Conceito e classificação das constituições Introdução Imagine a seguinte situação: um jornal divulga em sua reportagem que uma determinada lei é inconstitucional e que isso não pode ocorrer porque a Constituição é a lei mais importante do país. Você já perguntou o que significa dizer que a lei é inconstitucional? Você já questionou o que é uma Constituição? Para melhor responder a essas indagações, é importante estudar o Direito Constitucional, a iniciar pelo conceito e pela classificação das Constituições. Ao final desta aula, você será capaz de: explicar a classificação das Constituições, identificando quais categorias podem ser aplicadas à Constituição Federal de 1988. Conceitos iniciais Como o Direito é considerado em sua totalidade ele é chamado de uno, relacionando-se as suas próprias áreas entre si, inclusive com outras ciências Todavia, para efeitos didáticos, utiliza-se a divisão do Direito Romano, ou seja, dividimos em Direito Público e Direito Privado. Aquele traz matérias relacionadas à função e à organização do Estado, bem como as relações existentes entre os países, enquanto este se ocupa das normas jurídicas que regem as relações entre os particulares (NUNES, 2016). - 1 -
Figura 1 - Divisão dos ramos do Direito Fonte: Elaborada pelo autor, 2017. O Direito Constitucional se insere como ramo do Direito Público ao estipular normas relativas à organização do Estado, à divisão de competências entre os entes federativos (União, Estados, Municípios e Distrito Federal) e aos direitos e às garantias fundamentais, todas previstas na Constituição Federal. Partindo dessa ideia de Direito Constitucional como ramo do Direito Público por excelência e da origem da palavra, Masson (2016) conceitua Constituição: É nessa acepção que se pode considerar a Constituição enquanto o conjunto de normas fundamentais e supremas, que podem ser escritas ou não, responsáveis pela criação, estruturação e organização político-jurídica de um Estado. (MASSON, 2016, p. 27) Apesar do consenso entre os autores em se associar o Direito Constitucional e a Constituição ao conjunto de normas que organizam os elementos constitutivos do Estado (SILVA, 2005, p. 38), as concepções variam dentro das pluralidades sociais, econômicas, jurídicas e culturais em que o Estado se conforma, dificultando um conceito preciso sobre o tema que, contudo, torna-se mais inteligível com a classificação das Constituições, que será estudada no tópico seguinte. FIQUE ATENTO O conceito de Constituição é dinâmico porque varia de acordo com o contexto em que estão inseridos os elementos constitutivos do Estado. As principais concepções são: sociológica, de Ferdinand Lassale; política, de Carl Schmitt; e jurídica, de Hans Kelsen, a qual foi adotada no Brasil e traz a Constituição como norma fundamental hipotética e como norma positiva suprema, de modo que fundamenta e dá validade a todo o ordenamento jurídico, sendo que todas as demais normas devem ser com ela compatíveis para ter validade (BULOS, 2014). Atente-se, contudo, para o fato de existirem outras concepções de Constituição. Dentre elas, a culturalista e a marxista. - 2 -
Classificação das Constituições Neste tópico, abordar-se-á resumidamente as classificações trazidas pela maioria dos constitucionalistas. SAIBA MAIS Leitura complementar: Professor Canotilho e sua Constituição Dirigente, publicado no site Consultor Jurídico, em 12 de novembro de 2012, pelo Desembargador Federal Néviton Guedes, explicando e trazendo críticas à classificação da Constituição em Constituição Dirigente, proposta pelo jurista português José Joaquim Gomes Canotilho. Disponível em: <https://www. conjur.com.br/2012-nov-12/constituicao-poder-professor-canotilho-constituicao-dirigente>. Esquematicamente, nos próximos tópicos serão apresentadas as seguintes classificações: Figura 2 - Classificação das Constituições Fonte: Elaborada pelo autor, 2017. Vamos aos detalhes das classificações apresentadas na tabela acima que, como já explanado, são as mais utilizadas pela doutrina majoritária e, por isso, guardam maior importância. - 3 -
Quanto à origem Essa classificação se baseia na participação ou não do povo no processo de elaboração do texto. Por este critério, a Constituição pode ser classificada em promulgada, outorgada, cesarista ou pactuada. Constituição promulgada, democrática, popular ou votada é aquela cujo texto foi construído por meio da participação popular, direta ou indiretamente. Conforme Silva (2005, p. 40), são (...) as Constituições que se originam de um órgão composto de representantes do povo, eleitos para o fim de elaborar e estabelecer. Figura 3 - A atual Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, chamada de Constituição Cidadã, foi promulgada Fonte: Lazyllama / Shutterstock Constituição outorgada, imposta, ditatorial, autocrática ou carta constitucional é aquela em que não há participação popular no processo de elaboração, ou seja, o governante, unilateralmente, a impõe ao povo (MASSON, 2016). As Constituições brasileiras do período da Ditadura e a Constituição Imperial foram outorgadas (1824, 1937 e 1967, com a Emenda Constitucional 1/1969). A semelhança da Constituição outorgada, na Constituição cesarista, o texto não é elaborado com a participação do povo, contudo, depois do texto inteiramente pronto e sem possibilidades de se discutir ou de se alterar o conteúdo, ela é levada à confirmação popular, num ato de formalidade, pois visa apenas ratificar a vontade do detentor do poder (SILVA, 2005, p. 41). Já a Constituição pactuada, dualista ou convencionada, é aquela em que se configura a monarquia constitucional representativa (MASSON, 2016, p. 36), surgindo em um contexto de crise política da monarquia enfraquecida que, por isso, faz acordos com o Poder Legislativo, no intuito de se manter no poder e, ao mesmo tempo, apoiar a - 4 -
