A PESQUISA SOBRE REPRESENTAÇÕES SOCIAIS NO CONTEXTO DO SERVIÇO SOCIAL. emancipação

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Transcrição:

emancipação A PESQUISA SOBRE REPRESENTAÇÕES SOCIAIS NO CONTEXTO DO SERVIÇO SOCIAL Jussara Ayres Bourguignon* RESUMO Este texto trata da concepção de Representações Sociais, considerando as contribuições iniciais de Serge Moscovici. Preocupa-se em especificar a importância da temática para o Serviço Social, especialmente quanto aos objetos de sua investigação, apontando algumas possibilidades para o estudo das Representações Sociais, sem perder de vista a especificidade do Serviço Social. PALAVRAS-CHAVE representações sociais, pesquisa social, serviço social No âmbito do Serviço Social tem sido crescente o número de pesquisas que apontam para a natureza de um objeto de estudo novo e instigante as Representações Sociais. Estudam-se objetos específicos e que fazem parte da intervenção profissional, porém, considerando a percepção que os sujeitos participantes das pesquisas possuem sobre questões pertinentes a estes objetos. Estas pesquisas demonstram que não basta apenas analisar os fenômenos em sua dimensão quantitativa, bem como é insuficiente contextualizar, históricamente, as suas determinações. O fenômeno social analisado exige, para sua melhor compreensão, ir mais além, ou seja, investigar quais representações os sujeitos constroem sobre ele. Além disto, as pesquisas exigem o diálogo entre diferentes * Professora do Departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Ponta Grossa - PR. Doutoranda do Curso de Pós Graduação em Serviço Social da PUC/São Paulo.

áreas de conhecimento, abordando o objeto sob diferentes perspectivas, buscando dar-lhe o tão necessário sentido de totalidade. Jean Claude ABRIC (1996, p. 9-10 ), no Prefácio à obra Núcleo Central das Representações Sociais, reafirma a importância do estudo desta temática, na atualidade: Isto porque, para além das tomadas de posição ideológicas, a análise científica das mentalidades e das práticas sociais será um dos elementos indispensáveis à evolução e ao progresso social. E a teoria das Representações Sociais constitui hoje um sistema teórico particularmente importante para atingir esse objetivo (...) pois uma das vantagens da perspectiva das Representações Sociais é que ela se nutre de abordagens diversas e complementares: estruturais, por certo, mas igualmente etnólogas e antropológicas, sociológicas e históricas. É inegável que a teoria das Representações Sociais está hoje no centro de um debate interdisciplinar, ampliando as possibilidades de compreensão das relações entre o conhecimento e as práticas sociais que lhes dão origem. Especialmente, exige que este tipo de produção de conhecimento estabeleça diálogo permanente entre diferentes fundamentos teóricos e procedimentos metodológicos. Muito embora se reconheçam as contribuições de estudiosos da Sociologia do Conhecimento sobre a natureza do conhecimento de senso comum, a exemplo de MAUSS (1974); BORDIEU (1982); GOFFMAN (1983); BERGER e LUCKMANN (1985) e MAFFESOLI (1988), pode- se considerar que no âmbito da Psicologia Social é SERGE MOSCOVICI* quem contribuiu, decisivamente, para a consolidação do conceito de Representação Social e para o diálogo teórico/ metodológico entre a Sociologia e a Psicologia. LAGACHE (1978, p.11) no Prefácio da obra A Representação Social da Psicanálise, diz que:... o pensamento de Moscovici é um pensamento que estimula e incita ao diálogo. Foi um empreendimento novo e audacioso atacar os problemas da Sociologia do Conhecimento no terreno de uma atualidade próxima e viva, por vezes candente... * Autor da obra francesa La Psycanályse, son Image et son Public (1976), responsável pelo despertar do interesse de psicólogos e outros estudiosos das Ciências Sociais e Humanas pela temática Representações Sociais 78

