GREGÓRIO DE MATOS GUERRA

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Transcrição:

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA

VIDA Gregório de Matos primou pela irreverência. Foi irreverente como pessoa, ao chocar os valores e a falsa moral da sociedade baiana de seu tempo, com seus comportamentos considerados indecorosos; como poeta lírico, porque seguia e, ao mesmo tempo, quebrava os modelos barrocos europeus; como poeta satírico, pois, empregando um vocabulário de baixo calão, denunciou as contradições e falsidades daquela sociedade, não se curvando ao poder das autoridades políticas e religiosas.

As vertentes da poesia lírica: Lírica amorosa é fortemente marcada pelo dualismo amoroso carne/espírito, que leva normalmente a um sentimento de culpa no plano espiritual. A mulher, muitas vezes, é a personificação do próprio pecado, da perdição espiritual. Quando o poeta toma como objeto de seu desejo mulheres brancas, preferencialmente pertencentes à classe social aristocrática. Já quando se dirige à mulher negra ou mestiça, os preconceitos raciais já manifestos na poesia de cunho político adquirem uma intensidade realçada pelo obsceno, que, muitas vezes, beira o pornográfico. Lírica filosófica destacam-se os textos que se referem ao desconcerto do mundo (lembrando diretamente a Camões) e às frustrações humanas diante da realidade. E também poemas em que predomina a consciência da transitoriedade da vida e do tempo, marcados pelo carpe diem.

Lírica religiosa obedece aos princípios fundamentais do Barroco europeu, fazendo uso de temas como o amor a Deus, a culpa, o arrependimento, o pecado e o perdão, além de constantes referências bíblicas. A língua empregada é culta e apresenta inversões e figuras de linguagens abundantes.

Soneto a D. Ângela de Sousa Paredes Não vira em minha vida a formosura, Ouvia falar nela cada dia, E ouvida me incitava, e me movia A querer ver tão bela arquitetura. Ontem a vi por minha desventura Na cara, no bom ar, na galhardia De uma Mulher, que em Anjo se mentia, De um Sol, que se trajava em criatura: Me matem disse eu, vendo abrasar-me Se esta a cousa não é, que encarecer-me. Sabia o mundo, e tanto exagerar-me. Olhos meus, disse então por defender-me Se a beleza heis de ver para matar-me, Antes olhos cegueis, do que eu perder-me.

LIRA II Pintam, Marília, os poetas A um menino vendado, Com uma aljava de setas, Arco empunhado na mão; Ligeiras asas nos ombros, O tenro corpo despido, E de Amor, ou de Cupido São os nomes, que lhe dão. Porém eu, Marília, nego, Que assim seja Amor; pois ele Nem é moço, nem é cego, Nem setas, nem asas tem. Ora pois, eu vou formar-lhe Um retrato mais perfeito, Que ele já feriu meu peito; Por isso o conheço bem.

Os seus compridos cabelos, Que sobre as costas ondeiam, São que os de Apolo mais belos; Mas de loura cor não são. Têm a cor da negra noite; E com o branco do rosto Fazem, Marília, um composto Da mais formosa união. Tem redonda, e lisa testa, Arqueadas sobrancelhas; A voz meiga, a vista honesta, E seus olhos são uns sóis. Aqui vence Amor ao Céu, Que no dia luminoso O Céu tem um Sol formoso, E o travesso Amor tem dois.

A Sátira Conhecido como O Boca do Inferno, em razão de suas sátiras, Gregório de Matos representa uma das veias mais ricas e ferinas de toda a literatura satírica em língua portuguesa. A exemplo de certos trovadores da Idade Media, o poeta não poupou palavrões em sua linguagem nem críticas a todas as classes da sociedade baiana de seu tempo. Criticava o governo, o clero, os comerciantes, etc.

Por essas razões é que a poesia de Gregório de Matos ao abrir para a paisagem local e a língua do povo talvez seja a primeira manifestação nativista de nossa literatura e o início de um longo despertar da consciência crítica nacional.

Exemplo de poema satírico EPÍLOGOS Que falta nesta cidade?...verdade Que mais por sua desonra?...honra Falta mais que se lhe ponha...vergonha. O demo a viver se exponha, Por mais que a fama a exalta, numa cidade, onde falta Verdade, Honra, Vergonha. Quem a pôs neste socrócio?...negócio Quem causa tal perdição?...ambição E o maior desta loucura?...usura. Notável desventurade um povo néscio, e sandeu, que não sabe, que o perdeu Negócio, Ambição, Usura.

Quais são os seus doces objetos?...pretos Tem outros bens mais maciços?...mestiços Quais destes lhe são mais gratos?...mulatos. Dou ao demo os insensatos, dou ao demo a gente asnal, que estima por cabedal Pretos, Mestiços, Mulatos. Quem faz os círios mesquinhos?...meirinhos Quem faz as farinhas tardas?...guardas Quem as tem nos aposentos?...sargentos. Os círios lá vêm aos centos, e a terra fica esfaimando, porque os vão atravessando Meirinhos, Guardas, Sargentos.

E que justiça a resguarda?...bastarda É grátis distribuída?...vendida Que tem, que a todos assusta?...injusta. Valha-nos Deus, o que custa, o que El-Rei nos dá de graça, que anda a justiça na praça Bastarda, Vendida, Injusta. Que vai pela clerezia?...simonia E pelos membros da Igreja?...Inveja Cuidei, que mais se lhe punha?...unha. Sazonada caramunha! enfim que na Santa Sé o que se pratica, é Simonia, Inveja, Unha.

O açúcar já se acabou?...baixou E o dinheiro se extinguiu?...subiu Logo já convalesceu?...morreu. À Bahia aconteceu o que a um doente acontece, cai na cama, o mal lhe cresce, Baixou, Subiu, e Morreu. A Câmara não acode?...não pode Pois não tem todo o poder?...não quer É que o governo a convence?...não vence. Que haverá que tal pense, que uma Câmara tão nobre por ver-se mísera, e pobre Não pode, não quer, não vence.