Yasfir Daudo Ibraimo

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Transcrição:

Emprego e Condições de Emprego nas Zonas Rurais, Suas Implicações Para a Pobreza: O Caso da Açucareira De Xinavane Yasfir Daudo Ibraimo yasfir.ibraimo@iese.ac.mz SEMINÁRIO IESE e OIT ACÇÃO SOCIAL PRODUTIVA EM MOÇAMBIQUE: QUE POSSIBILIDADES E OPÇÕES 12 DE MAIO 2010 1

ESTRUTURA DA APRESENTAÇÃO 1. Introdução 2. Problemática do Emprego nas Zonas Rurais em Moçambique: Sazonalidade, Condições de Trabalho e a Sustentabilidade do Emprego 3. O Caso da Açucareira de Xinavane 4. Conclusões e Considerações Finais 2

Cenário Vigente: INTRODUÇÃO Problemática do emprego, muito discutida em economias desenvolvidas e menos desenvolvidas. Debate focado em aspectos quantitativos, numa perspectiva simplista de que a geração de mais emprego cria redução de pobreza. Nas Zonas rurais de Moçambique a geração de mais emprego é equacionada como vector para redução da pobreza. Críticas ao Cenário Vigente: Pouco se discute sobre as variáveis qualitativas do emprego, como as condições de trabalho, protecção social e sustentabilidade do emprego. 3

INTRODUÇÃO (Cont.) Críticas ao Cenário Vigente (Cont): A OIT, traz a abordagem do Emprego decente, na qual conjuga variáveis quantitativas e qualitativas. Conceito de Emprego Decente segundo ILO (2008) e Célestin (2002). O emprego constitui um activo para as camadas desfavorecidas, pelo que pode constituir instrumento para a redução da pobreza, se conjugado a visão quantitativa com a qualitativa. 4

INTRODUÇÃO (Cont.) Questões que se levantam na base do cenário vigenteesuascríticas: (1) Que tipo de emprego se vem gerando e desenvolvendo nas zonas rurais em Moçambique? (2) Sustentáveis? (3) Garantem protecção social? (4) Em que condições se desenvolvem? favoraveis ou não ao trabalhador? (5) Quais as implicações deste tipo de emprego para a pobreza? positivas ou negativas? (6) Qual a situação do emprego gerado na açucareira de Xinavane, em relação as condições de trabalho, protecção social e sustentabilidade? 5

INTRODUÇÃO (Cont.) Duas abordagens de pobreza são usadas, de acordo com o foco do trabalho: (i) Abordagem Monetária (ii) Abordagem de Privação de Capacidades Indicadores do emprego decente: Oportunidade de Emprego, Remuneração adequada, Horas de trabalho, Estabilidade e Segurança do trabalho, Protecção Social, Diálogo social e relações laborais 6

Problemática do Emprego nas zonas rurais Três grandes problemas: 1. Sazonalidade: Domínio do emprego sazonal, caracterizado pela: (i) informalização, (ii) irregularidade, (iii) remuneração abaixo do custo de subsistência e (iv) ausência de mecanismos de protecção social formal e informal. Razões que justifiquem a sazonalidade: Campesinato sem recursos para investir na sua produção, Poucas fontes de emprego e poder dos empregadores na contratação dos trabalhadores, política de uso de mão-deobra barata para minimizar os custos de produção, Necessidade de diversificar as fontes de rendimento. 7

Problemática do Emprego nas zonas rurais (Cont.) 2. Condições de Trabalho: Fortemente Influênciadas pelos empregadores. Poder dos empregadores: ausência de sindicatos fortes, fraca inspencção por parte do governo, baixo nível de educação dos trabalhadores. Ausência de contratos de trabalho. 3. Sustentabilidade do Emprego: Sustentáveis a curto prazo: dada ausência de rendimentos. Insustentável a longo prazo: (i) instabilidade e irregularidade e (ii) ausência de protecção social. Contribuí pouco para quebrar o ciclo de pobreza 8

O caso da Açucareira de Xinavane Amostra aleatória de 50 trabalhadores: 25 sazonais e 25 permanentes. Dados do emprego numa base mensal Emprego gerado pela açucareira Agro-indústria com actividade agrícola e industrial integrada. Gera emprego sazonal e permanente, com domínio do sazonal de baixa qualificação. 9

Fonte: Açucareira de Xinavane, 2009 10

O caso da Açucareira de Xinavane (Cont.) Condições de Trabalho: Contratos de trabalho: (i) Irregularidade. (ii) Dependência e Vulnerabilidade dos trabalhadores. (iii) Precariedade dos contratos de trabalho. (iv) Trabalhadores sazonais vivem de contratos precários sem passar para o efectivo. Frequência na renovação de contrato dos trabalhadores sazonais Fonte: Inquérito aos trabalhadores sazonais da açucareira de Xinavane, 2009 11

O caso da Açucareira de Xinavane (Cont.) Condições de Trabalho (Cont.): Remuneração Baixa remuneração: agricultura e parte da indústria. Dependência em relação ao rendimento para os sazonais 32% fazem parte de um agregado onde pelo menos um membro têm trabalho remunerado. Os restantes 68% não. Para os permanentes: 48% fazem parte de um agregado com onde pelo menos um tem trabalho remunerado, os restantes 52% não. Trabalhadores em risco de cair na pobreza (ou já na pobreza???), de acordo com a abordagem monetária. 12

O caso da Açucareira de Xinavane (Cont.) Condições de Trabalho (Cont.): Remuneração (Cont.): Abordagem Monetária da pobreza para demonstrar a limitação do rendimento na redução da pobreza. Cálculos ilustrativos: (i) Média do agregado familiar dos trabalhadores efectivos e sazonais 13

O caso da Açucareira de Xinavane (Cont.) Condições de Trabalho (Cont.): Remuneração (Cont.): (ii) Consumo médio mensal dos efectivos e sazonais (iii) Consumo médio diário dos efectivos e dos sazonais 14

O caso da Açucareira de Xinavane (Cont.) Condições de Trabalho (Cont.): Remuneração (Cont.): Comparação com a linha de pobreza para Maputo- Província Rural de 16,76 Protecção Social Fragilidade e ausência de mecanismos formais e informais. 15

Conclusões e Considerações Finais Domínio do emprego sazonal: incapaz de prover sustentabilidade, protecção social e condições de trabalho favoráveis. Implicações das condições de emprego nas zonas rurais para a pobreza ( duas abordagens). Reflexão sobre a relevância de variáveis qualitativas do emprego. 16

MUITO OBRIGADO 17