representação popular. Neste contexto, explica Bulos (2014, p. 114), que as constituições pactuadas foram bastante difundidas no seio da monarquia da Idade Média, quando o poder estatal aparecia cindido entre o Rei e as ordens privilegiadas. Nota-se, pois, o interesse político da monarquia decaída e da burguesia que se ascende ao poder. Quanto à estabilidade Essa classificação se atenta ao procedimento de alteração do texto constitucional, indo da mais facilitada (flexível) à mais dificultosa (imutável). Constituição imutável é aquela em que não se vislumbra possibilidades de mudanças, por entender pela inexistência de um órgão suficientemente legítimo para modificá-la, já que foi criada por uma autoridade suprema. Novelino (2011) cita como exemplos o Código de Hamurabi e a Lei das XII Tábuas. Constituição fixa é aquela que, embora não preveja formas de modificação em seu texto, essa mutação pode ocorrer desde que seja feita pelo mesmo poder que a instituiu. Como exemplos, tem-se a Constituição Espanhola de 1876 (MASSON, 2016). Constituição rígida é a que prevê em seu texto o procedimento para modificação de seu conteúdo, todavia, este é mais rigoroso quando comparado à possibilidade de mudanças das normas que não são constitucionais. Como exemplo, temos a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (BULOS, 2014). Figura 4 - Grau crescente de dificuldade para alteração da Constituição Fonte: Elaborada pelo autor, 2017. FIQUE ATENTO A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 é considerada rígida porque, para sua alteração, exige-se a Emenda Constitucional, cujo rito é mais dificultoso do que a alteração de outras normas. Constituição semirrígida ou semiflexível é um meio termo, trazendo em seu bojo normas que precisam de um procedimento mais rigoroso para serem alteradas e, concomitantemente, outras normas que podem ser alteradas sem a exigência deste rigor. A Constituição Brasileira de 1824 é um exemplo (SILVA, 2005). Constituição transitoriamente flexível é aquela que possui flexibilidade temporária e, durante certo período, não exige procedimento rigoroso para sua alteração. É a Constituição da Irlanda de 1937 (MASSON, 2016). E Constituição flexível, ao contrário da rígida, não exige procedimento rigoroso para sua alteração e, consequentemente, não terá supremacia em relação às demais normas. - 5 -
Quanto à forma Por este critério, a Constituição pode ser escrita, quando as normas foram sistematizadas e codificadas em documentos, ou não escrita, quando tem como base os costumes e as reiteradas decisões uniformes (BULOS, 2014). O exemplo clássico de constituição não escrita trazido pela doutrina é a Constituição Inglesa imposta aos gauleses no séc. XIV. Quanto ao modo de elaboração Conforme essa classificação, a Constituição pode ser histórica, aquela que não é escrita e que é produto da evolução jurídica da sociedade, ou dogmática (ortodoxa), em que há inserção dos valores e princípios que regulam a vida em sociedade em determinado momento histórico no texto maior (MASSON, 2014, p. 41). Quanto à extensão Consoante este critério, a Constituição pode ser analítica quando traz, além das normas de conteúdos essenciais à organização do Estado, minúcias que poderiam estar somente em normas infraconstitucionais. A contrario sensu, pode ser sintética quando é concisa, trazendo somente o conteúdo básico para a estrutura estatal (BULOS, 2014). Quanto ao conteúdo Essa classificação tem como foco os dispositivos da Constituição, que podem ser materiais, formais ou materiais e formais ao mesmo tempo. Constituição material refere-se ao conteúdo com matérias constitucionais (estruturação da forma de Estado, regime, sistema e forma de Governo, repartição de atribuições de competências entre os entes federados e direitos e garantias fundamentais) (MASSON, 2016). Constituição formal é toda norma inserida no texto constitucional, independentemente do tema. EXEMPLO Com base nas classificações acima, pode-se dizer que a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 é promulgada, rígida, escrita, dogmática, analítica e traz normas materialmente e formalmente constitucionais. Lembre-se de que existem outras classificações que não foram abordadas neste tópico pelo fato de inexistir consenso na doutrina. - 6 -
Fechamento Agora que você já conhece o conceito e a classificação das Constituições, poderá atentar-se à importância deste estudo durante o seu curso. Nesta aula, você teve a oportunidade de: identificar o ramo que o Direito Constitucional se insere; entender o que é Constituição; classificar a Constituição Brasileira de 1988. Referências BULOS, U. L. Curso de Direito Constitucional. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2014. GUEDES, N. Professor Canotilho e sua Constituição Dirigente. Consultor Jurídico, 12 nov. 2012. Disponível em: < https://www.conjur.com.br/2012-nov-12/constituicao-poder-professor-canotilho-constituicao-dirigente>. Acesso em: 15/12/2017. MASSON, N. Manual de Direito Constitucional. 4. ed. Salvador: JusPodvm, 2016. NOVELINO, M. Direito Constitucional. 5. ed. São Paulo: Método, 2011. NUNES, R. Manual de Introdução ao Estudo do Direito. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2016. SILVA, J. A. Curso de Direito Constitucional Positivo. 25. ed. São Paulo: Malheiros, 2005. - 7 -