Vida e obra de Gil Vicente
Não existem dados concretos quanto à data e local de nascimento de Gil Vicente, mas segundo alguns estudiosos, o autor terá nascido em Guimarães, entre 1460 e 1470. Quanto à data da sua morte também não há certezas: pensa-se que terá ocorrido antes de 1540, talvez em 1536, ano em que escreveu a sua última obra. Gil Vicente, tal como costuma ser representado
A contemporaneidade e a coincidência do nome apontam para a possibilidade de este dramaturgo ser o autor da célebre Custódia de Belém, já que um documento da Chancelaria real, datado de 4 de fevereiro de 1513, menciona um ourives de nome Gil Vicente como «trovador mestre dabalança». Custódia de Belém
Não se conhece qualquer documento objetivo sobre a educação recebida por Gil Vicente. No entanto, é possível deduzir, através da leitura da sua obra, que o autor estava longe de ser um homem inculto: tinha um bom conhecimento de português e castelhano, bem como alguns conhecimentos de latim; conhecia a cultura greco-latina, como evidenciam as suas personagens mitológicas; conhecia a Bíblia, como se verifica nas suas obras de caráter religioso.
Gil Vicente foi casado duas vezes e teve cinco filhos: Gil Vicente Branca Bezerra Gil Vicente Melícia Rodrigues Gaspar Vicente Belchior Vicente Paula Vicente Luís Vicente Valéria Borges Terão sido os responsáveis pela organização e publicação, em 1562, da Copilaçam de todalas obras do pai.
Gil Vicente organizou espetáculos e festas entre 1502 e 1536 ao serviço da rainha D. Leonor, de D. Manuel I e de D. João III. As peças eram representadas perante a corte, não só em Lisboa, mas também nas residências reais de Évora, Almeirim, Tomar e Coimbra. As obras eram encomendadas para celebrar acontecimentos importantes (nascimentos, casamentos, entradas solenes) ou acompanhar festas religiosas. O teatro de Gil Vicente é, assim, um teatro de corte.
Gil Vicente esteve por muito tempo (tal como Gil Vicente ourives) ao serviço da rainha D. Leonor, que presenciou, a 7 de junho de 1502, a representação do Monólogo do Vaqueiro, a primeira obra conhecida do autor. Este continuará a escrever sob a proteção da «rainha velha» até à sua morte. Representação do Auto da Índia, em Almada, perante a rainha D. Leonor, em 1519. Carolina Santos, in História da literatura portuguesa ilustrada de Albino Forjaz de Sampaio, Lisboa, 1929-1932
O autor prosseguirá a sua criação dramática ao serviço do rei D. Manuel, que o incumbe de organizar as festas destinadas a celebrar a chegada da sua terceira mulher, que se realizaram em 20 e 21 de janeiro de 1521. Roque Gameiro, Gil Vicente na corte de D. Manuel, 1917
Em 1522, o autor dos autos continuou a gozar da mesma confiança sob o reinado de D. João III. Sabe-se que o monarca continuou a apoiar financeiramente o dramaturgo, tendo sido documentada a última verba (8000 réis) em 1535. Estátua de D. João III, Universidade de Coimbra
O dramaturgo escreveu cerca de 50 peças de teatro de natureza diversa, reunidas postumamente na já referida Copilaçam de Todalas Obras de Gil Vicente (1562), coletânea que se encontra repartida em cinco categorias: obras de devoção. Comédias. Tragicomédias. Farsas. obras miúdas. Frontispício da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente
Com as suas peças, Gil Vicente pretendia: criticar a sociedade do seu tempo, através da paródia, nem sempre satírica, de variados tipos sociais, e ao mesmo tempo fazer rir; transmitir a doutrina da Igreja, especialmente a luta entre o Bem e o Mal.
Sabe-se que Gil Vicente não se limitou a escrever peças de teatro, tendo sido também músico, ator e encenador. É considerado, de uma forma geral, o pai do teatro português, ou mesmo do teatro ibérico, visto que escrevia não só em língua portuguesa, como também em castelhano.
Do vasto corpus literário que chegou até nós, destacam-se as seguintes obras: Auto Pastoril Castelhano (1502) Auto da Visitação (1502) Auto dos Reis Magos (1503) Auto da Índia (1509) Auto da Sibila Cassandra (1513) Auto da Barca do Inferno (1516) Auto da Barca do Purgatório (1518) Auto da Barca da Glória (1519) Farsa de Inês Pereira (1523)