Universidade Federal do Triângulo Mineiro



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Transcrição:

Universidade Federal do Triângulo Mineiro CÉLULAS ESCAMOSAS ATÍPICAS DE SIGNIFICADO INDETERMINADO: UTILIZAÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO DE BETHESDA 2001, CONDUTA E ASSOCIAÇÃO COM INFECÇÃO POR PAPILOMAVÍRUS HUMANO Ana Cristina Macêdo Barcelos Uberaba, MG, 2008

Ana Cristina Macêdo Barcelos CÉLULAS ESCAMOSAS ATÍPICAS DE SIGNIFICADO INDETERMINADO: UTILIZAÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO DE BETHESDA 2001, CONDUTA E ASSOCIAÇÃO COM INFECÇÃO POR PAPILOMAVÍRUS HUMANO Tese apresentada ao curso de pós-graduação em Patologia, área de concentração: Patologia Ginecológica e Obstétrica, da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, como requisito Parcial para obtenção do Título de Doutor. Orientador: Professor Dr. Eddie Fernando Cândido Murta Co-Orientadora: Professora Dra. Sheila Jorge Adad Novembro, 2008

B218c Barcelos, Ana Cristina Macêdo. Células escamosas atípicas de significado indeterminado: Utilização da classificação de Bethesda 2001, conduta e associação com infecção por papilomavírus humano / Ana Cristina Macêdo Barcelos. 2008 88 f..; + anexos. Tese (Doutorado) em Patologia Ginecológica e Obstétrica Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG, 2008. Orientador: Prof. Dr. Eddie Fernando Cândido Murta. 1. Colo uterino. 2. ASCUS. 3. Colposcopia. 4. HPV I. Título. CDU 618.146

Aos meus pais Carlos Alberto e Mariza e minhas irmãs Adriana e Carolina com amor e admiração

Agradecimentos

Ao Professor Eddie Fernando Cândido Murta, exemplo de pesquisador responsável e dedicado, sempre em busca das mais atualizadas técnicas mundiais na pesquisa do trato genital inferior. Agradeço o incentivo oferecido na continuação da tese de mestrado, a orientação, confiança, estímulo e disponibilidade constante em me auxiliar. À Professora Sheila Jorge Adad pela co-orientação recebida durante o trabalho e a releitura das lâminas de citologia cérvico-vaginal. Durante os encontros e discussões, aprendi a importância do treinamento de profissionais médicos qualificados e com prática para um resultado satisfatório na avaliação dos esfregaços. À Professora Márcia Antoniazi Michelin pelo auxílio na leitura das amostras, através de técnicas biomoleculares e incentivo à pesquisa. Ao Sr. Celso Tadeu pelo apoio técnico no laboratório, preparação dos meios de cultura e interpretação dos resultados.

Às funcionárias do setor de Citologia Nilva Aparecida da Silva Aveiro, Dóris Lima Dayrell de Carvalho, Heloísa Helena Vieira e Zelma Rocha Camargos Pereira, pelo exemplo de carinho e preocupação com nossas pacientes, agradeço pelo auxílio na triagem de exames e pacientes que fizeram parte do trabalho. À colega de pós-graduação Marília de Carvalho Mardegan que, durante esses anos, dividiu comigo preocupações, expectativas, dificuldades e sonhos. À Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e à Disciplina de Ginecologia e Obstetrícia da UFTM que me proporcionaram estrutura para a realização deste trabalho. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) pelo apoio financeiro ao desenvolvimento da pesquisa. À Sociedade de Medicina e Cirurgia de Uberaba (SMCU) pelo auxílio na aquisição do vídeo-colposcópico utilizado neste estudo.

SUMÁRIO LISTA DE TABELAS 01 LISTA DE FIGURAS 03 ABREVIATURAS 06 INTRODUÇÃO 07 OBJETIVOS 18 CASUÍSTICA E MÉTODOS 20 1. Casuística 21 2. Métodos 22 2.1. Métodos Clínicos 22 2.2. Métodos Microbiológicos e bioquímicos 22 2.3. Captura híbrida 24 2.4. Exame Colposcópico 26 2.5. Avaliação citológica e histológica 27 2.6. Análise estatística 28 RESULTADOS 29 DISCUSSÃO 43 CONCLUSÕES 58 RESUMO 60 ILUSTRAÇÕES 62 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 69 ANEXOS 76

LISTA DE TABELAS Tabela 1. Distribuição dos casos com diagnóstico inicial de ASCUS que após revisão foram reclassificados como citologia normal/inflamatória, ASCUS provável caráter reativo e ASCUS provável neoplasia, em relação à infecção. Tabela 2. Distribuição dos casos com diagnóstico inicial de ASCUS que após revisão foram reclassificados como citologia normal/inflamatória, ASC-US e ASC- H, em relação à infecção. Tabela 3. Principais achados colposcópicos das pacientes com diagnóstico inicial de ASCUS que após revisão foram reclassificados como citologia normal/inflamatória, ASCUS provável reativo e ASCUS provável neoplasia. Tabela 4. Principais achados colposcópicos das pacientes com diagnóstico inicial de ASCUS que após revisão foram reclassificados como citologia normal/inflamatória, ASC-US e ASC-H. Tabela 5. Resultado das biópsias realizadas nas pacientes com diagnóstico inicial de ASCUS que após revisão foram reclassificados como citologia normal/inflamatória, ASCUS provável reativo e ASCUS provável neoplasia, que apresentaram alterações durante o exame colposcópico. Tabela 6. Resultado das biópsias realizadas nas pacientes com diagnóstico inicial de ASCUS que após revisão foram reclassificados segundo Regione Emilia Romagna em ASCUS 1, ASCUS 2, ASCUS 3,ASCUS 4 e ASCUS 5. Tabela 7. Resultado das biópsias realizadas no grupo total de pacientes com diagnóstico inicial de ASCUS que após revisão foram reclassificados como citologia normal/inflamatória, ASC-US e ASC-H, que apresentaram

alterações durante o exame colposcópico. Tabela 8. Distribuição dos casos de NIC II/III à biópsia em relação ao diagnóstico citológico de ASCUS provável neoplasia, ASC-H e ASCUS 1 (Classificação de Regione Emilia Romagna). Tabela 9. Resultado da pesquisa de DNA/HPV de alto risco pela técnica de captura híbrida nas pacientes com diagnóstico inicial de ASCUS que após revisão foram reclassificados como citologia normal/inflamatória, ASC-US e ASC- H. Tabela 10. Presença de lesão de alto grau na biópsia, em relação à positividade de HPV de alto risco à captura híbrida e reclassificação citológica de ASCUS segundo Bethesda 2001.

