Processo nº 28/2015 Denunciado São José/Unimed Relatório A Denúncia, baseada em relatório do comissário Sr. Edmilson Vermelho, aponta ocorrências envolvendo torcedores da equipe São José/Unimed e membros da delegação da equipe Paulistano/Unimed, ocorrências estas que teriam sido verificadas em via pública lindeira ao Ginásio da equipe São José/Unimed A D. Procuradoria requisitou a produção de todos os meios de prova admitidos, especialmente a produção de prova oral, com o arrolamento de testemunhas. É o relatório. Decido Entende este Auditor Relator haver questão preliminar a ser enfrentada antes da produção probatória requerida.
A Denúncia trazida aos autos está absoluta e totalmente suportada no relatório do comissário Sr. Edmilson Vermelho, que relata a ocorrência de fatos em área externa ao Ginásio, na via pública, conforme se verifica dos trechos do relatório reproduzidos pela peça inicial, que ora passamos a destacar: (...) a torcida de São José/Unimed estava lá fora, na rua, e havia jogado dois rojões contra o ônibus deles. (...) Tinha um grupo de torcedores de São José/Unimed na rua e na calçada que dá acesso à entrada do ginásio, gritavam e xingavam a equipe do Paulistano/Unimed. Observei que dois torcedores soltaram dois rojões para o alto (...) Novamente respondi:.fui lá fora e acompanhei a entrada de vocês, tudo o que vi será relatado. (Denúncia) (negritos acrescentados) Portanto, a descrição dos fatos contida no relatório que suporta a Denúncia relata ocorrências na área externa ao Ginásio, reitere-se, em via pública. Nada é relatado que tenha ocorrido no interior da praça esportiva. E, da mesma forma, nenhuma outra alegação nem se fale aqui em provas, que seriam produzidas oportunamente, mas sim, não houve sequer mera alegação - foi trazida aos autos até o momento do início do Julgamento, quando a preliminar foi suscitada, que servisse para contrapor a constatação de que os fatos ocorreram em área externa ao Ginásio utilizado pela equipe Denunciada. Pois bem.
É entendimento já manifestado por esta Comissão Disciplinar aquele no sentido de que a Justiça Desportiva não tem competência para julgar casos que verificados fora da praça esportiva, em área pública. Ocorrências de tal natureza, não estão inseridas nas competências dos tribunais de Justiça Desportiva, considerada a delimitação contida no próprio art. 24 do CBJD. É preciso que reste absolutamente claro. Não se pretende, aqui, mitigar a gravidade dos fatos. Longe disso. Nem, ao menos, excluir a hipótese de eventual responsabilização das entidades de prática desportiva mandantes, das entidades de administração responsáveis pela organização do evento, ou mesmo dos próprios torcedores pelos graves insultos que lhe são imputados a partir da narrativa fática. Tal responsabilização poderá, sim, ser verificada e imputada, na esfera administrativa organização da competição na esfera cível responsabilidade civil e, inclusive no âmbito criminal. O caso comportaria, em tese, aplicação de diversos dispositivos legais aplicáveis de tais natureza, especialmente, mas não se limitando, àqueles contidos na Lei 10.671/03 ( Estatuto do Torcedor ).
Entretanto, a competência para julgar tais fatos sob a ótica de tais dispositivos legais é da chamada Justiça Comum, cível ou criminal, mas não, jamais, da Justiça Desportiva. Com efeito, o entendimento que ora se reafirma aqui é de que, tendo sido verificadas em área externa à praça desportiva, a Justiça Desportiva não tem competência para julgar tais ocorrências. E com tal entendimento corroboram os tipos dos artigos do CBJD colacionados pela própria Denúncia. Vejamos o disposto no art. 211, que fala em manter o local que tenha indicado para realização do evento (negritos nossos). O mesmo se verifica em relação ao artigo 213, que menciona desordens na praça esportiva (negritos acrescentados). Ao nosso ver, mesmo o parágrafo único do art. 211, ao mencionar responsabilidade por possibilitar o acesso ao local da competição, o faz delimitando a obrigação da entidade mandante de franquear acesso somente a partir da entrada da delegação na área interna de sua praça desportiva. Por exemplo, a partir dos portões da sede do clube mandante até o vestiário e do vestiário à quadra, e assim por diante. Entendemos que a responsabilidade do parágrafo único do art. 211 está delimitada do portão para dentro, jamais na área pública. Caso contrário, o
parágrafo único do art. 211 estaria em contradição com caput do próprio artigo, o que em Direito não se admite. Esta Comissão Disciplinar já reconheceu a tese acima deduzida, em voto brilhante da lavra do D. Auditor Dr. RICARDO GRAICHE, a seguir reproduzido: DA INÉPCIA DA DENÚNCIA Analisando os fatos trazidos acima, verifica-se que estes ocorreram em via pública, há mais de 30 (trinta) quilômetros do local da partida. Ainda que se diga que os árbitros da partida, ao se dirigirem à saída do ginásio teriam encontrado quatro torcedores, nenhuma atitude a estes foi imputada, ou seja, nenhuma infração disciplinar que pudesse ser responsabilizada pelas equipes denunciadas fora cometida. A Justiça Desportiva brasileira não possui competência pra julgar infrações cometidas em vias públicas. Isto é caso de polícia, e não de Justiça Desportiva. Não se pode, de forma alguma, imputar qualquer responsabilidade jurídicodesportiva às equipes denunciadas. Aliás, ESTE PROCESSO SEQUER DEVERIA EXISTIR. Repita-se, querer imputar às equipes denunciadas qualquer responsabilidade jurídico-desportiva por uma perseguição automotiva ocorrida em rodovia pública, há mais de 30km do local da partida, é no mínimo, um disparate.
Não tendo sido cometida (e nem narrada na súmula da arbitragem) nenhuma infração cometida no local da partida, bem como a mais completa impossibilidade de julgamento dos fatos ocorridos em via pública, passo a proferir a decisão. (Processo nº 02/2014 Denunciado: WINNER LIMEIRA, artigos 213, 243-D, 243-F e 258 do CBJD; SOCIEDADE ESPORTIVA PALMEIRAS, artigos 213, 243-D, 243-F e 258 do CBJD, j. 9.12.2014) Pelo exposto, resta reconhecida a inépcia da Denúncia por falta de competência da Justiça Desportiva para julgar o caso. É como decido. São Paulo, 6 de maio de 2015 José Francisco C. Manssur Relator