Moscovici é o responsável por uma virada metodológica no âmbito da Psicologia Social quanto à valorização do conhecimento de senso comum (SPINK, 1999). Sua obra enfatiza que o estudo deste conhecimento pode contribuir para a apreensão da gênese dos comportamentos sociais, bem como para a possibilidade de redefinição do papel de uma ciência, levando-se em conta o poder/a força que o simbólico tem sobre o processo de construção do real a exemplo dos estudos que fez sobre a Psicanálise. Este autor cunhou o termo Representações Sociais, principalmente a partir das contribuições de Durkheim às Ciências Sociais, o qual tinha como preocupação discutir a importância das representações no contexto de uma coletividade resultando em interferências nas decisões tomadas individualmente pelos seres humanos (REIGOTA, 1995). Émile Durkheim, para MINAYO (1996, p.159), é considerado o primeiro autor que, do ponto de vista sociológico, desenvolve a concepção de Representações Sociais. Este termo em sua obra ganha a expressão Representações Coletivas, ou seja: categoria de pensamento que expressa a realidade de uma determinada sociedade. Durkheim considera que as representações têm uma natureza dupla, pois são coletivas e individuais. As representações coletivas são universais e, através da linguagem e dos símbolos, expressam conceitos, valores e normas que retratam a sociedade na sua totalidade. Portanto, são manifestações da consciência coletiva. As representações individuais fundamentam-se nas consciências individuais e, ao mesmo tempo, são determinadas pelo coletivo. As representações são partilhadas nas relações estabelecidas pelos indivíduos e são homogêneas. Neste sentido têm a função de coerção em relação às representações individuais que são efêmeras, enquanto as coletivas são estáveis e cristalizadas. (RODRIGUES, 1978) A crítica de Moscovici a Durkheim refere-se ao fato de o mesmo apresentar uma concepção que não corresponde à dinâmica da sociedade moderna e ao grau, cada vez mais complexo, dos processos de comunicação entre indivíduos, grupos sociais e comunidades. Constrói, então, um conceito integrador Representações Sociais. Para Moscovici, as representações coletivas são superadas pelas sociais devido ao seu conteúdo social e ao seu processo de constante renovação. Também, devido à necessidade de fazer da representação um 79

caminho conceitual que configura a passagem entre o mundo individual e o mundo social. (NEGREIROS, 1995) Considerando as reflexões trabalhadas até aqui, ainda fica pendente a dúvida sobre o que é Representação Social. Conhecimento de senso comum construído através da experiência cotidiana de cada um? Conhecimento que inclui aspectos ideológicos, culturais conhecimentos científicos propagados, valores, afetos e visões de mundo de um determinado grupo social? Pode-se responder a estas questões, levantando-se diversas concepções sobre Representações Sociais. O próprio MOSCOVICI (1978, p.41-42) alerta para o fato de que o termo é complexo, polifacetado e difícil de sintetizar:...se a realidade das representações sociais é fácil de apreender, não o é o conceito. Isto porque situa-se numa encruzilhada de conceitos de natureza sociológica, antropológica, filosófica e psicológica, e é preciso mergulhar nestes ramos das Ciências Humanas e Sociais para...reatualizar o conceito... A amplitude do termo pode ser observada na seguinte concepção: Toda representação é composta de figuras e de expressões socializadas. Conjuntamente, uma Representação Social é a organização de imagens e linguagens, porque ela realça e simboliza atos e situações que nos são (...) nos tornam comuns. ( MOSCOVICI, 1978, p.25) Sua origem está na vida cotidiana e nos processos de interação social; cumpre o papel de reconstruir os objetos de atenção dos sujeitos, mantém ou interfere nos sistemas de valores e de crenças professadas por grupos sociais, bem como mobiliza a atividade e os comportamentos humanos. Em poucas palavras, a representação social é uma modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos. (MOSCOVICI, 1978, p.26) MOSCOVICI (1978, p.26-27) alerta para a necessidade da Ciência não vulgarizar o termo Representações Sociais, como se fosse mero conhecimento de senso comum, desprezando sua vinculação com um determinado contexto histórico, mas principalmente desmerecendo seu conteúdo cognitivo, isto porque: elas possuem função constitutiva da realidade.... Permeada de valores, de noções e de práticas, as representações orientam a forma como os sujeitos do- 80

