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Transcrição:

Forças Intermoleculares Você já se perguntou por que a água forma gotas ou como os insetos conseguem caminhar sobre a água? Gota d'água caindo sobre a superfície da água. Inseto pousado sobre a superfície da água. Este comportamento da água deve-se às chamadas forças intermoleculares, que mantêm as moléculas unidas, formando um determinado tipo de substância cujas características físicas e químicas dependem do tipo e da intensidade dessas forças. As forças intermoleculares são o resultado das atrações eletrostáticas entre as moléculas que compõem uma substância. Essas forças podem ser a interação dipolo-dipolo (ocorre entre moléculas polares - HCl, CO, H 2O), interação dipolo induzido (ocorre entre moléculas apolares - O 2, CO 2, CH 4) e a ligação de hidrogênio (presente exclusivamente nas moléculas contendo as ligações F-H, O-H e N-H). As forças intermoleculares são mais fracas do que as forças intramoleculares (ligações químicas), mas fortes o suficiente para governar certas propriedades das substâncias, tais como: mudança de estado físico (fusão, ebulição, sublimação etc.), tensão superficial, viscosidade, capilaridade etc.

Interação dipolo-dipolo A interação dipolo-dipolo é característica das moléculas polares neutras. Essas moléculas apresentam momento de dipolo elétrico (μ), que forma um dipolo permanente (Fig. 1). Quando próximas umas das outras, as moléculas se atraem mutuamente através das cargas parciais de sinais contrários localizadas em cada molécula (Fig. 2a). Fig. 1- Momento de dipolo elétrico. NOTA 1: Utilize o modelo da Repulsão dos Pares de Elétrons da Camada de Valência para determinar a geometria e o valor qualitativo do momento de dipolo elétrico de uma molécula. As interações dipolo-dipolo são muito mais fracas que as ligações covalentes (~1%) e diminuem com 1/d 3, onde d é a distância entre dois polos de cargas opostas. Essa redução na intensidade das forças de interação dipolo-dipolo deve-se a dois fatores: 1- as cargas formadas no dipolo permanente são parciais; 2- a energia cinética das moléculas provoca um desalinhamento das mesmas, alterando a relação entre as forças de repulsão e as forças de atração entre os dipolos (Fig. 2b). Fig. 2- (a) Diferenciação entre força intermolecular e ligação química. (b) Representação dos dipolos permanentes formados na molécula de HCl. Forças de London A interação do tipo Forças de London é característica das moléculas apolares neutras. Essas moléculas não apresentam momento de dipolo elétrico (μ). Em um dado momento, a distribuição dos elétrons de uma molécula apolar pode ser espacialmente assimétrica, gerando o chamado dipolo instantâneo. Esse dipolo instantâneo é formado pela aproximação de outra molécula, em que as forças de repulsão entre os elétrons das duas moléculas e as forças de atração entre o núcleo de uma molécula e os elétrons da outra provocam a formação do chamado dipolo induzido (Fig. 3). Esse dipolo induzido é quem possibilita que moléculas vizinhas sofram atração eletrostática mútua, através dos polos de cargas opostas. Contudo, essa interação entre os dipolos

induzidos tem curta duração, desfazendo-se num ponto da substância e formando-se em outro ponto, constantemente. Fig. 3- (a) Representação das forças de atração e repulsão entre duas espécies, para a formação de um dipolo induzido.(b) Representação atração entre dois dipolos induzidos. As Forças de London são mais fracas que as interações do tipo dipolo-dipolo. Elas diminuem com 1/d 6 e a sua intensidade depende dos seguintes fatores: 1. Polarizabilidade está associada à capacidade de distorção da nuvem eletrônica de uma espécie química (átomo, íon ou molécula). Quanto maior o tamanho da nuvem eletrônica (raio atômico, raio covalente ou raio de van der Waal), mais polarizável será a espécie. Quanto mais polarizável for a espécie, mais facilmente são formados os dipolos induzidos. Dessa forma, o aumento na polarizabilidade aumenta o caráter polar da espécie, aumentando a força de interação do tipo Forças de London. Esse fator pode explicar, por exemplo, a variação nos pontos de ebulição dos halogênios (Tabela 1), que segue o aumento do raio atômico dos elementos. NOTA 2: Lembre-se de que, quanto maiores forem as forças de interação entre as moléculas de uma substância, maior será a energia necessária para aumentar os seus graus de liberdade e, consequentemente, maior será a energia necessária para que ocorra mudança de estado físico (fusão, ebulição ou sublimação). Tabela 1- Ponto de ebulição (P. E.) e comprimento de ligação (C. Lig) dos halogênios Grupo 17 P. E. ( O C) C. Lig (pm) F 2-188,1 142 Cl 2-34,6 199 Br 2 58,8 228 I 2 184,4 268 A molécula de ácido clorídrico (HCl) apresenta um momento de dipolo elétrico maior que o ácido bromidríco (HBr), devido a maior eletronegatividade do cloro. Contudo, o ponto de ebulição do HBr (-67,0 O C) é maior que o do HCl (-84,9 O C). Apesar das interações dipolo-dipolo no HCl serem mais intensas que no HBr, o bromo apresenta um maior raio atômico, tornando-o mais polarizável e produzindo uma força de London mais intensa no HBr. Desta forma, a resultante das forças de interação intermoleculares no ácido bromídrico é mais intensa que no ácido clorídrico, explicando seu maior ponto de ebulição. 2. Geometria molecular a geometria da molécula influencia diretamente a capacidade de interação entre as mesmas e, consequentemente, a capacidade de formação dos dipolos induzidos. Por exemplo, o n-pentano apresenta uma cadeia mais longa que o seu isômero de cadeia neopentano [C 5H 12], permitindo melhor interação entre as moléculas e a formação do dipolo induzido mais intenso no primeiro isômero (maior superfície de contato) (Fig. 4). Este comportamento pode ser observado pela diferença entre os seus pontos de fusão (neopentano, 9,5 O C; n- pentano, 36,1 O C).

