárias? R: Os austríacos em 1866, os britânicos na Guerra dos Böers em 1899, os russos na Manchúria, em 1904, e os alemães em Flandres, em 1914, todos eles confiaram na baioneta. E o que aconteceu? Deveremos fazer tudo isso novamente? É incrível que alguém ainda seja considerado herege por criticar a vaca sagrada do poder de choque da infantaria, quando investe a baioneta. (p.250 e 251). [...], não há controvérsia quanto à
convicção de que novas armas exigem novas maneiras de combater, organização e táticas adequadas. (p.263). [...] o que, em termos gerais, condiciona a formação de uma doutrina? [...] é vital estabelecer um objetivo básico [...] são elas destinadas a invadir fortificações e posições defensivas permanentes ou executar envolvimentos operacionais e desbordamentos em campo aberto? São elas destinadas a agir no nível tático, realizando penetrações e envolvimentos por conta própria e ameaçando as penetrações e envolvimentos inimigos ou não serão mais do que porta-metralhadoras, trabalhando em estreita cooperação com a infantaria?(p.206). Há críticos às novas plataformas que serão utilizadas pelas Bda Inf Mec. Por serem sobre rodas, estes meios não terão a mesma mobilidade tática das viaturas com tração a lagarta. Contudo, é fato que os meios condicionarão também as características, possibilidades e limitações desta nova grande unidade do EB. Neste caso, é lícito comparar meios com capacidades diferentes? R: os carros de combate têm certa capacidade, exatamente como o homem e o animal; quando o que se pede supera sua capacidade, ele falhará. (p. 255). Apesar de todas as nítidas vantagens em dotar a Infantaria de meios mecanizados, ainda há certa reticência quanto a isso, principalmente por se tratar de um elemento novo, um dado novo ao problema natural que os exércitos enfrentam: combater. Como ultrapassar estes óbices? R: Na medida em que a guerra 8 tornava-se um fenômeno mais amplo, aceleravam-se, em maior ou menor extensão, os veículos motorizados usados por todos os tipos de tropas. Esse processo foi denominado de mecanização do exército. O primeiro elemento afetado por ele foi o Alto-Comando. Nos dias atuais, é concebível imaginar um general montado em um cavalo no campo de batalha, quanto mais um comandante de divisão? Os oficiais que experimentaram as vantagens do transporte motorizado certamente o consideravam muito bem-vindo. (p. 169). O que se pode concluir a respeito dessas considerações é que o combate à pé, desprotegido e com o poder de fogo tão somente dos fuzis não encontra mais lugar na doutrina militar terrestre moderna, senão em situações muito particulares? 8 I Guerra Mundial
R: A conclusão é que, infantes, mesmo descansados, preparados e com todo o seu poder de combate como os americanos 9, não estavam em condições de enfrentar as metralhadoras e, muitas vezes, não acompanhavam os carros e os retardavam. (p. 155). 3. Conclusão Este breve texto buscou selecionar algumas concepções específicas apresentadas por Guderian em 1937 e que podem ser analisadas à luz do que está sendo tratado pelo Exército Brasileiro nos dias de hoje. Transformar uma força armada, implantar novos materiais e criar novas formas de organizar os meios disponíveis para o combate envolve, sobretudo, olhar para as experiências anteriores e refletir sobre os erros e acertos. É certo que uma leitura mais atenta de Achtung, Panzer! revelará questões mais amplas, no que diz respeito a concepções de emprego de grandes formações blindadas, ou mais específicas, atinentes à colaboração entre os fuzileiros e os carros de combate. Por fim, fica registrada, por meio deste trabalho, uma forma de refletir a respeito das questões levantadas, na certeza de que esta é uma das inúmeras maneiras de contribuir para o crescimento do Exército Brasileiro. 9 Em 26 de setembro de 1918, os americanos atacaram entre o Argonne e o Meuse, com 411 carros de combate. [...] Em muitas ocasiões, a infantaria não explorou o êxito obtido pelos blindados, o que resultou em grande número de carros nas mãos do alemães. (p.155)