LISTA DE FIGURAS Figura 1. Caso 1 Células superficiais e intermediárias com disceratose (ASCUS provável reativo pela classificação de Bethesda 1991 e ASC-US pela classificação de Bethesda 2001). Aumento de 400x. Figura 2. Caso 1 Colo uterino após aplicação de solução de ácido acético a 3%. Colposcopia normal. Aumento de 16x. Figura 3. Caso 2 Citologia inicial. Células metaplásicas com cariomegalia, hipercromasia nuclear e disceratose (ASCUS provável neoplásico pela classificação de Bethesda 1991 e ASC-US pela classificação de Bethesda 2001). Aumento de 400x. Figura 4. Caso 2 Colo uterino após aplicação de solução de ácido acético a 3%. Notar área de epitélio aceto-branco bem delimitada em lábio anterior e posterior, sem relevo. Achados colposcópicos menores. Aumento de 16x. Figura 5. Caso 2 Biópsia de colo uterino com neoplasia intra-epitelial grau I. Notar epitélio escamoso com núcleos hipercromáticos e aumentados de tamanho em toda a espessura e perda de maturação citoplasmática atingindo o terço inferior. Aumento de 400x. Figura 6. Caso 2 Citologia de retorno - Células superficiais e intermediárias com binucleação, hipercromasia, irregularidade da membrana celular e halo perinuclear (coilocitose) - Infecção por HPV. Aumento de 400x. Figura 7. Caso 3 Citologia inicial - Células superficiais, intermediárias e metaplásicas com hipercromasia e alteração da relação núcleocitoplasmática (ASCUS provável neoplasia pela classificação de Bethesda

1991 e ASC-H pela classificação de Bethesda 2001). Aumento de 400x. Figura 8. Caso 3 Citologia inicial - Células metaplásicas com hipercromasia e alteração da relação núcleo-citoplasma (ASCUS provável neoplasia pela classificação de Bethesda 1991 e ASC-H pela classificação de Bethesda 2001). Aumento de 400x. Figura 9. Caso 3 Colo uterino após aplicação de solução de ácido acético a 3%. Notar área de epitélio aceto-branco bem delimitada e com relevo em lábio anterior. Achados colposcópicos maiores. Aumento de 16x. Figura 10. Caso 3 Coleta de biópsia de área atípica em lábio anterior de colo uterino com pinça de Gaylor. Aumento de 16x. Figura 11. Caso 3 Biópsia de colo uterino com neoplasia intra-epitelial grau III. Notar epitélio escamoso com núcleos aumentados de tamanho, hipercromáticos e perda de maturação em toda a espessura. Aumento de 100x. Figura 12. Caso 3 Biópsia de colo uterino com neoplasia intra-epitelial grau III. Notar epitélio escamoso com núcleos aumentados de tamanho, hipercromáticos e perda de maturação em toda a espessura. Aumento de 200x. Figura 13. Caso 4 Citologia inicial - Células superficiais, intermediárias e metaplásicas com hipercromasia, alteração da relação núcleocitoplasmática, contorno irregular da membrana nuclear e binucleação. (ASCUS provável neoplasia pela classificação de Bethesda 1991 e ASC-H pela classificação de Bethesda 2001). Aumento de 400x. Figura 14. Caso 4 Coleta de material endocervical com cito-brush para pesquisa de DNA de HPV por método de captura híbrida. Aumento de 10x.

Figura 15. Caso 4 Colo uterino após aplicação de solução de ácido acético a 3%. Notar área de epitélio aceto-branco bem delimitada com orifícios glandulares espessados em lábio posterior. Achados colposcópicos maiores. Aumento de 16x. Figura 16. Caso 4 Biópsia de colo uterino com neoplasia intra-epitelial grau II. Notar epitélio escamoso com núcleos hipercromáticos e aumentados de tamanho em toda a espessura e perda de maturação citoplasmática atingindo o terço médio. Aumento de 400x.

ABREVIATURAS AGUS = Células glandulares atípicas de significado indeterminado ASC = Células escamosas atípicas ASCUS = Células escamosas atípicas de significado indeterminado ASC-US = Células escamosas atípicas de significado indeterminado ASC-H = Células escamosas atípicas de significado indeterminado não se podendo excluir lesão de alto grau HPV = Papilomavírus humano HSIL = Lesão intra-epitelial escamosa de alto grau LSIL = Lesão intra-epitelial escamosa de baixo grau NIC = Neoplasia intra-epitelial cervical NIC I = Neoplasia intra-epitelial cervical grau I NIC II = Neoplasia intra-epitelial cervical grau II NIC III = Neoplasia intra-epitelial cervical grau III PCR = Reação em cadeia de polimerase ph = Potencial hidrogeniônico SIL = Lesão intra-epitelial escamosa

INTRODUÇÃO

Sabe-se que programas nacionais de rastreamento de câncer de colo uterino reduzem a mortalidade de mulheres e estima-se que o exame de Papanicolaou tenha prevenido a morte de 1 em 65 mulheres desde 1950 (EVANS et al., 2006). Após a introdução da análise do esfregaço celular por Papanicolaou, em 1943, como método de detecção do câncer de colo uterino e suas lesões precursoras, diferentes terminologias têm sido utilizadas para descrever o diagnóstico citológico (MORIN et al., 2000). A classificação de Papanicolaou é baseada em critérios citológicos e divide, de acordo com a Associação Brasileira de Genitoscopia (2008), as alterações em cinco grupos: classe I (epitélio normal, ausência de atipias), classe II (células anormais sem malignidade, alterações inflamatórias), classe III (sugestiva, mas não conclusiva de malignidade), classe IV (fortemente sugestiva de malignidade) e classe V (conclusivo para malignidade). Em 1970 surgiu a classificação da Organização Mundial de Saúde para tentar corrigir as falhas da classificação de Papanicolaou. No entanto, também se baseava em critérios morfológicos e, assim, atendia bem ao patologista, porém, pouco se relacionava com o prognóstico da lesão, gerando dúvidas quanto à conduta clínica. Essa classificação se divide em: normal; com atipia; displasia leve/moderada/acentuada (de acordo com o grau de comprometimento do epitélio); carcinoma in situ; carcinoma escamoso ou adenocarcinoma (Associação Brasileira de Genitoscopia. 2008). Em 1986, Richart, acreditando serem as displasias parte de um processo contínuo que podem evoluir para o câncer (MAGGI et al., 1989), classificou-as em: neoplasia intraepitelial cervical grau I (NIC I), correspondente à displasia leve; neoplasia intra-epitelial cervical grau II (NIC II), referente à displasia moderada e, neoplasia intra-epitelial grau III (NIC III), correspondente à displasia severa e carcinoma in situ. Todas essas classificações

