Instrumentos de política monetária Introdução Nesta aula, conheceremos os mecanismos de política econômica voltados para o mercado monetário, do qual a moeda, tanto a nacional quanto as estrangeiras, constitui-se como um dos ativos. Além disso, conheceremos a diferença entre a moeda e os títulos dentro das economias modernas. Discutiremos também os instrumentos de política monetária utilizados pelos gestores da política econômica de um país e como estes mecanismos exercem impacto sobre os agentes econômicos e as razões pelas quais eles demandam moeda. Ao final desta aula, você será capaz de: entender os três instrumentos de política monetária; diferenciar moeda e títulos; conhecer a demanda por moeda, demanda transacional de moeda e demanda especulativa de moeda. Depósito compulsório A política monetária pode ser entendida como uma série de mecanismos que interferem, em especial, sobre a quantidade de moeda em circulação em uma economia, de modo a fazer com que essa circulação seja compatível com os interesses da sociedade que ela compõe, como o controle da inflação e a promoção do crescimento econômico (BLANCHARD, 2004). Assim, a política monetária é formulada pelo Estado e conduzida por seus gestores por meio de diferentes órgãos. No Brasil, o Banco Central, agente responsável pela custódia dos recursos do Estado em moeda corrente, é o órgão executor dessas medidas, bem como o depositário das reservas internacionais e dos recursos do país em moeda estrangeira originados de operações de importação e exportação (VASCONCELOS et al, 2008). FIQUE ATENTO No Brasil, o Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco Central atua em conjunto com o Ministério da Fazenda e seus órgãos subsidiários para a definição do rumo da política monetária. - 1 -
Figura 1 - Sede do Banco Central da Federação Russa Fonte: Mgfoto / Shutterstock Um dos mecanismos utilizados pelas autoridades monetárias para a obtenção dos objetivos mencionados é o recurso do depósito compulsório. Este instrumento define as relações do Estado com os bancos comerciais, sendo importantes intermediadores de operações entre o Estado e outros agentes, como empresas e famílias. Uma de suas principais operações é a cessão de créditos a esses agentes, gerados a partir dos depósitos efetuados pelos clientes do banco. Por exemplo, suponha que você deposite 100 reais no banco, em sua poupança. A instituição, por sua vez, entende que você, como parte de uma média geral de clientes, não tenderá a sacar todo o seu dinheiro imediatamente, logo, mantém uma reserva de menor valor R$ 10 para eventuais saques e paga para você uma taxa de juros como remuneração do seu depósito em poupança. Os outros R$ 90 são emprestados a agentes a juros definidos pelo banco e pelo mercado. Assim, a quantidade de moeda em circulação aumentou, uma vez que seu depósito de R$ 100 se tornou um crédito de R$ 90, havendo, portanto, R$ 190 em circulação na economia. FIQUE ATENTO Perceba a diferença entre os juros recebidos como remuneração por depositar dinheiro em poupança (pouco mais de 0,5% ao mês, em média) e os juros pagos por créditos, como financiamentos de bens e, sobretudo, por empréstimos pessoais e cartões de crédito! - 2 -
De forma bastante resumida, esse é o conceito do multiplicador monetário, com a participação dos bancos comerciais. Os R$ 10 que o banco armazenou constituem um fundo de reserva. Os bancos comerciais tenderiam a emprestar tanto quanto fosse possível se eles tivessem a certeza de que os clientes somente usariam 1% dos recursos, ou seja, se assim fosse, eles emprestariam os outros 99%. Deste modo, as autoridades monetárias definem um limite à expansão da moeda em circulação através do multiplicador monetário, com limites mínimos para a custódia de recursos dos depositantes. Este limite é o chamado depósito compulsório (VASCONCELOS et al, 2008). SAIBA MAIS Podemos