minam seu mundo objetivo e material e, pautados em suas relações interpessoais, definem sua identidade pessoal.... A representação social é um corpus organizado de conhecimentos e uma das atividades psíquicas graças às quais os homens tornam inteligível a realidade física e social, inserem-se num grupo ou numa ligação cotidiana de trocas, e liberam os poderes de sua imaginação. (MOSCOVICI, 1978. p. 28) Buscando elucidar a dimensão das Representações Sociais, acrescentam-se, ainda, outras concepções de autores que contribuem decisivamente para o avanço das discussões sobre esta temática: Representação Social é uma forma de saber prático que liga um sujeito a um objeto (...) uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, que tem um objetivo prático e concorre para a construção de uma realidade comum a um conjunto social. (JODELET apud SÁ, 1996, p. 32-33) Representações Sociais são princípios geradores de tomadas de posição ligados a inserções específicas em um conjunto de relações sociais e que organizam os processos simbólicos que intervêm nessas relações. (BOURDIEU apud SÁ, 1998, p. 74-75) Como modalidade de pensamento prático, as Representações Sociais são alguma coisa que emerge das práticas em vigor na sociedade e na cultura e que as alimenta, perpetuando-as ou contribuindo para sua própria transformação. (SÁ, 1998, p. 50) Destaca- se, nestas concepções, o fato de que a teoria que se organiza para explicar as Representações Sociais, a partir de Moscovici, busca compreender a construção de saberes sociais, a construção dos significados dados ao social e aos seus elementos constitutivos. Construção que envolve, ao mesmo tempo, atos de conhecimento, afetos, experiências sociais, graus de pertença dos sujeitos a seus grupos sociais; sendo que a base de tudo é o contexto sócio histórico em que se inserem tais sujeitos. É interessante observar-se que há nas Representações Sociais um conteúdo que expressa a atualidade dos fenômenos sociais, ao mesmo tempo que não se pode negar o poder de determinação da história e da cultura de um povo. As representações sociais são entidades quase tangíveis. Elas circulam, cruzam-se e se cristalizam incessantemente através de uma fala, de um gesto, um encontro em nosso universo cotidiano. A maioria das relações sociais estabelecidas, os objetos produzidos ou consumidos, as comunicações trocadas, delas estão impregna- 81

dos. Sabemos que as Representações Sociais correspondem, por um lado, à substância simbólica que entra na elaboração e, por outro à prática que produz a dita substância, tal como a ciência ou os mitos correspondem a uma prática científica e mítica. (MOSCOVICI, 1978, p. 41) Representação Social, portanto, é a expressão do conhecimento reconstruído pelo sujeito a respeito da sua realidade cotidiana, considerando as determinações sociais, históricas e culturais presentes no contexto em que se insere. As Representações Sociais são a passarela entre o mundo individual e o mundo social. Permitem compreender a vida social, sem desprezar os espaços micro sociais em que as relações sociais se fazem, se solidificam. GUARESCHI (1997, p.20) aponta para isto: O modo mesmo de sua produção se encontra nas instituições, nas ruas, nos meios de comunicação de massa, nos canais informais de comunicação social, nos movimentos sociais, nos atos de resistência e em uma série infindável de lugares sociais. É quando as pessoas se encontram para falar, argumentar, discutir o cotidiano, ou quando elas estão expostas às instituições, aos meios de comunicação, aos mitos e à herança histórico - cultural de suas sociedades, que as representações são formadas. JODELET citada por SÁ (1996, p.32-33) esclarece que as Representações Sociais são fabricadas para que possamos nos relacionar com o mundo, pois elas ligam um sujeito a um objeto, estabelecendo uma relação que resulta em construção cognitiva, através da qual o sujeito age sobre o mundo e sobre os outros. Tratando-se de um saber prático, podem ser apreendidos, através da linguagem, comportamentos ou outros materiais que registram o simbólico ou o imaginário. MOSCOVICI (1978, p.48) alerta para isto, também, já que as Representações Sociais surgem de uma relação Sujeito/Objeto mais dinâmica em que objeto está inscrito num contexto parcialmente concebido pela pessoa ou pela coletividade como prolongamento de seu comportamento, e só existe para eles, enquanto função dos meios e dos métodos que permitem conhecê-los. Ainda, para JODELET, citada por LANE (1995, p. 61 ) apreender as Representações Sociais exige do pesquisador estar atento a três dimensões essenciais: as condições sócio culturais em que se 82

produzem; o conteúdo cognitivo destas representações; a experiência social dos sujeitos. Ou seja, é necessário articular os elementos afetivos, os sociais e os cognitivos e a sua exposição através da linguagem e da comunicação. Todos estes elementos permeiam a construção dos significados que o sujeito dá ao social. Neste caso:... é necessário dizê-lo: - as Representações Sociais devem ser estudadas articulando elementos afetivos, mentais e sociais e integrando, ao lado da cognição, da linguagem e da comunicação, a consideração das relações sociais que afetam as Representações e a realidade material, social e ideal sobre as quais elas vão intervir. Considerando o grau de complexidade que envolve a natureza das Representações Sociais, à investigação científica cabe descrevêlas e analisá-las em todas as suas dimensões. JODELET (1991, p.43-45) informa os eixos necessários à compreensão de sua multidimensionalidade: 1. a representação social é sempre representativa de alguma coisa (objeto) e de alguém (sujeito); 2. as representações sociais envolvem uma atividade de simbolização do objeto e de sua interpretação, dando-lhe significados. Os significados nada mais são que as construções cognitivas do sujeito; 3. o estudo das representações sociais deve envolver todos os aspectos que demonstrem o grau de pertença dos sujeitos a um grupo social, que demonstrem como os sujeitos participam da vida social e que cultura expressam; 4. as representações sociais se apóiam em suportes lingüísticos e em comportamentos que dão forma ao objeto e o caracterizam; 5. trata-se de um saber prático, que se refere à experiência social dos sujeitos; 6. sinteticamente, analisar as representações significa responder a questões como: quem sabe? como sabe? com qual efeito? Ou seja, compreendê-las, a partir das condições de sua produção e circulação, de seus processos, de suas etapas e de seu estatuto epistemológico. As Representações Sociais fazem uma ponte entre o conhecimento de senso comum e o científico, na medida em que é sistema 83