eram consideradas confusas e apresentavam, na prática, pouca reprodutibilidade entre os observadores (SOLOMON et al., 2005). A classificação de Bethesda proposta em 1988 e revista em 1991 reflete o comportamento biológico das lesões intra-epiteliais escamosas do colo uterino (SIL), tentando estabelecer prognóstico (KURMAN et al., 1994). Essa classificação subdivide as células epiteliais escamosas anormais em 4 grupos: 1) células escamosas atípicas de significado indeterminado (ASCUS); 2) lesão intra-epitelial escamosa de baixo grau (LSIL), compreendendo displasia leve/nic I e alterações celulares associadas ao papilomavírus humano (HPV); 3) lesão intra-epitelial escamosa de alto grau (HSIL) incluindo displasia moderada/nic II, displasia severa e carcinoma in situ/nic III; 4) carcinoma de células escamosas. Observa-se que na adoção do sistema de Bethesda surge uma nova definição da alteração citológica: ASCUS. Esse termo é utilizado para identificar processos inflamatórios, reativos ou reparativos, atípicos ou mais intensos, que qualitativa e quantitativamente não são suficientes para serem interpretados como displasia cervical (NIC) ou SIL (DAVEY et al., 1996; ERGENELI et al., 2001; GIUDICE et al., 2000; KATZ et al., 1997). O diagnóstico é feito pela presença de aumento do núcleo de 2,5 a 3 vezes em relação ao das células intermediárias, aumento discreto da relação núcleo-citoplasmática, bi ou multinucleação, discreta hipercromasia, contorno nuclear em geral liso e regular, anisocariose e pleomorfismo (MORIN et al., 2000). De todas as alterações introduzidas pelo Sistema de Bethesda, provavelmente nenhuma foi tão problemática como o termo ASCUS, pois reflete a incapacidade do citopatologista em estabelecer um diagnóstico definitivo em alguns casos (SOLOMON et al., 2005). O comitê do sistema de Bethesda propôs os critérios citológicos para o termo ASCUS, mas sua aplicação ainda era variável (DAVEY et al., 1994). Desde a sua inserção como termo citológico, o diagnóstico de ASCUS ocasionou confusão e controvérsias em relação ao seu significado e uso adequado e, por isso, várias pesquisas na área médica já foram publicadas sobre esse assunto (KATZ et al., 1997; SOLOMON et al., 2001; SODHANI et al., 2004). Embora esse termo deva ser utilizado nos casos em que um diagnóstico correto de benignidade ou de um processo neoplásico não pode ser feito, ele informa ao clínico o maior risco de subseqüente detecção de SIL (MALIK et al., 1999). Mais de 2 milhões de mulheres nos Estados Unidos recebem diagnóstico de ASCUS na citologia cérvico-vaginal a cada ano (SOLOMON et al., 2001; COX, 2005). O seguimento clínico ideal para essas

mulheres é muito controverso e persistem dúvidas sobre qual estratégia de controle e tratamento seriam mais apropriadas (KATZ et al., 1997; YARANDI et al., 2004). Comparações entre laboratórios têm demonstrado que a freqüência do diagnóstico de ASCUS varia de 1,6 a 9% (DAVEY et al., 1994). Gerber et al. (2001) detectaram ASCUS em 5% (1.387) de um total de 29.827 pacientes de seu estudo. Lee et al. (2006) relataram 1.035 diagnósticos de ASCUS, equivalendo a 2% do total de 49.882 citologias oncológicas realizadas. Apesar dos esforços para estabelecer critérios específicos para a caracterização do ASCUS, o uso desse termo por vários patologistas pode variar (LEE et al., 2006). Em 1992, um encontro no Instituto Nacional do Câncer concluiu que o diagnóstico de ASCUS poderia ocorrer em no máximo 5% das pacientes da rotina de citologia e que a alta freqüência do diagnóstico poderia indicar emprego errado do termo (LEE et al., 2006). Os autores do sistema de Bethesda, reconhecendo o possível uso excessivo do ASCUS, recomendam que a sua freqüência não deva exceder 2 a 3 vezes a freqüência de LSIL (KURMAN et al., 1994; JUSKEVICIUS et al., 2001). Orientaram também a qualificação do diagnóstico de ASCUS, se possível, indicando se ele sugeria um provável processo reativo ou se possuía alterações sugestivas de lesões pré-neoplásicas (DAVEY et al., 1994; MALIK et al., 1999). Morin et al. (2000) tentaram identificar parâmetros citológicos em esfregaços de mulheres com diagnóstico de ASCUS que poderiam ajudar o citologista a demonstrar que alguns casos de ASCUS estariam mais provavelmente ligados ao diagnóstico de NIC I ou NIC II/III. Os resultados mostraram que halo perinuclear e atipia nuclear moderada foram os critérios citológicos mais associados à NIC I, enquanto hipercromasia, anisocariose, halo perinuclear e aumento do volume nuclear em células metaplásicas estão mais associados à NIC II/III.

Alguns autores sugerem que há valor significante na subclassificação do ASCUS baseada em critérios morfológicos definidos (SHEILS et al., 1996). Desde a subdivisão inicial em provável reativo ou provável neoplásico, o sistema de Bethesda descreve diferentes subgrupos para o termo ASCUS: a) esfregaço comprometido (por alteração na fixação e coloração ou por material prejudicado); b) citoplasma tipo maturo-intermediário; c) mulheres na pós-menopausa; d) metaplasia atípica; e) paraceratose atípica ou disceratose (CENCI et al., 2000). Baseados nesses grupos, Cenci et al. (2000) propuseram condutas para cada subtipo de ASCUS: a) pacientes com esfregaço comprometido devem ser submetidas à nova coleta; b) em citologia com ASCUS de células com citoplasma tipo maturo-intermediário ou paraceratose deve ser realizado seguimento citológico e colposcopia, se persistir o ASCUS, colposcopia imediata ou teste de HPV; c) ASCUS com metaplasia atípica deve ser submetido à conduta intervencionista, colposcopia e biópsia. Guerrini et al. (2000) tentaram definir melhor o diagnóstico de ASCUS através da utilização de critérios morfológicos recomendados por Regione Emilia Romagna Screening Protocol em 1997. Esses autores dividiram o termo ASCUS em: células escamosas atípicas com citoplasma tipo maduro-intermediário (ASCUS 1); células escamosas atípicas metaplásicas (ASCUS 2); células escamosas atípicas com paraceratose (ASCUS 3); células atípicas reativas (ASCUS 4); células escamosas atípicas com atrofia (ASCUS 5). Trabalho realizado por nosso grupo estudou pacientes com ASCUS e concluiu que a subdivisão do termo baseada em alterações morfológicas propostas por Regione Emilia Romagna Screening Protocol e colposcopia auxiliam na conduta, pois casos de ASCUS 1 e 3 com achados colposcópicos maiores estiveram relacionados com presença de NIC na biópsia (BARCELOS et al., 2006). Diferentes variantes morfológicas do ASCUS têm sido reconhecidas e bem descritas, no entanto, pouco se tem proposto sobre o prognóstico e verdadeiro significado dessas classificações (SHEILS et al., 1996).