Ligação de hidrogênio Fig. 4- Estruturas do n-pentano e do neopentano. A interação do tipo ligação de hidrogênio é característica de moléculas polares, onde estejam presentes ligações covalentes entre o hidrogênio e o oxigênio (O-H), o nitrogênio (N-H) e o flúor (F-H). A ligação de hidrogênio forma um tipo especial de interação dipolo-dipolo, que é cerca de cinco vezes mais intensa que uma interação dipolo-dipolo comum. Esse comportamento deve-se a dois fatores: 1- à eletronegatividade e ao tamanho dos átomos envolvidos, que favorece a formação de cargas parciais altamente concentradas; 2- ao grande momento de dipolo elétrico formado nessas ligações. O exemplo mais representativo das ligações de hidrogênio é o da molécula de água (Fig. 5). No estado líquido, uma molécula de água forma ligações de hidrogênio aleatórias com as moléculas vizinhas, condizentes com o seu estado físico (Fig. 5a). Contudo, no estado sólido, cada molécula de água forma quatro ligações de hidrogênio com as moléculas mais próximas, em uma estrutura tetraédrica (Fig. 5b), que possibilitará a formação de um retículo cristalino. Nessa estrutura, a distância entre as moléculas de água é maior do que no estado líquido. Dessa forma, o número de átomos por unidade de volume, na água líquida é maior do que no estado sólido, tornando a densidade do gelo menor que a da água líquida e permitindo que aquele flutue na água. Fig. 5- Representação das ligações de hidrogênios presentes na molécula de água (a) no estado líquido e (b) no estado sólido. Os flocos de neve são estudados de forma sistemática por alguns pesquisadores, que tentam definir os fatores que influenciam na formação das diferentes estruturas cristalinas que a água, no estado sólido, pode apresentar. De forma geral, a temperatura e a umidade são as principais variáveis que regem a formação das belas estruturas cristalinas da água em fase sólida (Fig. 6).

Fig. 6- Uma das várias estruturas cristalinas formadas pela água. (Fonte: http://www.its.caltech.edu/~atomic/snowcrystals/ - em inglês) As fortes ligações de hidrogênio conferem importante propriedade às moléculas de água alta tensão superficial. A tensão superficial é a energia necessária para aumentar a área superficial de um líquido. Sob a ação das forças intermoleculares, as moléculas da superfície de um líquido são atraídas para o centro, resultando na forma esférica (forma mais compacta). Portanto, a tensão superficial é responsável pela forma gota da água (uma esfera distorcida pela ação da gravidade e da resistência do ar) (Fig. 7). Fig. 7- Representação da tensão superficial presente de uma gota d água. As ligações de hidrogênio também são responsáveis pelo alto ponto de ebulição das substâncias que apresentam esse tipo de força intermolecular. A água (100 O C), o ácido fluorídrico (20 O C) e a amônia (-33 O C) apresentam pontos de ebulição muito acima da tendência dos outros elementos dos seus respectivos grupos na Tabela Periódica (Fig. 8). Fig. 8- Comparação dos pontos de ebulição de várias substâncias de um mesmo grupo da Tabela Peródica. NOTA 3: Deve-se ter atenção para o fato de que ligação de hidrogênio e ponte de hidrogênio são interações diferentes. A ligação de hidrogênio é uma interação intermolecular, enquanto a ponte de hidrogênio é uma ligação covalente, responsável pela dimerização de certas substâncias (Fig. 9), em que o átomo de hidrogênio forma uma ponte entre as moléculas do dímero.

Fig. 9- Representação das pontes de hidrogênio do dímero do BH 3. A viscosidade (resistência de um líquido em fluir) também é uma propriedade que depende das forças intermoleculares. Em geral, quanto maior a força de atração intermolecular maior será a tensão superficial ou a viscosidade de uma substância. Quanto à intensidade, as forças intermoleculares podem ser ordenadas como: Ligação de hidrogênio > Dipolo-Dipolo > Forças de London. A capilaridade (elevação de líquidos em tubos estreitos) ocorre devido às forças de atração entre as moléculas do líquido e as paredes do tubo capilar são as chamadas forças de adesão, diferentes das forças de coesão, que mantêm as moléculas unidas (forças intermoleculares).