de acolhida das informações que circulam no meio social, concretizadas através das experiências dos sujeitos envolvidos e dos processos de comunicação. Por ser assim, têm uma carga emocional muito grande, o que facilita as trocas e as partilhas entre diferentes indivíduos, grupos e comunidades. O que chama a atenção na obra de MOSCOVICI (1978, p.67-75) são dois questionamentos essenciais à compreensão da natureza das representações. O primeiro questiona: Em que sentido uma representação é social? E o segundo, quais são os significados que o adjetivo social adiciona ao substantivo representação? A estas questões responde:...representação social se mostra como um conjunto de proposições, reações e avaliações que dizem respeito a determinados pontos, emitidas aqui e ali, no decurso de uma pesquisa de opinião ou de uma conversação pelo coro coletivo de que cada um faz parte, queira ou não (...) Mas essas proposições, reações ou avaliações estão organizadas de maneira muito diversa segundo as classes, as culturas ou os grupos e constituem tantos universos de opiniões quantas classes, culturas ou grupos existem. Para o autor, as representações sociais expressam a forma como cada grupo social se organiza e constrói seus significados, através de interações dinâmicas e determinadas historicamente. São sociais, porque se trata de um esforço coletivo de construção de conhecimentos que permitem indivíduos, grupos e comunidades lidar com situações e com fenômenos que fazem parte de sua realidade cotidiana. E afirma...qualificar uma representação de social equivale a optar pela hipótese de que ela é produzida, engendrada, coletivamente. (MOSCOVICI, 1978, p. 76) Porém, segundo o autor, mais importante que saber quem é o sujeito que produz as representações sociais, é saber porque se produzem as representações sociais, a que funções correspondem e que condutas e orientações sociais resultam, compondo um quadro complexo que as qualifica. Tudo isto incita o pesquisador a se preocupar com as múltiplas dimensões que os significados atribuídos pelos sujeitos a sua realidade têm cujo potencial está em mobilizar e em transformar relações sociais. Desafio este que também se coloca às Ciências Sociais...reatar, neste ponto, o fio perdido da tradição pode ter conseqüências muito felizes para a nossa ciência. (MOSCOVICI, 1978, p. 81) 84

No entanto, o que garante a consistência ao estudo das Representações Sociais? Diante de contextos tão diversos e tão complexos, tudo é Representação Social? SÁ (1998, p.50) demonstra que a relevância e a consistência do estudo, nesta área, estão vinculadas ao grau de articulação entre o pensamento social e a prática, compreendendo a realidade cotidiana dos grupos sociais, ou seja : o objeto em questão deve se encontrar implicado, de forma consistente, em alguma prática do grupo... Entende-se, então que os estudos sobre representação social devem estar orientados pelo princípio da Práxis, categoria filosófica que demonstra que há estreita articulação entre ação/conhecimento, constituindo se de um processo permanente de transformação da ação e das próprias representações. Finalizando estas primeiras aproximações conceituais, não se pode deixar de pontuar em que medida o estudo das Representações Sociais interessa ao Serviço Social e se transforma em objeto de pesquisa social. O Serviço Social, enquanto profissão inserida na divisão sócio técnica do trabalho, tem uma natureza interventiva e, como objeto, a Questão Social em suas diversas expressões na sociedade. Trabalha com o planejamento, com a implementação e com a avaliação de programas sociais resultantes de políticas públicas destinadas a garantir direitos sociais básicos e a emancipação do cidadão. Atende, também às demandas presentes nas organizações da sociedade civil. Faz parte dos seus instrumentos de intervenção e de produção de conhecimento a pesquisa social e, no que se refere à temática em questão, a produção científica do Serviço Social preocupa-se com as construções cognitivas dos próprios sujeitos envolvidos com sua prática profissional. Sendo assim, percebe-se que o estudo das Representações Sociais coloca inúmeras possibilidades, tanto ao campo da produção de conhecimentos, quanto ao campo da intervenção junto a estes segmentos sociais, das quais podem ser destacados: resgate do conhecimento popular, construído num cotidiano de lutas e de trabalho pela sobrevivência; estreitamento das relações de diálogo entre diferentes sujeitos que participam das intervenções e das construções teóricas no 85