Inicialmente acreditava-se que todos os graus de SIL eram precursores do carcinoma de colo, requerendo colposcopia e biópsia. As recomendações da classificação inicial de Bethesda com relação ao termo ASCUS foram desenvolvidas para a detecção mais precoce das SIL tanto de baixo como alto grau (DUNCAN et al., 2004). Porém estudos demonstraram que ocorreu regressão espontânea da maioria das infecções por HPV, particularmente aquelas associadas com LSIL em pacientes jovens; sendo assim, a subclassificação do termo ASCUS em uma categoria que permitisse a detecção de HSIL tornou-se necessária para facilitar a conduta clínica e diminuir os custos de exames complementares excessivos (DUNCAN et al., 2004). A nova classificação de Bethesda eliminou a categoria favorável reativo baseada em um número de observações, demonstrando que o risco de diagnosticar alterações de alto grau neste grupo de mulheres era baixo (COX, 2005). Sendo assim, em 2001, foi realizada revisão da classificação de Bethesda e alterações fundamentais foram instituídas (LEE et al., 2006). A principal modificação em relação às células escamosas alteradas ocorreu com a divisão do termo ASCUS. A categoria foi subdividida em duas subcategorias: ASC-US (atipias de células escamosas de significado indeterminado) que reflete dificuldades na distinção entre alterações reativas e LSIL e ASC- H (atipia de células escamosas não podendo excluir lesão de alto grau) que reflete o diagnóstico diferencial entre metaplasia reativa imatura e HSIL (SHERMAN et al., 2006; LEE et al., 2006). A subcategoria das células atípicas de significado indeterminado teria importância clínica quando seguida então da letra H, indicativa de suspeita de HSIL (SOUZA et al., 2004). Permaneceram os termos: LSIL (compreendendo displasia leve/nic I e alterações celulares associadas ao HPV) e HSIL (displasia moderada/nic II, displasia severa, carcinoma in situ/nic III).

Alguns autores afirmam que a freqüência de ASC-H deve permanecer em torno de 0,2% das citologias (SHERMAN et al., 2006). Estudos têm mostrado freqüência maior de diagnósticos de ASC-US do que ASC-H. Lee et al. (2006) encontraram 920 mulheres com diagnóstico de ASC-US representando 1,8% do total de pacientes com células escamosas atípicas (ASC). O número de mulheres com ASC-H foi de 115 (0,2%). Barreth et al. (2006) encontraram 727 (0,3%) de ASC-H em 241.841 exames realizados. Estudos sobre aspectos colposcópicos relacionados com presença concomitante de SIL, em pacientes com diagnóstico citológico de ASCUS, são pouco encontrados na literatura. Sabemos, entretanto, da importância da colposcopia como exame complementar no diagnóstico do câncer de colo uterino, identificando áreas atípicas para realização de biópsia dirigida. Autores acreditam que, em pacientes submetidas a exame colposcópico por citologia cervical com atipia leve, freqüentemente são encontradas lesões mais severas que as citologicamente diagnosticadas (SOUTTER et al., 1986). Lima et al. (2002) estudaram 111 casos de pacientes com ASCUS, em que 80 (72%) apresentavam anormalidades no exame colposcópico, sendo realizadas 38 biópsias dirigidas (34%). O exame anatomopatológico demonstrou NIC em 61% das biópsias sendo 20 (52%) casos de NIC I e 3 (9%) de NIC II e III. Desde o início do uso do termo ASCUS verificou-se a presença freqüente de NIC na biópsia dessas pacientes. Morin et al. (1999) demonstraram a presença de NIC em 22,2% das biópsias de 360 mulheres com ASCUS, sendo 16,9% NIC I e 5,3% NIC II/III. Em estudo anterior feito por nosso grupo, avaliando pacientes com ASCUS, foi realizada biópsia dirigida por colposcopia em 42,4% dos casos e encontrou-se 18% de NIC sendo 9% de NIC I, 6% de NIC II e 3% de NIC III (BARCELOS et al., 2006). A quantidade de pacientes com neoplasias e a severidade das alterações neoplásicas encontradas no diagnóstico inicial de ASCUS são os fatores críticos que

determinam a necessidade de seguimento nas portadoras deste (KATZ et al., 1997). No entanto, a conduta correta sempre foi discordante entre os estudiosos. Cox (2005), analisando mulheres com ASC-H, encontrou 27,2% de NIC II/III na biópsia guiada por colposcopia. Alguns autores acreditam que, aproximadamente, metade das mulheres com Papanicolaou evidenciando ASC-H terá o diagnóstico de NIC II/III na biópsia durante o seguimento (HUITRON et al., 2008). Barreth et al. (2006) estudando 517 mulheres com ASC-H verificou a presença de NIC II/III em 339 (65,6%) delas, concluindo que o diagnóstico de ASC-H ao Papanicolaou está associado a risco aumentado de doença clinicamente significante. Com a nova subdivisão do termo ASCUS, verificou-se a maior presença de NIC II/III em mulheres com ASC-H e novas diretrizes e condutas vêm sendo discutidas. Cox (2005) determina que três diferentes opções para o seguimento de pacientes com ASC-US são seguras e efetivas: colposcopia, repetição de nova citologia ou realização de teste de HPV. O alto risco da presença de NIC II/III nas pacientes com ASC-H levou Sherman et al. (2006) a determinar a realização imediata de colposcopia e biópsia nestas pacientes. O teste de detecção de HPV como complemento à citologia cervical nos programas de rastreamento é baseado na captura híbrida e Reação em Cadeia de Polimerase (PCR) (HALFON et al., 2007). A captura híbrida é um método largamente utilizado (MORIARTY et al., 2008) devido à alta sensibilidade, reprodutibilidade, objetividade, facilidade para a prática clínica de rotina (CUZICK et al., 1999; HUANG et al., 2006). Essa técnica é baseada na hibridização de DNA viral de único filamento com 2 cocktails de RNA probes que reconhecem 13 tipos de HPV de alto-risco e 5 tipos de HPV de baixorisco. RNA/DNA - híbridos são combinados com anticorpos anti-híbridos marcados e um substrato quimioluminescente, que emite luz medida por um luminômetro (NOMELINE et al., 2007). A presença ou ausência de DNA de HPV é definida de acordo com a força em