encontrar o conceito de depósito compulsório em alguns manuais de Macroeconomia sob a expressão exigibilidades de reservas, que é adotada pelo Central dos Estados Unidos (BLANCHARD, 2004). Federal Reserve, o Banco Quando as autoridades monetárias permitem uma variação, para cima ou para baixo, dos limites de depósito compulsório, permitem também uma variação no volume de moeda em circulação. EXEMPLO Suponha que o Banco Central exija a manutenção de um depósito compulsório de 10% do total de ativos de uma instituição; se este montante é de R$ 1 bilhão, temos que R$ 100 milhões deverão permanecer na tesouraria da instituição na forma de reservas. Assim, o depósito compulsório constitui-se em um dos instrumentos de política monetária das economias modernas. Vale dizer, por fim, que a porcentagem de depósito compulsório é determinada pelas autoridades monetárias, mas os bancos podem manter um estoque adicional de recursos em seu caixa para eventuais necessidades. Operações de mercado aberto Outro instrumento utilizado pelas autoridades monetárias consiste nas operações de mercado aberto. Com elas, pode-se controlar a quantidade de moeda em circulação. Essas operações são, em geral, realizadas pelo Banco Central, que intervém no mercado monetário quando alguma situação, potencialmente crítica, pode gerar riscos sobre o mercado monetário e o seu impacto pode espalhar-se para outras áreas da economia, sobretudo na produção e na renda da população. - 3 -
Figura 2 - Expansão e contração monetária Fonte: WaelKhalill alfuzai / Shutterstock Deste modo, o Banco Central altera a disponibilidade de moeda na economia, por meio das chamadas operações de mercado aberto ( open-market) e da compra e venda de títulos da dívida pública (VASCONCELOS et al, 2008). Assim, quando o Banco Central verifica a necessidade de aumentar a disponibilidade de moeda na economia, a instituição adquire títulos dos agentes que os detêm, convertendo-os em moeda corrente e, assim, permitindo a expansão da quantidade de moeda em circulação. Estes processos recebem o nome de operações de mercado aberto expansionistas EXEMPLO Se o Banco Central compra um título da dívida de um agente por R$ 1 mil, ele está ampliando a disponibilidade de moeda na economia neste valor. Ao depositar este recurso, o agente permite que seu banco realize empréstimos com ele, multiplicando a oferta de moeda. Por outro lado, a venda de títulos públicos faz com que o Banco Central recolha moeda em poder do público, contraindo a chamada base monetária, em um processo denominado operação de mercado aberto contracionista (BLANCHARD, 2004). - 4 -
Taxa de redesconto O Banco Central pode efetuar empréstimos aos bancos, dentro das chamadas operações de redesconto. Nelas, os bancos recorrem ao Banco Central em momentos em que, por exemplo, seus saques estão superando seus depósitos, ou quando possuem títulos públicos em excesso e pouca moeda corrente. Figura 3 - Corridas bancárias e excesso de saques Fonte: Everett Collection / Shutterstock Neste caso, o Banco Central cede recursos aos bancos mediante uma taxa de juros denominada taxa de redesconto (BLANCHARD, 2004). Moeda e títulos A moeda, de forma resumida, é um ativo, um recurso transacionado entre agentes e que permite a expressão do valor das mercadorias e bens, como uma unidade de conta. A moeda, ainda, é um meio de troca, pois permite que todos os bens sejam negociados em função da moeda: bois podem ser trocados por galinhas mediante diferentes quantidades de moeda, por exemplo. Por fim, a moeda também é uma reserva de valor, pois permite que os agentes a mantenham junto de si por tempo indeterminado visando negociações futuras, permanecendo constantes todas as demais variáveis. Ela pode ser dividida em duas dimensões, a saber: amoeda que está efetivamente em poder dos agentes (em notas - 5 -