Serviço Social; realização de intercâmbio entre diferentes áreas de conhecimentos e afins, como Sociologia, Antropologia, História, Filosofia e Psicologia Social. Voltar-se para este objeto pressupõe enfrentar o desafio de configurar a peculiaridade do campo de estudo em Representações Sociais, no âmbito do Serviço Social. O estudo das Representações Sociais apresenta possibilidades de investigar um mundo permeado de sinais, de símbolos e de linguagens que expressam diferentes formas de interpretar uma mesma realidade. Podem, principalmente, revelar como os sujeitos se apropriam de sua própria realidade, dando pistas aos pesquisadores sobre a natureza das relações sociais. É importante apreender o pensamento dos sujeitos, dos grupos sociais e das coletividades sobre os objetos de sua intervenção e de suas relações, pois as Representações Sociais têm desempenhado função importante na comunicação entre eles e na formação de opiniões, de comportamentos, de atitudes frente às exigências da realidade. As Representações Sociais não só explicam tais significados, como também demonstram o grau de pertencimento de um sujeito ao seu grupo social, fato que denota a necessidade de apreendêlas sempre de forma vinculada ao contexto sócio histórico e cultural que as engendrou. Neste momento, enfatiza-se que, na esfera da Pesquisa Social, o estudo das Representações Sociais oportuniza construções teórico metodológicas muito ricas, pois fazem emergir concepções, reflexões, discursos, enfim, significados sobre determinados fenômenos sociais que resultam de experiências atuais, vivenciadas no cotidiano, na presente trama das relações e das interações sociais. Com certeza, esta possibilidade foge ao tradicional tratamento metodológico dado à realidade pelas Ciências Sociais e Humanas no paradigma clássico. ABSTRACT This paper treats about Social Representation conception, considering Serge Moscovici initial contributions. It s concerned with specifying the importance of the theme of Social 86

Work, especially about its investigation objects, pointing out some possibilities to Social Representation study, without losing sight of Social Work particularities. KEY WORDS social representation, social research, social work REFERÊNCIAS ABRIC, Jean - Claude. Prefácio. In: SÁ, Celso Pereira. Núcleo central das representações sociais. Petrópolis: Vozes, 1996. BERGER, P. I. ; LUCKMANN, T. A construção social da realidade. Petrópolis: Vozes, 1985. BOURDIEU, P. A economia das trocas simbólicas. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1982. GOFFMAN, E. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1983. GUARESCHI, P.; JOVCHELOVITCH, S. (orgs.). Textos em representações sociais. Petrópolis: Vozes, 1997. JODELET, Denise. Representações sociais: um domínio em expansão. In JODELET, D. Les Représentations Sociales. Paris: PUF, 1991. LAGACHE, Daniel. Prefácio. In: MOSCOVICI, Serge. A representação social da psicanálise. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. LANE, Silvia T. M. Usos e abusos do conceito de representações sociais. In: SPINK, M. J. O conhecimento do cotidiano. São Paulo: Brasiliense, 1995. MAFFESOLI, M. O conhecimento comum. São Paulo: Brasiliense, 1988. MAUSS, M. Sociologia e antropologia. São Paulo: EDUSP, 1974. MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo Rio de Janeiro: HUCITEC ABRASCO,1996. MOSCOVICI, Serge. A representação social da psicanálise. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. NEGREIROS, Maria A. G. As representações sociais da profissão de Serviço Social. Lisboa: Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa, 1995. (Coleção Investigar o Agir) REIGOTA, Marcos. Meio ambiente e representação social. São Paulo: Cortez, 1995. (Coleção Questões de Nossa Época, n. 41). RODRIGUES, José Albertino (org). Durkheim: sociologia. Tradução de Laura N. Rodrigues. São Paulo: Ática, 1978. SÁ, Celso Pereira de. Núcleo central de representações sociais. Petrópolis: Vozes, 1996. 87

. A Construção do Objeto de Pesquisa em Representações Sociais. Rio de Janeiro: Ed. UERJ,1998. SPINK, Mary Jane (Org). Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano: aproximações teóricas e metodológicas. São Paulo: Cortez, 1999. 88