unidades relativas de luz (RLU) comparada com 1pg/ml de controle positivo de DNA de HPV (PRÉTET et al., 2004). A técnica de PCR permite a amplificação de seqüências de ácido nucléico específico. Para amplificar a fita de DNA viral, a seqüência de nucleotídeos deve ser conhecida. Com primers apropriados e condições de temperatura, a síntese de uma fita complementar procede automaticamente por ligação de nucleotídeos livres usando a enzima DNA-polimerase. Em cada ciclo há uma temperatura de desnaturação (94 o C), na qual a fita de DNA é aberta, para o próximo passo (segunda temperatura), no qual os primers específicos se ligam ao DNA e a terceira temperatura, para que a enzima DNA polimerase possa inserir os nucleotídeos e produzir uma nova seqüência de DNA desejado. Cada ciclo sucessivo dobrará a quantidade de DNA, produzindo 2 30 vezes DNA após 30 ciclos. Após poucas horas, pequenas quantidades de DNA (nanogramas) podem ser transformadas em grandes quantidades (miligramas), que podem ser facilmente manipuladas (HUBBARD, 2003). Para vários estudiosos, a pesquisa de HPV passou a fazer parte da conduta de pacientes com ASCUS e outras alterações citológicas e as técnicas biomoleculares passaram a ser muito estudadas (HUANG et al., 2006). Adicionar teste biomolecular para HPV, comparado com citologia repetida, aumenta a sensibilidade para a detecção de NIC em mulheres com ASCUS (BERGERON et al., 2000). Por outro lado, um teste negativo para HPV em mulheres com ASCUS poderia reduzir o número de encaminhamentos para a colposcopia e biópsias desnecessárias (OH et al., 2001; MORIN et al., 2001). Srodon et al. (2006) avaliaram a utilização do teste de HPV na triagem de pacientes com ASCUS para a colposcopia. Seus resultados mostraram que 18 (40%) pacientes, com ASC-H e HPV positivo e que fizeram biopsia, apresentaram NIC II/III e apenas 1 (4,5%) mulher com ASC-H e HPV negativo apresentou alterações de alto risco na biópsia. Os autores

concluíram que mesmo nas pacientes com ASC-H, o uso do teste de HPV na triagem reduz o número de colposcopias. Resultados de pesquisas mostram que os testes para HPV identificam um maior grupo de mulheres com risco de desenvolver câncer cervical em comparação com a citologia oncótica. Como o teste para HPV tem maior sensibilidade que a citologia, alguns autores sugerem que o teste de HPV, em conjunto com o diagnóstico citológico de ASCUS, pode ser empregado para selecionar, mais eficientemente, as mulheres que devem ter seguimento mais rigoroso (LANG et al., 2005). Estudo multicêntrico, o HART (HPV Testing in Addition to Routine Testing Study) relatou os resultados do reflexo dos testes para HPV em mulheres com idade entre 30 e 60 anos e indicou uma alta sensibilidade do teste, comparado com a repetição da citologia, para diagnóstico de NIC subjacente (CUZICK et al., 2003). Outro estudo, o ARTISTIC (A Randomized Trial in Screening to Improve Citology Study) mostra o impacto econômico da incorporação de testes para HPV à citologia cérvico-vaginal (NOMELINI et al., 2007). Adicionar o teste de biologia molecular como complemento da citologia, no entanto, não parece uma conduta financeiramente viável para alguns países. Na Europa a nova versão do Sistema de Bethesda foi recebida sem entusiasmo, pois há preocupação sobre os custos incluindo o teste de HPV em algumas categorias (PRANDI et al., 2006). No Brasil, os custos para testes biomoleculares de HPV são mais altos que a citologia oncótica e a colposcopia e, no momento, parece inviável financeiramente para o Sistema Único de Saúde a implantação de métodos de biologia molecular na conduta de pacientes com ASCUS, como prevenção do câncer de colo uterino. No entanto, considerando uma possível redução do custo para o uso em grande quantidade, o PCR deveria ser o método de escolha, por ser mais barato e sensível, e ter um alto valor preditivo negativo (NOMELINE et al., 2007). É importante ressaltar que, a partir do momento em que se

melhoram as ações preventivas, mesmo com um aparente aumento dos gastos iniciais, economizam-se grandes gastos posteriores com o tratamento de lesões precursoras e com câncer de colo uterino. Inclui-se nesta economia não só os gastos com a terapêutica, mas também dias perdidos de trabalho, o que, no final, além de representar economia para o sistema, traria melhor qualidade de vida para as mulheres (NOMELINI et al., 2007). Apesar de promissores, os estudos ainda são insuficientes para demonstrar qual a melhor conduta nas pacientes com ASCUS na citologia cérvico-vaginal e a importância desse diagnóstico na detecção de NIC e na prevenção do câncer de colo. Sendo assim, a proposta deste trabalho é estudar as alterações morfológicas do ASCUS, significado clínico e melhor conduta para as pacientes.

OBJETIVOS

ASCUS é um termo definido por critérios citológicos. A correta interpretação da intensidade das alterações morfológicas do ASCUS, relacionada ao prognóstico das pacientes, assim como a adequada conduta clínica e seu significado, ainda não estão bem esclarecidos. Estabelecemos como objetivos para este estudo: 1. Verificar a freqüência de ASCUS em nosso serviço. 2. Avaliar a variabilidade no diagnóstico de ASCUS na rotina do exame de Papanicolaou, comparado com uma leitura de revisão. 3. Avaliar se existe associação de ASCUS com agentes microbiológicos causadores de inflamação. 4. Analisar o uso do exame colposcópico nas pacientes com diagnóstico de ASCUS. 5. Comparar as classificações morfológicas do ASCUS para a definição daquela que melhor avalia o risco lesão clinicamente significante. 6. Avaliar a utilização do teste de HPV na triagem de pacientes com ASCUS para a colposcopia. 7. Propor uma conduta para pacientes com diagnóstico inicial de ASCUS.

CASUÍSTICA E MÉTODOS

1. Casuística Foi realizado estudo prospectivo no Ambulatório da Disciplina de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Federal do Triângulo Mineiro entre os meses de Janeiro de 2003 e Dezembro de 2007. Na primeira parte do trabalho foram avaliadas mulheres com diagnóstico de ASCUS à citologia cérvico-vaginal, em exame realizado na rotina de quatro médicos citopatologistas. O laudo citológico foi utilizado para triagem e a ordem de entrada das pacientes obedeceu à seqüência crescente de registros dos exames de Papanicolaou do serviço de citopatologia da instituição. As pacientes que tiveram diagnóstico de ASCUS, encaminhadas ao serviço de colposcopia, foram informadas sobre a realização e os propósitos do estudo. Aquelas que concordaram e assinaram o termo de consentimento informado aprovado pelo comitê de ética da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, fizeram parte da pesquisa, quando preencheram os critérios de inclusão. Critérios de inclusão para o estudo: 1) Diagnóstico de ASCUS à citologia 2) Mulheres não gestantes 3) Idade entre 18 e 50 anos 4) Não menopausadas 5) Ausência de sangramento no momento do exame 6) Não ter feito uso de antibióticos orais, fungicidas e/ou cremes vaginais nos últimos 30 dias

