Assembleia Parlamentar Paritária ACP-UE Comissão dos Assuntos Políticos 31.7.2014 PROJETO DE RELATÓRIO sobre o desafio da reconciliação nacional nos países em situação de pósconflito e de pós-crise Correlatores: Komi Selom Klassou (Togo) e Joachim Zeller DR\1033859.doc AP101.715v02-00
ÍNDICE Página PÁGINA REGULAMENTAR...3 PROPOSTA DE RESOLUÇÃO...4 AP101.715v02-00 2/8 DR\1033859.doc
PÁGINA REGULAMENTAR Na sua reunião de 24 de novembro de 2013, a Mesa da Assembleia Parlamentar Paritária ACP-UE autorizou a sua Comissão dos Assuntos Políticos a elaborar um relatório, nos termos do artigo 2.º, n.º 8, do seu Regimento, sobre o desafio da reconciliação nacional nos países em situação de pós-conflito e de pós-crise. Na sua reunião de 15 de março de 2014, a Comissão dos Assuntos Políticos designou correlatores Filip Kaczmarek e Komi Selom Klassou (Togo). A Comissão dos Assuntos Políticos apreciou o projeto de relatório na sua reunião de 29 de novembro de 2014 e aprovou o projeto de proposta de resolução correspondente. [Encontravam-se presentes no momento da votação:... A resolução foi apresentada para aprovação em...] DR\1033859.doc 3/8 AP101.715v02-00
PROPOSTA DE RESOLUÇÃO sobre o desafio da reconciliação nacional nos países em situação de pós-conflito e de póscrise A Assembleia Parlamentar Paritária ACP-UE, Tendo estado reunida em Port Vila (Vanuatu) de 1 a 3 de dezembro de 2014, Tendo em conta o artigo 18.º, n.º 1, do seu Regimento, Tendo em conta o Tratado da União Europeia, nomeadamente o artigo 2.º e o artigo 21.º, n.os 1 e 2, Tendo em conta o Acordo de Parceria ACP-CE de Cotonu, nomeadamente o artigo 11., Tendo em conta a Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos, Tendo em conta a Resolução 235, sobre a justiça de transição em África, da Comissão Africana dos Direitos do Homem e dos Povos, que se reuniu na sua 53.ª sessão ordinária em Banjul (Gâmbia), de 9 a 22.04.13, Tendo em conta a Resolução do Parlamento Europeu sobre a situação das mulheres nos conflitos armados e o seu papel na reconstrução e no processo democrático nos países em situação pós-conflito (2005/2215(INI)), Tendo em conta a Carta das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos do Homem, os pactos internacionais em matéria de direitos humanos, as convenções de Genebra de 12 de agosto de 1949 e os protocolos adicionais de 8 de junho de 1977, Tendo em conta o Relatório do Secretário-Geral das Nações Unidas sobre o Estado de direito e a justiça de transição nos conflitos e nas sociedades em situação de pós-conflito (S/2004/616), nomeadamente as recomendações pertinentes contidas no relatório; tendo em conta o Relatório do Secretário-Geral sobre o reforço da ação da ONU em favor do Estado de direito (A/61/636-S/2006/980), bem como o seu relatório sobre o reforço da mediação e das suas atividades de apoio (S/2009/189), Tendo em conta as resoluções da Comissão dos Direitos do Homem das Nações Unidas sobre os direitos humanos e a justiça de transição (2005/70, de 20 de abril de 2005), a impunidade (2005/81, de 21 de abril de 2005) e o direito à verdade (2005/66, de 20 de abril de 2005), AP101.715v02-00 4/8 DR\1033859.doc
Tendo em conta a Resolução 60/147, de 16 de dezembro de 2005, da Assembleia Geral das Nações Unidas sobre os princípios de base e as orientações relativas ao direito a recurso e à indemnização das vítimas de violações flagrantes do direito internacional em matéria de direitos humanos e de violações graves do direito humanitário e a Resolução 9/10 do Conselho dos Direitos do Homem, de 24 de setembro de 2008, sobre os direitos humanos e a justiça de transição, bem como a Resolução 9/11, igualmente de 24 de setembro de 2008, sobre o direito à verdade, Tendo em conta a Resolução 12/12, de 12 de outubro de 2009, do Conselho dos Direitos do Homem da Assembleia Geral das Nações Unidas sobre o direito à verdade, Tendo em conta a Declaração do Presidente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, de 16 de abril de 2010, sobre a questão da " Consolidação da paz após situações de conflito ", Tendo em conta a Declaração do Presidente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, de 29 de