Capítulo 3 Laser 3.1 Histórico

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Transcrição:

44 Capítulo 3 Laser 3.1 Histórico A palavra laser signiica ampliicação da luz por emissão estimulada da radiação (Light Ampliication by Stimulated Emission o adiation). A luz originada do sol ou de uma lâmpada é emitida espontaneamente quando átomos ou moléculas liberam o excesso de energia sem nenhuma intervenção externa. A emissão estimulada é dierente pois os átomos ou moléculas liberam o excesso de energia quando são estimulados. No início dos anos 50 surgiu um sistema notável conhecido por maser, ruto dos esorços de numerosos cientistas, entre os quais se deve destacar Charles Townes, Alexander Prokhorov e Nikolai asov, que vieram a dividir o prêmio Nobel de Física em 1964 [9]. O maser, que signiica ampliicação de microondas por emissão estimulada da radiação (Microwave Ampliication by Stimulated Emission o adiation) é um ampliicador de microondas caracterizado por um nível de ruído extremamente reduzido. O maser unciona de um modo pouco convencional e depende diretamente das características da interação quântica entre a matéria e a energia radiante. Em vez de átomos excitados, Townes usou moléculas de amônia como meio ativo. Ao ser excitada por um agente externo a molécula de amônia entra em vibração com uma reqüência de microondas. Daí, o processo de emissão estimulada gera um eixe coerente de microondas. Logo que o maser oi demonstrado começou imediatamente a busca por um maser ótico, isto é, um dispositivo que emitisse um eixe coerente com reqüência na região da luz visível. Townes e Arthur Schawlow propuseram um arranjo com uma cavidade contendo o meio ativo e dois espelhos. Finalmente em 1960, Theodore Maiman anunciou o uncionamento do primeiro maser ótico [4], ou laser cujo o meio ativo era um cristal de rubi.

45 O laser é considerado uma das maiores invenções do século 0 sendo sinônimo de alta tecnologia. A tecnologia laser é uma erramenta muito importante em diversas áreas, como por exemplo, na medicina onde é utilizado em cirurgias e em telecomunicação servindo de onte nas transmissões de sinais ópticos. Até pouco tempo atrás, os lasers eram considerados objetos exóticos, usados apenas em laboratórios de pesquisa, projetos militares, grandes indústrias e ilmes tipo Guerra nas Estrelas. Hoje, a grande maioria da população possui pelo menos um laser em casa: o que está no aparelho de tocar CDs (compact disk). Além disso, é possível encontrá-los na vida cotidiana, como por exemplo, em supermercados nos leitores ópticos de código de barras e em impressoras. 3. Princípio ásico de Funcionamento Os lasers são dispositivos que geram ou ampliicam radiação coerente da luz, nas regiões do visível, inravermelha (I) e ultravioleta (UV) do espectro óptico. O campo de lasers é em geral tratado pela eletrônica quântica. Na verdade, assim como em geral se trata de transistores e válvulas como dispositivos eletrônicos clássicos que geram e ampliicam sinais elétricos de baixa reqüência, pode-se em geral tratar de lasers de uma maneira clássica e não-quântica. asicamente os lasers contêm um meio de ganho (ampliicador), um mecanismo de bombeio, e um sistema de realimentação [30]. O tamanho da cavidade laser é deinida pelos espelhos de entrada e saída. Um esquema típico de um laser é mostrado na Fig. 3.1. Os lasers se distinguem pelo tipo de meio que produz o ganho óptico, pela maneira de se dar energia ao sistema, isto é, pelo bombeio, e pela realimentação. A condição undamental para o uncionamento é que o ganho seja maior que as perdas. A oscilação laser (lasers também são chamados de osciladores) só pode ocorrer quando há ganho suiciente. Esta condição depende do bombeio, da realimentação, e da eiciência do meio de ganho laser. A realimentação pode ser modiicada usando espelhos mais ou menos reletores, e o ganho, bombeando o meio de ganho mais ou menos intensamente, aumentando a concentração de átomos ativos.

46 Cavidade laser Meio de ganho laser Espelho de entrada Fig. 3.1. Cavidade típica de um laser. Espelho de saída 3.3 Emissão e Absorção Para descrever os enômenos de emissão espontânea, emissão estimulada e absorção, vamos considerar dois níveis de energia, E 1 e E, de algum átomo ou molécula, como observado na Fig. 3.. Os níveis E 1 e E correspondem aos níveis undamental e excitado, respectivamente, além disso, E > E 1. E E E E 1 E 1 E 1 (a) (b) (c) Fig. 3.. Ilustração esquemática dos três processos: (a) absorção, (b) emissão espontânea e (c) emissão estimulada. Considerando inicialmente que o átomo esteja no estado undamental, o átomo irá permanecer neste nível a menos que um estímulo externo seja aplicado. Se uma onda de reqüência ν ν 0 incide no material, existirá uma probabilidade inita do átomo mudar para o nível excitado E. A energia necessária para que essa transição ocorra é dada pela dierença de energia E - E 1. Este processo é chamado de absorção, Fig. 3.a.