7) Abstinência sexual de no mínimo dois dias 8) Pacientes sem história prévia de SIL ou procedimentos no colo uterino 2. Métodos 2.1. Métodos Clínicos Inicialmente foram coletadas informações (Anexo 1) sobre idade, hábitos e condições de vida (paridade, número de parceiros, idade da sexarca, idade da primeira gestação, tabagismo), métodos contraceptivos usados e história de doenças sexualmente transmissíveis. 2.2. Métodos microbiológicos e bioquímicos Após o preenchimento dos dados, todas as pacientes foram submetidas a exame ginecológico, colposcópico (Anexo 1) e coleta de material cérvico-vaginal para pesquisa de agentes microbiológicos e HPV pela técnica de captura híbrida (Anexo 2). Os procedimentos utilizados para coleta das amostras foram os seguintes: Para a pesquisa de Trichomonas vaginalis, foi coletado material dos fundos de saco vaginais com swab e a secreção foi colocada sobre uma lâmina de vidro. Após o gotejamento de soro fisiológico e a colocação de uma lamínula, a pesquisa foi feita pela visualização de microorganismos flagelados e móveis através do microscópico ótico (exame a fresco). Para a pesquisa de Candida SP, foi coletado material vaginal com swab e realizada semeadura em placa de Petri, contendo meio de cultura Ágar Saboraund onde foi verificado crescimento do fungo.

Para a pesquisa de vaginose bacteriana, foram utilizados critérios clínicos, largamente aceitos, originalmente propostos por Amsel et al. (1983): (1) secreção vaginal homogênea que adere às paredes vaginais; (2) ph vaginal acima de 4,5; (3) presença de odor característico após adição de solução de hidróxido de potássio 10% à secreção vaginal; (4) presença de clue cells no esfregaço corado por Gram. A presença de 3 dos 4 itens acima era suficiente para o estabelecimento do diagnóstico. A medida do ph foi realizada pela coleta de material vaginal. Após a coleta utilizando o swab, o mesmo foi introduzido em um tubo de ensaio estéril, contendo em seu interior 1ml de água destilada e deionizada. O material foi levado ao laboratório ao término da consulta e a aferição do ph vaginal foi realizada com aparelho denominado ph meter digital, marca Sentron, que utiliza escala de 0 a 14. Para essa determinação foi usado o conteúdo do tubo de ensaio. Após homogeneização em vortex por aproximadamente 10 segundos, o swab foi retirado e introduzido no interior do frasco ponteira do aparelho medidor de ph, com eletrodo localizado na sua extremidade. A quantificação do ph foi feita instantaneamente de forma digital. Esse procedimento ocorreu num intervalo de no máximo 1 hora após a coleta. Para a pesquisa do HPV humano, foi inicialmente coletado material endocervical e ectocervical com escova especial, componente do kit de captura híbrida da Digene, colocado em tubo próprio contendo material para conservação e mantido congelado em temperatura - 20 C. Ao final da coleta, após obtenção de um número suficiente de amostras, os tubos foram descongelados e analisados segundo as técnicas de captura híbrida.

2.3. Captura Híbrida Utilizou-se aparelho marca Captura Híbrida II System DML 2000 sistema de microplaca com amplificação de sinal por quimioluminescência. As informações e a metodologia abaixo descrita constam do manual de instrução fornecido pela Digene do Brasil, empresa que comercializa o equipamento e os kits utilizados, e seguem a técnica realizada por Silva et al. (2004). O kit utilizado para a detecção de HPV possui 18 tipos virais agrupados em dois pools de sondas. As sondas para os vírus de baixo risco incluem os tipos 6, 11, 42, 43 e 44, representando aproximadamente 70% desse grupo de vírus; em relação aos vírus de alto risco, o sistema contém as sondas com os tipos 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59 e 68, representando aproximadamente 99% desse grupo de vírus. Para o HPV, a sensibilidade em microplaca é de 1 pg/ml, equivalente a 0,1 cópia de vírus. A primeira etapa do teste consiste na realização de digestão e desnaturação que são feitas ao mesmo tempo no próprio tubo de coleta. Adiciona-se, nessa etapa, uma solução contendo hidróxido de sódio à amostra que, além de digerir qualquer outra estrutura, irá desnaturar o DNA, separando as pontes de hidrogênio que unem as bases nitrogenadas para facilitar a hibridização. Na etapa de desnaturação, o DNA é submetido a altas temperaturas e a ph alcalino, deixando as bases nitrogenadas livres para a hibridização. Esse procedimento necessita de banho-maria à 65º C durante uma hora. Após a digestão e a desnaturação, 75 µl da amostra são transferidos para os microtubos, a fim de que se processe a hibridização. Nessa etapa, as sondas de RNA são diluídas em diluente próprio e aliquotadas na quantidade de 25 µl nos microtubos. A hibridização requer banho-maria à 65º C durante uma hora. Depois de hibridizado, o material é transferido para uma microplaca que tem suas paredes recobertas por anticorpos monoclonais, a fim de eliminar possibilidade de reação

cruzada, anti-rna:dna, que irão reagir com os híbridos formados anteriormente. Essa etapa é denominada captura híbrida e se faz com um rotary-shaker à temperatura de 20-25 C durante uma hora. A partir da captura, quando já se formou um complexo anti-rna:dna-híbrido, passa-se para a fase de detecção. Toda a solução contida na microplaca é desprezada, adicionando-se anti-anti-rna:dna conjugado a fosfatase alcalina, que irá reagir com o complexo ligado à parede da microplaca. Essa fase dura 30 minutos à temperatura de 20-25 C. Após esse período, novamente despreza-se o material líquido da microplaca e faz-se uma única lavagem do ensaio, que pode ser manual ou automatizada. Por ela, retira-se o excesso de fosfatase alcalina que não formou complexo anticorpo-híbrido-anticorpo. Adiciona-se o substrato Emerald, que será degradado pela fosfatase alcalina durante 15 minutos. O grau de degradação do substrato depende da quantidade de enzima ligada ao complexo, o qual produzirá diferentes intensidades de cor, lido por quimioluminescência, em equipamento apropriado. Todo o teste de captura híbrida conta com controles negativos e positivos, que são testados em triplicata. O ensaio usa as leituras dos controles para validação e cálculo do cut off. A validação do teste e o cálculo de cut off são feitos baseados em alguns critérios: a) o coeficiente de variação das leituras entre os microwells dos controles negativos ou positivos não deve ultrapassar 25%; b) a divisão da média das leituras de RLU (unidade relativa de luz) dos controles positivos pelos negativos deve ser superior a 2; c) os controles negativos devem respeitar o limite máximo de background de 250 RLU;