junho de 2010, intitulada " Promoção e reforço do Estado de Direito nas atividades de manutenção da paz e da segurança internacionais ", Tendo em conta a Resolução 1325 do Conselho de Segurança, de 31 de outubro de 2000, sobre as mulheres, a paz e a segurança, Tendo em conta a Resolução 2122 do Conselho de Segurança, de 18 de outubro de 2013, que visa reforçar o papel das mulheres em todas as etapas da prevenção de conflitos, Tendo em conta a Resolução 2151 do Conselho de Segurança, de 28 de abril de 2014, sobre a manutenção da paz e da segurança internacionais - reforma do setor da segurança: Obstáculos e possibilidades, Tendo em conta o Relatório da Comissão para a Verdade e a Reconciliação (África do Sul) que visa identificar todas as violações dos direitos humanos cometidas desde o massacre perpetrado em 1960 em Sharpeville, a fim de permitir uma reconciliação nacional entre as vítimas de abusos e os seus autores, Tendo em conta o Guia intitulado " Reconciliação após conflitos violentos ", elaborado pelo Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral (IDEA), Tendo em conta o Manual da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económicos (OCDE) sobre a reforma dos sistemas de segurança: apoiar a segurança e a justiça, publicado em 2007, Tendo em conta a Resolução da Assembleia Parlamentar Paritária ACP-UE sobre a propagação mundial do terrorismo e o papel da Internet e das redes sociais, aprovada em Estrasburgo em 19 de março de 2014, DR\1033859.doc 5/8 AP101.715v02-00
A. Considerando que os conflitos armados internos provocados por tensões internas de ordem política, étnica ou religiosa estão a ocorrer ou já ocorreram em muitos países ACP e da União Europeia; B. Considerando que, para o desenvolvimento de um país, é fundamental não só resolver os conflitos como também implementar um processo de reconciliação para evitar que os mesmos se repitam; C. Considerando que a dificuldade de resolver esses conflitos e alcançar uma verdadeira reconciliação é proporcional à dimensão dos abusos cometidos e do número de vítimas; D. Considerando que o impacto negativo dos conflitos sobre as mulheres e crianças, e, por conseguinte, sobre a paz e a reconciliação, constitui uma ameaça para o desenvolvimento; E. Considerando que a proteção dos direitos das mulheres e a sua participação no processo de resolução de conflitos e de reconciliação nacional favorecem a instauração da paz e da segurança; F. Considerando que a reconciliação é, por um lado, um objetivo e uma esperança e que, por conseguinte, uma verdadeira reconciliação é um processo moroso, que pode afetar várias gerações, e que exige uma vontade comum para ser alcançada e uma organização independente corroborada pela confiança de todas as partes implicadas; G. Considerando que não pode haver reconciliação sem que haja uma identificação circunstanciada das violações e dos crimes cometidos por todas as partes, um inquérito sério sobre esses factos, o reconhecimento desses factos e das suas circunstâncias tanto pelos autores como pelas suas vítimas, bem como uma forma de indemnização justa; H. Considerando que as medidas visando uma reconciliação só podem ser eficazes se respeitarem o direito internacional, nomeadamente em matéria de direitos humanos; I. Considerando que certos tipos de crime são da competência do Tribunal Penal Internacional que, em alguns casos, é a única entidade que permite punir crimes, evitar a impunidade e dissuadir os criminosos; J. Considerando que os crimes e abusos são a expressão extrema de ressentimentos profundos no seio de um vasto segmento da população e que, portanto, importa combater as causas profundas desses ressentimentos; K. Considerando que, em alguns casos, foram relatadas cumplicidades nomeadamente através do silêncio de uma parte significativa da população ou de uma coresponsabilidade internacional; L. Considerando que, a par dos tribunais, se desenvolveu uma outra via nomeadamente na sequência da criação de mais de vinte comissões " verdade e reconciliação " no mundo, nomeadamente no continente africano, sendo a mais conhecida a da África do Sul; AP101.715v02-00 6/8 DR\1033859.doc