47 Os átomos excitados, isto é, inicialmente no nível E, eventualmente decaem para o estado undamental e emitem radiação durante este processo. A emissão de luz pode ser de duas ormas: espontânea ou estimulada. No caso da emissão espontânea, ótons são emitidos em todas as direções e sem relação de ase entre si. A emissão estimulada só é inicializada na presença de um outro óton. Os ótons emitidos durante este processo possuem a mesma energia (ou reqüência), polarização e direção de propagação da radiação estimulante. A luz emitida por um laser é coerente devido ao ato dos ótons emitidos estarem todos em ase e possuírem a mesma direção. A reqüência ν 0 da radiação emitida é deinida por [30]: ν 0 E E1 h (3.1) onde h é a constante de Planck (h 6.63x10-34 J.s). Se N 1 e N são as densidades no estado undamental e excitado respectivamente e é a densidade espectral da radiação, as taxas de emissão espontânea, emissão estimulada e absorção podem ser escritas como: esp AN est abs N N 1 (3.) (3.3) (3.4) onde A, e são constantes. No equilíbrio térmico, a densidade atômica é distribuída de acordo com a estatística de oltzmann, que é dada pela equação: N N 1 E 0 exp exp k T k T (3.5)

48 onde k é a constante de oltzmann (k 1.38 x 10-3 J/K) e T a temperatura absoluta. No equilíbrio térmico, N 1 e N não variam no tempo, e a taxa de transição entre o decaimento e a excitação é igual a: AN + N N 1 (3.6) Utilizando as equações 3.5 e 3.6, a densidade espectral da radiação é determinada através da relação: A / ( / ) exp( / k T ) 1 (3.7) No equilíbrio térmico, deve ser igual a densidade espectral do corpo negro dada pela relação de Planck: 3 3 8π / c exp( / k T ) 1 (3.8) Comparando as duas equações de obtém-se que: 8π A 3 c 3 (3.9) (3.10) Essas relações oram obtidas primeiramente por Einstein, por esta razão A e são chamadas de coeicientes A e de Einstein, sendo A o coeiciente de emissão espontânea e o coeiciente de emissão estimulada. Duas importantes conclusões podem ser tiradas das equações 3. 3.10. Primeiro, esp pode exceder est e abs se k T ~. Segundo, para radiação no visível ou na região perto do inravermelho ( ~1eV), emissão espontânea é sempre

49 dominante se comparada com a emissão estimulada no equilíbrio térmico a temperatura ambiente (k T 5meV) desde que: est esp 1 << 1 exp( / k T ) 1 (3.11) então ontes térmicas nunca podem emitir luz coerente, em outras palavras, lasers devem necessariamente operar ora do equilíbrio térmico. Entretanto, para um sistema bombeado externamente, emissão estimulada pode não ser um processo dominante. est excede abs apenas quando N > N 1. Essa condição é chamada de inversão de população e nunca pode ocorrer no equilíbrio térmico. Quando existe uma inversão de população, emissão estimulada pode produzir uma cascata de luz. O primeiro óton emitido espontaneamente pode estimular a emissão de mais ótons. Quanto maior a população no nível superior, a emissão estimulada será maior que a absorção. Esta inversão é um pré-requisito para a operação do laser. Em sistemas atômicos, a inversão é obtida por sistemas de três e quatro níveis de energia. Em sistemas de três níveis de energia (E 1 <E <E 3 ), os átomos são transeridos do estado undamental para o nível de maior energia (E 3 ). Estes decaem rapidamente de orma não-radioativa para o nível E, então a inversão de população pode ser obtida entre os níveis E 1 e E. Nesta tese, o elemento sensor a ser testado nas experiências é um laser de cristal líquido cuja a cavidade laser não possui espelhos. Isso é possível devido à propriedade de relexão seletiva da banda de relexão do cristal líquido colestérico. Uma descrição do princípio de uncionamento do laser sem espelhos de cristal líquido será apresentada na capítulo 5. Neste capítulo oi eita uma revisão do princípio básico de um laser e os processos envolvidos numa emissão laser.