d) o valor do cut off da reação é expresso pela média dos controles positivos. Há ainda dois outros controles intra-testes. O primeiro é realizado quando se faz a adição do reagente de desnaturação. Todas as amostras devem tornar-se de cor roxa, isso dá a certeza de que todas as amostras serão desnaturadas. O segundo, quando da adição das sondas. A coloração deve mudar de roxo para amarelo, assegurando que todas as amostras receberam a quantidade ideal de sonda. A leitura é totalmente automatizada; o quimioluminômetro é comandado por um software que analisa os números recebidos da leitura e faz todos os cálculos de validação do ensaio. O relatório final do teste é feito pelo software, não havendo margem de erro nos cálculos. As etapas de digestão e desnaturação são realizadas uma única vez. A partir daí, a detecção de HPV é feita individualmente através de kits próprios. O kit do HPV permite a realização de 96 testes: 42 testes para vírus de alto grau, 42 testes para vírus de baixo grau, 3 controles negativos e 3 controles positivos para vírus de baixo grau e 3 controles negativos e 3 controles positivos para vírus de alto grau. 2.4. Exame Colposcópico Após a coleta dos materiais, as pacientes foram submetidas a vídeo-colposcopia com captura de imagens (Anexo 1). A classificação utilizada para descrição dos achados foi a de Barcelona, proposta em 2002 (STAFL et al., 1991) que os dividia em: achados colposcópicos normais (epitélio escamoso original, epitélio colunar e zona de transformação normal) e anormais (epitélio aceto-branco, pontilhado, mosaico, leucoplasia, zona iodo-negativa e vasos atípicos), sendo esta última subdividida em alterações menores ou maiores dependendo da intensidade da alteração.

Para a realização da colposcopia foram utilizados os seguintes reagentes: solução aquosa de ácido acético glacial a 3%, solução de lugol e bissulfito de sódio. Na presença de alterações, as pacientes foram submetidas à biópsia dirigida utilizando pinça de Gaylor-Medina. 2.5. Avaliação citológica e histopatológica Em uma segunda etapa, os esfregaços das pacientes com diagnóstico inicial de ASCUS, fornecido pelos citopatologistas, durante exame de rotina, foram revistos e reclassificados por um destes citopatologistas, em conjunto com o autor deste trabalho, em: citologia normal/inflamatório, ASCUS, LSIL e HSIL. Quando o diagnóstico de ASCUS foi confirmado na revisão, o caso foi subclassificado em provável reativo ou provável neoplásico (Bethesda 1988-1991) e também de acordo com as normas de Bethesda 2001 em ASC-US e ASC-H (Anexo 3). Os casos de ASCUS foram novamente subclassificados seguindo recomendação do Protocolo de Screening de Regione Emilia Romagna (Anexo 3) (GUERRINI et al., 2000) em grupos de acordo com alterações morfológicas, da seguinte maneira: - Células escamosas atípicas com citoplasma tipo maduro-intermediário (ASCUS1) - Células escamosas atípicas metaplásicas (ASCUS 2) - Células escamosas atípicas com paraceratose (ASCUS 3) - Células atípicas reativas (ASCUS 4) - Células escamosas atípicas com atrofia (ASCUS 5) O esfregaço citológico foi corado pela técnica de Papanicolaou e avaliado segundo critérios morfológicos de anfofilia, halo perinuclear, disqueratose, critérios nucleares

(binucleação, multinucleação), aumento da relação núcleo/citoplasma, anisocariose, hipercromasia, atipias nucleares, cariorrexe. As biópsias realizadas também foram revistas e reclassificadas pelo mesmo patologista, em conjunto com o autor deste trabalho. As pacientes foram novamente avaliadas citológica e colposcopicamente em 6 meses (Anexo 4) Os resultados foram analisados comparando critérios citológicos e colposcópicos, presença de agentes microbiológicos causadores de infecção e HPV de pacientes com ASCUS provável caráter reativo e ASCUS provável caráter displásico, ASC-US e ASC-H. 2.6. Análise Estatística Para a análise estatística foi empregado o Programa GRAPHPAD INSTAT versão 3.0. Os resultados foram comparados utilizando-se o teste exato de Fisher, qui-quadrado e qui-quadrado com correção de Yates, com nível de significância menor que 5% (p< 0,05).

RESULTADOS

No período de 01 Janeiro de 2003 até 31 Dezembro de 2007 foram realizados 46.362 exames de Papanicolaou no serviço de citopatologia da Disciplina de Ginecologia e Obstetrícia. Destes, 41.349 (89,18%) tiveram citologia negativa para alterações oncológicas, 2.309 (4,98%) de ASCUS, 265 (0,57%) de AGUS (alterações glandulares atípicas de caráter indeterminado), 1.760 (3,79%) tiveram diagnóstico de LSIL, 551 (1,18%) de NIC II/III e 128 (0,27%) de carcinoma invasivo de colo uterino. Foram avaliadas 103 mulheres com diagnóstico inicial de ASCUS. A média de idade foi de 35,76 (variação de 18 a 50 anos). O tabagismo foi encontrado em 32 (31%) mulheres. Quanto ao uso de métodos contraceptivos, 40 (38,83%) foram submetidas à laqueadura tubária, 30 (29,12%) utilizavam métodos hormonais, 3 (2,91%) faziam uso de condom, 1 (0,97%) era usuária de dispositivo intra-uterino e 29 (28,15%) não utilizavam nenhum método anticoncepcional. Com relação ao número de parceiros, a média foi de 2,15 (variação de 1 a 10). A média de idade da primeira relação sexual foi de 17,62 anos (variação de 12 a 27 anos) e da primeira gestação foi de 19,67anos (variação de 12 a 31 anos). Dezesseis mulheres (15,53%) eram nulíparas, 60 (58,25%) tinham entre 1 e 3 filhos e 27 (26,21%) tinham mais de 3 filhos. Todas as lâminas desses 103 casos iniciais de ASCUS foram revistas pelo mesmo examinador em conjunto com o autor desta pesquisa, avaliando diversas alterações segundo protocolo (Anexo3). Dos 103 casos, 70 (67,96%) foram confirmados como ASCUS na segunda leitura; 30 (29,12%) foram reclassificados como esfregaço normal/inflamatório, 2 (1,94%) como LSIL e 1 (0,97%) como HSIL. Dos 70 casos de ASCUS, 38 (54,28%) foram reclassificados como ASCUS provável caráter reativo e 32 (45,71%) como ASCUS provável neoplásico (Bethesda, 1991); 62 (88,57%) foram reclassificados em ASC-US e 8