ou moedas metálicas); e a moeda estocada na forma de depósitos à vista junto a instituições financeiras (PAULANI; BRAGA, 2013). FIQUE ATENTO Através da função reserva de valor, os agentes podem alocar suas decisões de compra no tempo, permitindo que haja uma economia de recursos para compras que envolvam valores maiores. A moeda possui um grau absoluto de liquidez, ou seja, ela é aceita em qualquer lugar, hora e situação como referencial de transações. Porém, negociá-la não traz remuneração ao agente. Os títulos, por sua vez, são menos líquidos, isto é, não têm a mesma circulação ampla que as moedas possuem, nem podem ser transacionados livremente (ninguém leva Letras do Tesouro Nacional, um título de dívida pública emitido pelo Banco Central, para fazer compras na feira), porém, sua posse e negociação geram renda, na forma de juros, aos seus possuidores. Há muitos tipos de títulos, que basicamente são ativos financeiros que geram um fluxo de pagamentos ao longo do tempo. Cada um deles está associado a uma remuneração específica, a uma determinada taxa de juros (BLANCHARD, 2004). Veja que, se os títulos forem seguros, é melhor manter todo o seu patrimônio aplicado neles, correto? Teoricamente, sim. Mas, sabendo que sua liquidez é mais baixa, teríamos de trocá-los por moeda toda vez que precisasse de dinheiro. Assim, a moeda também é um ativo preferencial e há alguns motivos para que os agentes demandem moeda. O primeiro fator para a demanda por moeda é de natureza transacional: os agentes precisam manter a moeda junto de si para efetuarem as operações básicas de compra e venda de produtos no seu dia a dia, quando os títulos têm uma dificuldade maior para serem aceitos. SAIBA MAIS Conheça mais sobre a demanda por moeda no terceiro capítulo da dissertação de Fabrício Pitombo Leite, Da demanda por moeda à preferência pela liquidez: uma interpretação póskeynesiana. Disponível em: <www.eco.unicamp.br/docdownload/monografias /fabricio_pitombo_leite.pdf>. O segundo fator é de ordem precaucional: a moeda, sendo um ativo líquido por excelência, é aceita a qualquer tempo e lugar. Logo, é conveniente que os agentes a mantenham para precaverem-se contra possíveis emergências. - 6 -
Figura 4 - Poupança e demanda por moeda Fonte: Pogonici / Shutterstock O terceiro fator determinante para a demanda por moeda é de ordem especulativa: como a moeda em si não rende juros (a não ser que esteja emprestada ou depositada), os agentes preferirão manter títulos do que moeda em seu portfólio. Neste caso, os juros pagos pelos títulos constituem-se em um custo de oportunidade, ou seja, manter moeda implica perda de um valor que você poderia receber ao manter títulos. Se os agentes acreditam que os juros dos títulos aumentarão no futuro, eles tenderão a optar por manter moeda, visando a aquisição dos títulos a remunerações melhores (VASCONCELOS et al, 2008). Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: conhecer os instrumentos de política monetária de um governo e seus impactos sobre a economia, na forma dos depósitos compulsórios, operações de mercado aberto e de redesconto, que alteram o volume de moeda em circulação; entender a diferença entre moeda e títulos e os motivos pelos quais há uma demanda por moeda no mercado monetário. - 7 -
Referências BLANCHARD, O. Macroeconomia. 4.ed. São Paulo: Prentice Hall, 2004. LEITE, F. P. Da demanda por moeda à preferência pela liquidez: uma interpretação pós-keynesiana. Dissertação (Mestrado em Ciências Econômicas) Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE Unicamp), 2008. Disponível em:<http://www.eco.unicamp.br/docdownload/monografias /fabricio_pitombo_leite.pdf>. Acesso em: 7/02/ 2017 PAULANI, L. M; BRAGA, M.B. A nova contabilidade social uma introdução à Macroeconomia. 4.ed. São Paulo: Saraiva, 2013. VASCONCELOS, M. A. S. et al. Manual de Macroeconomia: básico e intermediário. 3.ed. São Paulo: Atlas, 2008. - 8 -