M. Considerando que, se a verdade é a condição fundamental para a justiça, as relações entre a justiça e a reconciliação, a memória e a paz social são complexas; que a impunidade se encontra, amiúde, no cerne do debate entre a lógica do " esquecimento ", que impulsiona o antigo opressor, e a lógica da justiça a que aspira a vítima; N. Considerando que as circunstâncias sociopolíticas que desencadearam a crise e as que permitiram o fim da crise são específicas para cada caso e que, portanto, importa adotar uma estratégia adequada conducente à reconciliação; O. Considerando que, porquanto a reconciliação é um processo moroso, é fundamental consolidar o Estado de direito e fazer acompanhar o processo de recuperação e de reforço da confiança com medidas sociais e económicas específicas; 1. Encoraja vivamente os atores implicados num processo de normalização pós-conflito, nomeadamente os responsáveis políticos, a participarem na construção de um processo de reconciliação nacional através de um diálogo construtivo, inclusivo e permanente, uma vez que o restabelecimento da paz num país também significa a eliminação de um elemento de risco para toda a sub-região; 2. Insiste junto desses atores na importância de apoiar, através de uma campanha de informação e de sensibilização sólida, as mensagens de reconciliação de molde a gerar um grande apoio por parte da população e a sua mobilização em prol das medidas tomadas para o efeito; 3. Recomenda, nos casos em que o sistema judicial está sobrecarregado, a implementação de mecanismos de justiça de transição, tanto judiciais como extrajudiciais; 4. Sublinha o importante papel desempenhado pelo Tribunal Penal Internacional na luta contra a impunidade; 5. Sublinha a necessidade de dotar as comissões "verdade e reconciliação" de autonomia total e de prever os recursos suficientes e os poderes adequados necessários ao bom desenrolar da sua missão; 6. Insiste junto dos negociadores da paz para que resistam à tentação de incluir cláusulas de amnistia no acordo global, na medida em que, embora possam servir de catalisador a curto prazo, a impunidade pode ser o germe de um novo conflito; 7. Salienta o papel que a comunidade internacional deve desempenhar na manutenção de um equilíbrio justo entre a necessidade de paz e a necessidade de justiça em situações de pósconflito e apela à facilitação imparcial a par de assistência técnica suficiente; 8. Convida as organizações internacionais, incluindo a União Europeia, a adotarem uma abordagem abrangente no seu apoio ao processo de normalização nos Estados frágeis; salienta, no entanto, a especificidade de cada caso e sublinha a necessidade de garantir que o processo conte com o apoio da população e de todos os interessados; DR\1033859.doc 7/8 AP101.715v02-00
9. Convida os Estados a apoiarem as iniciativas de paz tomadas a nível local e a terem em conta as necessidades das mulheres no processo de reabilitação, reintegração e reconstrução pós-conflito; 10. Recorda o papel fundamental que a sociedade civil pode desempenhar enquanto interface entre as autoridades públicas e as estruturas de reconciliação; 11. Sublinha a importância de meios de comunicação pluralistas, livres e independentes, na medida em que estes são fundamentais enquanto instrumentos de sensibilização, de defesa e de adesão ao processo de reconciliação, contribuindo igualmente para o controlo democrático e a transparência do processo; 12. Reconhece que a indemnização por crimes e violações constitui um elemento importante de qualquer processo de reconciliação e solicita, por conseguinte, a inscrição específica de uma observação a este respeito nos orçamentos dos Estados; 13. Recomenda vivamente o reforço das estruturas e das instituições do Estado, nomeadamente das que estão relacionadas com o sistema judicial; insta as autoridades nacionais a preverem os recursos necessários para este objetivo; 14. Encarrega os copresidentes de transmitirem a presente resolução às instituições da União Africana e da União Europeia, bem como ao Conselho ACP, às organizações de integração regional do Grupo ACP e ao Secretário-Geral das Nações Unidas. AP101.715v02-00 8/8 DR\1033859.doc