(11,41%) em ASC-H (Bethesda, 2001). Para a descrição dos resultados foram excluídas as pacientes que apresentaram diagnóstico de SIL após a revisão (3 pacientes). Os resultados dos exames microbiológicos para pesquisa de Candida sp, vaginose bacteriana e Trichomonas vaginalis das 100 pacientes reavaliadas neste estudo estão dispostos nas tabelas 1 e 2. Tabela 1. Distribuição dos casos com diagnóstico inicial de ASCUS que após revisão foram reclassificados como citologia normal/inflamatória, ASCUS provável caráter reativo e ASCUS provável neoplasia, em relação à infecção. Agente Normal/ Inflamatória Citologia ASCUS nº (%) Provável reativo Provável neoplasia Total nº (%) nº (%) Candida sp 4 (13,4) 9 (23,6) 4 (12,5) 17 Vaginose bacteriana 2 (6,6) 6 (15,8) 6 (18,7) 14 Trichomonas Vaginalis 0 2 (5,2) 0 2 Sem infecção 24 (80,0) 21 (55,2) 22 (68,7) 67 Total 30 38 32 100 p = não significante; teste qui-quadrado Não encontramos diferença estatisticamente significante quando comparamos a presença de infecção (vaginose bacteriana, Candida sp e Trichomonas vaginalis) entre os grupos de ASCUS provável reativo e ASCUS provável neoplasia.

Tabela 2. Distribuição dos casos com diagnóstico inicial de ASCUS que após revisão foram reclassificados como citologia normal/inflamatória, ASC-US e ASC-H, em relação à infecção. Agente Normal/ Inflamatória nº (%) Citologia ASCUS Total ASC-US ASC-H nº (%) nº (%) Candida sp 4 (13,4) 13 (21) 0 17 Vaginose bacteriana 2 (6,6) 12 (19,3) 0 14 Trichomonas Vaginalis 0 2 (3,2) 0 2 Sem infecção 24 (80,0) 35 (56,4) 8 (100) 67 Total 30 62 8 100 Encontramos diferença estatisticamente significante (Teste qui-quadrado; p = 0,0172) em relação à presença de infecção, quando comparamos os grupos ASCU-US e ASC-H.

Os achados colposcópicos estão dispostos na tabela 3 e 4. A colposcopia foi considerada insatisfatória quando não foi possível a visualização da junção escamocolunar. Tabela 3. Principais achados colposcópicos das pacientes com diagnóstico inicial de ASCUS que após revisão foram reclassificados como citologia normal/inflamatória, ASCUS provável reativo e ASCUS provável neoplasia. Colposcopia Normal/ inflamatória nº (%) Citologia ASCUS Total Provável reativo Provável neoplasia nº (%) nº (%) Achados normais 17 (56,6) 23 (60,5) 9 (28,1) 49 Achados anormais Maiores 0 0 6 (18,7) 6 Menores 8 (26,6) 9 (23,6) 15 (46,8) 32 Insatisfatória 5 (16,6) 6 (15,8) 2 (6,2) 13 Total 30 38 32 100 Quando comparamos a presença de achados colposcópicos anormais entre os grupos provável reativo e provável neoplásico, encontramos diferença estatisticamente significante (Teste qui-quadrado; p= 0,0078) sendo maior no segundo grupo. Foi feita a comparação entre os mesmos grupos, porém avaliando apenas os achados colposcópicos maiores, a diferença também foi estatisticamente significante (Teste qui-quadrado; p= 0,001), sendo maior no grupo de alterações provavelmente neoplásicas.

Tabela 4. Principais achados colposcópicos das pacientes com diagnóstico inicial de ASCUS que após revisão foram reclassificados como citologia normal/inflamatória, ASC-US e ASC-H. Colposcopia Normal /inflamatória nº (%) Citologia ASCUS Total ASC-US ASC-H nº (%) nº (%) Achados normais 17 (56,6) 32 (51,6) 0 49 Achados anormais Maiores 0 1 (1,6) 5 (62,5) 6 Menores 8 (26,6) 21 (33,9) 3 (37,5) 32 Insatisfatória 5 (16,6) 8 (12,9) 0 13 Total 30 62 8 100 Analisando os achados colposcópicos nas pacientes com citologia revista segundo classificação de Bethesda 2001, encontramos diferença estatisticamente significante (Teste qui-quadrado; p = 0,0017), quando comparamos a presença de achados colposcópicos anormais entre os grupos ASC-US e ASC-H, sendo maior no segundo grupo. A mesma comparação foi feita entre os achados colposcópicos maiores e houve diferença estatisticamente significante (Teste qui-quadrado; p = 0,0001) sendo também maior no grupo ASC-H.

Dentre as 70 pacientes com ASCUS após revisão citológica, 30 (42,8%) foram submetidas à biópsia. Cinco delas (16,6%) apresentaram infecção por HPV, 9 (30%) apresentaram casos de NIC (3 NIC I, 3 NIC II e 3 NIC III) e 16 (53,3%) tiveram biópsias normais. Os casos de HPV estavam presentes em 4 pacientes com ASCUS provável neoplasia e em uma paciente no grupo provável reativo; na classificação de Bethesda 2001 os cinco casos de HPV estavam presentes em biópsias de pacientes com ASC-US. Os três casos de NIC I estavam presentes em biópsias de pacientes com ASCUS provável reativo (Bethesda 1991) e ASC-US (Bethesda 2001). Os casos de NIC II estavam presentes em 1 paciente com ASCUS reativo e 2 com ASCUS provável neoplasia e na classificação de 2001 todos os casos de NIC II estavam presentes em biópsias de pacientes com ASC-H. Todos os 3 casos de NIC III foram diagnosticados em pacientes dos grupos ASCUS neoplásico e ASC-H. No grupo das 30 pacientes com citologia normal/inflamatória, 8 foram submetidas à biópsia tendo sido encontrado 1 caso de NIC I e 1 caso de HPV. Os resultados anatomopatológicos das biópsias das pacientes com alterações durante o exame colposcópico, estão dispostos nas tabelas 5 e 6.

Tabela 5 - Resultado das biópsias realizadas nas pacientes com diagnóstico inicial de ASCUS que após revisão foram reclassificados como citologia normal/inflamatória, ASCUS provável reativo e ASCUS provável neoplasia, que apresentaram alterações durante o exame colposcópico. Biópsia Normal/ inflamatória nº (%) Citologia ASCUS Total Provável reativo Provável neoplasia nº (%) nº (%) Normal 6 (20,0) 7 (18,4) 9 (28,1) 22 HPV/NIC I 2 (6,6) 1 (2,6) 7 (21,8) 10 NIC II/III 0 1 (2,6) 5 (15,6) 6 Não realizada 22 (73,3) 29 (76,3) 11 (34,3) 62 Total 30 38 32 100 p = não significante; teste qui-quadrado com correção de Yates e teste exato de Fisher Não encontramos diferença estatisticamente significante quando comparamos a presença de alterações nas biópsias entre os grupos normal/inflamatório, ASCUS provável reativo e ASCUS provável neoplasia.